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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
Nos nossos dias a forma como as nossas relações socias são criadas e mantidas
alterou-se drasticamente, em grande parte devido à invenção e disseminação da internet.
As interações sociais on-line tomam lugar em dois formatos distintos: redes sociais que
se focam em relações como amizades, trabalho, hobbies, e troca de informações, de que
são exemplo o Facebook ou o LinkedIn; e redes sociais de relações românticas, que se
focam em criar ligações românticas entre pessoas que nunca se conheceram antes, como
o Tinder ou o OkCupid.
As relações românticas são relações voluntárias, diádicas, assumidas, com expressões
explícitas de afecto, e que contêm uma história partilhada, assim como um desejo mútuo
de um projecto de futuro comum. De todas as pessoas que conhecemos na vida que
podiam ser nossos parceiros sexuais, apenas um pequeno número o é. Este facto tem sido
objecto de vários estudos, que apontaram cinco características mais importantes na
seleção de parceiros: a proximidade temporal e espacial (em Inglês propinquity, sem
tradução directa para Português), similaridade, nível de atratividade, disponibilidade, e
antecipação de contactos futuros. Estas características são significativamente afectadas
quando mudamos o meio de interacção de relações de um formato presencial para um
formato online.
As primeiras relações iniciadas online aconteceram nos anos 60, quando os primeiros
métodos de emparelhamento de potenciais parceiros por computador foram
desenvolvidos. Estes métodos eram, na altura, muitas vezes considerados inapropriados.
O primeiro site de encontros moderno, Kiss.com, foi lançado em 1994, e
subsequentemente houve uma grande expansão deste mercado, especialmente na
primeira década do século XXI, com sites como o OkCupid, Badoo, Grindr, e Tinder a
surgirem entre 2004 e 2012.
A forma como os jovens preferem explorar a sua sexualidade e contruir novas
relações tem-se modificado devido ao avanço da tecnologia de uso pessoal, sendo que as
aplicações de encontros românticos tornaram-se num meio comum e aceitável de
desenvolver relações românticas. Desde que a internet se tornou um bem acessível nos
anos 90, e com uma acentuada aceleração na ultima década devido à normalização do uso
dos smartphones e aplicativos associados, cada vez mais pessoas se conhecem online e o
estigma associado a relações iniciadas dessa forma tem vindo a diminuir, sendo cada vez
mais aceitável conhecer pessoas online.
O Tinder, sendo a plataforma online de dating mais popular, tem um corpo de
literatura bastante rico, que nos dá um bom insight sobre o mundo das relações iniciadas
online. As principais motivações para usar o Tinder são: entertenimento; curiosidade;
socialização; procura de relações de longa duração; aprovação; procura de pessoas com
as mesmas preferências sexuais; praticar skills sociais e de “engate”; como distracção;
para uma aventura sexual; para expandir a experiência de viagem; devido a pressão dos
pares; para esquecer uma relação anterior; e na procura de sentido de pertença.
Alguns estudos sugerem que pessoas com comportamentos sexuais de risco são mais
propensas a utilizar sites de encontros online, ou que sites de encontros tendem a ser
usados por pessoas mais tímidas, que preferem utilizar estas plataformas por serem mais
fáceis para se expressar e para formarem contactos sociais.
Dentro das abordagens teóricas da psicologia que nos poderiam ajudar a compreender
estas questões, a psicologia evolutiva revela diferenças nas estratégias sexuais observadas
entre homens e mulheres, sendo que os homens tendem a dar preferência a parceiras com
características físicas indicadoras de saúde e fertilidade, devido a um menor investimento
mínimo requerido para procriar, enquanto que as mulheres procuram parceiros capazes
de disponibilizar mais recursos por períodos extensos, uma vez que têm o custo acrescido
de gerar e criar durante anos um descendente. Estas diferenças nas estratégias adoptadas
por homens e mulheres parecem ser transpostas para o mundo das redes sociais, com os
homens tenderem a procurar relações românticas de curto prazo e baixo compromisso, e
as mulheres tenderem a procurar potenciais parceiros para relações de longo prazo e
compromisso.
No modelo do amor proposto por Sternberg, por seu lado, são necessários três
componentes para sustentar uma relação romântica no tempo: intimidade, paixão, e
compromisso. O compromisso é considerado um componente essencial, estando
associado a relações mais duradouras, dispensa de alternativas, sacrifícios pessoais em
prol da relação, e diminuição de comportamentos de retaliação contra o parceiro. O
formato de início de relação online está associado a maiores níveis de qualidade de
alternativas à relação, uma vez que há uma grande disponibilidade de potenciais parceiros
num curto espaço de tempo, o que pode diminuir o nível de compromisso de relações
iniciadas online.
Este estudo procura responder à questão então colocada: são as relações iniciadas
online tão sérias como as relações tradicionais? Para isso medimos a diferença nos níveis
de compromisso de relações iniciadas online e de forma tradicional, assim como três
variáveis que, de acordo com o modelo do investimento, o influenciam: satisfação,
qualidade de alternativas, e investimento na relação. Procurámos compreender, em caso
de tais diferenças existirem, se se podem atribuir à forma como as relações se iniciaram,
ou se há características individuais que diferenciam os indivíduos que iniciam relações
online dos que iniciam relações offline e são responsáveis por essa diferença,
nomeadamente: estratégias sexuais diferentes; estilos de vinculação diferentes; diferentes
níveis de narcisismo, psicopatia, ou maquiavelismo.
Os participantes deste estudo foram recrutados através de um link para o questionário,
divulgado através de redes sociais, maioritariamente em grupos do Facebook, tendo sido
registadas 95 respostas válidas. O questionário, além de questões sobre a idade, género,
nível educacional e estado relacional, incluiu os seguintes instrumentos: Escala de
Desejabilidade Social – DESCA; Escala do Modelo de Investimento – EMI; Questionário
de Estratégias Sexuais – QES; Experiência em Relações Próximas, versão reduzida –
ERP; e Escala Dirty Dozen.
Analisámos as diferenças nas respostas entre: participantes que começaram uma
relação online ou offline, e participantes do género masculino ou feminino.
Contrariamente à nossa hipótese, o grupo online não obteve uma cotação mais baixa no
nível de compromisso quando comparado com o grupo offline. No entanto, o grupo
online apresentou médias mais baixas no nível de investimento na relação, nas estratégias
sexuais a curto-prazo e na psicopatia. Quando separado por género, as mulheres que
iniciaram relações online mostraram um nível mais baixo de investimento e de satisfação
com a relação, e um nível mais elevado de evitação. Os homens obtiveram um nível mais
elevado em compromisso, assim como nas suas três componentes: satisfação,
investimento, e qualidade de alternativas. Os homens mostraram médias mais altas no
compromisso, e médias mais baixas em evitação e estratégias a curto-prazo. Os resultados
sugerem, portanto, que as diferenças entre relações iniciadas online e por meios mais
tradicionais são mais complexas do que geralmente se pensa e podem variar em função
do género.
Este estudo foi feito com uma amostra relativamente pequena (N=95), o que pode
afectar o nível de significância dos resultados. Além disso, foi utilizada uma amostra de
conveniência, o que pode introduzir enviesamentos relacionados com a
representatividade da amostra. Em estudos futuros, tais efeitos podem ser minimizados
aumentando o número de participantes, e procurando uma amostra representativa de uma
população. Um estudo longitudinal seria pertinente para dar mais consistência aos
resultados, assim como avaliar efeitos de causalidade. Seria também pertinente estudar
efeitos em diferentes classes etárias, assim como comparar efeitos em plataformas com
diferentes finalidades (p. ex., Tinder e Facebook). A época em que o presente estudo foi
realizado, marcado como um período de incerteza devido à pandemia de Covid-19, pode
também ter afectado os resultados.
Romantic relationships are one of the most important aspects of people’ lives, and their quality is highly correlated with life satisfaction and happiness. With the virtual world increasingly used to satisfy sexual and affective needs, it is important to gather knowledge about the benefits and costs that this environment has on long-term relationships. In this study we seek to explore the differences in relationship quality between romantic relationships that started online compared to offline and, if such differences exist, whether they can be attributed to traits differentially associated with people seeking partners online vs offline. For that purpose, we distributed an online questionnaire to measure the commitment level of participants (N=95) that are (or have been) in a romantic relationship, along with measures of Education level, Gender, Age, Machiavellianism, Psychopathy, Narcissism, Attachment Style, Relationship Satisfaction, Quality of Relationship Alternatives, Relationship Investment, Social Desirability, and Sexual Strategies. We found that women who started relationships online had lower levels of investment and satisfaction in the relationship, and higher levels of avoidance. Men who started relationships online had higher levels of avoidance and of short-term strategies, but also higher levels of commitment. It appears, therefore, that differences between relationships that started online vs. offline are more complex than generally expected and are moderated by gender.
Romantic relationships are one of the most important aspects of people’ lives, and their quality is highly correlated with life satisfaction and happiness. With the virtual world increasingly used to satisfy sexual and affective needs, it is important to gather knowledge about the benefits and costs that this environment has on long-term relationships. In this study we seek to explore the differences in relationship quality between romantic relationships that started online compared to offline and, if such differences exist, whether they can be attributed to traits differentially associated with people seeking partners online vs offline. For that purpose, we distributed an online questionnaire to measure the commitment level of participants (N=95) that are (or have been) in a romantic relationship, along with measures of Education level, Gender, Age, Machiavellianism, Psychopathy, Narcissism, Attachment Style, Relationship Satisfaction, Quality of Relationship Alternatives, Relationship Investment, Social Desirability, and Sexual Strategies. We found that women who started relationships online had lower levels of investment and satisfaction in the relationship, and higher levels of avoidance. Men who started relationships online had higher levels of avoidance and of short-term strategies, but also higher levels of commitment. It appears, therefore, that differences between relationships that started online vs. offline are more complex than generally expected and are moderated by gender.
Descrição
Dissertação de mestrado, Psicologia (Área de Especialização em Psicologia Clínica e da Saúde - Psicologia Clínica Sistémica), 2020, Universidade de Lisboa, Faculdade de Psicologia
Palavras-chave
Compromisso Redes sociais Vinculação Relações amorosas Internet Teses de mestrado - 2020
