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Orientador(es)
Resumo(s)
As tendências atuais, no sentido da prestação de cuidados em enfermagem de
acordo com um modelo biopsicossocial, deparam-se com uma necessidade institucional
simultânea no sentido da otimização de serviços e economia de custos o que, muitas das
vezes, se reflete em cortes de pessoal e no acesso dificultado aos recursos, colocando os
enfermeiros face a situações dilemáticas cujos efeitos negativos poderão fazer-se sentir
tanto a nível individual como organizacional. Torna-se, deste modo, importante o
estudo de variáveis que a literatura tenha revelado como estando associadas a resultados
positivos tanto para as organizações como para os indivíduos que nelas desenvolvem o
seu trabalho. Tratando-se a enfermagem de uma área profissional onde existe uma forte
componente relacional, revela-se particularmente pertinente o seu estudo à luz dos
conceitos das características relacionais do trabalho (CRT), do trabalho emocional e do
compromisso organizacional afetivo (COA), tendo este último evidenciado relações
consistentes com outcomes positivos tanto a nível individual como organizacional
(Meyer et al., 2002). O presente estudo teve, assim, como objetivo estudar as relações
existentes entre os efeitos psicológicos das CRT (impacto percebido do trabalho dos
enfermeiros na vida dos seus clientes e compromisso afetivo para com os seus clientes),
o trabalho emocional (dissonância emocional, exigências de expressão de emoções
positivas e exigências de expressão de emoções negativas) e o COA, numa amostra de
enfermeiros hospitalares portugueses. A originalidade deste estudo reside no facto de
utilizar pela primeira vez uma versão portuguesa de uma escala relativa às dimensões
dos efeitos psicológicos das CRT e, que seja do nosso conhecimento, investigar estas
referidas dimensões com uma amostra de enfermeiros hospitalares. Foram colocadas as
seguintes hipóteses:H1a - a perceção dos enfermeiros do impacto do seu trabalho na vida dos seus clientes
tem uma relação positiva com o COA;
H1b - o compromisso afetivo dos enfermeiros face aos seus clientes tem uma relação
positiva com o COA;
H2a - a perceção dos enfermeiros do impacto do seu trabalho na vida dos seus clientes
tem uma relação negativa com a dissonância emocional;
H2b - o compromisso afetivo dos enfermeiros face aos seus clientes tem uma relação
negativa com a dissonância emocional;
H2c - a perceção dos enfermeiros do impacto do seu trabalho na vida dos seus clientes
tem uma relação positiva com as exigências de expressão de emoções positivas;
H2d - o compromisso afetivo dos enfermeiros face aos seus clientes tem uma relação
positiva com as exigências de expressão de emoções positivas;
H2e - a perceção dos enfermeiros do impacto do seu trabalho na vida dos seus clientes
tem uma relação negativa com as exigências de expressão de emoções negativas;
H2f - o compromisso afetivo dos enfermeiros face aos seus clientes tem uma relação
negativa com as exigências de expressão de emoções negativas.
H3a - a dissonância emocional tem uma relação negativa com o COA;
H3b - as exigências de expressão de emoções positivas têm uma relação positiva com o
COA;
H3c - as exigências de expressão de emoções negativas têm uma relação negativa com
o COA.
H4a – a relação entre a perceção dos enfermeiros do impacto do seu trabalho na vida
dos seus clientes e o COA é mediada pela dissonância emocional (H4a1), pelas
exigências de expressão de emoções positivas (H4a2), e pelas exigências de expressão
de emoções negativas (H4a3). H4b – a relação entre o compromisso afetivo dos enfermeiros relativamente aos seus
clientes e o COA é mediada pela dissonância emocional (H4b1), pelas exigências de
expressão de emoções positivas (H4b2), e pelas exigências de expressão de emoções
negativas (H4b3).
A amostra foi constituída por 335 enfermeiros hospitalares (77.6% mulheres),
que participaram voluntaria e anonimamente, preenchendo um questionário, ao qual
acederam on-line, e que foi divulgado pela Ordem dos Enfermeiros junto dos seus
membros (através do seu site e numa das suas newsletters). Para a recolha de dados
foram utilizados os seguintes instrumentos: as dimensões das CRT foram medidas com
escalas constituídas por itens traduzidos e adaptados a partir dos estudos desenvolvidos
por Grant e colegas (Grant, 2008; Grant, 2008b; Grant & Campbell, 2007; Grant et al.,
2007); o trabalho emocional foi medido através da tradução portuguesa das Frankfurt
Emotion Work Scales (Zapf, Vogt, Seifert, Mertini, & Isic, 1999); e o COA foi medido
com uma tradução portuguesa de uma escala desenvolvida por Meyer, Allen, e Smith
(1993). Para o tratamento dos dados foram realizadas análises correlacionais e
regressões lineares. Nestas últimas foram controladas as variáveis relativas a: género
(devido a possíveis efeitos sobre o trabalho emocional e o COA); antiguidade no
hospital, responsabilidades de supervisão e acumulação com outro trabalho remunerado
(devido a possíveis efeitos sobre o COA). Verificou-se que apenas as hipóteses H1b,
H2c, H2d e H3b foram suportadas. Assim, os dados apontam no sentido de uma relação
positiva do compromisso afetivo dos enfermeiros face aos seus clientes com o COA e
com a perceção das exigências no sentido da evidência de emoções positivas, bem como
destas últimas com o COA. Contudo, não foi encontrada a relação de mediação
esperada por parte das exigências de evidência de emoções positivas. Uma das possíveis
explicações para esta ausência poderá estar relacionada com o fato da variável mediadora poder ser o compromisso afetivo dos enfermeiros face aos clientes e,
portanto, ser necessário investigar a possibilidade de percursos diferentes dos que foram
tidos em conta neste estudo. Por outro lado, embora tivesse sido encontrada a relação
prevista entre o impacto percebido pelos enfermeiros do seu trabalho na vida dos seus
clientes e as exigências de expressão de emoções positivas, o mesmo não sucedeu com a
relação esperada desta dimensão das CRT com o COA, pelo que se rejeitou aqui
também, a hipótese de mediação. O facto de apenas o compromisso afetivo para com os
clientes e não o impacto percebido pelos enfermeiros na vida dos seus clientes
apresentar relações significativas com o COA, poderá ser explicado devido a tratar-se
de constructos empiricamente distintos (Grant, 2008), tratando-se o primeiro de uma
atitude, enquanto que o segundo constitui uma expectativa. Foram igualmente rejeitadas
as hipóteses relativas às relações negativas previstas das dimensões dos efeitos
psicológicos das CTR com duas das dimensões do trabalho emocional, dissonância
emocional e exigências no sentido da evidência de emoções negativas, bem como destas
duas últimas com o COA. No que diz respeito às exigências da evidência de emoções
negativas, verifica-se que esta amostra reporta um nível muito baixo de expressão de
emoções negativas, o que pode explicar a ausência das referidas relações esperadas
relativamente quer aos efeitos psicológicos das CRT quer ao COA. Estudos futuros
poderão explorar estas relações entre estas variáveis em amostras de profissionais que
tipicamente apresentam um maior índice de exigências de evidência de emoções
negativas, tais como polícias. Quanto à dissonância emocional, no que concerne à
ausência da relação esperada com o COA, esta pode ser explicada pela ação de variáveis
moderadoras, tal como verificado em estudos anteriores (ex: Abraham, 1999), pelo que
estudos futuros poderão investigar o possível efeito moderador do apoio social e da
autoeficácia na relação entre estas duas variáveis. Este estudo tem algumas limitações que devem ser referidas: trata-se de um
estudo transversal, não permitindo o estabelecimento de relações de causalidade; os
dados foram obtidos exclusivamente através de questionários de autorresposta, o que
poderá contaminar os resultados através do método da variância comum; utiliza uma
amostra de conveniência, não podendo ser considerada representativa da população de
enfermeiros hospitalares portugueses; e, ainda, o facto dos dados terem sido recolhidos
exclusivamente em hospitais portugueses coloca dificuldades de generalização dos
resultados obtidos.
No que concerne às implicações práticas do presente estudo, os resultados
obtidos sugerem que, de forma a aumentar o COA, os hospitais devem procurar
fomentar o compromisso afetivo dos seus enfermeiros face aos clientes e, de igual
forma, encorajar a expressão de emoções positivas no exercício da prática da
enfermagem. Estes resultados chamam igualmente atenção para os potenciais
benefícios, tanto para os hospitais como para os enfermeiros, de manter estes
profissionais "próximos" dos seus clientes. Desta forma é dada oportunidade aos
enfermeiros para desenvolverem um vínculo afetivo face aos seus clientes, bem como
para testemunhar o impacto do seu trabalho nas vidas destes clientes. De igual forma,
um ambiente de trabalho no qual a evidência de emoções positivas seja encorajada e
valorizada, de acordo com os resultados obtidos neste estudo, poderá contribuir
positivamente para o compromisso afetivo dos enfermeiros, tanto relativamente ao
hospital como aos seus clientes, o que, por sua vez, constitui um benefício tanto para
estes profissionais como para as organizações onde trabalham.
This research aimed to study the relationships between relational job characteristics' (RJC) psychological effects, emotional work and affective organizational commitment (AOC) in a sample of Portuguese hospital nurses. A possible mediating effect of emotional work on the relationship between RJC psychological effects and AOC was also tested. This study used RJC psychological effects' scales for the first time in Portuguese, and, that we are aware of, with a sample of hospital nurses. The sample was constituted by 335 nurses that voluntarily filled in an on-line self-report questionnaire. Data analysis comprised correlations and linear regressions, and results only partially supported the proposed model. Results showed a significant relationship between nurses' affective commitment to clients and AOC, but not between nurses' perceived impact over clients and AOC. As expected, there is a positive and significant relationship between RJC psychological effects and positive emotion display requirements, as well as between the latter and AOC. However further analysis showed no mediating effects of positive emotion display requirements in the relationship between nurses' affective commitment to clients and their AOC, and therefore none of the hypothesized mediating effects were found. Results disconfirm as well the expected negative significant relationships between RJC psychological effects and negative emotion display requirements, as well as between the later and AOC. Findings underline the importance, in order to enhance their AOC, for hospitals to foster a working environment that encourages nurses' affective commitment towards clients as well as positive emotion displays.
This research aimed to study the relationships between relational job characteristics' (RJC) psychological effects, emotional work and affective organizational commitment (AOC) in a sample of Portuguese hospital nurses. A possible mediating effect of emotional work on the relationship between RJC psychological effects and AOC was also tested. This study used RJC psychological effects' scales for the first time in Portuguese, and, that we are aware of, with a sample of hospital nurses. The sample was constituted by 335 nurses that voluntarily filled in an on-line self-report questionnaire. Data analysis comprised correlations and linear regressions, and results only partially supported the proposed model. Results showed a significant relationship between nurses' affective commitment to clients and AOC, but not between nurses' perceived impact over clients and AOC. As expected, there is a positive and significant relationship between RJC psychological effects and positive emotion display requirements, as well as between the latter and AOC. However further analysis showed no mediating effects of positive emotion display requirements in the relationship between nurses' affective commitment to clients and their AOC, and therefore none of the hypothesized mediating effects were found. Results disconfirm as well the expected negative significant relationships between RJC psychological effects and negative emotion display requirements, as well as between the later and AOC. Findings underline the importance, in order to enhance their AOC, for hospitals to foster a working environment that encourages nurses' affective commitment towards clients as well as positive emotion displays.
Descrição
Tese de mestrado, Psicologia (Secção de Psicologia dos Recursos Humanos, do Trabalho e das Organizações), Universidade de Lisboa, Faculdade de Psicologia, 2013
Palavras-chave
Trabalho emocional Compromisso organizacional Enfermeiros Teses de mestrado - 2013
