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Orientador(es)
Resumo(s)
Muitos estudos tĂȘm mostrado que a coocorrĂȘncia de vĂĄrias formas de psicopatologia, especificamente a depressĂŁo, Ă© particularmente frequente em jovens delinquentes. Os fatores de proteção individuais destes jovens, nomeadamente a resiliĂȘncia, revelam-se igualmente importantes. Diversas teorias explicativas da coocorrĂȘncia tĂȘm sido defendidas, nomeadamente a Teoria da falha, de acordo com a qual os problemas externalizantes predizem os problemas internalizantes (Burke, Loeber, Lahey & Rathouz, 2005; Capaldi, 1992); A Teoria do acting-out que defende que os problemas de internalização predizem os problemas externalizantes - depressĂŁo mascarada (Carlson & Cantwel, 1980; Gold, Matlin & Osgood, 1989) e a Perspetiva da estabilidade que explica a coocorrĂȘncia atravĂ©s de fatores de risco nĂŁo especĂficos, como sejam a histĂłria familiar, a relação pais-filho e os acontecimentos de vida (Krueguer, 1999; Krueguer, Caspi, Moffitt & Silva, 1998; Overbeek, Vollerberg, Meeus, Engels & Luijpers, 2001). A presença da resiliĂȘncia em grupos de risco especĂficos estĂĄ pouco estudada, existindo no entanto algumas evidĂȘncias de que o processo de resiliĂȘncia Ă© menos frequente em adolescentes que adotam comportamentos de risco (Wolin e Wolin, 1993), sendo que os adolescentes detidos apresentam nĂveis de resiliĂȘncia inferiores quando comparados com adolescentes nĂŁo delinquentes (Biscoe & Vincent, 1998). Cyrulnik (2001) defende que a delinquĂȘncia, em determinados contextos, assume um valor adaptativo, consistindo o comportamento desviante numa estratĂ©gia resiliente. Neste contexto, estabelecemos os seguintes objetivos para a presente investigação: - Avaliar a prevalĂȘncia de sintomatologia depressiva em jovens a cumprirem medidas tutelares educativas e a relação desta sintomatologia com o risco de reincidĂȘncia criminal; - Avaliar o efeito da institucionalização sobre a ocorrĂȘncia de sintomatologia depressiva; - Avaliar a relação entre a depressĂŁo e os nĂveis de reincidĂȘncia, num momento posterior, tendo em conta igualmente a resiliĂȘncia e outros fatores avaliados no momento inicial. No intuito de atingir os objetivos propostos o presente estudo adotou uma metodologia de carĂĄter longitudinal: o momento inicial de recolha de informação ocorreu entre março e 2011 e fevereiro de 2012, tendo o follow-up sido desenvolvido em junho e julho de 2014. Na primeira fase de recolha de informação, procedeu-se Ă aplicação dos instrumentos selecionados para avaliar os constructos, que a seguir descreveremos. Na segunda fase de recolha de informação, efetuou-se um estudo de follow-up, com vista Ă avaliação da reincidĂȘncia criminal. Com vista a caracterizar a situação sociodemogrĂĄfica dos participantes na investigação e relacionĂĄ-la com as restantes variĂĄveis em estudo procedeu-se ao levantamento das variĂĄveis sociodemogrĂĄficas pertinentes para este efeito, nomeadamente idade, gĂ©nero e escolaridade. Complementarmente, estabeleceram-se tambĂ©m variĂĄveis caracterizadoras do posicionamento dos sujeitos face ao aparelho da justiça que permitiram proceder a comparaçÔes no modelo, atravĂ©s da identificação do tipo e caracterĂsticas das medidas tutelares educativas a que os jovens se encontravam sujeitos, bem como dos tipos de crime que deram origem aos processos tutelares educativos. Os constructos do modelo, que pretendemos relacionar no estudo em apreço, foram o Risco de reincidĂȘncia criminal; a DepressĂŁo; a ResiliĂȘncia e a ReincidĂȘncia criminal (observada no follow-up). A avaliação do risco de reincidĂȘncia criminal foi efetuada com base num instrumento de avaliação de necessidades e risco o Youth Level of Service / Case Management Inventory (Hoge, Andrews, & Leschied 2002; adaptação portuguesa DGRS, 2009. A sintomatologia depressiva foi avaliada atravĂ©s da Escala de DepressĂŁo do Centro de Estudos EpidemiolĂłgicos (CES-D; Radloff, 1977, versĂŁo portuguesa de Gonçalves & Fagulha, 2006). A resiliĂȘncia foi avaliada atravĂ©s da Escala de ResiliĂȘncia (Wagnild & Young, 1993, versĂŁo Portuguesa de VigĂĄrio, 2010). Os dados obtidos foram analisados atravĂ©s dos mĂ©todos da anĂĄlise quantitativa, utilizando os programas informĂĄticos IBM SPSS Statistics (v.19, SPSS, Inc., Chicago, IL) e AMOS (v.16, SPSS, Inc., Chicago, IL), tendo-se procedido Ă analise das medidas descritivas, correlaçÔes entre as variĂĄveis estudadas e modelos estruturais. Foram usados Testes de HipĂłteses e Modelos de EquaçÔes Estruturais (SEM) para testar as hipĂłteses enunciadas, recorrendo-se, tambĂ©m, a casos particulares do SEM, como sendo a AnĂĄlise Fatorial ExploratĂłria (AFE), AnĂĄlise Fatorial ConfirmatĂłria (AFC), AnĂĄlise Fatorial de 2ÂȘ ordem e Modelos de AnĂĄlise de Caminhos (Path Analysis), de acordo com os objetivos enunciados. Para avaliar diferenças entre grupos e estabelecer comparaçÔes, recorreu-se tambĂ©m Ă anĂĄlise multigrupos. O presente estudo envolveu 283 sujeitos, 39 raparigas e 244 rapazes, com idades compreendidas entre os 14 e os 19 anos de idade; 86 cumpriam medida de Acompanhamento Educativo (AE), encontrando-se 197 a cumprir medida de Internamento em Centro Educativo (CE). O perfil sociodemogrĂĄfico dos jovens pertencentes Ă amostra estudada aponta para estruturas familiares com marcadas carĂȘncias que os colocam numa situação de vulnerabilidade face ao fenĂłmeno da delinquĂȘncia juvenil. Na segunda fase foram contactados 196 jovens da amostra inicial. As caracterĂsticas sociodemogrĂĄficas desta subamostra nĂŁo diferiam significativamente das caracterĂsticas da amostra inicial, com exceção da variĂĄvel institucionalização, sendo a diferença a favor dos jovens a cumprir medidas de internamento em centro educativo (77%). Os resultados obtidos com base nas medidas descritivas e testes de hipĂłteses apontam para um nĂvel elevado de sintomatologia depressiva (CES-D > 20) em 43 % dos adolescentes, verificando-se que a institucionalização aumenta o risco de sintomatologia depressiva, verificando-se que atinge mais de metade dos jovens (51%) a cumprirem medida de internamento em centro educativo. AtravĂ©s da anĂĄlise multigrupos verificou-se que: - O risco de reincidĂȘncia criminal e a reincidĂȘncia criminal efetivamente observada sĂŁo superiores nos adolescentes a cumprirem medida de internamento em centro educativo; - Observam-se diferenças entre gĂ©neros ao nĂvel da reincidĂȘncia criminal as raparigas tendem a reincidir menos; - A gravidade dos crimes cometidos nĂŁo se relaciona com as restantes variĂĄveis em estudo. AtravĂ©s do estudo das correlaçÔes entre as variĂĄveis estudadas efetuado, verificou-se uma correlação negativa significativa (p < 0,05) entre o total obtido na CES-D e a Escala de ResiliĂȘncia (-0,134) e entre o fator II da Escala de ResiliĂȘncia- AutosuficiĂȘncia e o total da CES-D verificou-se uma correlação negativa fraca (-0,156). Entre o risco de reincidĂȘncia criminal, avaliado atravĂ©s do YLS/CMI e a reincidĂȘncia criminal, verificouse uma correlação positiva significativa, mas baixa (0,253). Os efeitos da DepressĂŁo, Risco de ReincidĂȘncia e ResiliĂȘncia na ReincidĂȘncia foram estimados por dois modelos de equaçÔes estruturais. As estimativas standardizadas dos coeficientes de regressĂŁo e as correlaçÔes entre os constructos permitiram-nos concluir que: - O risco de reincidĂȘncia Ă© preditor da reincidĂȘncia, dado que o efeito estimado Ă© forte e significativo (0,715; p < 0,01); - A depressĂŁo influencia a reincidĂȘncia (0,337; p < 0,01), pelo que adolescentes com sintomatologia depressiva mais acentuada tenderĂŁo a reincidir criminalmente com maior facilidade; - A resiliĂȘncia nĂŁo influencia a reincidĂȘncia criminal, uma vez que o seu efeito Ă© nĂŁo significativo. Procedeu-se Ă s estimativas dos coeficientes de regressĂŁo para averiguar se a depressĂŁo medeia a relação entre o risco e a reincidĂȘncia atravĂ©s de dois modelos de anĂĄlise de caminhos, verificando-se que: - A depressĂŁo nĂŁo medeia a relação entre o risco e a reincidĂȘncia em ambos os modelos, com um nĂvel de significĂąncia de 5%; - O risco Ă© preditor da reincidĂȘncia, como jĂĄ anteriormente verificado Face aos resultados obtidos, seria interessante efetuar um estudo longitudinal do desenvolvimento das carreiras delitivas destes jovens face Ă reincidĂȘncia criminal em termos etĂĄrios (inĂcio da atividade desviante), percurso e abandono. Seria igualmente importante aprofundar o estudo sobre o conjunto de fatores de ordem social, cultural, econĂłmica e outros que motivam ou contextualizam a reincidĂȘncia criminal feminina. A realização de um estudo dirigido aos jovens que apresentam sintomatologia depressiva e se encontram a cumprir medidas tutelares educativas, utilizando instrumentos de diagnĂłstico, nomeadamente a entrevista clĂnica, permitiria no futuro aprofundar e desenvolver os resultados ora alcançados e aprofundar o conhecimento sobre a relação entre a depressĂŁo e a delinquĂȘncia juvenil.
Descrição
Tese de doutoramento, Psicologia (Psicologia ClĂnica), Universidade de Lisboa, Faculdade de Psicologia, 2018
Palavras-chave
Teses de doutoramento - 2018
