Logo do repositório
 
A carregar...
Miniatura
Publicação

The effect of psychological flexibility on wellbeing during an adverse global situation : the multiple mediation role of mindfulness and coping strategies

Utilize este identificador para referenciar este registo.
Nome:Descrição:Tamanho:Formato: 
ulfpie057502_tm.pdf1.53 MBAdobe PDF Ver/Abrir

Resumo(s)

Background: Adverse global situations, such the emergence of the COVID-19 pandemic, are characterized by a complex number of changes in the population’s health and organization of daily life, occurring in a large scale, with consequences often difficult to cope with, such as physical, psychological, and social long-term uncertainty. Most notably, one of the main concerns has been the changes that occurred in the levels of mental health and wellbeing of the population affected by the pandemic. It is important, then, to investigate which psychological processes could be promoted and enhanced in order to safeguard the mental health and wellbeing of the general population during the pandemic as well as in upcoming global adverse situations. One of such psychological processes, that has gained prominence in the research arena, is psychological flexibility. Understanding how psychological flexibility affects wellbeing will help on determining how one should navigate complex adverse situations. Objective: This study investigates the effect of psychological flexibility on wellbeing, both directly and indirectly via mindfulness and coping strategies in a multiple parallel mediation model. We aim at understanding whether psychological flexibility indeed affects wellbeing because of the individual’s level of mindfulness and their ability to effectively select coping responses suitable to the situation, therefore potentially resulting in an outcome of wellbeing. Methods: This is a cross-sectional study in which we aim at assessing the correlations between the study variables as well as testing a multiple mediation model. After assessing whether psychological flexibility has a direct effect on wellbeing, the multiple mediation model aims at testing whether there are conditional indirect effects of mindfulness and coping strategies on wellbeing, in a Portuguese sample of 334 individuals, from a larger research project named COVID_IMPACT. Participants were asked to complete a series of online questionnaires that measure psychological flexibility, wellbeing, mindfulness and coping strategies. Results: Results showed statistically significant correlations between psychological flexibility, wellbeing, mindfulness and coping strategies. Furthermore, we have found that mindfulness and coping strategies part-mediate the relationship between psychological flexibility and wellbeing. Conclusions: The findings of this study provide data that could guide health professionals to design community-wide interventions aimed at helping the general population become more psychologically flexible and mindfully select the appropriate coping strategies to deal with global adverse situations and achieve a higher level of wellbeing.
A complexidade de situações adversas de larga escala, como é o caso da pandemia causada pela COVID-19, provoca consequências desafiantes a longo prazo para a população geral, com alterações ao nível físico, psicológico e social. O primeiro surto de COVID-19 teve seu início em 2019, quando o vírus começou a disseminar-se globalmente, provocando mudanças na saúde da população geral e na organização da vida quotidiana, afetando bilhões de pessoas (OMS, 2020). Ao longo dos últimos 3 anos ocorreram mudanças globais, tanto nos períodos de confinamento como durante o desenvolvimento da pandemia até aos dias de hoje. Uma das principais preocupações de investigadores e clínicos têm sido as mudanças que ocorreram nos níveis de saúde mental e bem-estar da população afetada pela pandemia (Brooks et al., 2020). O bem-estar, no entanto, é um construto multifatorial e engloba diversas características, disposições, estados e outras variáveis que são objeto de contínua investigação (OMS, 2001). Apesar de um crescente corpo de literatura sobre os efeitos da pandemia no bem-estar estar a ser recentemente produzido e publicado, identificámos alguns aspectos que requerem uma investigação mais aprofundada. Segundo Parvar et al. (2022), a pandemia de COVID-19 teve como consequência níveis mais altos de stress, ansiedade e depressão. As restrições impostas através de vários confinamentos, isolamento e distanciamento social, ensino e trabalho à distância, bem como limitações no acesso ao espaço exterior, prejudicaram gravemente a saúde e o bem-estar físico e mental da população (Karageorghi et al, 2021). Nesse sentido, é de suma importância investigar quais os processos psicológicos que podem ser promovidos e potenciados para salvaguardar a saúde mental e o bemestar daqueles que vivem com as consequências da pandemia. Além disso, a investigação sobre estas questões permite-nos prever que intervenções devem ser implementadas quando os indivíduos vivenciam situações globalmente adversas. Um dos processos psicológicos que ganhou destaque na investigação atual é a flexibilidade psicológica. Compreender como a flexibilidade psicológica afeta o bem-estar ajudará a determinar como poderão os indivíduos agir em situações adversas. Conforme delineado pelo modelo de Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), a flexibilidade psicológica refere-se a uma capacidade subjacente de estar consciente e aberto a experiências internas e externas com o objetivo de agir adequadamente mediante a situação, mantendo um sentido de coerência com os valores de cada pessoa (Hayes, et al., 2012). Por outras palavras, é um processo que possibilita a capacidade de reconhecimento e adaptação a estímulos internos e externos para alcançar ações valorizadas. De acordo com o modelo da ACT, os seis processos centrais subjacentes à flexibilidade psicológica são: 1) aceitação experiencial de situações adversas, 2) desfusão cognitiva, 3) identificação de valores centrais, 4) promoção de ações coerentes com os valores identificados, 5) alteração da perspectiva do self-contextual e 6) desenvolver a capacidade de redirecionar a atenção para o momento presente (Chin & Hayes, 2017). Estes processos estão interrelacionados e operam em conjunto para moldar a flexibilidade psicológica, concentrada essencialmente em três pilares: estar presente, estar aberto com aceitação e agir com base na clareza de valores e no comprometimento (Harris, 2009). Particularmente no contexto da pandemia por COVID-19, a flexibilidade psicológica parece moderar os efeitos negativos da pandemia na saúde mental (Pakenham et al., 2020). Ou seja, em situações adversamente complexas, como as apresentadas pela COVID-19 (por exemplo, a quarentena, falta de contato social e stress percebido), a flexibilidade psicológica poderia ajudar a população a agir melhor em situações causadoras de stress e a melhor prevenir o aparecimento de perturbações mentais. Uma característica distinta da flexibilidade psicológica é o facto desta poder estar relacionada com a forma como os indivíduos empregam diferentes estratégias de coping em situações adversas. A flexibilidade psicológica em si não é um mecanismo de coping, mas sim um mecanismo que contribui para a seleção do tipo de estratégia de coping a ser recrutada. Outra característica distinta da flexibilidade psicológica diz respeito ao facto desta promover o contato direto com o momento presente sem evitamento. Tal é alcançado através da desfusão cognitiva, aceitação e alteração da perspectiva do self-contextual. Estes processos formam o que Chin e Hayes (2017) identificaram como processos de mindfulness ou atenção plena. Como estes processos estão implicados na flexibilidade psicológica, é também do nosso interesse investigar se o efeito da flexibilidade psicológica no bem-estar é também explicado pelo nível de mindfulness dos indivíduos, bem como as estratégias de coping empregues, sendo que ambos emergem como mediadores dessa relação. De acordo com Masuda e Tully (2012), a flexibilidade psicológica e a atenção plena estão interligadas, mas não são redundantes e não se substituem ou se sobrepõem. Wielgus et al. (2020) indicaram que tanto a flexibilidade psicológica quanto a atenção plena facilitaram o alcance do bem-estar. Este estudo visa, portanto, compreender melhor o efeito direto da flexibilidade psicológica no bem-estar e o efeito indireto através da mediação do mindfulness e estratégias de coping, no contexto de uma situação globalmente adversa, numa sub-amostra Portuguesa do projeto COVID_IMPACT (Gloster, et al. 2020). Ao investigarmos o efeito da flexibilidade psicológica no bem-estar através de um modelo de mediação paralela múltipla, procuramos compreender se a flexibilidade psicológica de facto afeta o bem-estar pelos processos de mindfulness e porque atua como uma capacidade de selecionar eficazmente as estratégias de coping que mais se adequam à situação. As estratégias de coping são divididas em dois estilos diferentes, a saber, o coping de aproximação e o coping de evitamento, tal e como proposto pela análise fatorial de Eisenberg et al. (2012). Para além de propormos um modelo de mediação paralela múltipla que, tanto quanto sabemos, não foi ainda testado, o nosso estudo é também inovador porque emprega um novo instrumento, Psyflex de Gloster et al. (2021), para medir a flexibilidade psicológica de acordo com o modelo da ACT. A análise do nosso modelo pode levar a uma melhor compreensão de como desenhar programas de intervenção que atuem sobre a flexibilidade psicológica dos indivíduos, de modo a que possam recrutar as melhores estratégias de coping perante situações adversas. Outro objetivo seria verificar o papel que a atenção plena tem no aumento da flexibilidade psicológica e do bem-estar, apontando para a aplicação de intervenções de atenção plena baseadas em evidência, durante eventos adversos de vida, como a pandemia por COVID-19. Este é um estudo transversal correlacional com recorrência a um modelo de mediação paralela múltipla. A amostra deste estudo constituiu-se por 334 cidadãos Portugueses, de diversas regiões do país. Esta amostra é extraída de uma ampla amostra internacional, do projeto de investigação realizado por Gloster et al., (2020), cujo principal objetivo foi estudar o impacto da COVID-19 em vários domínios da saúde mental, em diferentes países. Como critérios de inclusão foram definidos: ter idade mínima de 18 anos e capacidade de ler num dos 18 idiomas do projeto. Após assinar digitalmente um formulário de consentimento informado, os participantes foram convidados a preencher uma série de questionários sobre o impacto do COVID-19 na saúde mental. Os dados foram recolhidos entre Abril e Junho de 2020. De todos os dados recolhidos, extraímos apenas as variáveis de interesse para este estudo, nomeadamente os resultados de questionários que avaliaram a flexibilidade psicológica, bem-estar, estratégias de coping e mindfulness. Os resultados mostraram correlações estatisticamente significativas entre flexibilidade psicológica e bem-estar (ρ=.487, p <.05). Em relação ao mindfulness, este apresentou uma correlação estatisticamente significativa com a flexibilidade psicológica (ρ = .609, p <.05) e o bemestar (ρ = .495, p <.05). Quanto ao coping por aproximação, este apresentou uma correlação estatisticamente significativa com a flexibilidade psicológica (ρ = .233, p <.05) e com o bem-estar (ρ = .347, p <.05). Finalmente, o coping por evitamento apresentou igualmente uma correlação estatisticamente significativa com a flexibilidade psicológica (ρ = -.195, p <.05) e o bem-estar (ρ = -.170, p <.05). A flexibilidade psicológica emergiu como um preditor estatisticamente significativo do bem-estar (β = 1.92, SE = .16, p <0,05). O efeito direto da flexibilidade psicológica no bem-estar foi positivo e estatisticamente significativo (β1 = 1,02, SE = 0,20, p <0,05). O efeito direto do mindfulness no bem-estar também foi positivo e estatisticamente significativo (β2 = 0,55, SE = 0,14, p <0,05). Em relação ao efeito direto do coping por aproximação no bem-estar, também encontrámos um efeito positivo e estatisticamente significativo (β3 = 0,44, SE = 0,08, p <0,05). Finalmente, no que diz respeito ao efeito do coping de evitamento no bem-estar, encontrámos um efeito negativo estatisticamente significativo (β4 = -.43, SE = .16, p <0,05). O efeito indireto da flexibilidade psicológica no bem-estar via mindfulness e estratégias de coping, foi igualmente estatisticamente significativo, levando-nos a concluir que o mindfulness, o coping por aproximação e o coping de evitamento medeiam parcialmente a relação entre a flexibilidade psicológica e o bem-estar. O conjunto destes resultados confirmam todas as nossas hipóteses. Conforme demonstrado pelos nossos resultados, o efeito da flexibilidade psicológica no bem-estar corroborou os resultados de estudos anteriores (Doorley et al., 2020; Kashdan & Rottenberg, 2010). Nesse sentido, o nosso estudo contribuiu para gerar mais evidência, apontando para a forte relação entre essas duas variáveis. A flexibilidade psicológica geral, medida pelo Psyflex (Questionário de Flexibilidade Psicológica), operacionalizada segundo o modelo da ACT, foi responsável por níveis mais elevados de bem-estar no contexto da pandemia de COVID-19. Ao empregarmos este instrumento, conseguimos obter resultados que nos permitem ter uma melhor visão sobre os componentes da flexibilidade psicológica que podem promover o bem-estar, nomeadamente através de processos de reconfiguração mental, mudança de perspectiva e estabilização de necessidades em diferentes domínios da vida. Mais ainda, e segundo Harris (2009), podemos aceder aos três pilares principais da flexibilidade psicológica: estar presente, estar aberto com aceitação e agir com base na clareza de valores e no comprometimento. Ao confirmar a nossa hipótese de que um nível mais alto de flexibilidade psicológica está correlacionado a níveis mais altos de bem-estar, o nosso estudo é compatível com propostas teóricas anteriores e evidência empírica (Doorley et al., 2020; Kashdan & Rottenberg, 2010; Hayes et al., 2004 ), e permite-nos abrir novos caminhos de pesquisa sobre como exatamente os três pilares propostos por Harris (2009) operam nesta relação. Ambos os estilos de coping explicam por via indireta a relação entre a flexibilidade psicológica e o bem-estar, ainda que um nível mais alto de flexibilidade psicológica tenha efeito sobre o bem-estar através de um nível mais alto de estratégias de coping de aproximação e de um nível mais baixo de estratégias de coping evitamento. No entanto, é importante ressaltar que a interação dos dois estilos de coping mostrou que a agência mais eficaz pode ser melhor alcançada através de um extenso repertório de estratégias de coping que inclui comportamentos de aproximação e evitamento, em vez de apenas um só estilo. Os nossos resultados corroboram a teoria proposta por Zimmer-Gembeck et al. (2018) que alude ao conceito de coping flexível, no qual, dependendo do contexto e da situação, os indivíduos devem ter a capacidade de selecionar do vasto leque de estratégias de coping aquelas que são mais adequadas à situação. Isto é particularmente relevante em situações globalmente adversas, como a pandemia de COVID-19, onde o uso eficaz de estratégias de coping pode incluir tanto estratégias de aproximação, como de evitamento que, por vezes, podem funcionar de maneira protetora e adaptativa. Em relação ao impacto da flexibilidade psicológica no bem-estar através do nível de mindfulness, que mostrou ser o mediador mais forte do nosso modelo, este parece ser explicado pela aceitação de conteúdo experiencial negativo, desfusão cognitiva, alteração da perspectiva do self-contextual e por desenvolver a capacidade de atender ao momento presente de forma plena, como anteriormente destacado por Chin e Hayes (2017). Especificamente, no contexto da pandemia, os nossos resultados fornecem mais evidências para o que Wielgus (2020), Zhu et al. (2021) e Antonova et al. (2021) propuseram, a saber, que a atenção plena facilita o bem-estar, pois estabelece as bases para a adaptabilidade e flexibilidade necessárias para lidar com a incerteza a longo prazo. Apesar de conter várias limitações, o nosso estudo parece conter importantes implicações que poderão ajudar profissionais de saúde a desenhar intervenções sensíveis a contextos globalmente adversos. Nomeadamente, ao nível da prevenção, onde futuros programas possam ser concebidos de maneira a promover a flexibilidade psicológica na população geral, tendo em conta que um aumento desta leva a um melhor uso de estratégias de coping e mindfulness, através de uma perspectiva que engloba a comunidade.

Descrição

Dissertação de mestrado, Psicologia Clínica e da Saúde (Área de Especialização em Psicologia Clínica Cognitivo-Comportamental e Integrativa), 2022, Universidade de Lisboa, Faculdade de Psicologia

Palavras-chave

Flexibilidade Mindfulness Estratégias de coping Saúde mental Bem-estar Pandemia Covid-19 Dissertações de mestrado - 2022

Contexto Educativo

Citação

Projetos de investigação

Unidades organizacionais

Fascículo

Editora

Licença CC