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Three perspectives of the ‘other’: the barbarian in Eutropius, Orosius and Hydatius

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Resumo(s)

A identidade, individual e coletiva, é um conceito que tem ganho o interesse de diversos campos das ciências humanísticas desde o último quartel do século XX. Diversos problemas sociais presentes na atualidade, como a discriminação de minorias étnico-culturais, remontam a um passado histórico que pode ser traçado desde a Antiguidade. Como tal, a investigação histórica de âmbito etnográfico no mundo greco-romano é essencial para se perceber como se desenvolveu o pensamento ocidental em relação ao “Outro”, não só porque o império romano foi o principal modelo civilizacional dos europeus, mas também pela existência do conceito latino de bárbaro. Este complexo vocábulo agrupava e representava, de forma generalizada, aqueles que não eram romanos e, por consequência, os não civilizados. Contudo, durante o período conhecido por Antiguidade Tardia, surgiram novas conceções que alteraram o núcleo tradicional da identidade romana e a maneira como estes viam e representavam o “Outro”. Nesta dissertação procuro analisar a figura do bárbaro e compreender como este era interpretado por aqueles que se identificavam como “verdadeiros romanos” através de três textos dos séculos IV e V d.C.: o Breuiarium ab Urbe Condita de Eutrópio, as Historiae aduersus paganos de Orósio e as Chronica de Hidácio de Chaves. Esta transição de século é caracterizada por um período de turbulência coincidente com uma série de mudanças conceituais que se deveram, entre outras coisas, à introdução do Cristianismo como religião do Estado romano e ao estabelecimento de populações citas e germânicas dentro da fronteira imperial. Uma época em que as conceções “étnicas” se encontravam num fluxo constante à medida que a religiosidade se introduzia como um dos principais fatores indicadores de identidade. No entanto, o meu foco não é redescobrir a imagem do bárbaro ou redefini-lo como conceito geral, mas sim compreendê-lo nesses três autores específicos e perceber como era interpretado e quais as suas marcas definidoras. Isto porque, apesar do aumento dos estudos nesta área nos últimos anos, existem ainda lacunas sobre o que (ou quem) era, de forma precisa, o bárbaro nesse período. Esta dissertação, apesar de ser uma tese introdutória ao tema do bárbaro, ajuda a clarificar a sua imagem na Antiguidade Tardia e Alta Idade Média, além de servir de alicerce para um estudo mais abrangente no futuro. Com esse objetivo, além de barbarus, alarguei o estudo a outras palavras que achei interessante correlacionar e que não deixavam de estar associadas à representação do “Outro”. Primeiramente selecionei designações geográficas (germani e scythae) que se associam às regiões de onde as tribos bárbaras eram oriundas; depois prioritizei designações étnico-culturais para afunilar o estudo e comparar a evolução do uso dos etnónimos com a palavra genérica ‘bárbaro’ e ver quais eram as tribos que mais influenciaram a imagem do Bárbaro e porquê (optei pelas tribos dos Alanos, dos Francos, dos Hunos, dos Godos, dos Suevos e dos Vândalos por serem das maiores e mais reconhecidas populações bárbaras); e por fim decidi escolher designações do âmbito religioso como haereticus e paganus. Com esses requisitos em mente, agrupei todas as descrições do “Outro” presentes nos textos escolhidos, tanto na sua forma coletiva como individual, e dissequei-as caso a caso de modo a construir uma base de dados significativa sobre os bárbaros e as suas características ao nível semântico, cultural e literário, e desdobrei esses dados de modo a verificar qual é o topos literário que se encontra nesses autores e como é que esse evoluiu ao longo dos textos. Contudo, a exposição da tese não segue um percurso necessariamente linear, apesar da objetividade das minhas ideias. Ainda assim, adotei uma estrutura orgânica e intuitiva que abraça o próprio desenvolvimento dos vários pontos do estudo e que facilita a sua abordagem e compreensão. Assim sendo, dividi a dissertação em quatro capítulos principais, tendo em conta as múltiplas facetas do Bárbaro e dos bárbaros nas obras de Eutrópio, Orósio e Hidácio de Chaves. O primeiro capítulo de desenvolvimento da dissertação, dedicado à identificação textual do Bárbaro, é principalmente uma análise estatística. Neste capítulo concentrei-me em escrutinar um conjunto particular de palavras que achei relevantes de maneira a conseguir uma demonstração dos povos explicitamente categorizados como bárbaros pelos autores e a perceber se existia algum tipo de evolução interna ou intertextual no uso da palavra barbarus ou dos etnónimos. Com essa análise inicial, montei uma base de dados central que explicita os resultados obtidos de forma precisa, mas que também é fulcral para suportar e compreender o contexto dos capítulos seguintes. Devido a esta metodologia, é um capítulo com pouca interpretação, apesar de ser complementado com pormenores sobre as possíveis formas de subdivisão do “Outro” (geograficamente, religiosamente ou etnicamente através de etnónimos). O segundo capítulo, dedicado à caracterização do Bárbaro, é o primeiro da parte interpretativa da dissertação. Todavia, para este capítulo, achei pertinente expandir o método do capítulo anterior a personagens individuais e outros elementos associados ao “Outro” (incluindo cada um dos etnónimos) porque também constituem matéria de caracterização direta do Bárbaro e são dados que ajudam a compreender como é que os historiadores tardios definiam os bárbaros e a desenvolver uma melhor avaliação do quadro geral que esses povos tinham nesse mesmo período. Devido a isso, ainda há uma presença substancial de análise estatística no segundo capítulo. Como as descrições diretas dos bárbaros nos textos escolhidos são escassas ou pouco reveladoras, recorri à semântica para reconstruir a ideia que os autores tinham desses homens. Foquei-me principalmente em verbos e adjetivos utilizados em associação com o Bárbaro, pois são classes de palavras expressivamente pesadas e que são utilizadas para expressar opiniões ou transmitir uma determinada imagem sobre alguém ou algo. Todas as personagens históricas de origem bárbara que são mencionadas ao longo das obras em estudo encontram-se listadas neste capítulos. Além disso, ainda demonstro então quais são as personagens individuais de origem bárbara mais recorrentes nos textos e como é que estas se encaixavam como bárbaros, tendo em conta o seu papel no plano do próprio autor. Isto permitiu identificar diversas personalidades e identificá-las como sendo representantes do Bárbaro ou uma exceção ao estereótipo. O mesmo tipo de análise foi aplicado a cada um dos etnónimos para ganhar uma noção mais percetível de quais são, em Eutrópio, Orósio e Hidácio, as características típicas de cada tribo bárbara, se havia exclusividade ou se era uma descrição generalizada. No terceiro capítulo pretendi dar um último olhar à imagem do Bárbaro através das diferenças e semelhanças entre os autores: estilos de escrita, as fontes utilizadas e as suas histórias privadas. Esta comparação permitiu perceber se as experiências pessoais dos autores com os bárbaros teve influência quando escreveram sobre essas populações estrangeiras e as descreveram ou se se limitaram a obedecer aos tópicos literários tradicionais, tendo sempre em conta como é que cada autor utilizou o Bárbaro para expressar as suas ideias sobre o futuro do seu Mundo. Os últimos dois pontos deste capítulo servem de conclusão. Nesses pontos eu reuni todo o conhecimento previamente recolhido e dissertei sobre as perceções de cada autor sobre o Bárbaro e os bárbaros e se estas derivaram de experiências pessoais ou de tradição (fosse ela cultural, literária ou ideológica), concluindo com uma exposição sobre as características mais prevalentes entre as tribos bárbaras e o papel de cada tribo na evolução da definição do Bárbaro. Finalmente, uma discussão sobre a existência de um topos bárbaro e como é que este é utilizado e quais são as suas características. No último capítulo desta dissertação comentei sobre o papel do Cristianismo na transformação do conceito “tradicional” do Bárbaro e como é que as definições de pagão e herege serviram para manter esse conceito na mentalidade das populações germânicas durante o definhamento do Império Romano. Termino a dissertação com um breviário sobre como é que essas definições de âmbito religioso foram utilizadas como um dos elementos unitários da filosofia ocidental que marcaria o início dos reinos europeus e da Idade Média.
This dissertation investigates the representation of the barbarians in late antique (primarily Christian) environments throughout three texts from the fourth and fifth centuries CE: the Breuiarium ab Urbe Condita of Eutropius, the Historiae aduersus paganos of Orosius, and the Chronica of Hydatius of Chaves. The objective is to understand the Barbarian in these three authors and develop a clearer idea of this general concept in Late Antiquity, how it was perceived and its defining characteristics. A central issue around this topic is that, despite the increase in studies on the subject in recent years, there is still a lack of a precise understanding of the Barbarian in this period. That is because, in Late Antiquity, ethnographic and religious conceptions were in constant flux. To help solve this problem, all descriptions of the ‘Other’ — as a group and as individuals — present in the chosen texts were adequately dissected. This breakdown allowed to collect a critical amount of data on the barbarians and other words that also expressed the ‘otherness’ of people in relation to Roman identity. This, in turn, permitted an evaluation of how the Barbarian was characterised at a semantic, cultural and literary levels. This methodology is helpful because it clarifies the parameters that constitute barbarism for these peoples while also giving an insight into the evolution of this classical literary topos.

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