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Women in the “Land of Do Without” : Ecofeminist Sensitivities in Harriette Arnow’s Hunter’s Horn

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Resumo(s)

This thesis offers an ecofeminist reading of Appalachian author Harriette Arnow’s novel Hunter’s Horn (1949). The local multitudes of biological life and an individual rootedness in place, played in concert with a strong patriarchal and fundamentalist religious system have, in Appalachia, forged a deeper awareness of the entangled harms perpetrated against the bodies of women and the earth. This piece aims to illuminate the many ensconced or covert opportunities of liberation that Arnow’s female characters create and expressly practice in the rhythm of domestic and agrarian life. My first chapter explores ecofeminist theory and aims to demonstrate how all manifestations of oppression are potentially interlinked and mutually enforcing. I further elaborate an alternative moral paradigm that will sustain my two analysis chapters. In my second chapter, I set out for a rediscovery of a female frontier’s mythology and how its narrative is reflected in the characters’ lives and interrelationships with nature. I intend to illustrate the compatibility and similarities between a female frontier mythology of ‘place-sharing’ and some of the ethical values of an (eco)feminist ‘caring-for paradigm’. By investigating an alternative agrarian or ‘garden trope’, I encounter an unmediated flux between different territorialities and beings, in a cultural setting punctuated by an explicit time-place unity, or where present and past meet in the constant (re)weaving of myth. In my third and last chapter I examine the two critically distinct, yet interrelated woman-animal connections carved out in the author’s work. Shared/intersectional oppressions or, beings whose independence and individuality are thwarted by a mutually oppressive complex, can, through bonds of kinship, achieve liberation and a broader sense of flourishing. Now if Arnow’s characters may find transgressive power in their interrelationships with animals, there is no denying that, from a local patriarchal standpoint, the notions of femininity and animality overlap. In fact, from the context of repression and domination, both women and animals’ embodiments become an exploited and negotiated ‘territory’. The conclusion I propose is that a space of unalloyed wilderness, a tier of nature that is not inscribed by human laws, remains most congenial to discourses of liberation for any identity that is socially devalued. Arnow is also keen on demonstrating how the quest for individual transgression may further illuminate a way of living ever in between different communities.
Esta tese procura recuperar traços de eco-feminismo no livro Hunter’s Horn (1949), escrito por Harriette Simpson Arnow, autora nativa da região americana dos Apalaches. O romance relata a vida de uma família precariamente integrada num sistema económico/cultural agrário e autossuficiente nas montanhas de Kentucky, na véspera da segunda guerra mundial. Apesar do termo eco-feminismo com a sua atual carga social e política ter nascido em 1974, a chamada mountain culture ou literature apresenta, desde o seu auge enquanto expressão literária regional (séc. XIX), sensibilidade e perspicácia perante a interseção de modos de opressão ambientais, políticos e sociais. A própria geografia e abundância ecológica das montanhas, considerada uma das biomassas mais extensas da Terra, assim como a forte ideologia patriarcal e a cultura religiosa fundamentalista, terá certamente ajudado nesta fusão de discursos feministas e ambientais. Por outro lado, o facto de, num contexto Americano mais amplo, esta região e a sua cultura serem fortemente estereotipadas e marginalizadas, e a sua paisagem continuamente explorada pelas indústrias de extração mineira, produz complexos e ambíguos efeitos intraculturais. Se a marginalização cultural da região fomenta, por um lado, uma maior consciência e mesmo estratégias de libertação individual, por outro, solidifica também relações de género fortemente opressivas, especialmente dentro da unidade doméstica ou no círculo familiar. Estamos, assim, perante uma ‘estrutura concêntrica’ de opressões. O eco-feminismo é uma filosofia que aborda os vários sistemas de opressão e dominação como interligados e nascentes de um substrato ideológico comum, o sistema patriarcal. De facto, focando-se principalmente na limitação histórica e cultural da mulher, assim como na crescente exploração ecológica no contexto da superestrutura ‘androcêntrica’ e capitalista, os pensadores eco-feministas criticam os sistemas de emancipação que não incluem outras entidades reprimidas, sejam estas humanas ou não. O primeiro capítulo desta tese debruça-se sobre estes mecanismos de opressão, e recorre a vários dos conceitos utilizados na posterior análise literária. Na primeira parte do capítulo destaco e analiso uma forma de identidade ou ‘ser’ fortemente segregada e alienada do ‘outro’ e hierarquicamente dualizada; depois proponho uma alternativa ética e moral que, através do reconhecimento de diferença, pluralidade e individualidade, procura respeitar a intenção ou ‘bem último’ de cada ser vivo. É de salientar ainda que, ao contrário de outras correntes de pensamento ambiental, o eco-feminismo concentra-se no individuo, e não necessariamente no coletivo, um aspeto sem dúvida herdado da ‘ética de solidariedade’ feminista. O segundo capítulo, que funciona como uma introdução à obra da autora, visa demonstrar a incidência ou compatibilidade entre uma re-imaginação feminina do mito da fronteira americana e a ética de solidariedade feminista, a chamada “ética do cuidado” (care ethics). A ‘experiência’ da fronteira americana desencadeia duas respostas fundamentalmente diferentes, perante a ocupação do vasto território selvagem, ou terra nulius, do continente Americano. Por um lado, surge a idealização masculina da natureza como ser feminino, materno e fortemente erotizado, o que acaba por se traduzir numa ânsia de poder e conquista. Por outro, vemos a preocupação feminina, explorada por exemplo por Annette Kolodny (1984), de transformar o espaço não familiar e por vezes ameaçador num lugar habitado e emocionalmente experienciado, através da criação de um espaço doméstico. Deste modo, a natureza não é conquistada, dizimada ou suplantada pois, através do motivo literário do ‘jardim/horta’ é estabelecida uma maior harmonia e fluidez entre o indivíduo e a natureza. Esta bifurcação nas visões de género torna-se, pois, evidente nos modos de inter-relação com o meio não humano, e permeia a argumentação crítica desta tese. Se, por um lado, pretendo explorar a necessidade compulsiva da personagem principal masculina em liquidar a vida de um animal selvagem, marca visível de uma ansiedade de purificação do espaço recém-humanizado, por outro, examino também a maneira como o impulso feminino doméstico engendra uma fluidez mais profunda entre as diversas territorialidades e os diferentes seres vivos que habitam estes espaços. Além disso, o argumento de que as personagens do romance revivem ou reformulam a experiência de um dos mitos fundadores do imaginário americano permite-me explorar a fusão espácio-temporal tão evidente na cultura dos Apalaches, em vez de reforçar os estereótipos de nostalgia sentimental ou deficiência cultural/económica continuamente atribuídos à região. Nesse sentido, a experiência de um tempo ou ritmo cíclico em vez de linear é, para além da memória coletiva ou do storytelling, projetada e realçada na própria topografia e abundância da paisagem, distinguindo os dois traços de identidade acima descritos. Enquanto a ‘mulher da montanha’ demonstra um entusiasmo perante a interseção entre as várias comunidades sociais e naturais, cultivando assim também uma libertação profundamente pessoal, a personagem principal masculina movimenta-se visivelmente numa espacialidade mais ‘ameaçadora’, isto é, num terreno que precisa de ser dominado. A caça, que dá nome ao romance, e que terá uma decisão tão avassaladora no destino da família retratada, representa narrativamente esta ‘ansiedade’. Assim, apesar de socialmente condicionadas e restringidas ao espaço doméstico (na tentativa constante de encontrar e preservar um lugar de carga pessoal e emocional num ambiente desafiador), as mulheres alcançam um certo grau de subversão dos imperativos socioculturais e dos ditames de género. De facto, a noção de ‘domesticidade’ e a sua extensão têm de ser reavaliadas segundo o contexto geográfico. Christine Cuomo aponta para este aspeto: as “perspetivas epistemologicamente enriquecidas” (“epistemically rich perspectives”) (58), ou os espaços/situações culturalmente e economicamente invisíveis, sustentam não só a sobrevivência da comunidade, como também iluminam um conhecimento mais profundo da bioregião, e uma sensibilidade para com o bem individual de outros seres vivos. Tendo em mente, então, a importância da contextualidade no pensamento feminista, a ética do cuidado traduz-se numa questão de saber ajudar o outro, que pode não partilhar a nossa experiência como ser humano. O terceiro capítulo explora os dois tipos de conexão mulher-animal criticamente distintos e interligados na obra. Ainda que as personagens femininas, e algumas figuras masculinas, por vezes subvertam o significado cultural da sua inscrição corporal nas inter-relações com o mundo animal, de uma perspetiva patriarcal o conceito de feminilidade é relegado a um domínio de animalidade ou de natureza inferior. De facto, a reprodução feminina e o corpo dos animais são explicitamente abusados e podem mesmo adquirir um valor utilitário e instrumentalista na cultura representada por Arnow. Nesse sentido, os seres humanos e não-humanos, subjugados por uma entidade ou ideologia comum, podem, através de laços de afinidade, de uma prática de compaixão ou, como Jessica Benjamin defende, de uma prática de “intersubjetividade”, atingir formas de libertação mútua e garantir um maior ‘desabrochar’ natural e pessoal. A nível textual, esta ‘aliança construtiva’ é garantida pelo facto de as personagens não humanas serem, em várias ocasiões, individuadas e incluídas como participantes na narrativa. Assim, a autora consegue criar um diálogo entre humano e não humano com significado ético e ecológico que não parte de uma diferenciação hierárquica ou antropocêntrica, evadindo os dualismos ocidentais de racionalidade/irracionalidade e humano/não-humano. Um dos meus argumentos principais realça como, abrindo possibilidades transgressivas, estes laços de afinidade acabam por ser benéficos e construtivos, não só para os animais ou para os sistemas ecológicos em geral, mas também para as personagens humanas (femininas ou masculinas) oprimidas. Contudo, afirmar que se pode retirar um valor ecológico das relações partilhadas entre humanos, maioritariamente personagens femininas, e animais, não esclarece os mecanismos subjacentes a estas tentativas de transgressão/libertação. A segunda parte deste capítulo analisa então a interseção mulher-animal de um ponto de vista patriarcal e repressivo, demonstrando os efeitos prejudiciais que resultam da ‘animalização’ das mulheres e da ‘feminização’ da natureza/animais. Esta parte constitui a chave para uma leitura eco-feminista eticamente viável: o contexto de opressão mútua pode substanciar uma postura solidária a que damos ainda pouco valor nos nossos discursos ambientais. Ademais, o cruzamento do conceito de feminilidade com o de animalidade justifica-se na obra por quatro razões: a divisão do trabalho, que ‘naturaliza’ o confinamento da mulher e do animal num espaço conceptual inferiorizado; a monopolização da racionalidade como característica unicamente masculina; a redução do feminino às suas capacidades biológicas e um fundamentalismo religioso de raízes patriarcais. O sistema religioso, a que dou especial relevância, não só abrange ou sustenta as outras três razões, mas reconhece o homem como protótipo ou exemplar de Deus, concebendo a mulher e os animais como inferiores. Por fim, esta tese conclui que um espaço selvagem, isto é, um território ou formas de vida não inscritas nos princípios e nas expetativas socioculturais, algo que os protagonistas de Arnow buscam incessantemente, serve os discursos de libertação feminina ou de qualquer outra identidade marginalizada. Na verdade, a autora entretece eficazmente um discurso de pendor feminista com questões de “eco-fobia” (Estok, 75), pois o desfecho do romance realiza uma unidade narrativa entre o corpo feminino e o corpo animal como ‘locais’ de exploração e de negociação patriarcal.

Descrição

Palavras-chave

Arnow, Harriette Louisa Simpson, 1908-1986. Hunter's Horn Ecofeminismo - Na literatura Feminismo e literatura Mulheres - Apalaches (Estados Unidos) - Na literatura Ecologia humana - Na literatura Natureza - Na literatura Relações homem-amimal - Na literatura Patriarcado (Sociologia) - Na literatura Romance americano - séc.20 - Temas, motivos Apalaches (Estados Unidos) - Na literatura Teses de mestrado - 2021

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