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Publicação

Lisboa nas narrativas estrangeiras do século XII

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Autores

Silva, Carlos Guardado da, 1971-

Orientador(es)

Resumo(s)

São de natureza diversa as narrativas estrangeiras do século XII sobre Lisboa, situando-se entre os textos dos geógrafos árabes herdeiros do género Masālik wa l-mamālik da escola nascida no Oriente, como o Kitāb al-masālik wa l-mamālik (Liber viarum et regnorum) de Ibn Ḫurradābih , e as narrativas epistolográficas dos cruzados participantes na conquista de Lisboa ou transmissores do acontecimento, redigidas em latim, nomeadamente os relatos de R[aol], Arnulfo, Vinando , Anónimo e Duodequino. De entre as três narrativas árabes de Lisboa, datadas do século XII, contam-se: o Kitāb Farḥat al-Anfus, de Ibn Ghālib , que morreu em Granada em 1175/1176; o Kitāb al-Ja‘rāfiyya, de Al-Zuhrī , autor almeriense, que morreu entre 1154 e 1161; e a Nuzhat al-muštāq fī Iḫtirāk al-afak (texto publicado em 1592, com o título De Geographia Universali ou kitāb Nuzhat…, de al-Idrīsī , que teria nascido em Ceuta em 493H./1099 e morrido na Sicília em 560H./1166 . Pois tendo ainda Yāqūt [ibn ‘Abd Allāh] al-Ḥamawῑ nascido em 575 H. /1179, na Ásia Menor, e morrido em Alepo, em 626 H./1229, a sua obra Mu‘jam al-Buldān [Dicionário dos países = كتاب معجم البلدان], uma compilação onde encontramos referências a Lisboa, data porém da segunda metade da década de 20 do século XIII, tendo sido escrito entre cerca de 1224 e 1228. Também são diversas as narrativas latinas estrangeiras, do século XII, relativas a Lisboa, maioritariamente de carácter epistolográfico, sendo talvez a mais conhecida o relato do cruzado R[aol] acerca da conquista de Lisboa em 1147, que integra um pequeno conjunto de textos coevos do acontecimento, como as cartas dos cruzados Arnulfo, Vinando, [Anónimo] e Duodequino, textos que, pelas suas semelhanças, levaram Charles W. David a considerá-los derivados de uma fonte comum, a que chamou “fonte teutónica”, o que seria confirmado recentemente por Susanne B. Edginton. Todavia, sendo textos relativos à Lisboa de Undecentos, objecto de análise por Maria João V. Branco e Aires A. Nascimento, focalizam-se nos acontecimentos de 1147, não nos oferecendo uma descrição da cidade, execepto no caso de R[aol], o autor do relato mais extenso da conquista de Lisboa, de que nos ocuparemos mais adiante. Adicionem-se ainda outras narrativas estrangeiras, do século XII, com referências pontuais a Lisboa: a Historia Compostellana, a Crónica do Imperador Afonso VII e a Crónica Najerense, provavelmente escrita nos anos 70 do século XII. Em conclusão, são escassas as referências a Lisboa nas narrativas estrangeiras, árabes e latinas, do século XII, testemunhando, claramente, o carácter periférico da cidade relativamente ao al-Andalus e ao Islão, assim como à Cristandade, in remotis mundi finibus. Todavia, Lisboa e o espaço em redor sobressaem nas descrições integrando uma região rica e dinâmica. Se é verdade que Idrīsī não cita Lisboa enquanto estaleiro naval, a referência de que os aventureiros lisboetas partem à descoberta do mar tenebroso [al-baḥr al-muẓlim], feito único nos anais da história muçulmana para a costa ocidental, mostra-nos que os seus habitantes tinham o hábito de navegar, por vezes, fora da vista das costas, e a construção de embarcações aparentemente capazes de afrontar o largo oceano. Deste modo, al-Idrīsī notara o papel da navegação e das actividades económicas ligadas ao mar no processo de evolução do tecido urbano e do peso demográfico da região, em crescimento desde o século IX. O cruzado inglês R[aol] confirma igualmente, e para o mesmo período, este dinamismo do porto de Lisboa , tal como a Historia Compostellana testemunha o porto de Lisboa nas escalas da esquadra dos Banū Maymūn, almirantes da frota almorávida, na primeira metade do século XII. A cidade beneficiava de um comércio marítimo e de riquezas mineiras, em particular as de Almada, tornando-se um centro artesanal e comercial activo, que vinha em crescendo desde o século IX. O autor do relato de A conquista de Lisboa aos mouros considera o porto de Lisboa como um dos portos mais importantes de al-Andalus com a presença de mercadores europeus e de África. Sendo uma praça estratégica, situada na embocadura do Tejo, beneficiou de uma conjuntura que se afirmou no século X sobre as zonas periféricas do mundo muçulmano. O exagero dos quantitativos populacionais pode dever-se tão-somente à constatação de uma forte densidade populacional em volta da cidade. Em suma, fica-nos, apesar das escassas informações, a ideia de um renascimento económico de longa duração. A actividade económica, segundo os autores árabes, gravitava em torno da cidade, apesar do peso demográfico e produtivo dos campos. Pois os circuitos comerciais e monetários – mais fiscais do que comerciais - partiam e terminavam nos centros urbanos. A cidade de Lisboa, como outras cidades médias do Gharb al-Andalus, criou uma rede urbana suficientemente estruturada para captar as energias económicas da terra e do mar, radiando sobre os campos. Uma economia viva e em desenvolvimento que permite mostrar que, no período islâmico e pelas mãos dos árabes, a navegação conheceu um forte impulso. Da riqueza descrita pelos geógrafos sobressai uma produção largamente dominada pela agricultura, fazendo depender da cidade a produção e o mundo rural. A cidade abrigava os rendeiros ricos, beneficiando da produção rural, através da comercialização dos produtos, mercado de destino dos excedentes dos camponeses, assim como para ela drenariam os impostos pagos por aqueles. Nas narrativas latinas, o acontecimento de maior relevo recai naturalmente na conquista de Lisboa, em Outubro de 1147, quer pela dimensão e simbolismo da empresa no alargamento do território da Cristandade, quer pela autoria dos textos, quer ainda pela integração do acontecimento na Segunda Cruzada, factores que contribuíram certamente para reforçar a fama do primeiro monarca, para além da Península Ibérica e junto da Santa Sé. Pois, como bem sintetizou Maria João Branco, se Lisboa parece não se afigurar para os muçulmanos como um local-chave na estratégia do domínio militar, já para os cristãos, «a conquista de Lisboa tinha um valor estratégico que ficava muito para lá dos aspectos meramente militares […]. Lisboa significava a consolidação das conquistas dos anos anteriores, e a translação definitiva do esforço de conquista do eixo do vale do Mondego para o do vale do Tejo» , onde verdadeiramente se engrandecera e consolidara a figura do primeiro monarca e se consolidaria a independência do reino, iniciada anos antes em Coimbra.

Descrição

Palavras-chave

História medieval Narrativas estrangeiras Narrativas latinas Narrativas árabes Lisboa

Contexto Educativo

Citação

«Lisboa nas narrativas estrangeiras do século XII». In: FERREIRA, Maria João Pacheco ; FLOR, Pedro ; VALE, Teresa Leonor M., coord. – Lisboa e os Estrangeiros, Lisboa dos Estrangeiros : até ao terramoto de 1755. Lisboa : Grupo Amigos de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2013. [vol. 1], p. 19-33.

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