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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
No final do século XIX, devido às mudanças socioculturais alavancadas por novidades
científicas como a teoria evolucionista de Darwin e a ciência psicológica de Freud, histórias que
quebravam as fórmulas tradicionais da escrita passaram a ganhar cada vez mais espaço,
adicionando nuance e incerteza à prática narrativa. 1 Um dos fenómenos literários que surgiu neste
período foi o conceito do narrador não fidedigno, ou seja, um narrador que, por incapacidade de
perceber seu mundo ficcional de forma objetiva, desonestidade ou inabilidade narrativa, não dá ao
leitor uma visão precisa sobre a realidade da história que conta. A análise dessa estratégia literária
começou com Wayne C. Booth e Seymour Chatman, que defendiam que a deteção de um narrador
não fidedigno dependia da distância entre o narrador e o autor implícito ao texto. James Phelan e
Ansgar Nünning, por sua vez, propunham que o essencial para a deteção de um narrador não
fidedigno era a distância entre esse narrador e o leitor implícito ao texto.
Devido a essas diferenças ideológicas e à complexidade do assunto, a deteção e análise do
narrador não confiável tornou-se uma área de debate entre os teóricos da literatura até os dias
atuais, nos quais duras críticas são encontradas a essas teorias. De uma forma ou de outra, todas
estas teorias utilizam-se de elementos externos ao texto para avaliar fatores internos a ele, e, através
de diversas falácias lógicas, usam de métodos prolixos e desnecessários para chegar a um resultado
aceitável mas impreciso de deteção do narrador não confiável.
Tais teorias desconsideram o fator das interferências entre a intenção do narrador e o que
está de facto escrito no texto e a impossibilidade de verificação de interpretações pessoais
subjetivas. Ao mesmo tempo, todas baseiam-se de uma forma ou de outra no texto, antes de seguir
para conclusões diferentes. Ao focar uma análise textual no texto em si, encontra-se uma forma de
respeitar seu nível ontológico, de manter-se focado apenas em informações diretamente ligadas ao
narrador e de garantir que todos os argumentos tenham uma origem verificável. Theresa Heyd
propõe uma teoria de deteção do narrador não fidedigno que leva, justamente, tais parâmetros em consideração. Esta teoria é mais confiável e verificável por fazer uma análise textual e pragmática
sobre os contextos envolvidos em cada parte do texto e por buscar contradições expressadas pelo
narrador dentro da ficção de forma a detetar seu status como não fidedigno. Com base nessa teoria,
conduzo uma análise do texto escolhido para a dissertação, “The Repairer of Reputations”, primeiro
conto na coletânea de contos The King in Yellow (1895), de Robert W. Chambers.
O narrador deste conto é Hildred Castaigne, um estudioso que acaba de sair de um
sanatório após uma queda de cavalo. Durante seu tratamento, Hildred leu uma peça banida por seu
conteúdo subversivo, homónima à coletânea. Durante as primeiras páginas do conto, Hildred expõe
viver numa Nova Iorque dos anos 1920, futurista em relação à data de publicação do livro. Hildred
descreve o contexto social e histórico dessa América, de forma simples e vaga, pintando um retrato
curioso do país: uma distopia nacionalista, militarista e eugenista, onde a segregação é a lei e até
doentes mentais são incentivados a um suicídio legal através da instalação de Câmaras Letais por
todo o país. Este retrato, no entanto, é apresentado de forma positiva por Hildred, que certamente
compartilha destas ideologias sociopolíticas. Afinal, segundo o narrador, ele nunca teve qualquer
problema psicológico, e seu internamento foi desnecessário e injusto. De facto, Hildred crê ser o
herdeiro da Dinastia Imperial da América, e que seu internamento e o casamento de seu primo são
golpes políticos para impedi-lo de assumir o trono.
Numa análise mais objetiva a seguir o modelo de Heyd, conclui-se que Hildred é um
narrador extremamente não fidedigno. Ele demonstra discordar de muitas coisas aceitas por outros
personagens, mente ou omite informações do leitor e de outros personagens, descreve-se de formas
que não condizem com seu comportamento, falha em manter descrições consistentes de seus
arredores, e por fim, termina a história capturado por organizar uma tentativa de assassinato, e
falece em um manicómio para os criminalmente insanos, enquanto continua a julgar-se como vítima
de um golpe político.
É também suspeito que toda a descrição da América de Hildred seja tão próxima de seus próprios valores pessoais, tendo influências estilísticas da mesma era da história militar que o
narrador tem em sua biblioteca, e adotando características que refletem seus interesses e
sentimentos pessoais. Mesmo a descrição positiva feita por ele quebra quando analisada com mais
cuidado, e diversos problemas morais e sociais podem ser encontrados nessa sociedade
apresentada como ideal pelo personagem.
Com isto em mente, seria fácil descartar quase todos os aspetos da narrativa de Hildred
como não fidedignos, mas há pontos que os complicam. Outros personagens, tidos como
relativamente e até mesmo muito fidedignos na narrativa, em certos pontos, interagem com a
realidade descrita por Hildred, e mesmo oferecem testemunhos e fazem comentários que apoiam as
teorias de conspiração que o guiam. É praticamente impossível determinar com precisão onde
terminam os delírios do narrador e começa sua realidade.
No entanto, o foco desta dissertação é estabelecer um panorama da psicologia de Hildred,
não detetar os limites de sua realidade ficcional. O que percebe-se é que Hildred lida com a leitura
da peça e seus conteúdos como um trauma, e, como muitas pessoas que têm traumas não tratados,
entra em negação sobre a experiência traumática. Neste estado de negação, transforma o objeto de
seu trauma em uma ferramenta que o dará poder (a peça é o que lhe faz descobrir sua suposta
linhagem nobre), permitindo-lhe revisitar a experiência traumática de forma ativa. Aliena-se ao resto
do mundo, julgando-os ignorantes por não terem lido a peça, e permite verdadeira conexão apenas
com aqueles que concordam e apoiam aquilo que ele pensa. Todos os outros, a seu ver, são
mal-intencionados ou mal-informados, e portanto suas opiniões não contam. Hildred distancia-se da
sociedade normal, nega as próprias limitações, e por fim constrói uma narrativa delirante em que ele
é sempre a vítima, mas tem um grande destino a cumprir; que valida sua paranoia e desconfiança
expressa através do conto, e que o permite manter uma auto-imagem heroica mesmo enquanto
pratica ações amorais e por vezes abertamente imorais – para Hildred, é tudo culpa de outros, e
para garantir seu destino, tudo é permitido. Este padrão de pensamento faz um paralelo extremamente próximo ao descrito por
Theodor W. Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel J. Levinson e R. Nevitt Sanford em The
Authoritarian Personality e com a forma de governo descrita por Hannah Arendt em The Origins
of Totalitarianism . As duas obras detetam uma forma de pensar que aprende a avaliar a si e a
outros conforme uma performance de conformidade a determinados valores. O que importa são as
aparências, e não há conexão profunda entre um indivíduo e qualquer ideologia específica, mas
apenas a performance desta ideologia e o quanto esta performance lhe permite expressar frustração
e projetar culpa àqueles que não se encaixam nela (como é o caso dos segregados no país fictício
de Hildred). É um padrão de pensamento fortemente influenciado pela divisão de pessoas em
grupos e uma falta de compreensão de igualdade, guiado por busca de poder e autoridade de forma
a diminuir a sensação de insegurança causada pelo confronto com a realidade, e as ansiedades
causadas por suas próprias limitações humanas. Para o autoritário, isto acontece a nível individual.
Para o estado totalitário, isto acontece ao nível de um país inteiro. No conto, percebe-se isto no
personagem narrador, que constitui uma representação ficcional porém realista de um processo
mental como este.
The concept of the unreliable narrator has been studied and debated ever since its appearance at the end of the XIX century, with several theories attempting to analyse it and determine how best to detect it. By analysing the prevalent canonized theories critically, and creating a panorama of the discussion, this dissertation detects several issues with their proposed methodologies, and finds more common ground with newer theories such as Theresa Heyd's pragmatic approach. By utilizing these methods, this dissertation analyses Hildred Castaigne, the narrator character of “The Repairer of Reputations”, the first short story in the anthology The King in Yellow , (1985) by Robert W. Chambers. Hildred is found to be an extremely unreliable narrator, to the point where it is impossible to determine precisely where his delusions end and his reality begins. His psychological processes also parallel the psychological processes described in Adorno et al.'s The Authoritarian Personality and the sociological processes in Hannah Arendt's The Origins of Totalitarianism . By creating a layer of denial and delusion through which he can protect his self-image and project his evil deeds as justified in attempts to protect against perceived greater evils, Hildred, the authoritarian individual and the totalitarian government seek to impose their will on the world, and thus protect themselves from feeling helpless and vulnerable ever again.
The concept of the unreliable narrator has been studied and debated ever since its appearance at the end of the XIX century, with several theories attempting to analyse it and determine how best to detect it. By analysing the prevalent canonized theories critically, and creating a panorama of the discussion, this dissertation detects several issues with their proposed methodologies, and finds more common ground with newer theories such as Theresa Heyd's pragmatic approach. By utilizing these methods, this dissertation analyses Hildred Castaigne, the narrator character of “The Repairer of Reputations”, the first short story in the anthology The King in Yellow , (1985) by Robert W. Chambers. Hildred is found to be an extremely unreliable narrator, to the point where it is impossible to determine precisely where his delusions end and his reality begins. His psychological processes also parallel the psychological processes described in Adorno et al.'s The Authoritarian Personality and the sociological processes in Hannah Arendt's The Origins of Totalitarianism . By creating a layer of denial and delusion through which he can protect his self-image and project his evil deeds as justified in attempts to protect against perceived greater evils, Hildred, the authoritarian individual and the totalitarian government seek to impose their will on the world, and thus protect themselves from feeling helpless and vulnerable ever again.
Descrição
Palavras-chave
Chambers, Robert William , 1865-1933 - Personagens Chambers, Robert William - 1865-1933. The king in yellow Narração Narração na primeira pessoa Análise do discurso narrativo Verdade e mentira - Na literatura Autoritarismo (Psicologia) - Na literatura Alienação social - Na literatura Teses de mestrado - 2021
