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The roles of God in the ancient Egyptian instruction texts of the Middle and New Kingdoms

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Resumo(s)

As instruções sapienciais do Egito antigo muitas vezes apresentam-se como textos didáticos redigidos por um pai para o seu filho de modo a ensinar-lhe a conduta e o comportamento éticos adequados na sua vida profissional e noutras situações sociais, tais como interações com amigos ou pessoas menos favorecidas. Assim, estes textos são obras pragmáticas preocupadas com a ação individual na sociedade. Embora não sejam tratados de especulação teológica, deus (nTr) é uma figura central neles. O objetivo deste estudo é explorar os dois principais papéis de deus nestes textos: o de agente com a função de retribuir as transgressões, e com a função de protetor. Este trabalho centra-se na mobilização de deus (nTr) nas instrucções sapienciais dos Impérios Médio e Novo. Através de uma análise discursiva baseada na metodologia de Michel Foucault, explorou-se alguns dos papéis desempenhados por deus nestes textos. Antes, porém, e porque este estudo se enquadra na história das religiões, foi feita uma introdução ao estudo histórico e sociológico da religião, abordando a história da disciplina, e algumas das polémicas que a têm acompanhado. Foi decidido não definir religião, considerando-se esta como mais um aspeto de uma cultura. De seguida explorou-se o contexto social das instruções. Ao contrário do que se poderia pensar, sobretudo porque as instruções se apresentam como textos didáticos e aptas para a formação de novas gerações, não é de todo claro que tenham sido usadas num contexto de ensino, formal ou informal. Também não é garantido que tenham sido escritas com o objetivo de servirem de manuais de aprendizagem de boas maneiras, uma vez que, à semelhança de outros textos literários, podem ter sido usadas num contexto essencialmente de entretenimento. No caso das instruções do Império Novo há mais indícios de que tenham sido compostas para um propósito didático. Ainda assim, as instruções são textos pragmáticos centrados neste mundo e que estão construídos como textos que pretendem moldar a conduta ensinando ao pupilo o que precisa de saber para ser bem-sucedido socialmente e evitar a retribuição divina. Por conseguinte, é lícito que o discurso das instruções se preste a um estudo histórico e sociológico no sentido de se conhecer melhor a sociedade do tempo em que foram redigidos. No capítulo terceiro abordou-se um dos principais papéis de deus: o papel de agente que castiga e retribui certas transgressões. É relevante salientar que nem todas as transgressões estão representadas em todas as instruções, nem todas têm o mesmo castigo. Algumas são específicos a um período temporal, e outras são específicas a certas instruções. Identificaram-se as seguintes transgressões: contra indivíduos e contra o estado: maus-tratos a outros, fraudulência e aquisição ilícita de bens, discurso falso e/ou inflamatório, profanação de túmulos, execução de cortesãos; contra deus: detestação (bw.t) de deus, e transgressões e falhas rituais. Os maus-tratos estão atestados nas instruções do Império Novo. Embora conte com duas atestações em instruções do Império Médio, a fraudulência e a aquisição ilícita de bens está sobretudo atestada na Instrução de Amenemope. É possível que o volume de atestações neste texto seja um reflexo dos tempos conturbados do final do Período Raméssida. Amenemope expressa preocupação com o roubo do estado, mas também com a exploração dos mais vulneráveis da sociedade. Na categoria de discurso falso e inflamado, também é em Amenemope que se concentram as atestações. Antes de estas serem discutidas foi feita uma discussão acerca do homem de temperamento quente (Smm), personagem importante não só em Amenemope como noutros textos do Período Raméssida. Interessantemente, ao contrário desses textos, Amenemope parece ser leniente com o homem de temperamento quente, chegando a sugerir que se lhe deve prestar auxílio se ele se encontrar numa situação difícil. De contrário, raramente é leniente com o pupilo a quem a instrução é endereçada, como se a sua preocupação fosse o comportamento do seu aluno e não propriamente a conduta daqueles com quem ele se cruza. O tópico da profanação de sepulturas apenas é abordado na Instrução para o Rei Merikaré, uma das duas instruções reais que chegaram até nós. Enquanto instrução endereçada ao rei, mesmo que na prática também estivesse acessível aos funcionários, trata de tópicos que lhe são únicos. Em particular a guerra civil do Primeiro Período Intermediário, da qual o(s) autor(es) parece(m) conhecer bem. O rei a quem a autoria do texto é atribuída admite que, sem o seu conhecimento e a sua autorização, os seus soldados dessacralizaram uma necrópole. Cabendo-lhe a responsabilidade por ser o chefe do exército é a ele que deus castiga, seguindo o princípio taliónico de responder com o mesmo. Este passo esboça uma verdadeira teoria do nexo de causa-consequência (Tun-Ergehen-Zusammenhang). É também apenas na mesma instrução que está atestada a proibição de executar alguém próximo na corte. Curiosamente, a interdição contra o homicídio, prática que é negada no famoso capítulo 125 do Livro dos Mortos, não está atestada nas instruções que chegaram até nós. As atestações da detestação (bw.t) de deus são de um grande interesse, porquanto a associação da detestação com um deus limita a subjetividade do analista ao selecionar este ou aquele passo como pertencendo a uma dada transgressão. Interessantemente, a detestação de deus só está atestada numa instrução do Império Médio, e numa cópia do Império Novo. De resto, está apenas presente em instruções do Império Novo. Enquanto na Instrução de Ani está sobretudo ligada a transgressões rituais, na Instrução de Amenemope e na Instrução do Papiro Chester Beatty IV está sobretudo associada à fraudulência e ao roubo de material do templo. Surge na Instrução de Amenemope um passo interessante em que, numa situação de emergência, o escriba que tem o dever de inspecionar um barco de transporte não deve recusar a ajudar que lhe for pedida por medo de o ato de executar trabalhos que não sejam condignos à posição social que se ocupa poder ser considerado uma detestação de deus. À semelhança de outras culturas onde os interditos religiosos são levantados em situações de emergência, Amenemope assegura o escriba de que pode ajudar sem se preocupar. Podemos perguntar, no entanto, se havia opiniões divergentes na sociedade egípcia. O tema das transgressões e falhas rituais, que tem vindo recentemente a ser cada vez mais trabalho no âmbito do estudo histórico e sociológico das religiões, está também presente nas instruções, quer do Império Médio quer do Novo. Nas instruções do Império Novo, as transgressões prendem-se, sobretudo com o comportamento a adotar nas consultas oraculares dispensadas pela estátua do deus durante as procissões. Na Instrução de Hordjedef é possível que uma falhar ritual seja aproveitada por um rival, algo que está atestado noutras sociedades. O outro grande papel de deus é o de protetor. Três categorias de proteção foram identificadas: proteção de conflitos com outros que possam prejudicar seriamente o pupilo,proteção em relação à incerteza quando ao futuro, e proteção da necessidade, sobretudo através da providência divina. Tanto a proteção dos conflitos como a proteção em relação ao futuro estão atestadas apenas em instruções do Império Novo, algo que se pode dever ao contributo da piedade pessoal que está manifesta em todas as instruções daquele período. É muito no âmbito da proteção dos conflitos que surge a recomendação para uma atitude quietista, em que o pupilo se desliga da situação conflituosa para deixar que seja o deus a tratar do assunto. Na proteção em relação ao futuro, salienta-se a vulnerabilidade humana e a segurança que dá a imputação do desconhecido a deus, que é discursivamente construído como uma entidade capaz de procurar garantir o melhor para o pupilo. A providência divina está amplamente atestada na Instrução de Ptahhotep, onde parece ser mais ou menos automática, ao passo que na Instrução de Amenemope e na Instrução do Papiro Chester Beatty IV parece estar dependente do cultivo da relação com o deus pessoal. No âmbito da piedade pessoal, Amenemope tem ainda a particularidade de mostrar o outro lado: se nos textos relativos à piedade pessoal o suplicante é perdoado, em Amenemope sucede o contrário.
The ancient Egyptian wisdom instructions often present themselves as didactic texts composed by a father to his son in order to teach him the adequate conduct and ethics to adopt in his professional life and in other social situations, such as interactions with friends or less favoured people. These texts are thus pragmatic works concerned with individual action within society. Although they are not speculative theological treatises either, god (nTr) is nonetheless an important figure in them. The aim of this study is to explore the two main roles of god in these texts: as an agent in charge of retributions for transgressions, and as protector.

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Palavras-chave

Literatura sapiencial egípcia antiga - História e crítica Literatura egípcia antiga - História e crítica Deus - Presença - Na literatura - Antiguidade Religião egípcia - Aspectos sociais Egipto - Civilização - Antiguidade Religiões - História Teses de doutoramento - 2019

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