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Orientador(es)
Resumo(s)
A expansão humana ameaça não só toda a biodiversidade mas também os serviços que esta fornece e dos quais dependemos. Actividades como a desflorestação, a conversão agrícola, a caça ilegal e o tráfico de animais potenciam o desaparecimento dos ecossistemas e a extinção de espécies a estes associadas, com graves consequências também para o ser humano. A desflorestação foi responsável pela destruição de 230 milhões de hectares de floresta somente entre o período de 2000 a 2012, sendo que as florestas tropicais são dos biomas mais afectados por tal perturbação. A desflorestação é frequentemente acompanhada pela conversão de solo para fins agrícolas, o que acaba por fragmentar as paisagens, alterar a sua conectividade e criar novos acessos a zonas até aí livres da intervenção humana. Esta fragmentação não só aumenta o número de conflitos entre a fauna selvagem e o ser humano, dado o maior contacto entre ambos, como também potencia a caça e a captura de animais vivos para mercados ilegais ou a venda directa. Os grandes símios, um dos grupos animais sob os quais a pressão humana mais se faz sentir –sendo também o grupo ao qual pertencemos, em conjunto com o Gorila Gorilla spp., o Chimpanzé Pan troglodytes, o Bonobo Pan paniscus e o Orangotango Pongo spp. – vêem-se ameaçados devido aos seus longos ciclos reprodutores e exigentes necessidades ecológicas, sendo, por isso, extremamente vulneráveis à desflorestação, à fragmentação das paisagens e à caça e captura ilegais. Uma das regiões do globo onde estes fenómenos mais se fazem sentir é o Sudeste Asiático, onde o crescimento populacional e a desflorestação tomam proporções cada vez maiores. A adequabilidade dos terrenos para o cultivo de bens essenciais, como o óleo de palma Elaeis guineensis, a cana-de-açucar Saccharum officinarum, ou a árvore-da-borracha Hevea brasiliensis, e o reduzido custo de produção das mesmas, tornam esta área do globo extremamente requisitada para a apreensão de espaço e recursos. É aqui que encontramos um dos grandes símios mais ameaçados do planeta: o orangotango da Sumatra, Pongo abelii. O orangotango da Sumatra, juntamente com o orangotango do Bornéu, Pongo pygmaeus, formam o único género de grandes símios que está presente fora do continente Africano. Tendo sido a primeira linhagem dos grandes símios a se separar das restantes, os orangotangos são os únicos grandes símios quase exclusivamente arborícolas e considerados dos menos sociais, organizando-se numa estrutura de fissão-fusão, onde os encontros são pouco comuns e geralmente breves, exceptuando momentos de acasalamento que podem durar até vários dias. Ambas as espécies de orangotangos são sexualmente dimórficas, sendo o macho consideravelmente maior, e alguns indivíduos, após atingirem a maturidade sexual, desenvolvem flanges. Estas são um caracter sexual secundário que se exprime sob a forma de discos de matéria adiposa na face, e que acompanham o início do uso das “long-calls”, um chamamento característico desta faixa etária, fundamental na coesão social dos orangotangos. Embora ambas as espécies de orangotangos sejam consideradas “Criticamente em Perigo” pela IUCN, as populações de orangotangos da Sumatra são hoje consideravelmente menores do que as da sua espécie irmã. A última avaliação do estado destas populações indicava que existiam cerca de 14613 orangotangos da Sumatra e 54000 do Bornéu. Grande parte dos orangotangos que residem na ilha da Sumatra vivem dentro e nas imediações do Parque Nacional de Gunung Leuser, que é partilhado por duas províncias, a Sumatra do Norte e Aceh. Ambas têm-se desenvolvido excepcionalmente nos últimos anos, em especial Aceh, devido ao gás natural, o que tem levado ao contínuo decréscimo não só das populações de orangotangos, mas também de outras espécies icónicas e endémicas desta ilha, como o tigre-da-Sumatra Panthera tigris sumatrae ou o elefante-da-Sumatra Elephas maximus sumatranus. Dado o crescente conflito e competição entre o homem e a vida selvagem, seja a nível de espaço ou de recursos, torna-se cada vez mais imperativo compreender como é que as espécies respondem às perturbações causadas pelo homem, de maneira a podermos proteger as suas populações e gerir e potenciar os seus serviços. Uma das maneiras da vida selvagem reagir a tais distúrbios é através dos seus sistemas de comunicação, maneira pela qual transmitem informação seja a outros membros da mesma espécie, seja à comunidade, ou até mesmo à fonte de perturbação no sentido de a demover e afastar. Uma das vertentes mais abordadas da comunicação são as vocalizações, nomeadamente os chamamentos de alarme, que são uma peça-chave na compreensão da dinâmica de interacção entre a espécie e o seu predador, ou outro tipo de perturbação, como o da presença humana. Os chamamentos de alarme são produzidos quando uma fonte de perigo é detectada, servindo para dar o alerta aos outros membros do grupo e/ou para sinalizar à fonte de perigo que esta foi detectada. Em orangotangos existem alguns chamamentos descritos como chamamentos de alarme, sendo os mais observados o Kiss-Squeak e o Grumph. Estes chamamentos são usados pelos orangotangos em encontros com os seus predadores naturais, sendo o mais importante o tigre-da-Sumatra, mas também em encontros com seres humanos. Quando os animais, e os orangotangos em particular, respondem com chamamentos de alarme a perturbações no seu habitat, seja pela presença de tigres, seja pela presença de seres humanos, eles estão a alocar tempo e energia a essa actividade em detrimento de outras actividades. Dado o caracter invasivo e persistente das actividades humanas no habitat natural do orangotango, o tempo e energia despendidos a vocalizar na presença de seres humanos – perturbação humana – pode reduzir significativamente o tempo útil total alocado à alimentação, reprodução, cuidados parentais, descanso e bem-estar em geral. As consequências dos distúrbios humanos podem até afectar a condição corporal e o fitness dos animais de forma semelhante à pressão exercida pelos seus predadores naturais, como sugerido na hipótese de risco-distúrbio proposta por Alejandro Frid e Lawrence Dill, em 2002. Quando assim é, a perturbação humana deve ser considerada como mais um factor a contribuir negativamente para o estatuto de conservação das espécies. Como tal, o objectivo deste trabalho foi o de explorar esta hipótese de forma a compreender o impacto da perturbação humana numa população de orangotangos da Sumatra, focando-nos nas suas vocalizações. Esta população reside dentro do Parque Nacional de Gunung Leuser, cuja área foi alvo de programas de deflorestação há poucas décadas. Focámo-nos, essencialmente, nos chamamentos de alarme, de modo a conseguirmos medir o seu estado de alerta na presença de humanos e o esforço que este poderá representar comparativamente ao esforço empregado pelos orangotangos na presença de tigres. A maioria dos dias (sessões de mostragem) em que os orangotangos foram seguidos por um grupo de observadores humanos (investigadores e guias) houve produção de vocalizações direccionadas para os observadores, num total de 12 chamamentos diferentes. Como esperado, a grande maioria foram efectivamente chamamentos de alarme, demonstrando que os orangotangos são sensíveis à presença humana e que a percepcionam como um distúrbio. As duas vocalizações mais utilizadas foram o “Kiss- Squeak” e uma variação deste chamamento, o “Kiss-Sequeak Hand”, que torna o chamamento mais grave, criando a falsa impressão de que o orangotango que o emite é maior do que o seu tamanho real. São, no entanto, vocalizações pouco agressivas, comparativamente ao Complex Call, que foi só raramente produzido. Houve também algum grau de habituação à presença humana – já que o grupo de observadores era sempre o mesmo e não era agressivo. Estes dois resultados sugerem que a resposta à presença humana, apesar de ser uma resposta de alarme, é uma resposta moderada. No entanto, depois de compararmos o esforço de chamamento dos orangotangos perante os observadores humanos com o esforço destes, descrito na literatura, perante tigres – e tendo em conta a abundância de tigres na Sumatra – descobrimos que a frequência de chamamentos, a duração de chamamentos e a duração dos estados de alarme podem ser iguais ou superiores aos utilizados com os tigres. Portanto, apesar de a resposta dos orangotangos à presença humana aparentar ser moderada, ela parece indicar que os humanos induzem comportamentos crónicos de evasão-risco, semelhantes àqueles induzidos pelos seus predadores naturais. Isto indica que, com base em vocalizações de resposta ao perigo, a hipótese de risco-distúrbio se comprova em orangotangos. Quer a frequência, quer a duração dos chamamentos e dos estados de alerta constituem uma alocação significativa de tempo, o que pode indicar que a presença humana tem bastante impacto nas actividades dos orangotangos. Ainda assim, os dados recolhidos podem não representar o dispêndio real de energia dos orangotangos, pois não tivemos em conta o tempo de recuperação de um orangotango após um encontro com o ser humano. Este é o primeiro trabalho a testar a hipótese de risco-distúrbio em orangotangos e em grandes símios, em geral, demonstrando pela primeira vez que as actividades humanas podem também ter este tipo de impacto nestas espécies emblemáticas. O contacto prolongado com o ser humano devido à diminuição e constrição do habitat pode, assim, ter mais esta repercussão negativa para os animais, para além de todas as que já contribuem, directa – caça p.e. – e indirectamente – desflorestação e conversão de solo p.e. – para a diminuição das suas populações.
Forest loss, land conversion, poaching and illegal trading are some of the major drivers for the loss of biodiversity and ecosystem services. As conflict between humans and wildlife increases, comprehending how wildlife responds to human disturbances in the wild becomes vital to the sustainability of species, ecosystems and ultimately human kind. Vocalizations are a key feature to understand the interaction dynamics of a species with its predators or other types of danger, such as disturbance stimuli derived from human presence. Alarm calls are usually the first response to signal and deter the origin of disturbance. However, effort spent on anti-predator strategies can change a species time and energy budgets, reducing the allocation of resources in activities such as feeding and mating. If human disturbance resembles the pressure done by a predator – the risk-disturbance hypothesis – it should constitute a serious threat to a species survival. As such, we studied the impact of human disturbance to a population of the Sumatran orangutan Pongo abelii, one of the most endangered great ape species in the world. We studied a natural population that resides in a secondary forest targeted for logging programmes and other human related activities, within the most important National Park in Indonesia – the Gunung Leuser National Park. We focused on recording orangutan vocalizations, analysing especially alarm calls towards human observers (a group of researchers and guides). During most of the days following the orangutans they produced vocalizations, the majority of which were, indeed, alarm calls. Despite a certain degree of habituation, we found evidence that orangutans’ call effort was similar or even greater than the effort they employ when facing their natural predator, the Sumatran tiger. These findings suggest that besides human pressure on orangutans’ habitat, human presence has also a significant impact on the species daily activities, constituting an additional threat to its survival.
Forest loss, land conversion, poaching and illegal trading are some of the major drivers for the loss of biodiversity and ecosystem services. As conflict between humans and wildlife increases, comprehending how wildlife responds to human disturbances in the wild becomes vital to the sustainability of species, ecosystems and ultimately human kind. Vocalizations are a key feature to understand the interaction dynamics of a species with its predators or other types of danger, such as disturbance stimuli derived from human presence. Alarm calls are usually the first response to signal and deter the origin of disturbance. However, effort spent on anti-predator strategies can change a species time and energy budgets, reducing the allocation of resources in activities such as feeding and mating. If human disturbance resembles the pressure done by a predator – the risk-disturbance hypothesis – it should constitute a serious threat to a species survival. As such, we studied the impact of human disturbance to a population of the Sumatran orangutan Pongo abelii, one of the most endangered great ape species in the world. We studied a natural population that resides in a secondary forest targeted for logging programmes and other human related activities, within the most important National Park in Indonesia – the Gunung Leuser National Park. We focused on recording orangutan vocalizations, analysing especially alarm calls towards human observers (a group of researchers and guides). During most of the days following the orangutans they produced vocalizations, the majority of which were, indeed, alarm calls. Despite a certain degree of habituation, we found evidence that orangutans’ call effort was similar or even greater than the effort they employ when facing their natural predator, the Sumatran tiger. These findings suggest that besides human pressure on orangutans’ habitat, human presence has also a significant impact on the species daily activities, constituting an additional threat to its survival.
Descrição
Tese de mestrado, Biologia da Conservação, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências, 2017
Palavras-chave
Orangotango Vocalizações Hipótese risco-distúrbio Perturbação humana Conservação Teses de mestrado -2017
