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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
A presente investigação procura averiguar o potencial da relação entre elementos visuais pré-colombianos e os fundamentos do design. Tais fundamentos centram-se na relevância da literacia visual no desenvolvimento de estratégias criativas de forte significado cultural no design. O interesse que o ser humano tem em se manifestar culturalmente através de expressões criativas inclui o design como um fator substancial de desenvolvimento social, histórico e cultural (Van Boeijen, Zijlstra, 2020). Considera-se que a prática do design, assente na relação entre a perceção e a criação de significados que decorre da aplicação consciente de elementos visuais e conceptuais, envolve processos criativos e dinâmicos a partir dos quais o designer examina o mundo e compreende a realidade de modo a influenciar a conceção de experiências significativas. Merleau-Ponty enfatiza que a perceção compreende uma abordagem fenomenológica, onde se integram experiências vividas de maneira holística e simultaneamente unificada (1994). Tais experiências implicam valores culturais, onde a observação da realidade e a criação de conhecimento projetam o design desde a inter e multidisciplinaridade (Findeli, 2010), e onde a transculturalidade corresponde a um ato transdisciplinar. Do mesmo modo, Alain Findeli propõe que olhar para os factos históricos implica ampliar novas conceções que o design pode desenvolver a partir do território projetual (2010). Reconhecendo, logo à partida, a expressão pré-colombiana como algo mais do que uma estética inspiradora, o presente estudo faz uma incursão através das bases filosóficas para compreender a origem da expressão andina dos artefactos ancestrais pré-colombianos. Com o objetivo de descobrir novas rotas de acesso epistemológico e fazendo uso da fenomenologia como método de investigação, a estratégia metodológica aqui formalizada aproxima-se da metodologia fenomenológica que Alain Findeli utiliza como método de investigação em design. Da mesma forma, recorre à teorização de Atilio Marcolli (1974) que aborda a compreensão do espaço no contexto da investigação em design, ao captar a dimensão existencial da forma e do espaço a partir de uma aproximação fenomenológica. O trabalho propõe ainda uma procura das raízes da fenomenologia histórica (Jaran-Duquette, 2011) como ideia complementar à fenomenologia do design, apoiando-se em estudos semióticos, antropológicos e culturais. No âmbito das metodologias aplicadas ao design, referencia-se Gjoko Muratovski (2016), o qual direciona a análise semiótica através da perspetiva de Charles Morris (1985) e de Charles Peirce (Restrepo, 1990). Do mesmo modo, uma visão antropológica da investigação enquadra-se nos estudos dos arquétipos, mitos e ritos de Gilbert Durand (1981) e Fernand Schwars (2018). Esta investigação concretizou-se na observação e revisão de mais de mil imagens de artefactos cerâmicos de noventa e seis culturas pré-colombianas andinas compreendidas entre a Argentina e o Equador. Posteriormente, destas mil imagens foram selecionadas cerca de setecentas para recriar e compreender as formas gráficas que cada cultura possuía, atuando através da representação gráfica dos seus padrões morfológicos. Isto implicou um estudo profundo da grande capacidade artística e expressiva que relata uma série de elementos simbólicos, caracterizados por apresentar padrões arquetípicos universais e próprios das diferentes culturas pré-colombianas, tanto geográfica como cronologicamente. A sistematização de dados tanto de literatura científica como de informação audiovisual, cursos de formação e entrevistas, permitiram a análise dos níveis de formação das imagens simbólicas – através da aplicação da Teoria do Campo de A. Marcoli (1974) e das relações de convergência (Durand, 1981) – assente no reconhecimento dos arquétipos andinos e universais em modelos ou padrões, presentes em sessenta e seis peças apresentadas no capítulo seis, as quais serviram de base à principal componente prática do estudo. Para a seleção das peças, consideraram-se as diferentes culturas e o nível qualitativo da representação gráfica das mesmas. Destaca-se a análise visual dos elementos compositivos dentro do espaço e o reconhecimento de modelos expressivos ligados ao conceito arquetípico de cada peça. Cada elemento corresponde a modelos identitários próprios, cujas características são entendidas como um fator dinâmico que estabelece a base criativa de um processo contínuo de invenção, através da geração de novas formas. Esta identidade é construída e constituída por vários fatores históricos, biológicos, geográficos, incluindo a possibilidade de proporcionar novas relações de interação a partir dos objetos e dos ambientes que continuamente se transformam. É a partir desta abordagem de índole prática, fundada em métodos ancorados no pensamento filosófico, que a investigação analisa os processos históricos como parte dessa transculturalidade, e onde o design consegue relacionar os valores culturais como objeto de estudo projetual. Josef Albers foi pioneiro na interpretação das relações compositivas entre a arte e a cultura mesoamericana pré-colombiana, demonstrando uma magnífica estrutura morfológica de elementos culturais nas suas obras (Hinkson, Albers, Barríendos, 2017), ao analisar, decompor e integrar as organizações morfológicas pertencentes a culturas ancestrais. Este facto transcultural, onde o artista reconhece valores históricos significativos, é uma medida intrínseca na busca de novas possibilidades que o design, como conhecimento, pode retomar. Da mesma forma, a proposta apresentada na tese de doutoramento de Rosana Corral, com o tema “Fundamentos de Diseño desde los principios de la Cosmovisión Andina: Hanan Urin: diseño andino”, estabelece um vínculo de interesse entre a fundamentação do design pré-colombiano e o design como área de conhecimento. A partir do estudo dos princípios andinos, a autora estabelece as relações estruturantes dos elementos de design com uma visão crítica sobre o papel que o valor histórico do design americano pode representar fora do quadro eurocêntrico. Para Rosana Corral, este estudo apresenta uma abordagem metodológica das leis fundamentais do design andino através de autores como Bruno Munari e Gui Bonsiepe, cujo pensamento de design permite estabelecer relações estéticas entre as várias culturas pré-colombianas e os respetivos valores culturais atualmente presentes na tecelagem. Este último estudo permitirá idealizar uma hipótese sobre a identificação de elementos que interpretem os fundamentos do design pré-colombiano com um enfoque no processo de design e no potencial criativo presente nas diferentes etapas do desenvolvimento do conceito. A antropologia sagrada proposta por Fernand Schwarz (2018) será a base epistemológica que conduzirá à estruturação da proposta, centrada nas bases conceptuais arquetípicas morfológicas universais reconhecidas nas expressões pré-colombianas, tanto andinas como existentes no restante território americano. Foram igualmente tidos em consideração outros estudos sobre morfologia a partir da perspetiva estética e plástica da arte, ou mesmo da semiótica aplicada ao design. Esta última tem desempenhado, até hoje, um grande papel ao nível investigativo, como acontece no estudo das expressões pré-colombianas, realizado por Zadir Milla E.: “Introducción a la semiótica del diseño andino precolombino” (2008), a partir do seu potencial de significados e interpretações possíveis de uma realidade. A tese do investigador Milla abre portas para uma série de novos conhecimentos identificados a partir da análise semiótica, através da qual o autor se propõe articular a relação entre conceitos de design e a análise morfológica e estrutural da estética pré-colombiana. Surge então uma primeira questão em torno da relação dos significados: porquê partir dos signos e factos morfológicos que a cultura material pré-colombiana possui? Num primeiro momento, tratar da morfologia "é o nosso documento histórico, religioso e estético, mais veraz e amplo, daqueles pensamentos singulares. Essas ancestrais obras visuais místicas e plásticas encerram seres essenciais que só se podem interpretar intuitivamente, com uma profunda vivência" (Sondereguer, 2003, p. 14). Os objetos arqueológicos encontrados não denotam apenas culturas ou civilizações passadas que deixaram a sua marca expressiva neles, mas, a partir do design, é necessária uma perspetiva hermenêutica para aprofundamento no ser e na génese. Ir além da leitura superficial da morfologia para entrar numa leitura fenomenológica do conteúdo dessa morfologia. Finalmente, o estudo converge num exercício académico realizado no primeiro nível da licenciatura em Design de Equipamento da FBAUL, que procura demonstrar a validade da hipótese colocada - poderão os elementos visuais andinos pré-colombianos, através das suas qualidades estruturais e morfológicas, bem como da cosmovisão que lhes é intrínseca, contribuir para a constituição de um novo modelo de fundamentação do processo criativo no design? - submetendo-a ao teste da implementação prática dos argumentos identificados ao longo do estudo, com o objetivo de introduzir e incentivar os estudantes a conduzir estratégias criativas baseadas no tema central da identidade pré-colombiana andina. Os resultados são analisados tendo por base uma visão dos fundamentos de design onde se reúnem aspetos sintáticos e semânticos da cosmovisão andina e uma perspetiva fundamentalmente fenomenológica do design, para a qual muito contribuíram os estudos pioneiros da Teoria do Campo de Atilio Marcolli (1974) e da pedagogia de Rowena Reed Kostellow, compilada na obra de Gail G. Hannah, “Elements Of Design. Rowena Reed Kostellow and the structure of visual relationships” (2002). A conclusão deste estudo sublinha a capacidade humana como geradora de modelos universais, reconhecendo ainda que cada cultura criou e continua criando modelos que se integram dentro da identidade de cada uma. Esta característica de universalidade permite desencadear um processo criativo passível de transcender culturalmente o exercício de design. Aqui, o design manifesta-se como a ferramenta que permite estabelecer conexões de ordem semântica e sintática entre a expressão pré-colombiana andina e os diversos processos criativos que o designer pretende explorar. Em simultâneo, atua como um recurso criativo em vários campos de conhecimento interdisciplinar, conseguindo desenvolver alternativas de processos inovadores.
Descrição
Tese de doutoramento, Belas-Artes, na especialidade de Design de Equipamento, 2025, Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes
Palavras-chave
Cultura e design Fenomenologia histórica Expressão pré-colombiana Fundamentos de design Arquétipo
