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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
Com as famosas palavras “I’m just a sweet transvestite from Transsexual, Transylvania,”
Dr. Frank-N-Furter apresenta-se com orgulho à audiência do musical de terror pós-moderno The
Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975), enquanto simultaneamente revela uma
tendência subliminal enraizada no género de terror desde os seus primórdios: a associação entre o
monstro queer e o terror cinematográfico. O presente estudo, intitulado “From Monsters to
Monsters: Perverted Predators and Diseased Deviants – Queer Representations in American
Slasher Film of the 1980s”, tem como objectivo desenvolver esta ideia, explorando
representações queer num subgénero do terror que ganhou popularidade nos filmes dos anos 80,
o slasher. Neste sentido, serão descritas e analisadas as imagens negativas apresentadas por
Hollywood, que tiveram um impacto tremendo na comunidade LGBT (lésbico, gay, bissexual,
transgénero/ transsexual). Ao mesmo tempo, tendo em conta a vantajosa posição de poder aceder
à teoria queer contemporânea, este estudo também desenvolve a ideia de que as várias imagens
monstruosas não representam necessariamente um mal que vitimiza indivíduos LGBT. Pelo
contrário, quando analisadas retrospectivamente, tais falsas representações podem de facto servir
como um modo de subverter um heteronormativo conceito de individuo.
O enfoque particular na década de 1980 surge não só por causa do aparecimento do
subgénero slasher, mas também porque este período representou um enorme retrocesso em
relação aos direitos LGBT. O regresso a ideologias ultraconservadoras sob a presidência de
Ronald Reagan (1981-1989), e o surgimento e a expansão rápida do vírus HIV/SIDA, bem como
a associação imediata da doença com a comunidade homossexual masculina, geraram uma
atmosfera geral de homofobia que assolou os Estados Unidos – um medo que foi rapidamente
adoptado e explorado pelo género de terror de forma a aterrorizar, de modo particular, a classe
média americana.
De forma a contextualizar este tema em particular, será desenvolvido primeiro um
enquadramento em relação ao Terror enquanto género, mostrando em que medida os conceitos de
monstruosidade e queerness podem ser associados. Neste contexto, serão também consideradas
as origens históricas desta associação pejorativa encontradas já no século XIX (por exemplo, no
Gótico ou o no caso do julgamento de Oscar Wilde). Deste modo, será demonstrado como a ideia de uma “identidade homossexual” entrou na consciência pública, revertendo certos significados e
estereótipos que doravante seriam associados a indivíduos queer.
A nível cinematográfico, será explorado o modo como as concepções erradas criadas no
fin-de-siècle foram rapidamente adoptadas ao longo do século XX, começando com filmes de
terror americanos de certo modo pioneiros, como Frankenstein (1931) e Bride of Frankenstein
(1935), em direção ao verdadeiro cerne desta dissertação, o filme de terror pós-moderno que
eclodiu sobretudo a partir dos anos 60. Através do filme Psycho (1960) de Alfred Hitchcock, será
exemplificada a diferença entre os paradigmas do filme de terror clássico e o filme de terror pósmoderno.
Psycho é essencial para este estudo, visto que o filme pode não só ser considerado um
ponto fulcral em relação a uma certa ruptura com as formas clássicas de produção
cinematográfica de terror, mas também por ser considerado por vários estudiosos como a origem
do slasher. Além disso, é um dos primeiros filmes que apresentou abertamente uma personagem
homossexual. Durante esta análise fílmica, prestar-se-á especial atenção à influência da
psicanálise nos Estados Unidos em meados do século, ou melhor, ao modo como as ideias
freudianas foram falsamente interpretadas para retratar os “sexualmente desviantes”, enquanto
seres estranhos ou doentes. Para destacar ainda mais o subtexto queer do filme, será feita uma
breve comparação entre o original de Hitchock e o remake (plano por plano) de Gus Van Sant, de
1998, no sentido de mostrar como a simples mudança de pequenos pormenores pode alterar
radicalmente a visão que um filme apresenta do homossexual e da homossexualidade.
Antes de iniciar o estudo aprofundado sobre o slasher, será tida em consideração a grande
transformação de conteúdos cinematográficos queer depois dos anos 60 por via de eventos
históricos e fílmicos fundamentais, tal como a abolição do Código de Produção Fílmica ou o
nascimento do movimento de direitos LGBT, que permitiram que personagens queer pudessem,
de repente, ser representadas abertamente, sem que no entanto tais representações deixassem de
ser pejorativas.
De forma a ilustrar os altos níveis de discriminação que a comunidade LGBT sofreu nos
anos 80, serão abordados em seguida tópicos como: as ideias desinformadas em relação à SIDA
que infiltraram a consciência Norte-Americana, ou a tendência para regressar a configurações
físicas e a comportamentos hiper-masculinos, enquanto forma de emular os “heterossexuais”,
mas também enquanto afirmação de distanciamento em relação ao queer infectado, fraco e
efeminado. Para além disso, o slasher como subgénero do terror, com as suas características
distintivas vai ser introduzido no contexto de teoria queer, incluindo uma abordagem histórica do
slasher, nomeadamente com referência a filmes e géneros fílmicos que influenciaram o seu
desenvolvimento, bem como uma breve análise das circunstâncias sociopolíticas em que o
subgénero prosperou.
As análises fílmicas deste estudo têm em mente os debates iniciados nos capítulos
anteriores, e explicitam a teoria aplicada a quatro filmes de terror dos anos 80 (analisados dois a
dois): Dressed to Kill (Brian de Palma, 1980), Cruising (William Friedkin, 1980), Sleepaway
Camp (Robert Hiltzik, 1983), e A Nightmare on Elm Street 2: Freddy’s Revenge (Jack Sholder,
1985). Devido ao estado ainda em desenvolvimento evolutivo do subgénero slasher no ano do
seu lançamento, os dois primeiros filmes podem ser considerados como protótipos do género. Já
os dois últimos incluem todas as componentes de um filme slasher, motivo pelo qual foi
necessário organizá-los em dois grupos (e capítulos) separados.
Tendo estabelecido a base para a demonização de personagens queer nos anos 80 antes do
advento da crise da SIDA, Dressed to Kill e Cruising serão analisados comparativamente:
começando com o impacto que os dois filmes tiveram, passando pela reutilização de material
hitchcockiano, à presença do olhar voyeurístico ou à crítica de figuras de autoridade corruptas.
Ademais, tendo em conta as características definidoras do slasher, determina-se quanto
estes filmes podem ser considerados protótipos do subgénero. Ao mesmo tempo as influências de
outras formas fílmicas, como o género Italiano giallo, precisam de ser avaliadas, transformando
tanto Cruising como Dressed to Kill em dois filmes que traçam os limites de género, sendo
fundamentais na evolução do terror pós-moderno.
Por fim, ao contrário dos filmes anteriormente discutidos, Sleepaway Camp e A
Nightmare on Elm Street 2: Freddy’s Revenge foram já produzidos nos primeiros anos da crise
da SIDA, numa fase em que a doença ainda era entendida como uma forma de “cancro gay”.
Estes filmes revelarão, portanto, múltiplas alusões à epidemia, enquanto também se focam nas
dificuldades que os adolescentes queer enfrentaram no dia a dia, reconhecendo identidades, ainda
que simplificando reações.
Enquanto Sleepaway Camp chama a sua atenção prioritariamente para a monstruosidade
de uma identidade sexual, ultrapassando normas de género tradicionais, A Nightmare on Elm
Street 2: Freddy’s Revenge empreende um diferente caminho jogando com alusões homossexuais a um nível mais metafórico. No entanto, ambos utilizam o poder do camp como força
transformadora.
Tendo em conta que estes filmes são slashers assumidos, é importante demarcar as
diferenças entre eles e os protótipos anteriormente estudados. Por isso, serão consideradas
preferencialmente as características básicas que definem o slasher, mas também outras questões
como a homofobia interiorizada, má parentalidade, a crítica dura às autoridades ou uma certa
inclinação para voyeurismo. Apesar da qualidade (ou falta dela) dos filmes selecionados, estas
ideias são fundamentais para ilustrar as grandes semelhanças e discrepâncias entre os protótipos
mais elaborados e os filmes slasher de série examinados neste estudo. A análise apresentada aqui
revelará que estes filmes considerados “inferiores” têm de facto um enorme potencial (queer),
especialmente no modo como subvertem ou trabalham temas muitas vezes ignorados noutros
géneros e subgéneros cinematográficos.
With the famous words “I’m just a sweet transvestite from Transsexual, Transylvania,” Dr. Frank-N-Furter proudly introduces himself to the audience of the postmodern horror musical The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975) while simultaneously pointing out an important subliminal trend engrained in the horror genre since its beginnings: the association between the queer monster and cinematic horror. This MA dissertation, entitled “From Monsters to Monsters: Perverted Predators and Diseased Deviants – Queer Representations in American Slasher Film of the 1980s” aims to follow this reasoning by exploring depictions of queerness in the Slasher Film, a horror subgenre that rose in prominence in the 1980s. More specifically, I will describe the hurtful consequences Hollywood’s continuous horrific portrayal of LGBT (lesbian, gay, bisexual, and transgender/ transsexual) individuals caused the queer community. Basing my argument on queer theory, I will support the idea that monstrous images do not need to necessarily be an evil victimizing LGBT individuals by pointing out that these ‘misrepresentations’ seen from today’s standpoint can indeed also serve as a form of queer subversion. I particularly chose to focus on the 1980s, not only due to the emergence of the slasher subgenre, but also because the decade generated an enormous backlash in regards to LGBT rights. The general atmosphere of homophobia pervading the United States stemmed from a socio-political return to ultra-conservative ideologies under the presidency of Ronald Reagan (1981-1989), as well as from the surfacing and rapid spreading of HIV/AIDS and the immediate association of the disease to the male homosexual community – a fear that was quickly adopted and exploited by the horror genre, and especially by the slasher subgenre, as a means to disturb heteronormative middle class America.
With the famous words “I’m just a sweet transvestite from Transsexual, Transylvania,” Dr. Frank-N-Furter proudly introduces himself to the audience of the postmodern horror musical The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975) while simultaneously pointing out an important subliminal trend engrained in the horror genre since its beginnings: the association between the queer monster and cinematic horror. This MA dissertation, entitled “From Monsters to Monsters: Perverted Predators and Diseased Deviants – Queer Representations in American Slasher Film of the 1980s” aims to follow this reasoning by exploring depictions of queerness in the Slasher Film, a horror subgenre that rose in prominence in the 1980s. More specifically, I will describe the hurtful consequences Hollywood’s continuous horrific portrayal of LGBT (lesbian, gay, bisexual, and transgender/ transsexual) individuals caused the queer community. Basing my argument on queer theory, I will support the idea that monstrous images do not need to necessarily be an evil victimizing LGBT individuals by pointing out that these ‘misrepresentations’ seen from today’s standpoint can indeed also serve as a form of queer subversion. I particularly chose to focus on the 1980s, not only due to the emergence of the slasher subgenre, but also because the decade generated an enormous backlash in regards to LGBT rights. The general atmosphere of homophobia pervading the United States stemmed from a socio-political return to ultra-conservative ideologies under the presidency of Ronald Reagan (1981-1989), as well as from the surfacing and rapid spreading of HIV/AIDS and the immediate association of the disease to the male homosexual community – a fear that was quickly adopted and exploited by the horror genre, and especially by the slasher subgenre, as a means to disturb heteronormative middle class America.
Descrição
Palavras-chave
Slashers - Estados Unidos - História e crítica Filmes de horror - Estados Unidos - História e crítica Homosexualidade - No cinema Identidade sexual - No cinema Cinema - Estados Unidos da América - 1980-… Teses de mestrado - 2016
