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Rage, Class, and the "Inconvenience of Other People" : Analyzing Beef through the Lens of Affective Politics

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Esta dissertação analisa a série da Netflix Beef (Treta, 2023), criada por Lee Sung Jin, à luz da teoria do afeto e, em particular, do pensamento de Lauren Berlant. O objetivo principal é explorar de que modo a série dramatiza o conceito de inconvenient sociality e, em paralelo, como as trajetórias das personagens refletem tensões culturais e políticas mais amplas no contexto do neoliberalismo contemporâneo. A partir desta perspetiva, Beef não é lida apenas como um objeto narrativo ou estético, mas como um texto afetivo que torna visível as formas como ideologias dominantes — sobretudo as promessas de sucesso e prosperidade associadas ao Sonho Americano— estruturam vidas, relações e afetos de maneira precária e insustentável. Beef é uma minissérie de dez episódios produzida pela A24 e lançada em abril de 2023, protagonizada por Steven Yeun e Ali Wong (também produtores executivos). O ponto de partida é aparentemente banal: um incidente de trânsito num parque de estacionamento entre Danny Cho e Amy Lau que rapidamente se transforma numa espiral de obsessão e vingança. Inspirada por uma experiência pessoal do criador, a série combina humor ácido e drama psicológico, explorando temas como raiva, identidade, frustração e desconexão. Através das suas personagens centrais, a série encena as contradições da vida sob o neoliberalismo. Danny, um empreiteiro falido, está obcecado em construir uma casa para os pais como prova de sucesso e de respeito familiar. Amy, empresária de sucesso em vias de vender a sua empresa de bem-estar, procura na ascensão social e no controlo pessoal uma saída para a sua exaustão. Ambos são movidos por formas de um otimismo cruel (Cruel Optimism, Berlant, 2011): apegam-se a desejos e objetos — casa, família, carreira, estabilidade — que parecem garantir uma boa vida, mas que na prática se tornam obstáculos à sua realização e, por vezes, ameaças à sua própria sobrevivência. O encontro acidental entre ambos não gera apenas conflito; transforma-se numa espécie de vínculo, uma ligação inconveniente que os arrasta para uma espiral de raiva e dependência mútua. A partir de Berlant, compreender Beef não significa apenas decifrar a mensagem que a série transmite enquanto media, mas perceber como esta reflete as condições do presente. Como lembra Ingraham, Berlant é menos uma teórica de media do que uma intérprete da mediação enquanto processo através do qual os muitos objetos de atenção ou fixação de uma vida adquirem a sua força afetiva (Ingraham, 2023, p. 156). Isto sugere que Beef deve ser lida como encenação de atmosferas afetivas do presente histórico, mostrando como certas fantasias — sucesso, mobilidade social, respeito — moldam não só o que desejamos, mas também o modo como sentimos os nossos desejos. Danny e Amy não representam patologias individuais, mas exemplos de como sujeitos racializados e precarizados navegam as pressões sistémicas que configuram o seu mundo. Neste enquadramento, a dissertação centra-se em duas questões fundamentais: de que modo Beef dramatiza a inconvenient sociality de Berlant? E como é que as trajetórias emocionais das personagens refletem tensões culturais e políticas mais amplas? Estas questões foram trabalhadas através de uma análise detalhada da série, apoiada numa revisão crítica da teoria do afeto e numa leitura atenta das narrativas, performances e atmosferas de Beef, articulando autores como Raymond Williams (1977) e a sua noção de structures of feeling, Brian Massumi (2002, 2015) sobre a diferença entre afeto e emoção, Ben Anderson (2009) sobre atmosferas afetivas e Anna Tsing (2024) sobre fricção. No plano teórico, Berlant fornece as principais ferramentas. O conceito de inconvenient sociality (2022) remete para a experiência quotidiana de viver com outros em condições de proximidade não soberana: o incómodo constante de ajustar-se, resistir, acomodar e negociar a coexistência. Em Beef, esta inconveniência é dramatizada na insistência de Danny e Amy em permanecer ligados pelo conflito: uma ligação tóxica, mas que dá energia e forma às suas vidas. Os capítulos da dissertação foram estruturados em torno de cinco categorias afetivas centrais que organizam o campo emocional da série: despossessão e precariedade, suicidation (processo suicidário sob pressão estrutural) e dissociação, raiva, melancolia racial e planura. Estas categorias permitem mapear o modo como os afetos em Beef não são apenas individuais, mas respostas incorporadas a estruturas de desigualdade. A despossessão e a precariedade revelam-se nas condições materiais instáveis de Danny e na pressão de Amy para corresponder às expectativas do mercado e da família. A suicidation e dissociação surgem em momentos de retraimento psíquico, como no episódio inicial em que Danny pondera o suicídio através do monóxido de carbono. A raiva torna-se força central, destrutiva e ao mesmo tempo vital, interrompendo a anestesia da rotina. A melancolia racial a expõe a posição ambígua das personagens asiático-americanas perante o mito da assimilação: a promessa de inclusão na branquitude nunca se cumpre plenamente, gerando ressentimento e alienação. Por fim, a planura é analisada como uma forma de expressão emocional minimalista que funciona tanto como sobrevivência num contexto que exige legibilidade afetiva, como como recusa da normatividade emocional. Outro eixo conceptual é o de morte lenta (Berlant, 2007), que descreve a erosão quotidiana da vida sob condições estruturais de exploração e negligência. Tanto Danny como Amy vivem formas distintas de morte lenta: ele na exaustão física e económica de trabalhos precários e mal pagos, ela na alienação espiritual de um estilo de vida de “morte da alma” (soul killing, Berlant, 2007), centrado na produtividade e na performance de bem-estar. A referência a Henry David Thoreau e a sua ideia de “vidas de silencioso desespero” (2021, p. 3) ajuda a contextualizar historicamente esta crítica, mostrando que a frustração e o desgaste da vida sob capitalismo não são fenómenos novos, mas adquirem contornos específicos em cada época. É neste contexto que a dissertação articula Beef com o Sonho Americano. Desde James Truslow Adams (1931), que o definiu como a promessa de uma vida melhor e mais plena para todos mediante o esforço individual, este sonho tem moldado a cultura política e social dos Estados Unidos. Contudo, como nota Berlant, trata-se de uma forma popular de otimismo político, que exige que os indivíduos invistam no trabalho e na família com a expectativa de que a nação lhes assegurará dignidade e valor (1997, p. 4). O problema é que esta promessa depende da ocultação das instabilidades do capitalismo e das desigualdades estruturais. Assim, o Sonho Americano funciona como uma espécie de otimismo cruel: um objeto de desejo que mantém as pessoas ligadas a uma fantasia que obstrui a possibilidade de prosperar (Berlant, 2011, p. 2). Danny e Amy encarnam esta crueldade de formas diferentes. Danny deseja restaurar o prestígio da família, provar-se competente e respeitável; Amy aposta no empreendedorismo e na ascensão social através da proximidade à riqueza e à branquitude. Ambos acreditam que o esforço, o sacrifício e a obediência aos códigos sociais trarão estabilidade e felicidade. Mas o que encontram é frustração, exaustão e alienação. A sua disputa é, assim, também um espelho do conflito com o próprio sonho americano, que lhes exige continuamente mais investimento sem nunca cumprir as suas promessas. O episódio final da série torna-se central para esta leitura. Após um acidente violento, Danny e Amy ficam juntos num estado de vulnerabilidade física e emocional. O diálogo que se segue, fragmentado entre memórias, pensamentos e brincadeiras, recusa qualquer fecho narrativo convencional. Não há reconciliação nem rutura definitiva, mas um processo de metabolização do afeto, em que hostilidade, ternura, exaustão e reconhecimento coexistem sem resolução. Trata-se de um momento de suspensão em que a convivência com a inconveniência do outro se torna condição de sobrevivência. Na análise final, Beef encena a inconvenient sociality como sintoma e contraponto do otimismo cruel. Sintoma, porque emerge da frustração e das falhas que o sonho americano produz; contraponto, porque através do atrito (friction, Tsing, 2005) gera momentos de conexão que escapam às vias convencionais do trabalho, da família e da respeitabilidade. Estes momentos são precários e instáveis, mas oferecem uma densidade afetiva ausente nas fantasias de mobilidade social. O conflito, a raiva e a proximidade incômoda tornam-se, paradoxalmente, fontes de vitalidade. Deste modo, a dissertação contribui para o debate académico sobre afeto, raça e precariedade neoliberal, mostrando como a cultura popular pode funcionar como meio de mediação do presente histórico. Através da leitura de Beef, é possível perceber como as narrativas audiovisuais contemporâneas encenam a experiência de viver em condições em que a promessa de prosperidade está sempre adiada, mas onde a fricção e a inconveniência das relações continuam a oferecer possibilidades, ainda que frágeis, de vida em comum.
This dissertation investigates how the Netflix series Beef (2023) dramatizes Lauren Berlant’s concept of “inconvenient sociality” and reflects broader cultural and political tensions. Anchored in affect theory and drawing on concepts including dispossession and precarity, suicidation and dissociation, rage, racial melancholia, flatness, and Anna Tsing’s notion of “friction,” the study situates the characters’ emotional trajectories within intersecting structures of the neoliberal system. The analysis approaches Beef as an affective text in which interpersonal antagonism is not a mere product of personality but a staging ground for the felt impact of systemic inequalities. Through detailed analysis, the dissertation argues that Beef’s refusal of narrative closure, most notably in its final hallucinatory episode, stages a “metabolization of affect” in which hostility, recognition, exhaustion, and tenderness coexist without resolution. By reframing Danny and Amy’s conflict as a form of inconvenient sociality—simultaneously sustaining and impeding life—the study demonstrates how Beef makes visible the affective labor of surviving within structures that hinder thriving. In doing so, it contributes to scholarship on affect, race, and neoliberal precarity, offering an account of how friction, rather than resolution, can generate new, if unstable, forms of relation.

Descrição

Mestrado em Literaturas, Artes e Culturas Modernas na Especialidade Estudos Ingleses.

Palavras-chave

Contexto Educativo

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