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Resumo(s)
La masculinidad tradicional (Halberstam, 1998), entendida como hegemĂłnica en su alcance (Connell, 1995), entrĂł en una crisis en la dĂ©cada de 1960 (Segarra & CarabĂ, 2008), impulsada por los movimientos y estudios feministas, grupos de lucha por la diversidad sexual, el movimiento hippie y organizaciones de hombres que comenzaron un camino de cuestionamiento en distintas partes del mundo, abriendo paso a las nuevas masculinidades (GarcĂa MarĂn, 2018). ÂżCuĂĄles son los sĂmbolos, narrativas y representaciones de la llamada masculinidad tradicional?, ÂżcĂłmo se produce la crisis de la masculinidad tradicional?, ÂżcuĂĄles son los sĂmbolos y las narrativas que caracterizan a las nuevas masculinidades? y ÂżcuĂĄles son las representaciones que responden al concepto de las nuevas masculinidades en Portugal y en Chile? son las preguntas que guiaron esta investigaciĂłn, cuya metodologĂa incluyĂł un extenso encuadramiento teĂłrico y la observaciĂłn y anĂĄlisis de seis iniciativas â tres en cada paĂs â para conocer cĂłmo abordan esta crisis y generan espacios para la proliferaciĂłn de nuevas masculinidades posibles. Se trata de Quebrar o silĂȘncio, Men Talks y O homem promotor da igualdade, en el caso portuguĂ©s, y de IlusiĂłn Viril, DiĂĄlogo de hombres y Hombres Tejedores, en el de Chile.
La sistematizaciĂłn y la reflexiĂłn de los datos permitiĂł concluir que es imperativo acabar con la narrativa Ășnica sobre la masculinidad y abrir espacios para la proliferaciĂłn de nuevas masculinidades posibles; que la deconstrucciĂłn del gĂ©nero masculino es un estado y no un destino; que en la mayorĂa de los casos existe una apertura gradual hacia una labor con mujeres; que ambos paĂses presentan problemas similares en relaciĂłn con la masculinidad tradicional; que las seis iniciativas efectivamente son expresiones de las nuevas masculinidades, y que el proceso de crĂtica de la masculinidad tradicional y la propagaciĂłn de nuevas masculinidades es circular y en movimiento. Son estados a los que se regresa permanentemente, porque el proceso de desmarcarse de la masculinidad tradicional y abrirse hacia nuevas expresiones posibles implica un cuestionamiento y una deconstrucciĂłn constante, requiere de la creaciĂłn continua de nuevas relaciones entre hombres y que la igualdad sea una lucha activa todo el tiempo.
A masculinidade tradicional (Halberstam, 1998), entendida como hegemĂłnica no seu alcance (Connell, 1995), levou vĂĄrios homens a iniciarem processos de anĂĄlise e questionarem o seu papel nas sociedades de hoje. Os sĂmbolos, as representaçÔes e as narrativas que fazem parte dessa estrutura, manifestação inequĂvoca do patriarcado e do capitalismo, ainda estĂŁo presentes em diferentes ĂĄreas e formas, o que afeta nĂŁo apenas o bem-estar fĂsico e mental de cada indivĂduo, como tambĂ©m tĂȘm uma relação direta na maneira como constroem os seus relacionamentos com colegas, na maneira como interagem com as mulheres e como lidam com as relaçÔes emocionais ou de paternidade. Nesse sentido, a educação, a publicidade, a mĂșsica, os videojogos, o cinema, entre muitos outros, apoiam o imaginĂĄrio coletivo do que um homem tradicional deveria ser. Essa condição intrĂnseca da masculinidade construĂda a partir de uma perspetiva heteronormativa, com consequente binarismo, e que promove a competitividade, a ambição, a hipersexualização da mulher, a ausĂȘncia de emoçÔes e a falta de relaçÔes de afeto fraterno entre homens, alĂ©m da perpetuação das desigualdades entre homens e mulheres, entrou em crise na dĂ©cada de 1960. Desde entĂŁo, os movimentos e os estudos feministas, os grupos que lutam pela diversidade sexual, o movimento hippie e o surgimento de grupos de homens que iniciaram seu prĂłprio caminho de questionamento em diferentes partes do mundo motivaram o primeiro desejo de derrubar o modelo tradicional de masculinidade, para dar lugar a expressĂ”es novas, alternativas ou dissidentes. Assim, o conceito de novas masculinidades (GarcĂa MarĂn, 2018) serve para entendermos o processo que vĂĄrios homens começaram a viver e que hoje em dia tem cada vez mais representantes em diferentes partes do mundo. Quais sĂŁo os sĂmbolos, as narrativas e as representaçÔes da chamada masculinidade tradicional? Como ocorre a crise da masculinidade tradicional? Quais sĂŁo os sĂmbolos e as narrativas que caracterizam as novas masculinidades? E quais sĂŁo as representaçÔes que respondem ao conceito das novas masculinidades em Portugal e no Chile? Essas sĂŁo as questĂ”es que guiaram este trabalho de investigação, cuja abordagem foi dividida em duas partes: a primeira, num extenso enquadramento teĂłrico que permitiu estabelecer as diferenças entre sexo e gĂ©nero (HĂ©ritier, 2002), alĂ©m de compreender os sĂmbolos, as representaçÔes e as narrativas de masculinidade tradicional, o momento da crise (Segarra & CarrabĂ, 2008) e a conceção das primeiras linhas para entender de que tratam as novas masculinidades. E uma segunda, onde sĂŁo abordados os trabalhos de seis iniciativas â trĂȘs em Portugal e trĂȘs no Chile â que permitem conhecer a maneira como abordam a crise da masculinidade tradicional e geram espaços para a proliferação de novas masculinidades possĂveis. Os casos sĂŁo: Quebrar ou silĂȘncio, Men Talks, O homem promotor da igualdade, no caso portuguĂȘs; IlusiĂłn Viril, DiĂĄlogo de Homens, Hombres Tejedores, no caso chileno. Para estabelecer uma relação mais linear entre cada par de exemplos, foi realizada uma classificação inicial que resultou em trĂȘs fontes de anĂĄlise. A escolha desses critĂ©rios baseou-se num processo pessoal como participante de algumas das iniciativas escolhidas, experiĂȘncia empĂrica a partir da qual foi possĂvel delinear um processo mental e uma ação traçados em trĂȘs etapas: a primeira, uma sensação de desconforto interno que alguns homens apresentam em relação Ă masculinidade em que foram educados; o segundo, uma ressonĂąncia, entendida como a necessidade de alguns homens encontrarem outros que estĂŁo a passar por um processo semelhante. Isso, por sua vez, poderia aumentar as possibilidades de iniciarem conversas, trocas e pontos de vista em relação ao papel que tĂȘm tido de representar como homens. E, finalmente, uma terceira, identificada como ação, traduzida na maneira pela qual essas reflexĂ”es comuns os levam a outros objetivos relacionados com a mudança dos mandatos sociais associados Ă masculinidade. Na segunda fase da reflexĂŁo, cada conceito foi substituĂdo por um eixo de anĂĄlise para agrupar os casos sob critĂ©rios semelhantes. Por meio de uma correlação, foi estabelecido o primeiro, intitulado Questionamento e desconstrução, no qual foram abordados os trabalhos de Quebrar o silĂȘncio e IlusiĂłn Viril; um segundo, denominado Novos relacionamentos entre homens, criado para analisar as iniciativas Men Talks e DiĂĄlogos de hombres, e um terceiro nomeado Homens a lutar pela igualdade, sob o qual foram analisados os projetos O homem promotor da igualdade e Hombres Tejedores. A metodologia utilizada para a investigação e anĂĄlise dos seis casos incluiu duas ferramentas: entrevistas com um questionĂĄrio semiestruturado e observação direta por meio de uma grelha elaborada especialmente para os fins deste estudo. AlĂ©m disso, e dependendo de cada exemplo especĂfico, foi feita uma revisĂŁo da presença nos media digitais e nas redes sociais oficiais de cada um. ApĂłs um perĂodo de acompanhamento de mais de um ano, nas cidades de Lisboa e Santiago, foi possĂvel reunir as informaçÔes que permitiam responder Ă s perguntas que faziam parte desta investigação. As trĂȘs primeiras, atravĂ©s da revisĂŁo de literatura de acordo com a abordagem deste tĂłpico, enquanto a quarta foi tratada atravĂ©s da apresentação de casos nos dois paĂses. A sistematização e reflexĂŁo dos dados permitiu estabelecer seis conclusĂ”es principais: i) a necessidade de derrubarmos a narrativa Ășnica sobre masculinidade e abrirmos espaço para a proliferação de novas masculinidades possĂveis, o que foi observado transversalmente nos seis casos apresentados; ii) a desconstrução do gĂ©nero masculino, para os fins desta investigação, Ă© um estado e nĂŁo um destino, que exige um trabalho consciente e permanente na deteção de comportamentos ou atitudes tĂpicos da masculinidade tradicional e que necessitam ser abolidos para dar lugar a novas masculinidades possĂveis; iii) na maioria dos casos, hĂĄ uma abertura gradual para o trabalho com mulheres, independentemente do foco inicial estar no trabalho voltado para os homens; iv) apesar das diferenças culturais e da distĂąncia geogrĂĄfica, Portugal e Chile tĂȘm problemas semelhantes relativamente Ă masculinidade tradicional, brechas e violĂȘncia de gĂ©nero. Nos dois territĂłrios observa-se o incipiente surgimento de trabalhos que advogam a proliferação de novas masculinidades possĂveis; v) as seis iniciativas sĂŁo efetivamente expressĂ”es das novas masculinidades, pois nĂŁo apenas criticam e desconstroem os mandatos da masculinidade tradicional, como criam novos referentes para os homens de hoje; vi) o processo de abordagem da masculinidade tradicional e a propagação de novas masculinidades nĂŁo Ă© linear â como foi exemplificado pela trĂade ação/ressonĂąncia/ação e seus consequentes eixos questionamento e desconstrução/novos relacionamentos entre homens/homens que lutam pela igualdade â, mas Ă© circular e em movimento. SĂŁo estados para os quais se volta permanentemente, porque o processo de se separar da masculinidade tradicional e de se abrir para novas expressĂ”es possĂveis implica questionamentos e desconstruçÔes constantes, requer a criação contĂnua de novas relaçÔes entre os homens e a igualdade Ă© uma luta ativa permanentemente. Incluir os Estudos de GĂ©nero, e as masculinidades especificamente, num programa de Mestrado em Cultura e Comunicação Ă© importante porque, como seres humanos, construĂmos a nossa realidade a partir da nossa biologia e, principalmente, pelo que recebemos do contexto onde crescemos, nos desenvolvemos, aprendemos e interagimos com outras pessoas Tolosa (2009 [1999]) e pelas prĂĄticas culturais dum determinado grupo. A masculinidade tradicional, hegemĂłnica no seu alcance e tĂłxica nas suas consequĂȘncias, tem tido um impacto central nĂŁo apenas na violĂȘncia de gĂ©nero ou nas brechas entre homens e mulheres, mas tambĂ©m no padrĂŁo do que significa ser homem. E Ă© precisamente o que as novas masculinidades apontam: abrir espaços para essa diversidade tambĂ©m permeia as diferentes camadas da sociedade. Portanto, falar sobre elas remete-nos para o conceito de modernidade lĂquida cunhado por Bauman (2000). Ă o colapso dessa estrutura rĂgida e a transição para um novo mundo de possibilidades que se abre sob as novas masculinidades. Semanticamente, tambĂ©m se tornam um objeto de estudo, Ă medida que passamos de uma definição singular â masculinidade "tradicional" â para uma pluralidade, com novas opiniĂ”es e formas de compreendĂȘ-las, cultivĂĄ-las e vivĂȘ-las. Os Estudos de GĂ©nero sĂŁo relevantes e complementares para entendermos as estruturas sociais, narrativas e comunicacionais que sustentam a masculinidade tradicional e as novas masculinidades. Da mesma forma, as prĂĄticas culturais associadas a uma e a outra sĂŁo transformadas em exemplos vivos que nutrem este e outros estudos. Assim, por exemplo, os ritos de iniciação de adolescentes que entram na idade adulta e resultam em visitas a casas de prostituição para se tornarem 'verdadeiros homens', a maneira como alguns pais transmitem violĂȘncia fĂsica e psicolĂłgica aos filhos para eles aprenderem o que Ă© ser um homem nesta sociedade ou mesmo a chamada "cultura da violação" â cujos representantes mais reconhecĂveis nos Ășltimos tempos foram os membros do caso "La manada" ocorrido em 2016 na Espanha â, entre muitos outros casos, permitem entendermos completamente os aspetos centrais da organização e os cĂłdigos sociais que foram transformados em prĂĄticas culturais legĂtimas a longo dos anos e que hoje sĂŁo amplamente questionados e abolidos por homens que estĂŁo a construir novas masculinidades. Da mesma forma, a produção de conhecimentos ou discursos tambĂ©m Ă© impactada por uma mudança tĂŁo relevante para a ordem social quando falamos de novas masculinidades. Com elas, surgem novas ideias que nutrem os Estudos Culturais e acrescentam distinçÔes para abordarmos com ferramentas mais precisas qualquer estudo que possa ser realizado no futuro. Igualmente, essa mudança representa um ponto de viragem relevante na composição social e nas suas estruturas tradicionais de poder, para dar espaço a um relacionamento mais igualitĂĄrio entre homens e mulheres, e, certamente relevante, entre homens. Ă importante continuarmos a investigar as consequĂȘncias da masculinidade hegemĂłnica nas nossas sociedades e a necessidade de promovermos pesquisas nos Estudos de GĂ©nero, particularmente em relação Ă interseccionalidade (Crenshaw, 1989). Isso vai permitir-nos delinear perfis mais detalhados para uma melhor compreensĂŁo dos seus efeitos e as razĂ”es pelas quais continuamos a testemunhar situaçÔes de violĂȘncia de gĂ©nero, feminicĂdios e crimes de Ăłdio contra a diversidade sexual ou populaçÔes migrantes, altas taxas de suicĂdio e doenças em homens em todo o planeta. Portugal e Chile sĂŁo territĂłrios interculturalmente ricos, com um grande potencial para se tornarem paĂses onde homens e mulheres possam viver em harmonia, respeito e comunidade. No entanto, esse objetivo serĂĄ difĂcil de alcançar, se eles nĂŁo conseguirem questionar os seus privilĂ©gios, desconstruir a narrativa hegemĂłnica da masculinidade, estabelecer relaçÔes mais afetivas e de companheirismo e atĂ© unir-se Ă luta pela igualdade a partir qualquer sĂtio. Da mesma forma, trabalhar para desmantelar as prĂĄticas machistas, misĂłginas, homofĂłbicas, capitalistas e patriarcais que levaram o mundo a situaçÔes crĂticas de maior alcance, como a exploração indiscriminada dos recursos naturais. Se somos capazes de entender que a masculinidade tradicional Ă© responsĂĄvel pelos problemas registados diariamente no mundo e que Ă© uma prisĂŁo real para quem a vive e a perpetua diariamente, torna-se valiosa e central a reflexĂŁo feita pela Judith Butler em 2018 durante uma visita a Barcelona, Espanha: "Temos de pensar no gĂ©nero como um espaço de liberdade".
A masculinidade tradicional (Halberstam, 1998), entendida como hegemĂłnica no seu alcance (Connell, 1995), levou vĂĄrios homens a iniciarem processos de anĂĄlise e questionarem o seu papel nas sociedades de hoje. Os sĂmbolos, as representaçÔes e as narrativas que fazem parte dessa estrutura, manifestação inequĂvoca do patriarcado e do capitalismo, ainda estĂŁo presentes em diferentes ĂĄreas e formas, o que afeta nĂŁo apenas o bem-estar fĂsico e mental de cada indivĂduo, como tambĂ©m tĂȘm uma relação direta na maneira como constroem os seus relacionamentos com colegas, na maneira como interagem com as mulheres e como lidam com as relaçÔes emocionais ou de paternidade. Nesse sentido, a educação, a publicidade, a mĂșsica, os videojogos, o cinema, entre muitos outros, apoiam o imaginĂĄrio coletivo do que um homem tradicional deveria ser. Essa condição intrĂnseca da masculinidade construĂda a partir de uma perspetiva heteronormativa, com consequente binarismo, e que promove a competitividade, a ambição, a hipersexualização da mulher, a ausĂȘncia de emoçÔes e a falta de relaçÔes de afeto fraterno entre homens, alĂ©m da perpetuação das desigualdades entre homens e mulheres, entrou em crise na dĂ©cada de 1960. Desde entĂŁo, os movimentos e os estudos feministas, os grupos que lutam pela diversidade sexual, o movimento hippie e o surgimento de grupos de homens que iniciaram seu prĂłprio caminho de questionamento em diferentes partes do mundo motivaram o primeiro desejo de derrubar o modelo tradicional de masculinidade, para dar lugar a expressĂ”es novas, alternativas ou dissidentes. Assim, o conceito de novas masculinidades (GarcĂa MarĂn, 2018) serve para entendermos o processo que vĂĄrios homens começaram a viver e que hoje em dia tem cada vez mais representantes em diferentes partes do mundo. Quais sĂŁo os sĂmbolos, as narrativas e as representaçÔes da chamada masculinidade tradicional? Como ocorre a crise da masculinidade tradicional? Quais sĂŁo os sĂmbolos e as narrativas que caracterizam as novas masculinidades? E quais sĂŁo as representaçÔes que respondem ao conceito das novas masculinidades em Portugal e no Chile? Essas sĂŁo as questĂ”es que guiaram este trabalho de investigação, cuja abordagem foi dividida em duas partes: a primeira, num extenso enquadramento teĂłrico que permitiu estabelecer as diferenças entre sexo e gĂ©nero (HĂ©ritier, 2002), alĂ©m de compreender os sĂmbolos, as representaçÔes e as narrativas de masculinidade tradicional, o momento da crise (Segarra & CarrabĂ, 2008) e a conceção das primeiras linhas para entender de que tratam as novas masculinidades. E uma segunda, onde sĂŁo abordados os trabalhos de seis iniciativas â trĂȘs em Portugal e trĂȘs no Chile â que permitem conhecer a maneira como abordam a crise da masculinidade tradicional e geram espaços para a proliferação de novas masculinidades possĂveis. Os casos sĂŁo: Quebrar ou silĂȘncio, Men Talks, O homem promotor da igualdade, no caso portuguĂȘs; IlusiĂłn Viril, DiĂĄlogo de Homens, Hombres Tejedores, no caso chileno. Para estabelecer uma relação mais linear entre cada par de exemplos, foi realizada uma classificação inicial que resultou em trĂȘs fontes de anĂĄlise. A escolha desses critĂ©rios baseou-se num processo pessoal como participante de algumas das iniciativas escolhidas, experiĂȘncia empĂrica a partir da qual foi possĂvel delinear um processo mental e uma ação traçados em trĂȘs etapas: a primeira, uma sensação de desconforto interno que alguns homens apresentam em relação Ă masculinidade em que foram educados; o segundo, uma ressonĂąncia, entendida como a necessidade de alguns homens encontrarem outros que estĂŁo a passar por um processo semelhante. Isso, por sua vez, poderia aumentar as possibilidades de iniciarem conversas, trocas e pontos de vista em relação ao papel que tĂȘm tido de representar como homens. E, finalmente, uma terceira, identificada como ação, traduzida na maneira pela qual essas reflexĂ”es comuns os levam a outros objetivos relacionados com a mudança dos mandatos sociais associados Ă masculinidade. Na segunda fase da reflexĂŁo, cada conceito foi substituĂdo por um eixo de anĂĄlise para agrupar os casos sob critĂ©rios semelhantes. Por meio de uma correlação, foi estabelecido o primeiro, intitulado Questionamento e desconstrução, no qual foram abordados os trabalhos de Quebrar o silĂȘncio e IlusiĂłn Viril; um segundo, denominado Novos relacionamentos entre homens, criado para analisar as iniciativas Men Talks e DiĂĄlogos de hombres, e um terceiro nomeado Homens a lutar pela igualdade, sob o qual foram analisados os projetos O homem promotor da igualdade e Hombres Tejedores. A metodologia utilizada para a investigação e anĂĄlise dos seis casos incluiu duas ferramentas: entrevistas com um questionĂĄrio semiestruturado e observação direta por meio de uma grelha elaborada especialmente para os fins deste estudo. AlĂ©m disso, e dependendo de cada exemplo especĂfico, foi feita uma revisĂŁo da presença nos media digitais e nas redes sociais oficiais de cada um. ApĂłs um perĂodo de acompanhamento de mais de um ano, nas cidades de Lisboa e Santiago, foi possĂvel reunir as informaçÔes que permitiam responder Ă s perguntas que faziam parte desta investigação. As trĂȘs primeiras, atravĂ©s da revisĂŁo de literatura de acordo com a abordagem deste tĂłpico, enquanto a quarta foi tratada atravĂ©s da apresentação de casos nos dois paĂses. A sistematização e reflexĂŁo dos dados permitiu estabelecer seis conclusĂ”es principais: i) a necessidade de derrubarmos a narrativa Ășnica sobre masculinidade e abrirmos espaço para a proliferação de novas masculinidades possĂveis, o que foi observado transversalmente nos seis casos apresentados; ii) a desconstrução do gĂ©nero masculino, para os fins desta investigação, Ă© um estado e nĂŁo um destino, que exige um trabalho consciente e permanente na deteção de comportamentos ou atitudes tĂpicos da masculinidade tradicional e que necessitam ser abolidos para dar lugar a novas masculinidades possĂveis; iii) na maioria dos casos, hĂĄ uma abertura gradual para o trabalho com mulheres, independentemente do foco inicial estar no trabalho voltado para os homens; iv) apesar das diferenças culturais e da distĂąncia geogrĂĄfica, Portugal e Chile tĂȘm problemas semelhantes relativamente Ă masculinidade tradicional, brechas e violĂȘncia de gĂ©nero. Nos dois territĂłrios observa-se o incipiente surgimento de trabalhos que advogam a proliferação de novas masculinidades possĂveis; v) as seis iniciativas sĂŁo efetivamente expressĂ”es das novas masculinidades, pois nĂŁo apenas criticam e desconstroem os mandatos da masculinidade tradicional, como criam novos referentes para os homens de hoje; vi) o processo de abordagem da masculinidade tradicional e a propagação de novas masculinidades nĂŁo Ă© linear â como foi exemplificado pela trĂade ação/ressonĂąncia/ação e seus consequentes eixos questionamento e desconstrução/novos relacionamentos entre homens/homens que lutam pela igualdade â, mas Ă© circular e em movimento. SĂŁo estados para os quais se volta permanentemente, porque o processo de se separar da masculinidade tradicional e de se abrir para novas expressĂ”es possĂveis implica questionamentos e desconstruçÔes constantes, requer a criação contĂnua de novas relaçÔes entre os homens e a igualdade Ă© uma luta ativa permanentemente. Incluir os Estudos de GĂ©nero, e as masculinidades especificamente, num programa de Mestrado em Cultura e Comunicação Ă© importante porque, como seres humanos, construĂmos a nossa realidade a partir da nossa biologia e, principalmente, pelo que recebemos do contexto onde crescemos, nos desenvolvemos, aprendemos e interagimos com outras pessoas Tolosa (2009 [1999]) e pelas prĂĄticas culturais dum determinado grupo. A masculinidade tradicional, hegemĂłnica no seu alcance e tĂłxica nas suas consequĂȘncias, tem tido um impacto central nĂŁo apenas na violĂȘncia de gĂ©nero ou nas brechas entre homens e mulheres, mas tambĂ©m no padrĂŁo do que significa ser homem. E Ă© precisamente o que as novas masculinidades apontam: abrir espaços para essa diversidade tambĂ©m permeia as diferentes camadas da sociedade. Portanto, falar sobre elas remete-nos para o conceito de modernidade lĂquida cunhado por Bauman (2000). Ă o colapso dessa estrutura rĂgida e a transição para um novo mundo de possibilidades que se abre sob as novas masculinidades. Semanticamente, tambĂ©m se tornam um objeto de estudo, Ă medida que passamos de uma definição singular â masculinidade "tradicional" â para uma pluralidade, com novas opiniĂ”es e formas de compreendĂȘ-las, cultivĂĄ-las e vivĂȘ-las. Os Estudos de GĂ©nero sĂŁo relevantes e complementares para entendermos as estruturas sociais, narrativas e comunicacionais que sustentam a masculinidade tradicional e as novas masculinidades. Da mesma forma, as prĂĄticas culturais associadas a uma e a outra sĂŁo transformadas em exemplos vivos que nutrem este e outros estudos. Assim, por exemplo, os ritos de iniciação de adolescentes que entram na idade adulta e resultam em visitas a casas de prostituição para se tornarem 'verdadeiros homens', a maneira como alguns pais transmitem violĂȘncia fĂsica e psicolĂłgica aos filhos para eles aprenderem o que Ă© ser um homem nesta sociedade ou mesmo a chamada "cultura da violação" â cujos representantes mais reconhecĂveis nos Ășltimos tempos foram os membros do caso "La manada" ocorrido em 2016 na Espanha â, entre muitos outros casos, permitem entendermos completamente os aspetos centrais da organização e os cĂłdigos sociais que foram transformados em prĂĄticas culturais legĂtimas a longo dos anos e que hoje sĂŁo amplamente questionados e abolidos por homens que estĂŁo a construir novas masculinidades. Da mesma forma, a produção de conhecimentos ou discursos tambĂ©m Ă© impactada por uma mudança tĂŁo relevante para a ordem social quando falamos de novas masculinidades. Com elas, surgem novas ideias que nutrem os Estudos Culturais e acrescentam distinçÔes para abordarmos com ferramentas mais precisas qualquer estudo que possa ser realizado no futuro. Igualmente, essa mudança representa um ponto de viragem relevante na composição social e nas suas estruturas tradicionais de poder, para dar espaço a um relacionamento mais igualitĂĄrio entre homens e mulheres, e, certamente relevante, entre homens. Ă importante continuarmos a investigar as consequĂȘncias da masculinidade hegemĂłnica nas nossas sociedades e a necessidade de promovermos pesquisas nos Estudos de GĂ©nero, particularmente em relação Ă interseccionalidade (Crenshaw, 1989). Isso vai permitir-nos delinear perfis mais detalhados para uma melhor compreensĂŁo dos seus efeitos e as razĂ”es pelas quais continuamos a testemunhar situaçÔes de violĂȘncia de gĂ©nero, feminicĂdios e crimes de Ăłdio contra a diversidade sexual ou populaçÔes migrantes, altas taxas de suicĂdio e doenças em homens em todo o planeta. Portugal e Chile sĂŁo territĂłrios interculturalmente ricos, com um grande potencial para se tornarem paĂses onde homens e mulheres possam viver em harmonia, respeito e comunidade. No entanto, esse objetivo serĂĄ difĂcil de alcançar, se eles nĂŁo conseguirem questionar os seus privilĂ©gios, desconstruir a narrativa hegemĂłnica da masculinidade, estabelecer relaçÔes mais afetivas e de companheirismo e atĂ© unir-se Ă luta pela igualdade a partir qualquer sĂtio. Da mesma forma, trabalhar para desmantelar as prĂĄticas machistas, misĂłginas, homofĂłbicas, capitalistas e patriarcais que levaram o mundo a situaçÔes crĂticas de maior alcance, como a exploração indiscriminada dos recursos naturais. Se somos capazes de entender que a masculinidade tradicional Ă© responsĂĄvel pelos problemas registados diariamente no mundo e que Ă© uma prisĂŁo real para quem a vive e a perpetua diariamente, torna-se valiosa e central a reflexĂŁo feita pela Judith Butler em 2018 durante uma visita a Barcelona, Espanha: "Temos de pensar no gĂ©nero como um espaço de liberdade".
Descrição
Palavras-chave
Masculinidade - Portugal - 2010-.... Masculinidade - Chile - 2010-.... Papel segundo o sexo - Portugal - 2010-.... Papel segundo o sexo - Chile - 2010-.... Igualdade de sexo - Portugal - 2010-.... Igualdade de sexo - Chile - 2010-.... Estudos sobre o género Teses de mestrado - 2019
