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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
Introdução: As emoções autoconscientes, como a culpa e a vergonha, têm sido consideradas relevantes para o desenvolvimento e persistência de perturbações afetivas e alimentares. Estas emoções requerem a posse de um auto-conceito ou auto-representação, surgindo em resposta a transgressões pessoais, e ocorrem frequentemente em simultâneo. A culpa é sentida quando o indivíduo tem como foco de avaliação o seu comportamento ("O que eu fiz"), enquanto a vergonha ocorre quando é o próprio indivíduo o alvo da transgressão ("Quem eu sou"). A culpa promove o comportamento de reparação, a confissão e o pedido de desculpa (~ aumento da vontade e do impulso), enquanto a vergonha diminui a vontade e o impulso e origina o retraimento e o ato de retirada. Quando as transgressões são expostas publicamente, sentimentos de vergonha tendem a emergir, enquanto transgressões privadas tendem a despertar sentimentos de culpa. Emoções autoconscientes parecem ser moduladas por experiências, expetativas e crenças anteriores e estão positivamente correlacionadas com vários sintomas psiquiátricos e perturbações. A Guilt and Shame Proneness Scale (GASP) é a primeira escala que avalia a propensão à culpa e vergonha, incorporando as distinções auto-comportamento e público-privado. Consiste numa escala de autorrelato de 16 itens, dividida em quatro subescalas: 2 subescalas de culpa, que envolvem tanto a Avaliação Negativa do Comportamento como a Ação de Reparação na sequência de transgressões privadas; e 2 subescalas de vergonha, que envolvem a Autoavaliação Negativa e tendências para a Ação de Retirada na sequência de transgressões públicas. Os itens são pontuados numa escala de 7 (1 = muito improvável a 7 = muito provavelmente), avaliando a probabilidade de o indivíduo se comportar, pensar ou sentir da forma indicada em cada cenário. Assim, o presente estudo tem como objetivo validar a escala GASP para a população portuguesa, mantendo a validade e confiabilidade do estudo original, uma vez que pode ser útil na prática clínica e em estudos de investigação. A nossa hipótese é que as associações entre as dimensões da personalidade que o estudo original descreveu serão positivamente associadas às encontradas no presente estudo.
Métodos: Este estudo incluiu 208 participantes e utilizou a versão portuguesa
traduzida da GASP e o inventário de personalidade HEXACO. A confiabilidade da escala GASP foi avaliada através de análises estatísticas de um questionário (administrado entre Outubro e Dezembro de 2023) utilizando o SPSS ® e o R Project ®. A divulgação ocorreu através de redes sociais públicas online (Facebook ® e Instagram ®) e o consentimento informado (ajustado à declaração de Helsínquia) foi recolhido de todos os participantes neste projeto de investigação e a aprovação ética foi dada pela Comissão de Ética do CAML (Centro Médico Académico de Lisboa) em outubro de 2023. Inicialmente, avaliámos as estatísticas descritivas dos itens do GASP para caraterizar as variáveis demográficas e clínicas, incluindo a média, desvio padrão, assimetria e curtose. Um modelo oblíquo não hierárquico de quatro fatores foi examinado neste estudo utilizando o programa R Project ®, com base na estrutura fatorial mais adequada da validação original da GASP. Os índices da análise fatorial confirmatória foram ajustados utilizando os mínimos quadrados ponderados diagonalmente (DWLS), um método adequado para indicadores métricos com variáveis categóricas ordinais. Foram determinados vários índices de ajustamento para avaliar o modelo, incluindo o teste do qui-quadrado (χ2), o índice de ajuste comparativo (CFI), o erro médio quadrado de aproximação (RMSEA), o índice de Tucker-Lewis (TLI) e a raiz quadrada média dos resíduos padronizada (SRMR). Foram também avaliadas as cargas fatoriais dos itens. Em termos de avaliação da consistência interna, utilizámos o coeficiente ordinal α, uma vez que é o mais adequado para variáveis ordinais. Ao contrário do α de Cronbach padrão, que trata as variáveis ordinais como numéricas, o α ordinal foi especificamente concebido para abordar a natureza única das variáveis com uma escala ordinal. Para avaliar a validade concorrente da GASP e das suas correlações externas, foram calculados os coeficientes de correlação de Pearson entre as quatro subescalas da GASP e os traços de personalidade descritos na escala HEXACO. Para aprofundar as associações distintas entre as subescalas da GASP e as dimensões da HEXACO também foram realizadas análises de regressão, regredindo as subescalas da GASP nos traços de personalidade da HEXACO. Resultados: As estatísticas descritivas de cada item da GASP não revelaram anomalias na distribuição da amostra, com assimetria e curtose inferiores a |2,22| e |6,57|, respetivamente. Os índices da análise fatorial confirmatória do modelo demonstraram a sua boa adequação: χ2 (98, N = 197) = 130,635, p = .015, CFI = .98, TLI = .97, RMSEA = .04 [IC 90%: .00 a .06], SRMR = .07 e todos os itens tinham cargas fatoriais superiores a .33, indicando uma forte associação entre os itens e os fatores subjacentes. Em termos de consistência interna, os valores obtidos para o alfa foram de .70 para a Guilt Negative-Behaviour-Evaluation (NBE), .67 para a Guilt-Repair, .66 para a Shame Negative-Self-Evaluation (NSE) e .51 para a Shame-Withdraw. Relativamente às correlações bivariadas entre as subescalas da GASP e as suas correlações externas, a Guilt-Repair apresentou uma correlação positiva moderada significativa com as subescalas Guilt-NBE e Shame-NSE. Em segundo lugar, a Guilt-NBE apresentou uma correlação positiva significativa com a Shame-NSE. Finalmente, a Shame-NSE demonstrou estar significativamente e positivamente correlacionada com a Shame-Withdraw, embora com baixa magnitude. Por outro lado, a Honestidade-Humildade foi a dimensão que apresentou correlações mais robustas com as subescalas da GASP. Em particular, a faceta Justiça, pertencente à dimensão Honestidade-Humildade, demonstrou uma correlação positiva estatisticamente significativa com a Guilt-Repair, a Guilt-NBE e a Shame-NSE, juntamente com uma correlação negativa com a Shame-Withdraw. A dimensão Emocionalidade apresentou uma correlação positiva significativa com a Guilt-NBE, a Shame-NSE e a Shame-Withdraw. Além disso, a Extroversão demonstrou uma correlação negativa com a Shame-Withdraw e com a Shame-NSE. A Amabilidade demonstrou estar negativamente correlacionada com a Shame-Withdraw. Por fim, a dimensão Conscienciosidade apresentou correlações positivas significativas com a Guilt-Repair e a Guilt-NBE. As análises de regressão múltipla com as subescalas GASP como variáveis dependentes e as dimensões HEXACO como variáveis preditoras revelaram que a dimensão Honestidade-Humildade estava correlacionada com todas as subescalas GASP, sendo a associação entre Honestidade-Humildade e Shame-Withdraw inversa. Em segundo lugar, a dimensão Emocionalidade estava positivamente relacionada com a Guilt-NBE e a Shame-NSE. Em terceiro lugar, a dimensão Conscienciosidade foi associada apenas à Guilt-Repair. Em quarto lugar, a dimensão Abertura à Experiência foi positivamente relacionada com a Shame-NSE.Finalmente, a dimensão Extroversão foi inversamente associada à Shame-Withdraw e Shame-NSE.
Conclusão: O presente estudo demonstra a primeira validação da versão Portuguesa da escala GASP, examinando as suas propriedades psicométricas e associações com as dimensões de personalidade HEXACO. A adaptação da escala GASP à população Portuguesa sugere a sua potencial utilização em contextos clínicos e de investigação, proporcionando uma compreensão matizada da culpa e da vergonha. Os resultados deste estudo confirmam a natureza multidimensional destas emoções, apoiando a estrutura de quatro fatores da escala. Apesar dos desafios encontrados na consistência interna da subescala Shame-Withdraw, os índices de ajustamento global do modelo sugerem que a escala é um instrumento fiável para avaliar a culpa e a vergonha na população portuguesa. Para além disso, as correlações entre as subescalas da GASP e as dimensões da HEXACO evidenciam a complexa interação entre emoções autoconscientes e traços de personalidade. Nomeadamente, as associações com a Honestidade-Humildade e a Emocionalidade indicam a importância destes traços na influência das respostas à culpa e vergonha. A relação inversa entre a Shame-Withdraw e a Extroversão sugere uma tendência para indivíduos introvertidos se “retirarem” em resposta a situações indutoras de vergonha. No entanto, as limitações deste estudo devem ser tidas em conta ao interpretar os resultados, e a investigação futura deve ter como objetivo obter amostras mais diversificadas para melhorar a generalização dos resultados. Além disso, deve ser realizado um refinamento da tradução da escala e estudos longitudinais poderão fornecer mais informações sobre as trajetórias de desenvolvimento da culpa e de propensão para a vergonha.
Concluindo, a escala GASP Portuguesa validada é promissora como uma ferramenta valiosa para os clínicos e contribui para a literatura sobre emoções autoconscientes, sugerindo caminhos para investigação futura.
Introduction: Self-conscious emotions, such as guilt and shame, are considered relevant features for the development and maintenance of several psychiatric disorders, including affective and eating disorders. Guilt is experienced when the individual targets his/her behaviour as focus of evaluation (“What I did”), and shame when it is itself the target of wrongdoing (“Who I am”). When transgressions are publicly exposed, shame feelings tend to emerge, while private transgressions tend to arouse feelings of guilt. The Guilt and Shame Proneness scale (GASP) is the first scale that measures guilt and shame proneness incorporating both self-behaviour and public-private distinctions. The present study aims to validate the GASP scale to Portuguese population. Methods: This study included 208 participants and employed the translated Portuguese version of the GASP and HEXACO personality inventory. The reliance of the GASP scale was evaluated across statistical analyses of a questionnaire (administered between October and December 2023) using SPSS ® and R Project ®. Results: Descriptive statistics for each item of the GASP showed no distributional issues. The CFA fit indices on the four-factor model of GASP were satisfactory and all items had factor loadings above .33, indicating a strong association between the items and the underlying factors. Alpha values were of .70 for Guilt-Negative-Behaviour Evaluation, .67 for Guilt-Repair, .66 for Shame-Negative-Self-Evaluation, and .51 for Shame-Withdraw. Within the HEXACO framework, honesty-humility was the dimension exhibiting more robust correlations with the GASP subscales. Conclusion: The present validation of the Portuguese version of the GASP scale has examined its psychometric properties and associations with HEXACO personality dimensions. This tool holds promise as being valuable for clinicians and contributing to the literature on self-conscious emotions, suggesting avenues for further research in this area of psychological research.
Introduction: Self-conscious emotions, such as guilt and shame, are considered relevant features for the development and maintenance of several psychiatric disorders, including affective and eating disorders. Guilt is experienced when the individual targets his/her behaviour as focus of evaluation (“What I did”), and shame when it is itself the target of wrongdoing (“Who I am”). When transgressions are publicly exposed, shame feelings tend to emerge, while private transgressions tend to arouse feelings of guilt. The Guilt and Shame Proneness scale (GASP) is the first scale that measures guilt and shame proneness incorporating both self-behaviour and public-private distinctions. The present study aims to validate the GASP scale to Portuguese population. Methods: This study included 208 participants and employed the translated Portuguese version of the GASP and HEXACO personality inventory. The reliance of the GASP scale was evaluated across statistical analyses of a questionnaire (administered between October and December 2023) using SPSS ® and R Project ®. Results: Descriptive statistics for each item of the GASP showed no distributional issues. The CFA fit indices on the four-factor model of GASP were satisfactory and all items had factor loadings above .33, indicating a strong association between the items and the underlying factors. Alpha values were of .70 for Guilt-Negative-Behaviour Evaluation, .67 for Guilt-Repair, .66 for Shame-Negative-Self-Evaluation, and .51 for Shame-Withdraw. Within the HEXACO framework, honesty-humility was the dimension exhibiting more robust correlations with the GASP subscales. Conclusion: The present validation of the Portuguese version of the GASP scale has examined its psychometric properties and associations with HEXACO personality dimensions. This tool holds promise as being valuable for clinicians and contributing to the literature on self-conscious emotions, suggesting avenues for further research in this area of psychological research.
Descrição
Trabalho Final do Curso de Mestrado Integrado em Medicina, Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, 2024
Palavras-chave
Vergonha Culpa Escala Versão portuguesa
