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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
O crescimento populacional humano leva a rápidas e drásticas mudança na estrutura da paisagem,
frequentemente como consequência da desflorestação e fragmentação. A fragmentação modifica a
paisagem e divide-a em parcelas de habitats mais pequenas e isoladas, criando cada vez mais zonas de
transição entre a matriz paisagística e as manchas de outros habitats, designadas por orlas. As orlas de
habitat podem afetar a distribuição e diversidade das espécies, a abundância local das populações e os
movimentos individuais, e, consequentemente, influenciar as interações entre as espécies, induzindo
efeitos em cascata no seio das comunidades. As orlas tanto podem constituir barreiras ao movimento de
certas espécies, ser utilizadas como corredores durante as deslocações dos indivíduos. Podem também
expor os organismos a diferentes condições abióticas e bióticas, promovendo a interação entre espécies
que de outra maneira não ocorreriam. A abundância de certas espécies pode aumentar perto das orlas se
estas as utilizarem como corredores para se deslocarem para habitats mais favoráveis ou se os dois
habitats adjacentes providenciarem recursos diferentes. Os efeitos negativos das orlas são muitas vezes
associados a espécies especialistas (no uso de determinados habitats ou presas), que tendem a evitar as
orlas. Assim, e tendo em conta o cada vez mais rápido aumento destas estruturas paisagísticas, é
importante e urgente compreender os seus efeitos, nomeadamente para espécies de mesocarnívoros; não
só pela falta de informação que existe em relação a este grupo no que diz respeito às suas respostas às
orlas de habitat, como pelos importantes papéis funcionais que desempenham nos ecossistemas.
Para abordar esta temática, este estudo foi realizado em duas herdades da Navigator Company, S.A. -
Caniceira e Zambujo - cujas paisagens são dominadas por plantações de eucalipto, mas que também
apresentam manchas de vegetação natural e outras plantações, que contribuem para uma paisagem
bastante heterogénea e rica em orlas de habitat.
Neste estudo, comparando as orlas com o interior dos habitats, pretendemos estudar se, e como, as orlas
influenciam a comunidade de mesocarnívoros a três níveis distintos: i) Temporalmente, estudando os
padrões de atividade de cada espécie e o nível de sobreposição temporal entre cada par de espécies, ii)
Espacialmente, recorrendo a modelos GLM para investigar se as características das orlas e outras
variáveis ou fatores ambientais podem estar a promover eventuais alterações na abundância relativa das
espécies, e iii) Espácio-temporalmente, avaliando o intervalo de tempo entre encontros de cada par de
espécies presentes em ambas as zonas.
Para tal, 18 dispositivos de foto-armadilhagem (câmaras fotográficas) foram distribuídos por cada
herdade, metade das quais instaladas em orlas de habitat, definidas como a linha ou área, identificável
no campo, que separa dois habitats adjacentes (eucaliptal – linha de água, eucaliptal-montado,
eucaliptal-pinhal, montado-linha de água) e a outra metade no interior do habitat matriz (eucaliptal,
montado, linha de água), separadas por, pelo menos, 500 metros. As armadilhas fotográficas estiveram
ativas 24 horas por dia, sem isco, entre Julho de 2020 e Janeiro de 2021, de modo a monitorizar a
comunidade de mesocarnívoros, com foco nas seguintes espécies: raposa (Vulpes vulpes), fuinha
(Martes foina), texugo europeu (Meles meles) e geneta (Genetta genetta). Num buffer de 200 metros
em torno de cada armadilha fotográfica, foram recolhidos dados ambientais divididos em 7 categorias:
características da orla, fontes de alimento, fonte de água, orografia, estrutura do habitat, composição do
cobertura do solo e perturbações antropogénicas. Para recolher informação acerca das fontes de alimento
para estes predadores, como sejam os pequenos mamíferos e os invertebrados, foram colocadas,
respetivamente, armadilhas Sherman com isco e armadilhas pitfall, ativas durante 3 noites na herdade
da Caniceira e 4 noites na herdade do Zambujo, em cada tipo de orla e de interior de habitat.
No que diz respeito à dimensão temporal, os mesocarnívoros estudados, reconhecidamente com uma
atividade maioritariamente noturna, mostram ter dois picos, um ao anoitecer e outro ao amanhecer, mais pronunciados nas orlas de habitat do que no interior. Uma explicação plausível para este padrão poderá
estar associada ao facto das orlas de habitat serem áreas mais abertas com menos vegetação herbácea e
arbórea, logo com menos recursos e esconderijos. Assim, os mesocarnívoros utilizam sobretudo as orlas
para se movimentarem entre os habitats onde repousam durante o dia e os habitats onde caçam durante
a noite. Apresentam assim um pico ao anoitecer, quando vão em busca de alimento e outro pico ao
anoitecer, quando voltam para os esconderijos onde passam o dia. Os pares de mesocarnívoros
aparentam ter uma maior sobreposição no interior dos habitats demonstrando uma potencial agregação
nestas zonas. Pensamos que tal pode acontecer pois o interior dos habitats apresentava, geralmente, uma
maior percentagem de coberto arbóreo e esconderijos (i.e. buracos nos troncos das árvores e arbustos)
que as orlas, que eram zonas abertas. Estas características permitem às espécies com capacidade
arborícola alimentar-se e usar o mesmo espaço, e ao mesmo tempo, que as espécies de características
não arborícolas, sem que se encontrem, evitando encontros agonísticos.
Espacialmente, não foram observadas diferenças significativas entre as abundâncias nas orlas e no
interior dos habitats. As variáveis relacionadas com a orla e com a estrutura do habitat mostraram não
ser fatores determinantes para explicar a abundância relativa dos mesocarnívoros. Em vez disso, a
composição do habitat (tipo e percentagem de cobertura do solo presentes em redor das armadilhas
fotográficas) é o que mais influencia a maior abundância relativa de mesocarnívoros. Isto sugere que,
nos contextos paisagísticos estudados, os mesocarnívoros podem não percecionar as orlas como uma
barreira espacial ou como um tipo habitat diferente, mas sim, podem estar a utilizá-las apenas como um
corredor para se movimentarem entre diferentes tipos de habitat, possivelmente por se tratar de espécies
generalistas, o que se reflete no efeito neutro das orlas.
A nível espácio-temporal, a comunidade de mesocarnívoros apresentou padrões de agregação tanto nas
orlas como no interior dos habitats. A única exceção foi o par raposa e geneta, que mostraram evitar-se
nas orlas de habitat. Acreditamos que esta segregação se deva ao facto de estas duas espécies partilharem
nichos tróficos semelhantes. As orlas de habitat constituem uma unidade paisagística de pequena escala,
com menos espaço disponível, sendo também uma área mais aberta pela menor cobertura arbustiva.
Assim, a probabilidade de encontros entre as duas espécies, e consequentes confrontos, é
consideravelmente maior. Assim sendo, esta segregação pode ser uma estratégia para promover a
coexistência entre os dois mesocarnívoros.
Este estudo contribuiu para demonstrar que os efeitos de orla nos mesocarnívoros ibéricos são
específicos da espécie e do contexto paisagístico. No entanto, em geral, mostrou que os mesocarnívoros
estudados se agregam, e têm uma maior sobreposição temporal, no interior dos habitats quando
comparados com as orlas de habitats. No interior dos habitats também mostram picos de atividade menos
pronunciados, que muitas vezes ocorreram mais tarde do que nas orlas. Também conseguimos detetar
que o tipo de habitat (tipo e percentagem de cobertura do solo presentes em redor das armadilhas
fotográficas) é mais importante do que as próprias orlas para explicar a variação na abundância relativa
dos mesocarnívoros. Este conhecimento contribui para otimizar as medidas de gestão em ecossistemas
alterados pelo ser humano, como áreas agrícolas e de plantações florestais, onde são criadas diferentes
orlas, para garantir a conservação da biodiversidade, mantendo a rendibilidade económica. À medida
que os habitats se tornam mais fragmentados, o número de orlas aumentam e estudos como este tornamse mais importantes. Pelo que sabemos, este é o primeiro estudo direcionado especificamente aos efeitos
de orla em mesocarnívoros na Península Ibérica. Estudos futuros beneficiariam de uma amostragem a
longo prazo incluindo várias estações do ano e uma avaliação simultânea da disponibilidade e consumo
dos diferentes recursos alimentares em cada estação do ano e tipo de habitat. Também é necessária uma
análise mais extensa sobre a ocupação do espaço, recorrendo, por exemplo a técnicas de
geoposicionamento (colares com GPS), para uma compreensão, a escala fina e detalhada, de como os mesocarnívoros utilizam as diferentes unidades de paisagem, incluindo os diferentes tipos de orlas e
interiores de habitats matriz.
Human population growth leads to drastic changes in landscape structure that often results in fragmentation. Fragmentation modifies the landscape and divides it into smaller habitat patches, creating habitat edges. These can affect the distribution, diversity, abundance and movement of species and, consequently, influence interspecific interactions, inducing cascading effects into all communities. This study was carried out in two farmsteads, whose landscapes are dominated by Eucalyptus plantations but which also present a great fragmentation of natural habitats with patches of different land covers, contributing to a very heterogeneous landscape and rich in habitat edges. We placed18 camera-trapping devices in each farmstead, half on habitat edges and half in the habitat interiors to monitor the mesocarnivore community with a focus on the red fox (Vulpes vulpes), stone marten (Martes foina), European badger (Meles meles) and common genet (Genetta genetta). In a 200m around each camera, we collected environmental data divided into 7 categories: edge characteristics, food sources, water source, orography, habitat structure, land cover composition, and anthropogenic disturbances. To collect information about food sources, such as small mammals and invertebrates, Sherman and pitfall traps were placed, respectively, in each type of edge and habitat interior in a total of 6 sites in each farmstead. By comparing edges with habitat interiors, we intend to study how or if habitat edges influence mesocarnivores at three levels: i) Temporally, studying the change in activity and overlapping patterns, ii) Spatially, using GLMs to investigate which variables may be influencing the relative abundance of species at the edges and the interior habitats, and iii) Spatio-temporally, by investigating if there are changes in the interactions between the species’ pairs on habitat edges compared to habitat interiors. This study contributed to demonstrate that edge effects on Iberian mesocarnivores are species and landscape context-specific. However, in general, it showed that mesocarnivores aggregate and have a greater overlap of activity within interior habitats than in edge habitats. In the habitats interior mesocarnivores also showed less pronounced peaks of activity, often occurring later than at the edges of the habitats. We were also able to detect that the type of habitat is more important than the edges themselves in explaining the observed variation in the relative abundance of mesocarnivores. Knowledge gathered with this study contributes to the design of better management measures in humanaltered ecosystems, such as agricultural areas and forestry plantations, where different borders are created, to guarantee the conservation of biodiversity while maintaining economic profitability.
Human population growth leads to drastic changes in landscape structure that often results in fragmentation. Fragmentation modifies the landscape and divides it into smaller habitat patches, creating habitat edges. These can affect the distribution, diversity, abundance and movement of species and, consequently, influence interspecific interactions, inducing cascading effects into all communities. This study was carried out in two farmsteads, whose landscapes are dominated by Eucalyptus plantations but which also present a great fragmentation of natural habitats with patches of different land covers, contributing to a very heterogeneous landscape and rich in habitat edges. We placed18 camera-trapping devices in each farmstead, half on habitat edges and half in the habitat interiors to monitor the mesocarnivore community with a focus on the red fox (Vulpes vulpes), stone marten (Martes foina), European badger (Meles meles) and common genet (Genetta genetta). In a 200m around each camera, we collected environmental data divided into 7 categories: edge characteristics, food sources, water source, orography, habitat structure, land cover composition, and anthropogenic disturbances. To collect information about food sources, such as small mammals and invertebrates, Sherman and pitfall traps were placed, respectively, in each type of edge and habitat interior in a total of 6 sites in each farmstead. By comparing edges with habitat interiors, we intend to study how or if habitat edges influence mesocarnivores at three levels: i) Temporally, studying the change in activity and overlapping patterns, ii) Spatially, using GLMs to investigate which variables may be influencing the relative abundance of species at the edges and the interior habitats, and iii) Spatio-temporally, by investigating if there are changes in the interactions between the species’ pairs on habitat edges compared to habitat interiors. This study contributed to demonstrate that edge effects on Iberian mesocarnivores are species and landscape context-specific. However, in general, it showed that mesocarnivores aggregate and have a greater overlap of activity within interior habitats than in edge habitats. In the habitats interior mesocarnivores also showed less pronounced peaks of activity, often occurring later than at the edges of the habitats. We were also able to detect that the type of habitat is more important than the edges themselves in explaining the observed variation in the relative abundance of mesocarnivores. Knowledge gathered with this study contributes to the design of better management measures in humanaltered ecosystems, such as agricultural areas and forestry plantations, where different borders are created, to guarantee the conservation of biodiversity while maintaining economic profitability.
Descrição
Tese de Mestrado, Biologia da Conservação, 2022, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências
Palavras-chave
Carnivora Efeito de orla Contexto mediterrânico Fotoarmadilhagem Uso do espaço e do tempo Teses de mestrado - 2023
