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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
Esta dissertação tem como tópico o gerúndio composto (tendo + particípio
passado; doravante GC) em orações adverbiais em português europeu e
insere-se no marco teórico do Programa Minimalista (Boeckx 2006). Para
referir as relações discursivas será usada a terminologia proposta por Asher
e Lascarides (2005).
Tradicionalmente considerava-se que o GC em português expressa uma
relação de anterioridade relativamente à situação descrita pela frase matriz.
No entanto, em certas construções, o GC pode veicular outros valores
temporais, nomeadamente posterioridade relativamente à situação descrita
pela oração principal, inclusão temporal ou relações discursivas que não
especificam a ordenação temporal das duas situações, como tem sido notado
por vários autores em trabalhos mais recentes (cf. por exemplo Leal
2001; Móia e Viotti 2004, 2005; Lobo 2006, 2013; Cunha, Leal e Silvano
2008). Este GC de não anterioridade ainda é um tópico pouco estudado
e mal compreendido. Os trabalhos sobre o gerúndio mais recentes têm
descrito algumas das suas particularidades, nomeadamente que (i) o GC
de não anterioridade só pode ocorrer à direita da matriz, (ii) o verbo da
frase matriz ocorre num tempo com o traço [+ ANT], isto é, num tempo
verbal que localize a situação por ele descrita antes do momento de enunciação,
e (iii) o GC pode alternar livremente e sem alteração de significado
com o gerúndio simples, em certos casos. Estas três propriedades e restrições
de ocorrência não se verificam para o GC de anterioridade. No
entanto, relativamente ao GC de não anterioridade, os trabalhos acima
mencionados são, na sua maioria, meramente descritivos e não propõem
uma explicação para as particularidades observadas. Para além disso, as
poucas tentativas de explicação feitas até agora assumem implicitamente
uma abordagem morfológica (cf. por exemplo Leal 2001; Cunha, Leal e
Silvano 2008; Oliveira 2013), que não consegue dar conta de todas as possíveis
ocorrências do GC de não anterioridade. Estas análises assumem
que o GC adjunto à direita da frase matriz tem a particularidade de poder
expressar tanto anterioridade à situação descrita pela oração matriz, como anterioridade ao momento de enunciação. No entanto, esta afirmação é
empiricamente falsa, pois são possíveis frases em que o GC não expressa
nem anterioridade ao momento de enunciação nem anterioridade à situação
descrita pela frase a que está adjunto.
Nas línguas germânicas observa-se um fenómeno semelhante, nomeadamente
os chamados particípios parasíticos. Wurmbrand (2012) refere
três características comuns destes particípios: (i) são opcionais e alternam
livremente com o infinitivo, (ii) só podem ocorrer c-comandados por certos
núcleos e (iii) não possuem valor semântico perfetivo, tendo a mesma
interpretação que o infinitivo. Se compararmos estas três propriedades
com as propriedades do GC de não anterioridade, observamos (apesar
das várias diferenças) um certo paralelismo. Isto poderia ser um indício
de que ambos os fenómenos se baseiam no mesmo mecanismo sintático.
Wurmbrand propõe uma análise sintática dos particípios parasíticos que
se baseia na valoração de traços temporais subespecificados em Upward
Agree.
O primeiro objetivo desta dissertação é, portanto, oferecer uma descrição
tanto quanto possível exaustiva das possíveis ocorrências do GC de
não anterioridade, descrever as suas particularidades, rever as análises
propostas na literatura e avançar com uma análise sintática, semelhante
àquela proposta para os particípios parasíticos, que consiga captar todas
as particularidades observadas. Defenderei que o GC de não anterioridade
é estruturalmente diferente do tradicional GC de anterioridade e
surge de forma parasítica em certas configurações sintáticas. Assumindo
com Lobo (2006) que o núcleo T das gerundivas é inserido na derivação
com traços temporais subespecificados e que o complexo V-T tem de subir
para C, defenderei que, no caso do GC de não anterioridade, o núcleo
C da gerundiva é defetivo e não permite valorar os traços temporais do
T gerundivo. Se o T da gerundiva é c-comandado pelo T matriz e se
este T matriz contiver um traço [+ ANT], o T gerundivo valora os seus
traços temporais subespecificados contra o T matriz para [+ ANT] em Upward
Agree. Esta valoração de traços subespecificados permite a ocorrência
do GC como marca morfologicamente visível desta relação estrutural necessária
para a valoração de traços.
A partir da análise sintática do GC de não anterioridade proposta nesta
dissertação, surgem uma série de questões teóricas e empíricas. De um
ponto de vista teórico, a direcionalidade tradicionalmente assumida da
operação Agree (em que a sonda c-comanda o alvo) por exemplo por Chomsky
(2000, 2001), Pesetsky e Torrego (2007) ou Boškovi´c (2007) é posta em
causa ainda mais (para críticas prévias, cf. Wurmbrand 2012; Zeijlstra
2012; Bjorkman e Zeijlstra no prelo). Além disso, se aceitarmos a análise sintática proposta nesta dissertação, a divisão binária que foi proposta
para as orações gerundivas adjuntas em integradas (adjuntas a uma projeção
baixa) e periféricas (adjuntas a uma projeção alta) tem de ser reconsiderada
(cf. por exemplo Fernández Lagunilla 1999; Lobo 2006, 2013). De
um ponto de vista empírico, a análise sintática do GC de não anterioridade
faz uma série de predições sobre a aceitabilidade desta construção
em outras línguas românicas. Se a análise sintática for correta, a ocorrência
do GC de não anterioridade depende crucialmente da subespecificação de
traços temporais no núcleo C da gerundiva. Por este motivo, esperar-se-ia
que nas outras línguas românicas, o GC de não anterioridade que veicula
relações discursivas que não especificam a ordenação temporal das duas
situações (como por exemplo, Continuação, Comentário, Contraste etc.)
deveria ser possível.
O segundo objetivo desta dissertação é explorar as implicações teóricas
e empíricas da análise sintática proposta. Na parte teórica, serão discutidas
diferentes versões da operação de Agree, relativamente à direcionalidade
desta operação (sentido descendente ou ascendente) e ao trigger desta
operação (eliminação de traços não interpretáveis ou valoração de traços
não valorados). Para além disso, serão discutidas as propriedades geralmente
usadas para distinguir gerundivas integradas e periféricas e a adequação
destas propriedades para a classificação das gerundivas adjuntas.
Na parte empírica, esta dissertação tem o objetivo de proporcionar uma
comparação interlinguística com algumas línguas românicas, nomeadamente
o catalão, o galego, o francês e o espanhol. Para este efeito, foi
revista a literatura sobre o GC nestas línguas. No entanto, este fenómeno
é ainda pouco estudado e nenhuma das obras consultadas menciona o GC
de não anterioridade, apesar de encontrarmos algumas ocorrências nos
corpora das diferentes línguas. Por este motivo foi criado um teste de aceitabilidade
exploratório, com o objetivo de aferir a disponibilidade do GC
de não anterioridade nas línguas referidas. Este teste foi levado a cabo com
um grupo relativamente extenso de falantes nativos de galego, espanhol
e francês, assim como com um grupo de controlo português. Sendo um
teste exploratório, consideraram-se diferentes variáveis possíveis, nomeadamente
a presença ou ausência de um sujeito lexicalmente realizado,
a relação temporal (anterioridade, posterioridade, inclusão temporal ou
relações temporalmente não especificadas), assim como fatores sociolinguísticos,
como o conhecimento linguístico explícito do falante. Os resultados
foram analisados usando métodos estatísticos, nomeadamente o
teste de Wilcoxon (Field 2009). Os resultados deste teste de aceitabilidade
revelam que, de facto, o GC que expressa relações discursivas que não
especificam a ordenação temporal das duas situações é aceitável em todas as línguas testadas. Isto é um argumento adicional a favor da análise
sintática proposta previamente. O GC de posterioridade, por outro lado, é
geralmente rejeitado pelos informantes das três línguas românicas. O GC
de inclusão temporal, ainda por outro lado, apresenta resultados pouco
conclusivos e que apontam para a influência de fatores extralinguísticos,
nomeadamente o conhecimento linguístico explícito do informante. Serão
necessários estudos mais aprofundados e direcionados para responder às
várias questões de investigação que surgiram desta dissertação.
This study focuses on the compound gerund (CG) in adjunct clauses. In European Portuguese, contrary to traditional descriptions (e.g. Cunha and Cintra 1987), this form (gerund of the auxiliary ter ’have’ + past participle) can express not only anteriority, but various other types of temporal ordering, in connection with a whole range of different rhetorical relations, namely posteriority, temporal inclusion and temporally unspecified discourse relations (henceforth the non-anteriority CG). This non-anteriority CG is an understudied and still poorly understood phenomenon. Previous accounts of the gerund in European Portuguese remain largely descriptive and do not fully capture the variety of possible occurrences of this structure (see for example Leal 2001; Móia and Viotti 2004, 2005; Lobo 2006, 2013; Cunha et al. 2008). The first goal of this study is, therefore, to further explore the temporal interpretations of the CG in adjunct clauses, and to develop a syntactic analysis of the non-anteriority CG within the framework of the Minimalist Program (Boeckx 2006). Previous accounts assume that the compound gerund normally expresses anteriority to the situation described by the clause to which it is adjoined, and that sentence-final adjoined clauses have the particularity that they can also express anteriority to the utterance time. However, empirically this assumption is not borne out. I will alternatively propose a syntactic analysis that explains the non-anteriority CG through feature underspecification on the gerund T head and subsequent valuation of these features in Upward Agree. Based on this syntactic analysis, a series of theoretical and empirical questions arise. From a theoretical perspective, the downward directionality of Agree, as traditionally assumed (e.g. by Chomsky 2000, 2001; Pesetsky and Torrego 2007), is further put into question (for previous criticism see, for example,Wurmbrand 2012; Zeijlstra 2012). Furthermore, if we accept a syntactic analysis of this phenomenon, then the classic binary division of gerund adjunct clauses into integrated (low adjunction) and peripheral (high adjunction) (see for example Fernández Lagunilla 1999; Lobo 2006, 2013) needs to be reconsidered. From an empirical perspective, a syntactical analysis of the nonanteriority CG in Portuguese makes a series of predictions on its availability in certain constructions. Furthermore, it predicts that at least one type of non-anteriority CG (the one expressing temporally unspecified discourse relations) should be available in other Romance languages. The second goal of this study is, therefore, to explore some of the theoretical and empirical questions raised by this analysis. In order to broaden the picture and test the hypotheses concerning the availability of the nonanteriority CG in other Romance languages, this study includes a crosslinguistic comparison of a sample of Romance languages (Portuguese, Galician, Spanish and French). Given that there is little research on this phenomenon in other Romance languages, despite the non-anteriority CG being attested in corpora, an exploratory acceptability judgment task was developed. This test was carried out with a relatively large number of native speakers of these three languages and with a Portuguese control group, then analyzed using statistic methods (namely the Wilcoxon rank sum test and the Wilcoxon signed rank test, see Field 2009). The results of this exploratory test not only provide some insight on the availability of the non-anteriority CG constructions in these Romance languages, but also shed some light on the range of temporal interpretations of the gerund, in general, in these languages.
This study focuses on the compound gerund (CG) in adjunct clauses. In European Portuguese, contrary to traditional descriptions (e.g. Cunha and Cintra 1987), this form (gerund of the auxiliary ter ’have’ + past participle) can express not only anteriority, but various other types of temporal ordering, in connection with a whole range of different rhetorical relations, namely posteriority, temporal inclusion and temporally unspecified discourse relations (henceforth the non-anteriority CG). This non-anteriority CG is an understudied and still poorly understood phenomenon. Previous accounts of the gerund in European Portuguese remain largely descriptive and do not fully capture the variety of possible occurrences of this structure (see for example Leal 2001; Móia and Viotti 2004, 2005; Lobo 2006, 2013; Cunha et al. 2008). The first goal of this study is, therefore, to further explore the temporal interpretations of the CG in adjunct clauses, and to develop a syntactic analysis of the non-anteriority CG within the framework of the Minimalist Program (Boeckx 2006). Previous accounts assume that the compound gerund normally expresses anteriority to the situation described by the clause to which it is adjoined, and that sentence-final adjoined clauses have the particularity that they can also express anteriority to the utterance time. However, empirically this assumption is not borne out. I will alternatively propose a syntactic analysis that explains the non-anteriority CG through feature underspecification on the gerund T head and subsequent valuation of these features in Upward Agree. Based on this syntactic analysis, a series of theoretical and empirical questions arise. From a theoretical perspective, the downward directionality of Agree, as traditionally assumed (e.g. by Chomsky 2000, 2001; Pesetsky and Torrego 2007), is further put into question (for previous criticism see, for example,Wurmbrand 2012; Zeijlstra 2012). Furthermore, if we accept a syntactic analysis of this phenomenon, then the classic binary division of gerund adjunct clauses into integrated (low adjunction) and peripheral (high adjunction) (see for example Fernández Lagunilla 1999; Lobo 2006, 2013) needs to be reconsidered. From an empirical perspective, a syntactical analysis of the nonanteriority CG in Portuguese makes a series of predictions on its availability in certain constructions. Furthermore, it predicts that at least one type of non-anteriority CG (the one expressing temporally unspecified discourse relations) should be available in other Romance languages. The second goal of this study is, therefore, to explore some of the theoretical and empirical questions raised by this analysis. In order to broaden the picture and test the hypotheses concerning the availability of the nonanteriority CG in other Romance languages, this study includes a crosslinguistic comparison of a sample of Romance languages (Portuguese, Galician, Spanish and French). Given that there is little research on this phenomenon in other Romance languages, despite the non-anteriority CG being attested in corpora, an exploratory acceptability judgment task was developed. This test was carried out with a relatively large number of native speakers of these three languages and with a Portuguese control group, then analyzed using statistic methods (namely the Wilcoxon rank sum test and the Wilcoxon signed rank test, see Field 2009). The results of this exploratory test not only provide some insight on the availability of the non-anteriority CG constructions in these Romance languages, but also shed some light on the range of temporal interpretations of the gerund, in general, in these languages.
Descrição
Palavras-chave
Língua portuguesa - Gerúndio Línguas românicas - Gerúndio Língua portuguesa - Sintaxe Línguas românicas - Sintaxe Teses de mestrado - 2019
