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Vós, Vocês, and the Null Subject in European Portuguese

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Orientador(es)

Resumo(s)

O foco desta dissertação é estudar detalhadamente os pronomes da 2ª pessoa do plural (2PL) vós, vos e vosso(s)/vossa(s), e os morfemas verbais da 2PL para compará-los com a inovação dominante e crescente que consiste na substituição pela 3ª pessoa do plural (3PL), o que se traduz na expansão de vocês, morfemas verbais da 3PL e os pronomes correspondentes os/as, lhes, e seu(s)/sua(s), no português europeu (PE). Além disso, analisam-se as ocorrências de sujeitos nulos com formas verbais morfologicamente 2PL e 3PL, mas semanticamente 2PL, com o objetivo de comparar a frequência de uso de sujeitos nulos em dialetos que retêm as seis pessoas gramaticais na morfologia verbal e aqueles que retêm apenas cinco, tendo removido a 2PL. Começando por consultar Cunha & Cintra (1984) como exemplo de gramática tradicional, vêse que a 2PL é ainda prescrita, porém já nesta gramática se aponta que é pouco usada hoje em dia. Além disso, em Cunha & Cintra (1984) a “mistura de tratamentos”, quer dizer, uma combinação de pronomes acusativos/dativos ou possessivos de 2ª pessoa (vos, vosso(s)) com o pronome nominativo vocês não é recomendada. Contudo, os dados disponíveis em Segura (2013), Lara Bermejo (2015) e Aguiar & Paiva (2017), mostram que vocês é usado com verbos na 2PL em partes do Norte de Portugal, e, por outro lado, na maioria do Centro-Sul, onde vocês substituiu definitivamente vós, persistem o clítico vos e o possessivo vosso(s)/vossa(s). É com Lara Bermejo (2015) que se apresenta um modelo concreto para explicar estas combinações, mostrando a progressiva inserção da inovação vocês e correspondentes flexões verbais e pronomes acusativos, dativos e possessivos no PE. O modelo de progressão da mudança de Lara Bermejo (2015) é: sujeito/reflexivo/verbo > acusativo > dativo > possessivo. Este autor também mostra a presença da inovação vocês nos distritos de Aveiro e Viseu, no Norte de Portugal. O presente estudo propõe uma fase a mais do que Lara Bermejo (2015), autonomizando o sujeito e assim ampliando o modelo, que passa a incluir um passo adicional no desenvolvimento faseado da inovação: sujeito > reflexivo/verbo > acusativo > dativo > possessivo. Esta proposta tem originalmente por base alguns dados de Segura (2013) e Aguiar & Paiva (2017) e é depois confirmada por dados do Corpus Dialetal para o Estudo da Sintaxe/Syntax-oriented Corpus of Portuguese Dialects, que constitui a base empírica central da presente tese. Uma outra hipótese deste trabalho é que um paradigma verbal com cinco pessoas não resultará em taxas mais baixas de ocorrência de sujeitos nulos, nem afetará a característica do PE de ser uma língua de sujeito nulo (LSN). Enquadra-se esta questão com referência à história do parâmetro do sujeito nulo (PSN), considerando a teoria original de Chomsky (1981) e Rizzi (1982) e os subsequentes refinamentos teóricos propostos por Huang (1984, 1989) e Jaeggli & Saffir (1989). Por fim, este estudo concorda com a ideia de Roberts (1993) de que uma LSN que utiliza a morfologia verbal para identificar o sujeito requer “riqueza funcional” para se manter [+ LSN]. Esta riqueza funcional significa que o paradigma verbal não pode ter mais que um sincretismo, um termo usado para descrever a fusão (ingl. merger) de duas pessoas gramaticais morfologicamente distintas em uma só. Aplicando este modelo ao PE, este estudo mantém a hipótese de que a perda dos verbos da 2PL não afetará o traço [+ LSN] do PE. Estudam-se detalhadamente os dados provenientes do Corpus Dialetal para o Estudo da Sintaxe/Syntax-oriented Corpus of Portuguese Dialects (CORDIAL-SIN) com o objetivo de afinar o entendimento da propagação da inovação vocês. A análise dos dado permite mostrar que a inovação já se tinha implantado, a Norte, nos distritos de Braga, Porto, Aveiro e Viseu até a década 90, o último período de coleta de dados para o ALEPG (em curso), depois usados para a constituição do CORDIAL-SIN, e que também já estava presente nos dialetos insulares do PE, além naturalmente dos dialetos centro-meridionais. Os distritos do Porto e Aveiro evidenciam estar na segunda fase de expansão da inovação, tendo substituído o pronome sujeito vós por vocês, e os distritos de Viseu e Braga evidenciam estar na primeira fase, quando o pronome vós coocorre com vocês. Nos dialetos insulares, os dados são menos conclusivos, mas estando todo o Centro-Sul de Portugal pelo menos na terceira fase, com a excepção da área de Lisboa onde a norma culta travou a inovação após a segunda fase, supõe-se que os dialetos insulares também se encontrem, minimamente, na terceira fase, de acordo com o modelo: sujeito > reflexivo/verbo > acusativo > dativo > possessivo. Após analisar os dados da localidade Covo, em Aveiro, vê-se que este dialeto já removeu o sujeito vós, mas continuam a ocorrer verbos na 2PL, com sujeitos nulos e com o pronome sujeito vocês. A localidade Granjal, em Viseu, mostra a coexistência de vós e vocês como tratamentos informais. Os dados destas duas localidades apoiam o modelo proposto aqui de cinco fases de progressão da mudança, a primeira sendo a perda do sujeito. As localidades do Norte de Portugal também mostram uma forte retenção do imperativo da 2PL, e uma retenção menos forte do indicativo, o que leva à proposta de um modelo conjuntivo/condicional/infinitivo pessoal > indicativo > imperativo para a substituição das formas verbais de 2PL pelas de 3PL. Por fim, fazendo uma comparação quantitativa da frequência de sujeitos nulos, os dados mostram que as taxas de uso de sujeito nulo são semelhantes entre os dialetos com cinco morfemas verbais e os com dialetos com seis, apoiando a hipótese de que se requer uma redução mais significativa no paradigma de flexão verbal para que se perca a riqueza funcional necessária para suportar uma LSN estável. Este trabalho considera ainda outras fusões e inovações nas pessoas gramaticais do português, incluindo a inovação a gente no PE, que não originou a perda da morfologia verbal da 1ª pessoa do plural (1PL). Esta inovação é forte no português brasileiro (PB), como é mostrado por Sória (2013), entre muitos outros, mas não é tão dominante no PE. Tomando em conta os dados de Sória (2013), um estudo paralelo a este que examina nós, a gente, e o sujeito nulo de 1PL no CORDIAL-SIN, vê-se que a inserção do pronome a gente no sistema pronominal do PE não causa uma perda do verbo 1PL, pelo menos com sujeitos nulos. Aliás, a gente não funciona como vocês porque não aceita um sujeito nulo verdadeiro – o pronome a gente apenas pode ser elidido quando tem o antecedente acessível no discurso. Isto significa que o PE, até agora, apenas tem uma fusão no paradigma verbal, entre 2PL e 3PL. O pronome a gente só originaria no PE um segundo sincretismo se fizesse perder o uso de 1PL com sujeito nulo, o que não é o caso até agora. Pelo contrário, em alguns dialetos a gente pode concordar com o verbo na 1PL. Comparando o PE com o PB, descrevem-se as fusões morfológicas que ocorreram no PB, e particularmente tu/você, o que é um fenómeno do século XX que é muito complexo e bem documentado. Primeiramente, considera-se a diferença histórica e linguística entre o PB culto e o PB vernáculo, este último tendo fortes raízes no contacto linguístico com aloglotas africanos na colonização do Brasil e apresentando traços advindos de transmissão linguística irregular (Baxter, 1997, 2009; Lucchesi 2001, 2009a, 2009b; Lucchesi, Baxter & Silva, 2009; entre outros). Com estas informações, nota-se que o desenvolvimento do sincretismo tu/você não segue percurso idêntico ao do sincretismo vós/vocês no PE. No Rio de Janeiro, evidencia-se que o emprego do sujeito tu desceu drasticamente no início do século XX juntamente com o possessivo teu(s)/tua(s), mas o acusativo te continuava a ser usado (Lopes, Rumeu & Carneiro, 2013; Souza, 2014; Lucena, 2016). Analisa-se depois a perda de vós no PB. Esta perda terá começado no início do século XIX, ou mais cedo, mas está pouco documentado e é, portanto, difícil de analisar. Nas cartas estudadas por Lopes & Machado (2005) encontra-se o clítico vos em mais de um autor, preservado na despedida epistolar, e o pronome possessivo vosso na linguagem do autor mais conservador. Portanto, vê-se que o pronome sujeito e a flexão verbal da 2PL desapareceram primeiro, no PB tal como no PE, mas permanece incerto se o clítico vos desapareceu antes ou depois do possessivo vosso. Fazendo uma análise holística do PB no início do século XX, quando se tornou uma LSN parcial, apresentam-se outros fenómenos relevantes além da perda dos verbos da 2SG, em particular a tendência que se manifesta em algumas variedades do PB para a expansão da 3ª pessoa do singular (3SG), originando novas fusões morfológicas. Este fenómeno linguístico parece relacionar-se com fatos de história externa, como o influxo grande de negros libertos para o Rio de Janeiro após a abolição, cujos dialetos apresentariam paradigmas verbais com apenas duas ou talvez três distinções morfológicas de pessoa-número, e também um crescente uso da 3SG com um sentido indeterminado e arbitrário (Nunes, 1990). Relativamente à propriedade de sujeito nulo, estes dialetos corresponderiam a uma LSN parcial ou talvez uma não LSN, o que pode ter impulsionado o PB culto a perder o traço [+ LSN]. Como conclusão geral do estudo, confirma-se a hipótese de que a fusão vós/vocês no PE não afeta a estabilidade do PE enquanto LSN, afirma-se que o modelo de implementação desta inovação é sujeito > reflexivo/verbo > acusativo > dativo > possessivo, e propõe-se que, até aos anos 90, a inovação vocês foi implantada em todo o Centro-Sul, nos arquipélagos dos Açores e da Madeira e, a Norte, nos distritos de Braga, Porto, Aveiro e Viseu.
The focus of this dissertation is a detailed study of the 2nd person plural (2PL) pronouns and verbs, which include vós, vos, and vosso(s)/vossa(s), and the 2PL verbal morphemes in comparison with the dominant and spreading 3rd person plural (3PL) vocês innovation, with the corresponding 3PL verbal morphology and pronouns os/as, lhes, and seu(s)/sua(s), in European Portuguese. Furthermore, null subject pronouns for both of these semantically 2PL addresses are gathered and analyzed to compare rates of null subjects in dialects which retain six grammatical persons in the verbal morphology and those which retain only five, having removed the grammatical 2PL. The hypothesis is that a five person verbal paradigm will not result in lower rates of null subjects, nor will it affect European Portuguese’s trait of being a null subject language (NSL). These are studied primarily referencing the Corpus Dialectal para o Estudo da Sintaxe/Syntax-oriented Corpus of Portuguese Dialects (CORDIAL-SIN), and with reference to other existing data and studies of the 2PL, particularly Lara Bermejo (2015). The present study elaborates on the spread of the vocês innovation, showing its presence in the northern Portuguese districts of Braga, Porto, Aveiro, and Viseu by and in the insular Portuguese dialects by the 1990s, the latest period of the data used in the CORDIAL-SIN. Refining the Lara Bermejo (2015) model with a separate step for the subject pronoun, the model subject pronoun > reflexive/verb > accusative > dative > possessive is proposed. The location Covo, in Aveiro, supports this model, showing no occurrences of vós in contrast with many occurrences of 2PL verbs with null subjects or the subject vocês. The study also finds imperative verbs to be the most resilient, and indicative verbs to be the secondmost, giving a replacement model of subjunctive/conditional/personal infinitive > indicative > imperative. Making a quantitative comparison, the data for null subjects shows that rates of use are similar between dialects with five verbal morphemes and those with six, supporting our hypothesis that the null subject property requires a more significant reduction in the verbal paradigm for a language to shift to a partial or non Null Subject Language (NSL). Finally, this work considers other mergers and innovations in the grammatical persons of Portuguese, including the a gente innovation in European Portuguese, which has not replaced the 1st person plural (1PL) verbal morphology and therefore does not constitute a loss of a grammatical person, and the tu/você merger in Brazilian Portuguese, providing a nuanced perspective on Brazilian Portuguese’s transition to a partial NSL in light of available evidence. The overall conclusion is that the vós/vocês merger innovation is incapable of changing European Portuguese from a NSL to a (BP-like) partial NSL, and that the language retains the functional richness Roberts’ (1993) proposes as necessary for the property [+ NSL].

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Língua portuguesa - Pronomes Língua portuguesa - Sujeito nulo (Linguística) Teses de mestrado - 2021

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