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The art of cinematic storytelling is one that is ever evolving, from the groundbreaking showings of the Lumière brothers in the nineteenth century, to the appearance of sound, color, and a multitude of other techniques that come to define visual storytelling as one now knows it. This type of storytelling evolved not only in terms of its technical nature, but also in the kinds of stories told. However, what has mostly remained an issue in this art form has been the fact that stories including, or even entirely about minority groups, tend to be told from the perspective of a white gaze. That is, from the perspective of white readers to a white audience, which may distort the quality and the veracity of what is shown.
The twenty-first century has become the era in which the paradigm begins to shift, and many artists representative of minority communities are now telling their own stories. John Singleton, Spike Lee, Ryan Coogler and even Jordan Peele are merely some of the names that are now synonymous with black storytelling. Each of them has their own approaches as to how black stories are told, but the one that is relevant to this dissertation is Donald Glover’s. This actor/singer turned director came up with the television show Atlanta, who is famous for exploring a plethora of themes related to African-American lives in a satirical world that is Afro-Surreal. This dissertation aims to explore how Glover manages to navigate this world by focusing on certain episodes which explore different themes such as mysticism, appropriation, and racial passing, amongst others. However, prior to diving into this exploration, one will also have to attempt to identify what Afro-Surrealism truly is and explore whether or not it can or should be separated from European Surrealism, as it tends to be homogenized by many literary critics.
A cinematografia é uma arte que está em constante evolução. Esta evolução pode ser observada desde as exibições revolucionárias dos irmãos Lumière no século 19, com a chegada do som, cor, e toda uma panóplia de técnicas que acabaram por definir o cinema moderno. Esta evolução não se limita ao nível técnico da cinematografia, mas também ao tipo de estórias que são contadas. No entanto, algo que deve ser constatado, é o facto de que uma percentagem importante destas estórias que incluem grupos minoritários, tendem a ser contadas a partir da perspetiva de um “olhar branco”. O fenómeno do olhar branco no contexto cinematográfico pode ser descrito como uma visão deturpada, intencionalmente ou não, de narrativas de grupos minoritários. No contexto Afro-Americano, existe uma lista importante de filmes de escravatura, pobreza e de indivíduos de classe baixa que acabam por viver uma vida de crime ao fazer parte de gangues. Num contexto mais abrangente, existem até estórias de amor revisionistas entre nazis e judeus. Todavia, a partir da última década verifica-se uma possível mudança neste paradigma, com a chegada de uma nova estética cultural: O Afro-Surrealismo. O Afro-Surrealismo é um movimento que, apesar de ter sido popularizado em 2009 por D. Scot Miller, tem as suas origens no início do século 20. Este movimento pretende expor uma realidade que se esconde por trás de um mundo superficial e censurado por este “olhar branco”. Uma realidade vivida não só por Afro-Americanos, mas que se expande num contexto mundial. D. Scot Miller menciona uma lista de critérios que definem o carácter Afro-Surrealista no seu manifesto: Conseguimos observar mundos emergentes nas obras de Wilfredo Lam, cujas origens Afro-Cubas inspiram obras que falam de velhos deuses com caras novas, e nas obras de Jean-Michel Basquiat, que nos oferece novos deuses com caras velhas. O Afro-Surreal pressupõe que para além do mundo visível, existe um mundo invisível que ambiciona ser descoberto, e nós temos uma obrigação em encontra-lo. Como os Surrealistas africanos, os Afro-Surrealistas reconhecem que a natureza humana gera mais experiências surreais que qualquer outro processo ambiciona gerar. Os Afro-Surrealistas restauram o culto do passado, revisitando caminhos velhos com olhos novos. Nós apropriamo-nos de símbolos da escravatura do século 19 como Kara Walker. Nós reintroduzimos a “loucura” como visitas dos deuses, e reconhecemos a possibilidade da magia. Os Afro-Surrealistas usam o excesso como a única forma legitima de subversão, e a hibridização como forma de desobediência. Olhamos para Kehinde Wiley, cuja observação do corpo masculino negro se aplica a toda a arte e cultura: “Não existe arte objetiva. E não existe forma de olhar para uma imagem de forma objetiva.” A Afro-Surrealista é fluída, cheia de pseudônimos e censo, e desafia expectativas. Não tem morada, ou número de telefone, nem uma disciplina especifica… Os Afro-Surrealistas são ambíguos. “Sou preto ou gay? Hétero ou gay? Controvérsia!” O Afro-Surrealista rejeita a escravatura silenciosa que caracteriza os papéis existentes dos afro-americanos, asiático-americanos, latinos, mulher e pessoas queer. Apenas através da mistura, fusão e conversão cruzada destas supostas classificações, é que se pode encontrar a esperança de libertação. O Afro-Surrealismo é intersexual, afro-asiático, afro-cubano, místico, tolo e profundo (Miller, 2009). Este movimento acabou por influenciar várias obras atuais, como é o caso da série Atlanta. Inicialmente, a série segue a vida de quatro personagens principais: Earn, Paper Boi, Darius e Van. Um ponto em comum entre estas quatro personagens, é o facto de que todas elas vêm de origens humildes, e pretendem quebrar as barreiras sociais que os limitam, no centro de uma Atlanta que é completamente Afro-Surreal. Contudo, à medida que a série avança, a natureza não-conformista desta obra também leva a sua audiência a observar estórias independentes dessas personagens em certos episódios, cujas diferenças podem ser tanto físicas como socioculturais. Esta escolha criativa abre caminho para explorar diversos temas que não poderiam ser explorados apenas com um elenco restrito, pois isso também poderia resultar numa perspetiva unidimensional, o que ocorre com o denominado olhar branco. Tendo estes detalhes em conta, esta dissertação divide-se em sete capítulos diferentes, que exploram várias temáticas críticas para a compreensão da vida Afro-Americana, como: Os perigos de apropriação cultural e a facilidade da propagação da mesma, a forma como o Afro-Surrealismo utiliza o misticismo como forma de introspeção e descoberta de identidade, a cultura de cancelamento, entre outros. No entanto, existe um outro elemento que é crucial para o desenvolvimento desta dissertação: O Surrealismo. O Surrealismo pode ser descrito como um movimento artístico que tem um carácter subversivo, no que toca, mas não se limita, ao seu lado estético. Este movimento procura uma introspeção independente da lógica, ou todo outro tipo de restrições intelectuais. D. Scot Miller não nega a influência do Surrealismo na corrente do Afro-Surrealismo, visto que muitos dos supostos precursores do movimento eram autointitulados surrealistas. Todavia, o Afro-Surrealismo é considerado por muitos como uma mera variante deste movimento artístico. Tendo esta discrepância em conta, a dissertação começara a sua investigação com uma exploração, primeiramente do que diferencia o Afro-Surrealismo do Afro-Futurismo. Após esta distinção, a dissertação passará a uma investigação a certos capítulos do livro Radical Dreams: Surrealism, Counterculture, Resistance, que definem a sua própria perspetiva do Surrealismo, que neste caso é visto como um movimento de carácter político que teve uma influência no desenrolar da História do século 20. O livro tem como base uma série de eventos cruciais na cultura dos Estados Unidos nesse século como a Guerra no Vietnam, o assassinato de figuras importantes na luta pelos direitos civis como Martin Luther King, Malcolm X, os irmãos Kennedy, entre outros mártires. Os critérios importantes dessa análise são épocas de desconfiança das instituições que dirigem a sociedade, e também de situações violência excessiva que acabariam por ter alusões acidentais ao Surrealismo. Esta análise terá a capacidade de expor a teoria de que o Afro-Surrealismo não passa a ser mais do que uma variante como incorreta, pois isso também acabaria por pôr em questão o estatuto do Surrealismo como um movimento independente. Esta teoria pode ser desmentida, em parte, citando o conceito de originalidade na teoria da Morte do Autor de Roland Barthes. Barthes descreve a originalidade como uma impossibilidade, pois qualquer tipo de escritura ou pensamento, é na verdade, uma cópia de algo que já foi dito antes. Esta teoria tem o seu mérito, e isto pode ser comprovado pelas influências do Surrealismo e Afro-Futurismo no Afro-Surrealismo. No entanto, uma análise às origens do Surrealismo poderia também provar que este movimento provém do Dadaísmo. Continuando a lógica, nenhum movimento teria a capacidade de ser original. Por esse motivo, a dissertação conclui com uma reflexão sobre a eficácia da série Atlanta como um veículo que, a partir do Afro-Surrealismo, expõe fenómenos socioculturais da sociedade Afro-Americana. Esta reflexão terá em conta a perceção do público Afro-Americano sobre a série e também os possíveis objetivos por trás da narrativa.
A cinematografia é uma arte que está em constante evolução. Esta evolução pode ser observada desde as exibições revolucionárias dos irmãos Lumière no século 19, com a chegada do som, cor, e toda uma panóplia de técnicas que acabaram por definir o cinema moderno. Esta evolução não se limita ao nível técnico da cinematografia, mas também ao tipo de estórias que são contadas. No entanto, algo que deve ser constatado, é o facto de que uma percentagem importante destas estórias que incluem grupos minoritários, tendem a ser contadas a partir da perspetiva de um “olhar branco”. O fenómeno do olhar branco no contexto cinematográfico pode ser descrito como uma visão deturpada, intencionalmente ou não, de narrativas de grupos minoritários. No contexto Afro-Americano, existe uma lista importante de filmes de escravatura, pobreza e de indivíduos de classe baixa que acabam por viver uma vida de crime ao fazer parte de gangues. Num contexto mais abrangente, existem até estórias de amor revisionistas entre nazis e judeus. Todavia, a partir da última década verifica-se uma possível mudança neste paradigma, com a chegada de uma nova estética cultural: O Afro-Surrealismo. O Afro-Surrealismo é um movimento que, apesar de ter sido popularizado em 2009 por D. Scot Miller, tem as suas origens no início do século 20. Este movimento pretende expor uma realidade que se esconde por trás de um mundo superficial e censurado por este “olhar branco”. Uma realidade vivida não só por Afro-Americanos, mas que se expande num contexto mundial. D. Scot Miller menciona uma lista de critérios que definem o carácter Afro-Surrealista no seu manifesto: Conseguimos observar mundos emergentes nas obras de Wilfredo Lam, cujas origens Afro-Cubas inspiram obras que falam de velhos deuses com caras novas, e nas obras de Jean-Michel Basquiat, que nos oferece novos deuses com caras velhas. O Afro-Surreal pressupõe que para além do mundo visível, existe um mundo invisível que ambiciona ser descoberto, e nós temos uma obrigação em encontra-lo. Como os Surrealistas africanos, os Afro-Surrealistas reconhecem que a natureza humana gera mais experiências surreais que qualquer outro processo ambiciona gerar. Os Afro-Surrealistas restauram o culto do passado, revisitando caminhos velhos com olhos novos. Nós apropriamo-nos de símbolos da escravatura do século 19 como Kara Walker. Nós reintroduzimos a “loucura” como visitas dos deuses, e reconhecemos a possibilidade da magia. Os Afro-Surrealistas usam o excesso como a única forma legitima de subversão, e a hibridização como forma de desobediência. Olhamos para Kehinde Wiley, cuja observação do corpo masculino negro se aplica a toda a arte e cultura: “Não existe arte objetiva. E não existe forma de olhar para uma imagem de forma objetiva.” A Afro-Surrealista é fluída, cheia de pseudônimos e censo, e desafia expectativas. Não tem morada, ou número de telefone, nem uma disciplina especifica… Os Afro-Surrealistas são ambíguos. “Sou preto ou gay? Hétero ou gay? Controvérsia!” O Afro-Surrealista rejeita a escravatura silenciosa que caracteriza os papéis existentes dos afro-americanos, asiático-americanos, latinos, mulher e pessoas queer. Apenas através da mistura, fusão e conversão cruzada destas supostas classificações, é que se pode encontrar a esperança de libertação. O Afro-Surrealismo é intersexual, afro-asiático, afro-cubano, místico, tolo e profundo (Miller, 2009). Este movimento acabou por influenciar várias obras atuais, como é o caso da série Atlanta. Inicialmente, a série segue a vida de quatro personagens principais: Earn, Paper Boi, Darius e Van. Um ponto em comum entre estas quatro personagens, é o facto de que todas elas vêm de origens humildes, e pretendem quebrar as barreiras sociais que os limitam, no centro de uma Atlanta que é completamente Afro-Surreal. Contudo, à medida que a série avança, a natureza não-conformista desta obra também leva a sua audiência a observar estórias independentes dessas personagens em certos episódios, cujas diferenças podem ser tanto físicas como socioculturais. Esta escolha criativa abre caminho para explorar diversos temas que não poderiam ser explorados apenas com um elenco restrito, pois isso também poderia resultar numa perspetiva unidimensional, o que ocorre com o denominado olhar branco. Tendo estes detalhes em conta, esta dissertação divide-se em sete capítulos diferentes, que exploram várias temáticas críticas para a compreensão da vida Afro-Americana, como: Os perigos de apropriação cultural e a facilidade da propagação da mesma, a forma como o Afro-Surrealismo utiliza o misticismo como forma de introspeção e descoberta de identidade, a cultura de cancelamento, entre outros. No entanto, existe um outro elemento que é crucial para o desenvolvimento desta dissertação: O Surrealismo. O Surrealismo pode ser descrito como um movimento artístico que tem um carácter subversivo, no que toca, mas não se limita, ao seu lado estético. Este movimento procura uma introspeção independente da lógica, ou todo outro tipo de restrições intelectuais. D. Scot Miller não nega a influência do Surrealismo na corrente do Afro-Surrealismo, visto que muitos dos supostos precursores do movimento eram autointitulados surrealistas. Todavia, o Afro-Surrealismo é considerado por muitos como uma mera variante deste movimento artístico. Tendo esta discrepância em conta, a dissertação começara a sua investigação com uma exploração, primeiramente do que diferencia o Afro-Surrealismo do Afro-Futurismo. Após esta distinção, a dissertação passará a uma investigação a certos capítulos do livro Radical Dreams: Surrealism, Counterculture, Resistance, que definem a sua própria perspetiva do Surrealismo, que neste caso é visto como um movimento de carácter político que teve uma influência no desenrolar da História do século 20. O livro tem como base uma série de eventos cruciais na cultura dos Estados Unidos nesse século como a Guerra no Vietnam, o assassinato de figuras importantes na luta pelos direitos civis como Martin Luther King, Malcolm X, os irmãos Kennedy, entre outros mártires. Os critérios importantes dessa análise são épocas de desconfiança das instituições que dirigem a sociedade, e também de situações violência excessiva que acabariam por ter alusões acidentais ao Surrealismo. Esta análise terá a capacidade de expor a teoria de que o Afro-Surrealismo não passa a ser mais do que uma variante como incorreta, pois isso também acabaria por pôr em questão o estatuto do Surrealismo como um movimento independente. Esta teoria pode ser desmentida, em parte, citando o conceito de originalidade na teoria da Morte do Autor de Roland Barthes. Barthes descreve a originalidade como uma impossibilidade, pois qualquer tipo de escritura ou pensamento, é na verdade, uma cópia de algo que já foi dito antes. Esta teoria tem o seu mérito, e isto pode ser comprovado pelas influências do Surrealismo e Afro-Futurismo no Afro-Surrealismo. No entanto, uma análise às origens do Surrealismo poderia também provar que este movimento provém do Dadaísmo. Continuando a lógica, nenhum movimento teria a capacidade de ser original. Por esse motivo, a dissertação conclui com uma reflexão sobre a eficácia da série Atlanta como um veículo que, a partir do Afro-Surrealismo, expõe fenómenos socioculturais da sociedade Afro-Americana. Esta reflexão terá em conta a perceção do público Afro-Americano sobre a série e também os possíveis objetivos por trás da narrativa.
