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Orientador(es)
Resumo(s)
A presente dissertação em filosofia, na área da Filosofia da Vida, da Natureza e do
Ambiente, tem como objectivo analisar o problema do estatuto ético do animal-não
humano, no âmbito do pensamento de Arthur Schopenhauer.
O pensamento filosófico ocidental, de uma forma geral, tem sido pautado por uma
postura hostil no que concerne aos animais, dela decorrendo a ideia de que estes não
têm direitos, sejam eles morais ou legais, restando-lhes um valor de uso, destinados
que estão a satisfazer tantas vezes as necessidades e os gozos do ser humano.
A posse da razão, factor diferenciador entre o ser humano e o animal, levou o
primeiro a afirmar a sua supremacia sobre o segundo como se de um objecto se
tratasse, afirmando o seu poder ilusório na relação que enceta com os animais sob
uma lógica de diferenciação e instrumental, desrespeitando-os na sua essência,
sujeitando-os a todo o tipo de violência que tem aumentado, quer do ponto de vista
qualitativo, como quantitativo, por via do egoísmo que a razão intensifica numa
sociedade de globalização capitalista .
Da Grécia antiga até aos nossos dias, são muitos os nomes defensores de posições
antropocêntricas das mais variadas e relutantemente surpreendentes, com honrosas
excepções que têm vindo a crescer. Deste pensamento excepcional emerge a
importância das relações de afinidade, de amor, de identificação do eu volitivo com o
outro também volitivo, seja ele humano ou animal, por elas cessando a distinção entre
ambos.
Foram esses momentos privilegiados, ao longo da história da filosofia e da religião,
que tomaram o sentimento, o sofrer do outro, o desejo de bem–estar do outro como o
ponto de partida e de chegada para uma relação moral com os animais, à margem da
supremacia da razão .
Arthur Schopenhauer (1788-1860) constitui um dos nomes que integra um desses
momentos privilegiados ao desenvolver um pensamento no qual reconhece a essência
do mundo na vontade e não na razão. Deste modo, o reconhecimento de que a
essência do mundo se encontra na vontade, significa o reconhecimento de que os
animais e humanos são contemplados por essa mesma vontade. Assim, a proximidade volitiva de ambos, a constatação de que também o animal
apresenta a capacidade de sofrer, constituem-se como argumentos essenciais para os
considerar moralmente, abrindo-se o ser humano ao outro, participando numa
experiência imediata no seu sofrimento, por intermédio da compaixão, abandonando e
superando a ilusão da individuação manifestada pelo mundo da representação.
No intuito de investigarmos a possibilidade de existência de um estatuto ético do
animal, no interior do sistema filosófico de Arthur Schopenhauer, a presente
dissertação divide-se em três capítulos.
No primeiro capítulo intitulado : “A primazia do conhecimento intuitivo: o
entendimento partilhado pelos homens e pelos animais”, onde Arthur Schopenhauer
desenvolve a sua teoria do conhecimento, atentamos em quatro pontos essenciais: o
primeiro, acentua a importância do entendimento para a vida do animal, capacidade
intuitiva que dispensa o uso da razão. Contrariamente a Immanuel Kant, a capacidade
de entender é nos apresentada como uma faculdade não exclusivamente humana. A
ideia de atribuir entendimento, aos seres não-humanos, revela o carácter
revolucionário de Arthur Schopenhauer que confere ao animal, não apenas a
possibilidade de compreender o mundo que o rodeia, mas de actuar em função desse
entendimento ao serviço da vontade.
O segundo ponto, detêm-se na impossibilidade do homem alcançar, pela via
fenoménica, o mundo na sua essência, apreendendo apenas a sua manifestação, a sua
pluralidade, tendo como consequência a distinção entre os seres e, por via dessa
distinção, a desconsideração do animal não-humano.
No terceiro ponto, damos conta do carácter secundário da razão, das limitações e dos
excessos por ela proporcionados, de acordo com Arthur Schopenhauer, e ainda o
desempenho do seu papel no interior das éticas dos sistemas filosóficos
antropocêntricos — nomeadamente o kantiano que estabelece fronteiras entre o
homem e o animal, considerado este último como coisa, porque desprovido de razão.
No segundo capítulo intitulado: “ A vontade e o caminho para superação da
individuação: a sua manifestação nos animais e nos homens, caminhamos para o
mundo da vontade, lugar do corpo como vontade, onde, paulatinamente,
Schopenhauer nos inicia na descoberta da essência do mundo: todos os corpos
querem: o do homem, o do animal. Todos os corpos sofrem porque querem. O ser
humano toma consciência do seu si mesmo, da sua vontade reconhecendo-a no seu
corpo individual — primeiro passo para compreender a essência do todo que o envolve, do animal que com ele coabita. Contudo, nesta fase, ainda não estendeu esse
reconhecimento aos outros. As repercussões de uma vontade fenoménica que
apresenta o mais elevado grau de objectivação nos seres humanos, e em particular de
todos aqueles que não alcançaram o verdadeiro conhecimento traduz-se, na sua
generalidade, na negação da vontade do outro, sendo incapaz de se identificar com
ele, usando mesmo o corpo do outro para satisfação da sua individualidade ilusória.
Este capítul deter-nos-emos na dor do animal schopenhaueriano que, em oposição a
Descartes, não só apresenta a capacidade de sentir, porque tem vontade, como de
melhor compreender a sua dor em função do seu grau de entendimento, motivo pelo
qual o filósofo relaciona a consciência e a dor.
O terceiro e o último capítulo representa o desfecho de uma relação iniciada com
base na separação. Conhecemos o homem que já penetrou o princípio da
individuação, alheio à dualidade do mundo. O fundamento da moralidade só pode ser
gerado pelo sentimento espontâneo, pela identificação profunda com o outro, nele
reconhecendo a mesma essência, a mesma dor. Arthur Schopenhauer considera
moralmente um ser pela sua capacidade de sofrimento e não pela sua razão, motivo
pelo qual os animais são dignos de consideração moral.
Descrição
Palavras-chave
Schopenhauer, Arthur, 1788-1860 - Crítica e interpretação Filosofia da natureza Animalidade (Filosofia) Animais - Direitos - Filosofia Teses de mestrado - 2017
