| Nome: | Descrição: | Tamanho: | Formato: | |
|---|---|---|---|---|
| 3.15 MB | Adobe PDF |
Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
Apesar das suas origens relativamente recentes, a teoria queer é hoje em dia vista como uma
disciplina académica em crescimento, principalmente graças ao seu diálogo inovador com
outros campos de estudo. No entanto, no meio académico português esta é ainda invisível, em
especial dada a sua relevância teórica e social. E mesmo a nível internacional, as pesquisas
realizadas sobre identidades queer em estudos de cinema permanecem relativamente escassas.
Embora os trabalhos inovadores de críticos como Vito Russo, Alexander Doty, Harry Benshoff
e Sean Griffin, ou Kylo-Patrick Hart tenham sido profundamente influentes em apontar
questões queer no cinema, e apesar do crescimento verificado nestes discursos, estes são ainda
insuficientes.
Além disso, embora abordadas pelos estudiosos mencionados, as análises teóricas e
críticas em relação a sexualidades e corpos queer no cinema americano também são recentes
no meio académico. Contribuições de estudiosos como Linda Williams, Douglas Keesey, Nick
Davis, Rodrigo Gerace ou Maria San Filippo abriram o debate sobre as representações da
sexualidade no cinema, mas muitos desses estudos limitam-se a uma pequena seleção de
leituras específicas ou surgem como uma visão geral da sexualidade ao longo da história do
cinema sem haver necessariamente um foco queer. A maioria dos estudiosos também não
considerou uma nova ascensão digital do cinema independente queer americano, que vem
crescendo desde o final dos anos 2000, e que requer agora um olhar mais detalhado. Infundida
com uma nova vitalidade, a área de estudos de filmes queer fornece novos terrenos para
pesquisas cujo limite ainda é desconhecido.
Este projeto de doutoramento, intitulado “Queering the Body of Desire: The Male Form
and Homoeroticism in New Queer Cinema and the New Queer Cinema Renaissance”, visa
seguir esse raciocínio explorando as representações do corpo masculino sexualizado e do desejo
homoerótico no cinema independente americano entre 1986-2016. Reconhecendo a ausência
de retratos de intimidade queer e a contínua deturpação do mesmo no cinema americano
mainstream durante a maior parte do século XX, este estudo pretende explorar o modo como a
sexualidade masculina gay se empoderou face a uma discriminação contínua.
Tendo em mente que retratos queer vanguardistas diminuíram no fim do milénio, o
projeto desenvolverá especificamente uma abordagem comparativa entre o New Queer Cinema
(NQC), um movimento subversivo na história do cinema queer que ganhou força no final dos
anos 80/ início dos anos 90, e uma nova onda de filmes independentes queer transgressivos, o
New Queer Cinema Renaissance (NQCR), que surgiu no final dos anos 2000/ início dos anos 2010, enfatizando como os domínios entrelaçados da estética, do sociocultural e da política se
manifestam nos corpos masculinos e no desejo queer e evoluíram ao longo de um período de
30 anos.
A escolha do título “Queering the Body of Desire” tem por princípio duas perspetivas
fundamentais: por um lado, o título faz uma clara alusão à discussão de retratos
cinematográficos preocupados com sexualidades, desejos e corporeidades queer que serão
essenciais neste projeto. Por outro, o título também fala sobre o silenciamento contínuo das
expressões sexuais queer no cânone cinematográfico mais amplo ou corpus (body em inglês)
fílmico que lida com o desejo. Afinal, e como mencionado, o meio cinematográfico
heteronormativo ignorou repetidamente reflexões necessárias sobre identidades sexuais e de
género não conformes durante a maior parte do século XX. Ainda hoje, em tempos de maior
diversidade no cenário sociopolítico e cinematográfico americano, a intimidade e o sexo queer
continuam a ser assuntos tabu nas grandes produções cinematográficas, provando que o afeto
entre indivíduos LGBTQIA+ é ainda muito disruptivo para ser retratado em tela.
No entanto, se mudarmos o nosso foco para o cinema underground e independente,
descobrimos que esses filmes ofereceram maneiras mais subversivas de lidar com a sexualidade
desde o seu início, servindo como pioneiros de uma voz e estética queer cinematográficas
únicas. Por isso mesmo, torna-se relevante que este projeto reflita sobre queerness no contexto
do cinema independente americano, centrando-se em questões de visibilidade queer, bem como
representações do olhar desejante, performatividade de género e corporalidade, que estão, por
sua vez, todas ligadas ao ato de olhar, a base de toda a visualização de filmes. Ao considerar
uma ampla variedade de filmes queer subversivos, pretende-se entender particularmente como
a sexualidade queer masculina foi capaz de se reconstituir diante do ressurgimento persistente
da discriminação homofóbica que atingiu o auge na década de 1980 com o surgimento da crise
da SIDA, que resultou na patologização e discriminização imediata da comunidade gay
masculina. Ao longo deste projeto, são destacadas também as várias tentativas de desconstruir
a ênfase persistente em retratar o homoerotismo masculino como insalubre e mortal no contexto
da SIDA, além de explorar como novas ondas de cineastas foram capazes de oferecer
representações abrangentes das realidades sexuais masculinas e o físico masculino sexualizado.
O vasto campo dos estudos de sexo e género obrigaram a uma escolha consciente de
uma exclusiva atenção do corpo e das experiências masculinas: reconhecer que a sexualidade
masculina e feminina (e outras facetas fluidas da sexualidade) representam diferentes
paradigmas que foram tratados de formas muito distintas no cinema é fundamental para permitir
uma análise mais profunda das representações do homoerotismo no cinema. Enquanto os corpos femininos geralmente são explorados no meio fílmico para agradar o olhar masculino (como
analisado, por exemplo, no ensaio “Visual Pleasure and Narrative Cinema” de Mulvey), os
discursos cinematográficos normativos geralmente desconsideram uma exploração mais
profunda do físico masculino e o reconhecimento de uma projeção de experiências sexuais
masculinas.
Ao restringir o vasto conceito de queerness ao estudo mais especificamente detalhado
das masculinidades queer, este projeto pretende olhar para a desconstrução dessas tradições e,
simultaneamente, contribuir para uma subárea inovadora dos estudos de género, o crescente
campo dos estudos de masculinidade. Com isso em mente, não é intuito deste projeto reforçar
a separação essencialista entre géneros, sexos ou orientações sexuais. Esta escolha foi feita por
razões de pura precisão metodológica. Além disso, como os muitos exemplos teóricos e
cinematográficos encontrados ao longo deste estudo irão revelar, os discursos sobre
sexualidades masculinas, femininas e não-binárias nunca podem ser totalmente separados uns
dos outros.
Considerando que o cinema independente queer se tornou de forte interesse comercial
e, portanto, sujeito por vezes a limitações comercializáveis, é fundamental reconhecer não
apenas diretores independentes famosos, mas também cineastas vanguardistas. Apesar de
alguns dos primeiros filmes queer underground e de vanguarda pioneiros, de Fireworks
(Kenneth Anger, 1948) a My Hustler (Andy Warhol, 1965), serem considerados brevemente
nesta discussão, o principal foco de análise assenta em quatro exemplos de longas-metragens
que representam questões específicas relacionadas à sexualidade, e que simultaneamente
também definem profundamente cada onda cinematográfica. Ao escolher esses filmes, também
houve o cuidado de que estes fossem simbólicos dos momentos iniciais de cada movimento
(Mala Noche [1986] de Gus Van Sant e Shortbus [2006] de John Cameron Mitchell) e outros
dois que representassem os movimentos já no auge da sua influência (The Living End de Gregg
Araki [1992] e Spa Night de Andrew Ahn [2016]).
Por fim, este projeto visa representar a investigação europeia de uma forma inclusiva e
inovadora. Embora fundamentado nos Estudos Americanos, este estudo constituirá uma
abordagem interdisciplinar que atravessa fronteiras ao reconhecer a profunda inter-relação entre
o cinema americano e o europeu. Reconhecendo as questões LGBTQIA+ como características
definidoras da vida do século XXI, este projeto irá ainda envolver-se numa investigação
fundamentada sobre os desafios da sociedade contemporânea, ao mesmo tempo que reduz a
exclusão social de identidades marginalizadas no panorama académico português.
This study aims at analyzing the various representations of the sexualized male body and homoerotic desire in American independent film from 1986-2016. Acknowledging the absence of portrayals of queer intimacy and the continuous misrepresentation thereof in American mainstream film throughout most of the 20th century, this project will address the ways in which gay male sexuality has gained agency in the face of continual discrimination. Bearing in mind that radical queer portrayals decreased towards the turn of the millennium, I will specifically engage in a comparative approach between New Queer Cinema, a subversive movement in queer film history that gained momentum in the late 1980s, and a new wave of transgressive queer independent films, the New Queer Cinema Renaissance, that emerged in the early 2010s, emphasizing how the intertwined realms of the aesthetic, sociocultural, and political play out across male bodies and queer desire and have evolved over a time span of 30 years. By considering a wide variety of subversive queer films, I aim to understand how male queer sexuality became empowered in the face of persistently resurging homophobic discrimination that gained its peak in the 1980s with the emergence of AIDS and the immediate scapegoating and pathologizing of the gay male community. This study will thus document the fight against a lack of visibility concerning the male queer body and sexuality in film, while stressing the various attempts at deconstructing the persistent emphasis on depicting male homoeroticism as unhealthy and deadly in the AIDS context, besides scrutinizing how new waves of filmmakers were able to offer diversity-embracing representations of male sexual realities and the sexualized masculine physique.
This study aims at analyzing the various representations of the sexualized male body and homoerotic desire in American independent film from 1986-2016. Acknowledging the absence of portrayals of queer intimacy and the continuous misrepresentation thereof in American mainstream film throughout most of the 20th century, this project will address the ways in which gay male sexuality has gained agency in the face of continual discrimination. Bearing in mind that radical queer portrayals decreased towards the turn of the millennium, I will specifically engage in a comparative approach between New Queer Cinema, a subversive movement in queer film history that gained momentum in the late 1980s, and a new wave of transgressive queer independent films, the New Queer Cinema Renaissance, that emerged in the early 2010s, emphasizing how the intertwined realms of the aesthetic, sociocultural, and political play out across male bodies and queer desire and have evolved over a time span of 30 years. By considering a wide variety of subversive queer films, I aim to understand how male queer sexuality became empowered in the face of persistently resurging homophobic discrimination that gained its peak in the 1980s with the emergence of AIDS and the immediate scapegoating and pathologizing of the gay male community. This study will thus document the fight against a lack of visibility concerning the male queer body and sexuality in film, while stressing the various attempts at deconstructing the persistent emphasis on depicting male homoeroticism as unhealthy and deadly in the AIDS context, besides scrutinizing how new waves of filmmakers were able to offer diversity-embracing representations of male sexual realities and the sexualized masculine physique.
Descrição
Palavras-chave
New Queer Cinema Renaissance Cinema - Estados Unidos - 1986-2016 Homossexualidade - No cinema Identidade sexual - No cinema New Queer Cinema (NQC) New Queer Cinema Renaissance (NQCR) Teses de doutoramento - 2023
