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Learning to fly: a Trans-spatial Ethonograpy on Body Suspensions in Europe

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Resumo(s)

Com o objetivo de explorar a prática da suspensão corporal, a presente investigação contribui para o conhecimento do corpo, modificações corporais, dor, ritos de passagem, experiências sensoriais, estado de consciência alterado, discriminação social, interações através de estratégias online e offline, e processos de construção do sentido de identidade e de pertença na comunidade geograficamente não restrita da Europa contemporânea. O projecto Learning to Fly. A trans-spatial ethnography on body suspensions investiga os significados que os praticantes regulares associam à prática da suspensão. Numa abordagem multissensorial e com uma metodologia qualitativa, a investigação explora interações online e offline, que foram abordadas como interligadas e abordadas numa perspectiva trans-espacial. Quando uma pessoa deseja experimentar uma suspensão corporal, uma equipa de suspensão é contactada. O grupo de facilitadores - ou seja, os profissionais que assistem o praticante - proporciona a inserção de ganchos na pele do protagonista, como piercings temporários. Os ganchos são ligados a um andaime acima através de cordas, e, puxando-as, o praticante é elevado durante o tempo que desejar. A posição e o número de ganchos inseridos na pele dependem da figura da suspensão (a pose), que pode ser estática ou dinâmica, horizontal ou vertical, com um ou mais praticante ligados ao mesmo andaime ou um sobre outro. Quando a suspensão é concluída, os facilitadores cortam as cordas que conectam a pessoa do andaime e providenciam os cuidados pós- suspensão. Luvas de uso único, máscaras e géis desinfetantes caracterizam todas as fases que envolvem competências biomédicas para proporcionar uma experiência segura e livre de infeções. As suspensões corporais foram investigadas como ritos religiosos entre alguns grupos de Nativos Americanos e no Sul da Ásia, mas apenas uma escassa bibliografia explorou a prática contemporânea na Europa, onde as motivações dos praticantes não estão forçosamente relacionadas com a religião. As suas vozes não ouvidas não estão representadas, sendo que quando são deslegitimadas com pressupostos baseados na dor, desqualificam a sua capacidade de julgamento, como sintoma de deficiência psicológica ou de um desvio sexual/moral. Isto torna as suspensões contemporâneas invisíveis, uma forma de experiência de dor voluntária cujos significados não são explorados. Sob a perspetiva de uma não-praticante, a presente etnografia baseia-se na observação participante de 16 eventos de suspensão entre 2016 e 2019, uma etnografia online e entrevista qualitativa semi-estruturada com 58 praticantes de suspensão, com idades entre os 23 e 55 anos e diversificada em termos de género, educação, profissão e experiência de suspensão. A fim de melhorar as estratégias comunicativas e apoiar as dificuldades dos parceiros de investigação em seguir lógicas logo-cêntricas de expressão, um laboratório criativo e experimental implementou o trabalho de campo: os parceiros epistémicos co-criaram objetos simbólicos com o etnógrafo, com a possibilidade de operar mudanças logo após a suspensão. Envolvendo todos os sentidos e multiplicando as possibilidades de expressão, os objetos manufaturados tornaram-se referência de narrativas orais, capazes de materializar ideias que autorizavam as palavras a recuperar o poder comunicativo. A cooperação através de objetos reforçou a intimidade com os parceiros epistémicos, melhorando a compreensão mútua e reduzindo a distância etnográfica. Começando com uma reconstrução histórica, o Capítulo 1 ilustra personagens-chave que influenciaram a cultura de suspensão contemporânea. Num percurso cronológico do movimento dos Primitivos Modernos nos Estados Unidos da América, a análise mostra a difusão dos primeiros festivais europeus no início do novo milénio, quando as suspensões se tornaram práticas recreativas não relacionadas com abordagens espirituais. A seleção de episódios destaca o desenvolvimento do lado relacional das suspensões, a ligação com outras modificações corporais e com as dimensõe artístico-performativa. O estado da arte no Capítulo 2 introduz a estigmatização da suspensão com a análise de uma bibliografia patologizante que estigmatiza a dor envolvida na prática. Numa abordagem fenomenológica, a suspensão é analisada como uma performance social e o Capítulo 3 ilustra os valores e a organização interna da comunidade de suspensão corporal, emicamente chamada hook family (família do gancho), mesmo se a adesão é criticada por alguns praticantes. A experiência do trabalho de campo fundamenta o Capítulo 4, com base na observação dos participantes em reuniões de suspensão selecionadas em Portugal, Itália e Noruega. A circulação de suspensões entre os locais exigiu uma abordagem multi-situada para investigar os significados, expectativas, motivações e valores relacionados com a prática das suspensões. Itália e Noruega acolhem os festivais de suspensão de base anual mais populares da Europa desde há vinte anos, com mais de uma centena de festivaleiros a reunirem-se durante três a cinco dias. Numa perspetiva comparativa, os eventos de suspensão em Portugal mostraram a preferência pelo encontro diário privado com 5-10 pessoas, onde as narrativas de suspensão se centraram na privacidade e intimidade de um número limitado de espectadores como características para experiências de sucesso, privilegiando a relação praticante-facilitador em vez de laços com outros praticantes. Além das diferenças, os dados etnográficos mostraram a ligação entre suspensões e outras modificações corporais, indicando que as experiências de suspensão não são episódios isolados na vida dos seus praticantes: estão inseridas num caminho de experimentação e autodefinição através de experiências corporais e marcas de pele, onde o corpo é o espelho do self e vice-versa. As suspensões são significadas numa ligação com uma rede de atos de cuidado, tutela e promoção da pessoa, relacionando-se também com treino desportivo, meditação e regimes alimentares, indicando significados construtivos e positivos associados à prática. O capítulo 5 alarga a rede de trabalho de campo analisando grupos do Facebook dedicados à suspensão e às interações entre profissionais na Internet. A etnografia reproduz estratégias comunicativas dos praticantes, baseadas em posts, imagens, vídeos, mensagens WhatsApp e Messenger, que contribuem na circulação de significados e valores de suspensão entre eventos e durante os mesmos. Os contactos presenciais e as interações online estão interligados e inseridos numa cadeia de reações sustentadas coletivamente pela comunidade. Através de espaços online e offline, numa abordagem trans-espacial, a comunidade (re)produz-se a si própria. A abordagem trans-espacial, inspirada pelo transnacionalismo dos estudos migratórios, centra-se no movimento das práticas e significados, em vez de limitar a observação a um único espaço de ação. Sendo sensível à forma como as interações online influenciam os espaços off-line e como as reuniões presenciais por sua vez moldam os conteúdos online, a abordagem trans-espacial propõe uma perspetiva teórica para abordar um grupo geograficamente sem restrições. O último capítulo 6 aborda a significação da dor, o estado de consciência alterado esperado através da prática e os efeitos de longo prazo das suspensões. A dor é uma parte obrigatória do processo: apesar de desagradável é indispensável para a alteração das capacidades perceptivas. A dor provoca uma perturbação sensorial na perceção do corpo, do eu, dos outros e do ambiente, resultando numa regeneração profunda do indivíduo. As suspensões também podem ser momentos egocêntricos através dos quais o indivíduo processa crises de vida, mudanças profissionais e de amor, ou encontros e experiências eleitas como basilares da sua personalidade. O tempo e o espaço da suspensão restabelecem uma versão do eu não corrompido pela crise e enriquecido pela encarnação de novas relações, permitindo assim uma restauração da pessoa. Neste sentido, as suspensões são investimentos no eu, confirmando uma abordagem empreendedora que visa melhorar o desempenho social dos seus praticantes - tanto dentro e fora da comunidade de suspensão -com projetos corporais baseados em modelos de excelência caracterizados pela unicidade, originalidade, autenticidade e felicidade. Tais valores confirmam trabalhos pós-modernos que indicam a auto-definição e a auto-promoção como responsabilidades dos indivíduos.
Learning to Fly explores the body suspension in contemporary Europe, an experience involving the insertion of metal hooks in the skin as temporary piercings; they are linked to an above scaffolding through ropes and, pulling the main one, the protagonist is elevated for a variable time. The research investigates suspendees’ experiences and meanings associated to the practice, exploring expectations, motivations and social behaviors related to suspension. The fieldwork selected social contexts where suspension takes place and are narrated, especially festivals and one-day events in Portugal, Italy, Norway, and on Facebook groups. The qualitative methodology is composed by participant observation, qualitative interviews, an online ethnography and a creative laboratory as practice-based method to enhance the oral communication. Suspendees practice embedding shared values as member of the body suspension community, also called hook family. Online and offline interlaced interactions (re)produced the body suspension culture through spaces, in a trans-spatial perspective, with the circulation of posts, pictures, videos, statements, emotions and meanings of suspension. The motion nourishes a sense of belonging to the group and an identity-poiesis, based on an interpretation of suspension as emotionally bonding and with self-exploratory purposes. Suspending, people work on themselves to (re)generate and enhanced version of them. Pain is a controversial ingredient of the experience, being the main base for delegitimating behaviors by non-suspendees. Even if unpleasant, pain is embraced as essential to trigger the hormonal kick responsible for the alteration of ordinary perceptual abilities. In a self-poietical and phenomenological perspective, the research analyses suspension narratives and trance experiences as empowering processes creating a brave, original, authentic and enhanced self. Connected to a net of acts of body care and experiences of body manipulation, suspensions are only apparently destructive practices: rather, they are forms of self-empowerment, socialized in an affective-based social environment.

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Suspensão corporal Dor Transe Trans-espacialidade Etnografia experimental

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