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Orientador(es)
Resumo(s)
As teorias humanistas evidenciaram, no âmbito da análise organizacional, uma
perspectiva eclética na forma como concebiam a vivência do homem na empresa. Este
não seria movido apenas por motivações de ordem económica: é um ser biológico,
psicológico e social, que reage como um todo aos estímulos do meio ambiente.
No entanto, o estudo das sociabilidades e da constituição das identidades
profissionais no contexto de trabalho evidenciou que a vivência do homem no seio da
organização é bem mais complexa do que a retratava a teoria das relações humanas.
Enquanto agente activo (actor) no contexto de trabalho, ele encontra-se num estado
de interdependência estratégica com os restantes actores do sistema. Os seus
comportamentos e as suas atitudes não são totalmente previsíveis nem lineares, pois
são condicionadas por um conjunto de estruturas e regulações locais, que exercem
sobre ele uma acção contingente.
Os actores constroem, nesta perspectiva, uma relação estratégica com o meio
ambiente. Nem sempre desenvolvem racionalidades convergentes e só dificilmente
possuem objectivos e projectos coerentes (Crozier e Friedberg, 1977). As suas
racionalidades e as suas estratégias são simultaneamente o produto da pertença a um
grupo e de condições materiais e sociais inerentes ao contexto empírico, o que
legitima as suas escolhas e facilita a compreensão da acção social no contexto de
trabalho.
Embora o comportamento dos actores seja, à partida, indeterminado, pode
considerar-se que é sustentado por interesses, intenções, ideologias e estratégias mais
ou menos conscientes. Por tais motivos, a análise do funcionamento do colectivo de
actores não deve ser conduzida a partir de referenciais inerentes à cultura
organizacional mas sim a partir do conhecimento do contexto da acção e dos
mecanismos locais de regulação. Na medida em que o actor e o sistema são coconstitutivos,
é claramente redutor considerar apenas as características psicológicas e
sociais daquele para a compreensão da acção colectiva: é fundamental o
conhecimento dos contextos de acção empírica.
Estas ideias são centrais para compreender a formatividade dos actores em
contexto de trabalho, entendendo por formatividade o processo dinâmico e
estratégico de (re)elaboração de saberes, onde o desenvolvimento global de
competências, incluindo as relacionais e transferíveis, não depende exclusivamente de
um trabalho intencional de formação mas do funcionamento social do gmp o e das
auto-mediações que os actores desenvolvem com o seu mundo subjectivo (Correia,
1992). As noções de estratégia e de transformação, por referência ao funcionamento
social do grupo, são o reflexo da dimensão formativa do contexto de trabalho, que
pode ser considerado um território educativo (Canário, 1994).
Ao localizar-se no contexto de trabalho, o homem está a inserir-se em duas
dimensões: a técnica e a social. A explicação do processo global de formação (e de
socialização, por consequência) poderia sustentar-se, assim, numa teoria tripolar
(Pineau, 1989): o homem forma-se por si, no contacto com os pares e com os
objectos que o rodeiam.
Esta visão do homem no exercício do trabalho induz uma complexificação do
estudo do processo de formatividade. Ao relativizar o papel das intenções e do
cálculo no comportamento humano, estamos a admitir a existência de uma ordem
local, que é fundamentalmente um construído político que medeia as relações com o
exterior, provocando uma eco-transformação e intercomunicabilidades entre os
elementos constitutivos do sistema. Isto corresponde a considerar-se que toda e
qualquer acção oriunda do exterior é sujeita a uma elaboração interna, que é fruto da
interpretação pelas estruturas de regulação instituídas. A vivência da afectividade e a
relação com o poder, que tentaremos explicar ao longo deste trabalho, são exemplo
de situações quotidianas cuja transformação teve importantes efeitos formativos para
o colectivo de actores.
Partindo da hipótese de que a aprendizagem em meio de trabalho não envolve
uma dinâmica molecular mas sim um processo de adaptação dos actores ao meio físico
e social circundante, somos levados a considerar que a organização, espaço em
permanente transformação, tem uma dimensão educativa. Seriam assim potencialmente
formadores os processos que, sem possuírem uma intencionalidade formativa explícita,
condicionam o comportamento dos actores no seio do colectivo de trabalho.
Os jogos de poder, a conflitualidade e a organização do trabalho são exemplos de fenómenos
organizacionais com importantes efeitos formativos. Por tais motivos, os
momentos informais e não formais de formação no contexto de trabalho, considerados
por vezes periféricos e marginais, assumem um lugar de relevo na evolução das
práticas profissionais.
Ao adoptarmos esta perspectiva sobre a formação em contexto de trabalho, na
qual se valorizam igualmente as diversas modalidades de formação, estamos desde
logo a assumir uma ruptura face à forma tradicional de conceber a formação contínua
na empresa. Trata-se de transitar de uma visão puramente consumista, utilitária e
adaptativa, na qual a formação é considerada uma variável de gestão, para uma
acepção ecológica do processo formativo, enquanto espaço dinamizador de
transformação e de problematização das práticas socio-profissionais.
É curioso verificar, no mundo ocidental em geral e em Portugal em particular,
o paralelismo existente entre as problemáticas da educação e as da saúde. Não se trata
apenas da existência de invariantes político-econômicas que condicionam de forma
idêntica ambos os sistemas: a nobreza dos valores saúde e educação alimentam um
debate constante sobre as políticas de gestão, a produção social de inovações e sobre
a visibilidade social dos diversos intervenientes em ambos os processos.
Uma das profissões mais jovens da área da saúde é a Enfermagem. Devido à
sua juventude e à sua historicidade, a Enfermagem é um sector socioprofissional em
franca ascensão social, processo que torna visíveis diversas contradições a nível das
identidades profissionais. (...)
Descrição
Tese de mestrado (Pedagogia na Saúde) apresentada à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa
Palavras-chave
Teses de mestrado - 1994 Processos e estruturas educativas Formação profissional Educação permanente Educação de adultos Estudo de casos Enfermagem Mudança social
