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Orientador(es)
Resumo(s)
Prática mortuária restabelecida em Portugal em 1985 com a reactivação do forno
crematório do cemitério lisboeta do Alto de São João, após um primeiro começo
inconsequente que durou de 1925 a 1936, a cremação passou, já no século XXI, de prática
residual a primeira escolha funerária no concelho de Lisboa, representando em 2011 51,3%
do total de funerais realizados.
Esta dissertação estuda o fenómeno contemporâneo da cremação no concelho de
Lisboa, analisando a sua história e indagando as razões do seu crescimento recente. As
motivações e os interesses dos promotores da cremação em diferentes períodos, os sucessivos
enquadramentos legais da prática, as variações da posição e da pedagogia da Igreja Católica a
respeito dela, e o modo como é concebida por quem hoje em dia recorre a ela, são os
principais eixos de análise explorados neste estudo. Leva-se também em consideração a
influência do cinema e da televisão, sobretudo norte-americanos e britânicos, que
contribuíram para banalizar a cremação, da mesma forma que apresentaram um novo formato
de cerimónias fúnebres, centradas na personalidade do falecido e na celebração da sua vida.
Através de entrevistas a vinte e quatro familiares e amigos de pessoas que foram
cremadas nos últimos anos, por vontade própria ou por escolha da família, tomei
conhecimento das razões declaradas desta opção e também dos destinos dados às cinzas. A
análise do conjunto dos testemunhos evidencia que a cremação é encarada hoje em dia como
uma escolha que visa simplificar e encerrar rapidamente o processo logístico ocasionado por
uma morte, desobrigando os que ficam de preocupações e encargos, esconjurando também a
imaginação da decomposição lenta do cadáver quando inumado, e possibilitando uma relação
livre e personalizada com os restos mortais, menos focada nestes do que na memória de
momentos da vida da pessoa falecida, idealmente felizes.
Estas atitudes põem em evidência uma reconfiguração da identidade pessoal e das
responsabilidades individuais na família. Encontramos, igualmente, uma imaginação
descorporizada dos mortos, e a certeza de que honrar a sua memória significa mantê-los vivos
falando deles, não cultuando os seus restos mortais no cemitério. As cinzas, elemento estável
e entendido como limpo e inócuo, estão no epicentro de novas ritualizações, não
convencionais, personalizadas e celebrativas.
Descrição
Tese de Mestrado em Antropologia Social e Cultural, apresentada à Universidade de Lisboa, através do Instituto de Ciências Sociais em 2012
Palavras-chave
Cremação Morte Cerimónias fúnebres Memória Rituais Teses de Mestrado - 2012
