Logo do repositório
 
A carregar...
Miniatura
Publicação

A arte, apesar dela. A ambiguidade da arte em E. Levinas

Utilize este identificador para referenciar este registo.

Orientador(es)

Resumo(s)

Centrada no filósofo francês Emmanuel Levinas (1906-1995), a presente comunicação propõe-se expor a tensão e ambiguidade existentes na sua obra entre a sua reflexão filosófica sobre a arte e a significância da mesma na origem e realização do seu projecto filosófico, com implicações profundas no qual, procuraremos mostrar, a arte joga um papel crucial, constituindo-se como a sua modalidade inaudita. Como qualquer leitor de Levinas certamente saberá, a arte não consta entre as principais e mais prementes preocupações do filósofo. Não só não encontramos, no conjunto da sua obra, aquilo a que poderíamos chamar uma Estética, nem mesmo uma teoria sistematizada da arte, mas nenhum dos seus quase trinta livros publicados trata exclusivamente, ou mesmo substancialmente da arte. Acresce a isto que o seu único texto propriamente filosófico dedicado exclusivamente à arte — “La réalité et son ombre” (1948) — está na base da crença prevalecente de que o filósofo nutre uma antipatia profunda pela arte, recusando-lhe qualquer acesso metafísico. Mas se é inegável a intransigência do filósofo no denunciar do esteticismo, da idolatria, da auto-suficiência da beleza, dos poderes encantatórios da poesia, do silêncio que cria e da irresponsabilidade que fomenta no seu transformar do mundo e da palavra em imaginário, substituindo, desse modo, o mistério pelo mito — a realidade pela sua sombra —, não é menos verdade que o filósofo (que durante mais de 40 anos alimentou ambições literárias, com quase uma centena de poemas e dois romances da sua autoria) reconhece à arte um valor e dignidade ontológicas inigualáveis: como um conhecimento profundo, ao invés de inefável, que põe em causa o próprio conhecimento. E sendo certo também que a arte não constitui questão última ou central na obra de Levinas, a verdade de tal constatação prende-se com o considerar a arte enquanto “questão”. Ora, em Levinas, a arte não se constitui, primordialmente, enquanto “questão”, revelando-se antes como modalidade; modalidade de apresentação e de articulação, modalidade essencialmente obscura e ambígua — dois termos cuja habitual interpretação negativa nos propomos aqui desconstruir, mostrando como na ausência de luz do primeiro, e de objectividade do segundo, se abre uma dimensão constitutiva do ser refractária aos poderes totalizadores da razão e da verdade e, assim, a possibilidade de eludir a tematização e a intencionalidade objectivizante da consciência, sobre as quais assenta todo o projecto levinasiano. Propomo-nos, enfim, demonstrar como os conceitos e formulações fundamentais da filosofia de Levinas — o ‘il y a’, o rosto, a sensibilidade, a passividade, o des-inter-essamento, a desformalização da noção de tempo, o Dizer, a subjectividade, e mesmo a possibilidade de enunciação do ‘de outro modo que ser’ — se descobrem e articulam através da poesia, do cinema, da música, da pintura, enfim, da arte que, sem nunca se eximir das críticas do filósofo, e apesar delas, opera nos bastidores do seu raciocínio e do seu discurso, quer anunciando, reflectindo, ou pondo em causa as suas interrogações filosóficas, e insinuando-se constantemente nos seus avanços.

Descrição

Comunicação apresentada no X Encontro Ibérico de Estética, 24-26 Outubro 2024, Colégio dos Jesuítas, Funchal, Madeira

Palavras-chave

Levinas Arte Modalidade Ambiguidade Obscuridade

Contexto Educativo

Citação

Projetos de investigação

Unidades organizacionais

Fascículo

Editora

Licença CC