Orientador(es)
Resumo(s)
O objectivo a que este trabalho se propõe abarca o tratamento da recepção de Hegel em Portugal, especificamente no pensamento do autor oitocentista Oliveira Martins. Estendendo-se em certos momentos a outros autores da chamada geração de 70 como Antero de Quental.
Um primeiro capítulo introdutório debruça-se acerca do estado dos estudos sobre Oliveira Martins e Hegel em Portugal. No que toca a Oliveira Martins, tais estudos são vistos tanto de um ponto de vista de estudos que incluam Hegel, bem como outros de carácter mais geral. Em relação a Hegel é abordada a questão da sua recepção assim como é feita uma passagem por alguns autores onde a sua presença foi mais marcante.
De seguida, ainda neste capítulo introdutório, são feitas algumas considerações sobre método, bem com alguns apontamentos críticos sobre conceitos e categorias. Abordagem que se prende em boa medida com a ideia de conceitos como construções históricas, à qual são dados alguns exemplos da pertinência dessa história conceptual para o trabalho em questão.
No capítulo subsequente em que o Germanismo de Oliveira Martins será tema em desenvolvimento, há primeiro uma chamada de atenção para o que consiste esse Germanismo em Oliveira Martins, onde tem um significado mais cultural.
Segue-se um olhar pela educação, interesses e leituras de Oliveira Martins, onde sobressaem os estudos não convencionais, que conjugados com um autodidatismo e facilitado por um ambiente eclético, o irão ajudar a furar os cânones estabelecidos e a apresentar ideias originais. Chegando assim mais facilmente às modernas ideias europeias.
Uma curiosidade juvenil levá-lo-á de encontro à filosofia alemã. As linhas de evolução do pensamento filosófico em Portugal serão também alvo de preocupação, tendo como finalidade o seu enquadramento até se chegar a Oliveira Martins. Devido ao interesse pela política, o federalismo que o fascinou aquando da sua juventude, provinha enormemente da Alemanha.
Temos depois a leitura inicial de Hegel e a relação que Oliveira Martins faz entre Hegel e a filosofia Alemã, próxima da concepção de idealismo alemão, dando uma certa unidade às ideias produzidas na Alemanha. São observadas algumas semelhanças entre esses pensadores, não descurando as diferenças.
Oliveira Martins chega aos pensadores alemães como fruto de uma reflexão própria. O Germanismo do seu amigo Antero de Quental vinha já desde Coimbra como confessa em carta autobiográfica. Nessa carta constam importantes informações sobre Hegel e a cultura Alemã,
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estudando inclusive a língua alemã como parte desse interesse, apesar das dificuldades no seu uso e compreensão.
Um segundo momento terá como base fontes desse Germanismo. Enumerando-se as fontes disponíveis a Oliveira Martins, ainda que incertas, sabe-se contudo que terá lido com certeza Vera, Lerminier e Ahrens. Desenvolvendo-se mais pormenorizadamente acerca de Augusto Vera, principal fonte directa dos textos de Hegel, assim como acerca de problemas nas traduções de Hegel.
Seguem-se as fontes liberais e socialistas que se formam à volta de Cousin, em antigos alunos seus. Começando primeiramente pelos liberais, passa-se depois para os socialistas, em que Proudhon e o seu fraco entendimento de Hegel, deixam uma marca indelével em Oliveira Martins. Sendo também mencionadas algumas figuras do socialismo francês que comungam de um certo Hegelianismo, inclinando-se Oliveira Martins no entanto para a crítica liberal de Hegel. A França será a cultura de transição entre a Alemanha e Portugal.
Um último momento deste capítulo centra-se á volta da integração de Hegel no pensamento de Oliveira Martins. Para a crítica e os elogios que este lhe move, assim como a cultura alemã no âmbito deste pensar e integrar de Hegel. Fazendo-se também demarcações entre várias doutrinas e as próprias ideias de Oliveira Martins, que veremos têm origem também noutros pensadores como Fichte ou Kant.
Proudhon e o entendimento que este tem de Hegel deram os fundamentos para o Hegel dos seus primeiros escritos. Concentrando-se nas diferenças e de seguida nas semelhanças entre Oliveira Martins e Hegel, é feita uma avaliação desse hegelianismo de Oliveira Martins.
No próximo capítulo sobre o pensamento social e político de Oliveira Martins, começa por ser feita a referência ao socialismo de Proudhon traçando-se a sua evolução e trajectória. Com referências a alguns pontos importantes na sua concepção histórica da humanidade e a relação com o socialismo. Passando pelo caso específico de Portugal e os seus problemas económicos e sociais, em que Oliveira Martins devido aos seus fracassos reformadores, se aproxima de posições mais autoritárias.
Na parte seguinte o enfoque será na doutrina política de Oliveira Martins que se vai progressivamente aproximando de um socialismo de estado. Em que a visão societária mais individualista da juventude ganha contornos colectivos e o organicismo social se mostra em força. Algumas correções de doutrina que enceta levá-lo-ão a uma outra leitura de Hegel, mais simpática quanto à concepção de estado.
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A ideia de ditadura ou de Cesarismo paira por esta altura também em Oliveira Martins, levando-o a um aproximação da monarquia e ao abandono das teses republicanas e federalistas, assim como ao ideário Proudhoniano. Sendo um problema que se insere na relação autoridade-liberdade que vai sendo objecto de reflexão por parte de Oliveira Martins e que se pode dizer herdeira de Hegel, prosseguindo até aos nossos dias tal debate. Silva Cordeiro irá acusá-lo de ser o introdutor do Germanismo na política, ou seja, de um autoritarismo doutrinário.
É feita também referência à sua actividade como pregador social, falando directamente para as classes médias apelando à reforma. Uma preocupação com o público que o levará a um projecto de educação do mesmo com a sua Biblioteca das Ciências Sociais.
Por fim neste capítulo é feita uma análise do seu projecto político para Portugal, as propostas que desenvolve e algumas semelhanças com Hegel quanto a leituras políticas e concepções de estado. Bem como a sua participação política no quadro parlamentar e as propostas que lá apresenta.
O lugar da monarquia em Hegel e em Oliveira Martins é também posto em evidência. A concepção de aristocracia e parlamentarismo liberal como sistemas políticos em boa medida coincidentes é semelhante em ambos os autores. Contudo Oliveira Martins vai aproximar-se do monarca e também dessa “aristocracia de sangue” que antes criticara, tendendo nos seus últimos escritos para ideias mas conservadoras.
O último capítulo ocupa-se da filosofia da história e historiografia de Oliveira Martins, concentrando-se primeiramente na ideia de modelos em história. A história vista segundo modelos e as críticas que lhe são movidas, tal como a que é feita a Hegel e à sua concepção dialéctica como um modelo panlogista. Crítica que também é movida a Oliveira Martins devido a um suposto apriorismo que o animou e a tendências mais abstractas ou generalizadoras.
Consideram-se depois o(s) chamado(s) modelo(s) historicista(s) em que o seu significado envolve a existência de diferentes concepções deste conceito. Existindo mesmo opositores ao conceito de historicismo e novas leituras que favorecem a historicidade em vez do historicismo enquanto conceito operativo no entendimento da história.
Apesar da evidente deslocação temporal e da multifacetada compreensão deste conceito, este debate contêm contudo em boa medida muitas dos problemas que fazem parte do horizonte em que Oliveira Martins se move. Entre os quais o problema das leis em história e a da separação entre ciências do espírito e ciências da natureza.
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Avança-se depois para a tradição historiográfica em que Oliveira Martins se insere. Como seja a história sobre um ponto de vista de algumas tendências como o romantismo, em que certos temas se afirmam em detrimento de outros, como o caso do favorecimento do individuo no seio do colectivo. As múltiplas origens do romantismo, entre as quais Fichte, e as suas várias fases tornam a sua classificação árdua. A historiografia de Oliveira Martins insere-se no entanto neste romantismo, contudo já numa fase de desagregação.
A história como totalidade e a classificação de diferentes tipos historiográficos em Hegel e como se aportam estes em Oliveira Martins será o próximo tema em destaque. O que essas classificações implicam e as observações que Hegel faz entre passado e futuro são temas que tomam também parte em Oliveira Martins. A finalidade da história e uma história universal à maneira de Hegel ou Kant são vistas em certa medida negativamente por Oliveira Martins, que vai desenvolvendo uma concepção da história ligeiramente diferente.
Por fim, o trabalho finaliza com a filosofia da história em Oliveira Martins e como se configura o pensamento Alemão e Hegel no quadro desta. Temos as suas primeiras concepções numa carta remetida a Batalha Reis, aquando da polémica com Júlio de Vilhena sobre o carácter da idade-média, e depois no seu O Helenismo e Civilização Cristã que no entanto tendem a ser matizadas para outras com cariz mais pessimista, aproximando-se também das ciências naturais.
The objective of this study is to identify and understand, by who and how was Hegel received in the historical and philosophical culture of Portugal. In the thought of Oliveira Martins we find Hegelianism to be fruitful and the interest more evident, therefore he seems the most appropriate candidate for the said study of Hegel's reception in Portugal. This work will focus on Oliveira Martins’s philosophical incursions and his political program, while still being open to other authors, particularly those belonging to his generation. The sources by which Hegel was read in Portugal, are in great part translations or interpretations of Hegel. Some of which are not rigorous and misrepresent some points and/or lose Hegel’s conceptual significance. Augusto Vera, the main translator and interpreter of Hegel, above all to the French Language, is one such case. The historical events and the social environment of this epoch should also be taken into account, especially Prussia’s expansionism, which will affect the understanding of Hegel's philosophy. In such an undertaking this study is faced with the problematic of interpreting the various readings of Hegel, being them with regards to his philosophy as well as in other political derivations. In Martins’s letters to Alexandre Herculano philosophy is an early theme of debate which lets us foresee his subsequent development. The personal correspondence with Antero de Quental, the best known poet and philosopher of that epoch, also proves the reading and study of Hegel. The reception of Hegel in Portugal and the objectives of this work pose such questions as: In what context were the political and economic problems attempted to be resolved in light of their readings and understanding of Hegel? What difficulties did the Portuguese authors faced in their understanding of Hegel? These problems can therefore be seen as external or internal to the reception of Hegel and they will be attempted to be explain by looking at their root causes.
The objective of this study is to identify and understand, by who and how was Hegel received in the historical and philosophical culture of Portugal. In the thought of Oliveira Martins we find Hegelianism to be fruitful and the interest more evident, therefore he seems the most appropriate candidate for the said study of Hegel's reception in Portugal. This work will focus on Oliveira Martins’s philosophical incursions and his political program, while still being open to other authors, particularly those belonging to his generation. The sources by which Hegel was read in Portugal, are in great part translations or interpretations of Hegel. Some of which are not rigorous and misrepresent some points and/or lose Hegel’s conceptual significance. Augusto Vera, the main translator and interpreter of Hegel, above all to the French Language, is one such case. The historical events and the social environment of this epoch should also be taken into account, especially Prussia’s expansionism, which will affect the understanding of Hegel's philosophy. In such an undertaking this study is faced with the problematic of interpreting the various readings of Hegel, being them with regards to his philosophy as well as in other political derivations. In Martins’s letters to Alexandre Herculano philosophy is an early theme of debate which lets us foresee his subsequent development. The personal correspondence with Antero de Quental, the best known poet and philosopher of that epoch, also proves the reading and study of Hegel. The reception of Hegel in Portugal and the objectives of this work pose such questions as: In what context were the political and economic problems attempted to be resolved in light of their readings and understanding of Hegel? What difficulties did the Portuguese authors faced in their understanding of Hegel? These problems can therefore be seen as external or internal to the reception of Hegel and they will be attempted to be explain by looking at their root causes.
Descrição
Palavras-chave
Martins, Oliveira, 1845-1894 - Crítica e interpretação Hegel, 1770-1831 - Influência Hegel, 1770-1831 - Apreciação - Portugal - séc.19 Filosofia da história - Portugal - séc.19 Historiografia - Portugal - séc. 19 Teses de mestrado - 2016
