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Orientador(es)
Resumo(s)
Introdução: A publicidade médica pode ser dividida em duas categorias: dirigida ao consumidor ou dirigida a profissionais de saúde. A primeira é proibida ou muito limitada na maior parte dos países, enquanto que a segunda é maioritariamente legal, e altamente eficaz na sua função, com um retorno de 5 USD por cada dólar investido em publicidade em revistas médicas. Uma classificação útil para a análise da publicidade é a dicotomia entre conteúdo proposicional – afirmações explícitas sobre um produto, que podem ser avaliadas como verdadeiras ou falsas – e não-proposicional – imagens, músicas ou outros elementos com a intenção de persuadir, mas que não podem ser avaliados do mesmo modo como verdadeiros ou falsos. O conteúdo nãoproposicional é particularmente importante já que é visto por 70% dos leitores, enquanto que mesmo os títulos só o são por cerca de 30%. Há evidência que este tipo de imagética pode, por si só, influenciar as crenças do leitor sobre o produto anunciado e influenciar hábitos de prescrição. A Doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa comum, e a única até ao momento para a qual existem terapias sintomáticas altamente eficazes – até ao momento existem 15 medicamentos aprovados nos Estados Unidos da América, em várias combinações e formulações. O objectivo deste trabalho é identificar tendências na forma como os tratamentos para a Doença de Parkinson têm sido publicitados ao longo dos últimos 30 anos, com um foco no conteúdo não-proposicional, tendo como base os anúncios publicados na revista Movement Disorders, considerada a mais prestigiada na área. Métodos: A revista Movement Disorders é a mais antiga dedicada ao grupo homónimo de doenças, sendo a revista oficial da International Parkinson and Movement Disorder Society. Todas as suas edições em papel disponíveis no Laboratório de Farmacologia Clínica e Terapêutica e na Biblioteca de Neurociências da Faculdade de Medicina de Lisboa foram revistas manualmente. Um anúncio foi definido como uma comunicação com interesse comercial que promove um medicamento ou dispositivo médico. Todos os anúncios com uma referência explícita à Doença de Parkinson foram incluídos para análise e fotografados. Os outcomes do estudo foram a frequência dos anúncios e as suas características, que foram avaliadas segundo os seguintes itens: tipo (educativo, antecipatório, de produto e lembrete), marca do produto, nome genérico, empresa responsável, formulação (se aplicável), percentagem de espaço gráfico ocupado por conteúdo nãoproposicional, principal imagética e referências/analogias com características da Doença de Parkinson (ausência ou presença explícitas) ou do produto, e existência de figura humana, seu papel (doente, familiar) e estado de saúde (doente, saudável). Resultados: Foram encontradas 330 de 349 edições entre 1988 e 2018 – 94,6%. As 19 edições em falta corresponderam a 4 edições regulares e a 15 suplementos. Foram encontrados 90 anúncios relativos à Doença de Parkinson, com uma média de 2,4 páginas e de 3,8 impressões por cada um. No total, representaram um total de 848 páginas – 67,0% do número total de páginas de anúncios em todas as edições. O número de marcas publicitadas foram 23 (20 medicamentos e 3 dispositivos de Estimulação Cerebral Profunda). 25 empresas foram responsáveis pelos anúncios, sendo que apenas 5 foram responsáveis por aproximadamente metade das páginas de publicidade. A maioria dos anúncios foram classificados como de produto (81%). Anúncios lembrete representaram 11%, antecipatórios 4% e educativos 3%. Uma pequena percentagem (8%) foi publicada antes da aprovação do produto. Cada marca foi publicitada durante uma mediana de 3 anos. O conteúdo não-proposicional ocupou uma média de 35,3% do espaço gráfico, com uma média menor nos anúncios de Estimulação Cerebral Profunda (10%). Referências ou analogias explícitas com a ausência ou presença de sintomas estiveram presentes em 49% dos anúncios, a maioria (41%) referenciando apenas a ausência de sintomas. Analogias com as características do produto estiveram presentes em 34% dos anúncios, mais frequentemente relativas à sua formulação (12%) ou ao mecanismo de acção (7%). A figura humana esteve presente em 52% dos anúncios, na sua grande maioria representando doentes saudáveis. Em 36% dos anúncios com a figura humana estavam presentes familiares, mais frequentemente um esposo/esposa (17%) ou um neto/neta (13%). Foi construída uma tabela agrupando os anúncios por marca, caracterizando-os detalhadamente de acordo com os itens listados em Métodos. As 10 marcas mais publicitadas, por ordem decrescente, foram: Mirapex, Vercise, Vercise PC, Requip, Apokyn, Permax, Stalevo, Comtan, Activa e Parcopa. Discussão: O mercado de terapias para a Doença de Parkinson presenciou a aprovação de vários novos medicamentos e dispositivos médicos nos últimos 30 anos e o número de páginas de publicidade reflecte-o. O período entre 1997 e 2008 foi o mais prolífico, contando com 648 páginas de anúncios a Doença de Parkinson – 77,0% do total. Os anúncios deste período contém 12 novas terapias aprovadas pela Food and Drug Administration (EUA) durante esse tempo – Mirapex, Activa, Requip, Tasmar, Comtan, Stalevo, Apokyn, Parcopa, Azilect, Zelapar, Neupro e Requip XL. Alguns destes foram os primeiros na sua classe a serem aprovados para a Doença de Parkinson – Activa (Estimulação Cerebral Profunda), Tasmar (tolcapone, inibidor da COMT) e Mirapex (pramipexole, agonista dopaminérgico não ergolínico). Os anúncios a dispositivos de Estimulação Cerebral Profunda são marcadamente diferentes dos anúncios a medicamentos. A média de espaço ocupado por conteúdo não-proposicional é inferior (10% vs 41% para os medicamentos), e a figura humana está ausente da grande maioria dos anúncios, substituída muitas vezes por fotografias dos dispositivos e dos acessórios que os acompanham. Apesar de o primeiro dispositivo de Estimulação Cerebral Profunda (Activa) ter sido aprovado em 1997, apenas a partir de 2006 foi publicitado com uma intensidade significativa (14 impressões entre 2006 e 2007), correspondendo à publicação em 2006 de um importante estudo aleatorizado sobre o tema. Entre 2013 e 2018 houve uma grande preponderância de anúncios a dispositivos de Estimulação Cerebral Profunda, inclusive não existindo anúncios a medicamentos entre 2016 e 2018. A figura humana está presente em 41% dos anúncios, praticamente sempre uma fotografia. Por vezes representa até um doente verdadeiro. A presença de membros da família do doente (esposo/esposa, neto/neta) é frequente, ocorrendo em 36% dos anúncios com figura humana. Esta presença tenta transmitir a mensagem de que a terapia publicitada permite aos doentes tirar proveito do tempo com os seus familiares e, dado que são anúncios dirigidos a profissionais de saúde, assume que os mesmos têm em conta esse interesse dos doentes na altura da prescrição. Notavelmente, ao contrário do que acontece em anúncios dirigidos ao consumidor, não houve nenhum anúncio com a presença da figura de um médico/profissional de saúde. Os anúncios publicados antes da sua aprovação pelo regulador representaram 8% do total, correspondendo à totalidade dos anúncios antecipatórios e educativos, dado que não é permitido publicitar um produto que, aos olhos da lei, ainda não existe como tal. Esta prática representa um risco para as empresas, dado que é possível que o medicamento/dispositivo não seja aprovado, como aconteceu recentemente com uma formulação sublingual de apomorfina. Uma análise interessante é a dos dois anúncios educativos publicados pela Acadia Pharmaceuticals em 2015, com a intenção de informar os leitores sobre os sintomas psicóticos experienciados pelos doentes com Doença de Parkinson. Nos anúncios, existe um link para um website que, à data da publiação, apresentava informação útil sobre os sintomas psicóticos. No entanto, após a aprovação do medicamento Nuplazid (pimavanserin), propriedade da Acadia Pharmaceuticals, o mesmo link redirecciona-nos para uma página promocional do mesmo, efectivamente transformando um anúncio educativo num anúncio de produto. Este estudo é limitado por ter sido analisada apenas uma única revista médica, e pelo facto de que não foi possível encontrar uma pequena percentagem das suas edições. A primeira edição da revista foi publicada em 1986, pelo que os primeiros anúncios (p.ex. levodopa) não foram incluídos. Só houve um avaliador (o autor), o que também poderá, até um certo ponto, limitar os resultados. Como méritos, a revista escolhida é a principal na área da Doença de Parkinson, o que pode indicar que é uma amostra representativa dos anúncios nessa área. Adicionalmente, este é o único estudo existente dedicado à publicidade na Doença de Parkinson, e um dos poucos com um foco no conteúdo não-proposicional.
Advertising in medical journals directed to healthcare professionals is widespread and has a positive return-on-investment. An important part of its content is non-propositional – imagery designed to persuade, but that cannot be evaluated as true or false as statements can. Nonpropositional is noticed more frequently than explicit statements, and influences physician prescription habits. This study aims to identify trends of frequency and characteristics in how therapeutics for Parkinson’s Disease (PD) have been advertised over the past 30 years in the main journal in the field, focusing on non-propositional content. There were 90 unique advertisements, averaging 2,4 pages and 3,8 prints per advertisement, comprising 67,0% of total advertisement pages. Five companies were responsible for approximately half the advertisement pages. The majority of the advertisements were classified as product claim (81%) and 8% were published before the regulatory approval. Non-propositional content occupied an average of 35,3% of the graphic space. References to symptoms (their absence or presence) appeared in 49% of the advertisements, most of them showing an absence of symptoms. Analogies to characteristics of the product appeared in 34%, most frequently formulation and mechanism of action. The human figure was present in 52% of the advertisements, 36% of those featuring also a family member. The 5 most advertised products were Mirapex, Vercise, Vercise PC, Requip and Apokyn. The period from 1997 and 2008 was the most prolific in advertisement, with 77% of the PD advertisement pages. This period saw the introduction of 12 new therapeutics, some of those first in class for PD. Deep Brain Stimulation advertisements had less non-propositional content (average of 10%) and appearances of the human figure. To our knowledge, this is the only study of advertising in Parkinson’s Disease, and one of few focusing on non-propositional content.
Advertising in medical journals directed to healthcare professionals is widespread and has a positive return-on-investment. An important part of its content is non-propositional – imagery designed to persuade, but that cannot be evaluated as true or false as statements can. Nonpropositional is noticed more frequently than explicit statements, and influences physician prescription habits. This study aims to identify trends of frequency and characteristics in how therapeutics for Parkinson’s Disease (PD) have been advertised over the past 30 years in the main journal in the field, focusing on non-propositional content. There were 90 unique advertisements, averaging 2,4 pages and 3,8 prints per advertisement, comprising 67,0% of total advertisement pages. Five companies were responsible for approximately half the advertisement pages. The majority of the advertisements were classified as product claim (81%) and 8% were published before the regulatory approval. Non-propositional content occupied an average of 35,3% of the graphic space. References to symptoms (their absence or presence) appeared in 49% of the advertisements, most of them showing an absence of symptoms. Analogies to characteristics of the product appeared in 34%, most frequently formulation and mechanism of action. The human figure was present in 52% of the advertisements, 36% of those featuring also a family member. The 5 most advertised products were Mirapex, Vercise, Vercise PC, Requip and Apokyn. The period from 1997 and 2008 was the most prolific in advertisement, with 77% of the PD advertisement pages. This period saw the introduction of 12 new therapeutics, some of those first in class for PD. Deep Brain Stimulation advertisements had less non-propositional content (average of 10%) and appearances of the human figure. To our knowledge, this is the only study of advertising in Parkinson’s Disease, and one of few focusing on non-propositional content.
Descrição
Trabalho Final do Curso de Mestrado Integrado em Medicina, Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, 2019
Palavras-chave
Doença de Parkinson Publicidade Revista médica Conteúdo não-proposicional Imagética
