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Orientador(es)
Resumo(s)
Research has consistently shown how global warming is driven by human action and how we
must make significant changes in our habits towards mitigating climate change before serious
consequences are upon us. One area that is estimated to account for around one fourth of
global greenhouse gas emissions is agriculture, fuelled by our dietary habits, particularly in
meat and dairy consumption. The present study sought to test how a reciprocity appeal and
piggyback mechanism could be used in promoting sustainable plant-based options in a
university canteen setting. The study was conducted with an online questionnaire presented
as a hypothetical plant-based meal promotion campaign, where participants (N= 303) were
exposed to messages containing reciprocity and piggybacking mechanisms in a 2 (reciprocity
appeal: yes, no) x 2 (piggyback mechanism: yes, no) between participants design and where
willingness towards meat, fish, and vegetarian meals, perceived consumer effectiveness,
diffusion of responsibility and perceived sustainable norm measures were evaluated. Twoway ANOVAs showed a main effect of reciprocity in decreasing willingness to choose fish
and vegetarian meals, suggesting that our reciprocity message backfired. No significant
effects were found for piggybacking. The discussion presents possible explanations for why
the reciprocity and piggybacking messages where ineffective in this study, as well as
suggestions on how the messages can be improved to enable further research on the topic
(e.g., paring a more context-specific reciprocity appeal with social norm features of the
message).
A questão ambiental tem-se tornado cada vez mais um tema de preocupação a nível mundial, com a emissão de gases de efeito estufa oriundos de atividades humanas, como dióxido de carbono e metano, ter conduzido ao período mais quente na história da civilização moderna (Wuebbles, 2017). Apesar da vasta maioria das emissões de gases efeito estufa podem ser atribuídas à indústria e produção energética (Ritchie e Roser, 2020), os comportamentos individuais dos consumidores em agregado têm um papel estrutural nas alterações climáticas, particularmente os nossos hábitos alimentares, estimando-se que o setor de produção alimentar contribua com aproximadamente um quarto (26%) das emissões de gases efeito estufa globais (Poore e Nemecek, 2018). Em geral, alimentos de origem animal tendem a ter emissões de gases efeito estufa mais elevadas quando comparados com alternativas de origem vegetal. Estes produtos de origem animal (carne, laticínios, ovos e peixe de aquacultura) produzem cerca de metade das emissões de gases efeito estufa derivados da prática agrícola (56% a 58%) (Poore e Nemecek, 2018). Poore e Nemecek (2018) estimam que se a população mundial transitasse para uma alimentação de base vegetal seria possível diminuir as emissões de gases efeito estufa relacionadas com a alimentação para cerca metade (49%) dos valores atuais. O problema ambiental é um problema social, em que tanto o problema como a solução derivam da nossa atividade agregada, onde os comportamentos de um indivíduo têm pouco impacto, mas que se tornaram significativos quando somados aos comportamentos de outros. Assim, é provável que a forma como os outros se comportam tenha uma ponderação nas decisões e comportamentos de um indivíduo, porque os nossos esforços só compensam se uma parte significativa dos outros também agirem no mesmo sentido. Congruentemente com esta ideia, a literatura indica que a maioria das pessoas tem comportamentos de cooperação condicional, em que contribuem proporcionalmente aos contributos dos outros (Fischbacher et al., 2001; Martinsson et al., 2013; Thöni e Volk, 2018) e a crença de que os outros vão ou não cooperar prediz o seu grau de cooperação (Messick e Brewer, 1983). Assim, propomos testar duas possíveis estratégias para promover um comportamento cooperante e consumo preferencial de pratos de base vegetal, nomeadamente um efeito de reciprocidade e piggybacking. A norma da reciprocidade é uma norma social onde indivíduos se sentem levados a retribuir ações que outros lhes tenham feito (Cialdini, 2009). Esta estratégia poderá ter sucesso na promoção de um comportamento social, na medida em que sinalizar que outros agentes estão a contribuir para uma causa comum poderá promover a cooperação condicional mencionada anteriormente. De igual forma, poderá também reforçar os sentimentos de perceção de eficácia para realizar o comportamento, face a um contexto em que vários outros agentes também estão a agir no mesmo sentido. Esta norma tem sido utilizada como estratégia dentro da temática da sustentabilidade, por exemplo na promoção de doações para a manutenção de um parque natural (Alpizar et al., 2008), na gestão de recursos hídricos entre agricultores (Martinez et al., 2013; Rodríguez-Dowdell, 2014) ou na promoção de comportamentos sustentáveis (Goldstein et al., 2011). No entanto, estes exemplos da utilização da reciprocidade focam-se na atribuição de bens, na medida em que a relação de reciprocidade é estimulada por dar um ganho direto e esperar que esse ganho promova um comportamento semelhante no recetor. A literatura também parece apoiar a relevância de esforços como estratégia para a promoção de cooperação, em que quando um agente mostra esforço para com uma questão, outros poderão ser estimulados a reciprocar esse esforço no mesmo sentido (Davis et al., 2017; McCain, 2007; Vilares et al., 2011). Assim, é possível que sinalizar o esforço que um agente está a fazer para promover alimentação sustentável gere um sentimento de reciprocidade, por exemplo, uma instituição comunicar os seus esforços para promover políticas sustentáveis poderá levar a que os membros dessa instituição ajam de forma mais sustentável. Relativamente a piggybacking, este pode ser visto como um efeito onde um comportamento é apresentado de forma integrada com outros comportamentos já estabelecidos e aceites, fazendo com que o novo comportamento possa ser promovido por estar associado a outros comportamentos normalizados (Priyadarshy e Nguyen-Ngo, 2013). Assim, o piggybacking pode ser um mecanismo eficaz para promover um novo comportamento ao associá-lo com outros comportamentos ou valores compatíveis (Hollingworth e Barker, 2017; Judah et al., 2013; Ostlund, 1974). Assim, a associação de um comportamento pretendido (e.g., alimentação mais sustentável) com outros comportamentos mais sustentáveis já normalizados ou desejáveis poderá fazer com que a alimentação sustentável possa, pelo menos parcialmente, ser promovida por associação, tornando o comportamento mais normalizado e expectável. Assim, desenvolvemos um estudo para testar se mensagens de apelo à reciprocidade e piggybacking são estratégias eficazes para a promoção de uma alimentação mais sustentável. Desenvolvemos este estudo no contexto de alimentação em cantinas universitárias por terem sido identificadas como contextos com potencial de intervenções comportamentais (Thorndike et al., 2012; Turnwald et al., 2017) e porque mitigam possíveis dificuldades na adesão a alimentação sustentável, como pouco acesso a informação e baixas competências para confecionar refeições sustentáveis (Graça et al., 2019). Assim, intervenções nestes contextos têm o potencial de mudar as preferências de consumidores jovens com maiores preocupações ambientais (Hickman et al., 2021) e que possivelmente ainda não têm um perfil de consumidor cristalizado, significando que poderão ter mais abertura a mudar a sua alimentação para incluir mais opções de base vegetal de forma regular. Nesta dissertação tivemos como objetivo estudar como mensagens com componentes de reciprocidade baseada no esforço e piggybacking podem contribuir para a promoção de uma alimentação mais sustentável em cantinas universitárias. Do nosso conhecimento, este é o primeiro estudo a testar se reciprocidade e piggybacking são estratégias viáveis para mudar decisões alimentares, particularmente na promoção de alimentação de base vegetal. Corremos então um estudo online com uma amostra de 303 estudantes da Universidade de Lisboa que consomem refeições com carne de forma regular ou ocasional. Os participantes foram expostos aos nossos estímulos sob a forma de mensagens de uma hipotética campanha de promoção de pratos de base vegetal nas cantinas da Universidade de Lisboa. O estudo teve um desenho de 2(reciprocidade: presente, ausente) x 2(piggybacking: presente, ausente) interparticipantes, em que cada participante foi alocado a uma condição ou de controlo, ou reciprocidade, ou piggybacking, ou reciprocidade + piggybacking. Como variáveis dependentes, medimos a disposição para consumir pratos de carne, peixe e vegetarianos nas cantinas da Universidade de Lisboa, assim como a preferência por pratos vegetarianos em vez da opção tradicional (por exemplo, escolher entre lasanha de vegetais e lasanha de carne) nos menus das cantinas universitárias. Adicionalmente, medimos a perceção de eficácia do consumidor, uma dimensão conceptualmente semelhante à autoeficácia (Sharma e Dayal, 2017), difusão de responsabilidade e perceções de normas sociais (descritivas, injuntivas e dinâmicas) referentes à alimentação sustentável na Universidade de Lisboa. Como hipóteses, esperámos que a exposição às mensagens de reciprocidade e piggybacking produzisse um efeito principal de aumentar a disposição e preferência por pratos vegetarianos e uma diminuição em pratos de carne e peixe (H1); e que a exposição às mensagens de apelo à reciprocidade e piggybacking produzissem um efeito principal de aumentar a perceção de eficácia do consumidor e de perceção de normas sociais referentes a alimentação sustentável, assim como uma diminuição de difusão de responsabilidade (H2). Em ambas estas hipóteses, esperámos também encontrar um efeito de interação, onde a conjunção da mensagem de reciprocidade e piggybacking (condição reciprocidade + piggybacking) gerasse um efeito maior comparativamente às mensagens apenas com reciprocidade ou piggybacking. Para o teste de hipóteses, corremos um conjunto de ANOVAs com dois fatores (reciprocidade e piggybacking) em relação às nossas variáveis dependentes de disposição para pratos de carne, peixe e vegetarianos e preferência de pratos a incluir no menu como variáveis (H1), e perceção de eficácia do consumidor, difusão de responsabilidade, e normas descritivas, injuntivas e dinâmicas (H2). Os resultados revelaram que as mensagens se mostraram ineficazes em promover uma alimentação mais sustentável. Em relação à H1, a mensagem de reciprocidade teve um efeito principal em diminuir a disposição para preferir pratos de peixe. No entanto, a mensagem de reciprocidade também diminuiu a disposição para consumir pratos vegetarianos, um efeito contrário ao esperado. A mensagem de Piggybacking não mostrou efeitos significativos, e o efeito de interação também não foi confirmado. Relativamente a H2, os resultados também não sustentaram as hipóteses avançadas (i.e., não se verificaram efeitos principais ou de interação na perceção de eficácia do consumidor, difusão de responsabilidade, e normas descritivas, injuntivas e dinâmicas, face à exposição às mensagens de reciprocidade ou piggybacking). Apesar das mensagens não terem funcionado como era esperado, este estudo oferece um primeiro passo para compreender como os processos de reciprocidade e piggybacking poderão ser utilizados em campanhas de sensibilização para alimentação de base vegetal. Podem ser consideradas várias possibilidades que explicam a razão porque as nossas mensagens não tiveram o efeito esperado. A reciprocidade poderá ter tido o efeito contrário ao esperado pela mensagem, ao salientar sobretudo o esforço de mudança ao nível institucional, possivelmente relegando para segundo plano a importância da ação ao nível individual. Adicionalmente, apelar à reciprocidade a nível da universidade poderá ter sido um referencial demasiado abrangente para ativar a identidade grupal do indivíduo, visto que a Universidade de Lisboa possui cerca de 50.000 estudantes distribuídos por vários locais da cidade de Lisboa, e a literatura aponta para a importância de focar um grupo saliente e relevante para o indivíduo (Brewer e Kramer, 1986; Cojuharenco et al., 2016; Turner et al., 1987). Consequentemente, é possível que apelos de reciprocidade a um nível mais situado e com um destaque nos comportamentos de pessoas semelhantes ao indivíduo, neste caso ao nível da sua instituição de ensino ao invés da universidade, poderá tornar a identidade grupal mais saliente e consequentemente uma maior pressão para reciprocar o esforço em prol de uma alimentação mais sustentável. Relativamente ao efeito de piggybacking, uma razão para o efeito esperado não ter sido encontrado poderá dever-se a comportamentos de alimentação sustentável não serem percecionados como categoricamente semelhantes a outros comportamentos sustentáveis generalizados utilizados na mensagem (redução de utilização de plástico e desperdício alimentar), possivelmente pela subestimação de conhecimento do impacto ambiental que a alimentação tem (Camilleri et al., 2019) ou por a alimentação vegetariana não ser vista como um comportamento com potencial para se generalizar a toda a população, mas sim a um grupo particular de indivíduos (Rosenfeld e Burrow, 2017). Relativamente às limitações do estudo, um maior cuidado na elaboração das mensagens, recorrendo a pré-testes, poderia ter evitado possíveis problemas oriundos dos nossos estímulos. Adicionalmente, a amostra era relativamente reduzida, o que diminuiu o poder das análises executadas e consequentemente a capacidade de detetar efeitos significativos, e os participantes tinham poucos hábitos de consumo de refeições em cantinas universitárias – havendo a possibilidade de a mensagem não ter sido pessoalmente relevante para esta amostra. Concluímos com sugestões para investigação futura em que propomos novas mensagens de reciprocidade emparelhadas com normas sociais e aplicadas a um nível mais situado, como potencial follow-up para melhor compreender a utilidade de apelos de reciprocidade e de contexto social para promover um consumo mais sustentável em cantinas universitárias.
A questão ambiental tem-se tornado cada vez mais um tema de preocupação a nível mundial, com a emissão de gases de efeito estufa oriundos de atividades humanas, como dióxido de carbono e metano, ter conduzido ao período mais quente na história da civilização moderna (Wuebbles, 2017). Apesar da vasta maioria das emissões de gases efeito estufa podem ser atribuídas à indústria e produção energética (Ritchie e Roser, 2020), os comportamentos individuais dos consumidores em agregado têm um papel estrutural nas alterações climáticas, particularmente os nossos hábitos alimentares, estimando-se que o setor de produção alimentar contribua com aproximadamente um quarto (26%) das emissões de gases efeito estufa globais (Poore e Nemecek, 2018). Em geral, alimentos de origem animal tendem a ter emissões de gases efeito estufa mais elevadas quando comparados com alternativas de origem vegetal. Estes produtos de origem animal (carne, laticínios, ovos e peixe de aquacultura) produzem cerca de metade das emissões de gases efeito estufa derivados da prática agrícola (56% a 58%) (Poore e Nemecek, 2018). Poore e Nemecek (2018) estimam que se a população mundial transitasse para uma alimentação de base vegetal seria possível diminuir as emissões de gases efeito estufa relacionadas com a alimentação para cerca metade (49%) dos valores atuais. O problema ambiental é um problema social, em que tanto o problema como a solução derivam da nossa atividade agregada, onde os comportamentos de um indivíduo têm pouco impacto, mas que se tornaram significativos quando somados aos comportamentos de outros. Assim, é provável que a forma como os outros se comportam tenha uma ponderação nas decisões e comportamentos de um indivíduo, porque os nossos esforços só compensam se uma parte significativa dos outros também agirem no mesmo sentido. Congruentemente com esta ideia, a literatura indica que a maioria das pessoas tem comportamentos de cooperação condicional, em que contribuem proporcionalmente aos contributos dos outros (Fischbacher et al., 2001; Martinsson et al., 2013; Thöni e Volk, 2018) e a crença de que os outros vão ou não cooperar prediz o seu grau de cooperação (Messick e Brewer, 1983). Assim, propomos testar duas possíveis estratégias para promover um comportamento cooperante e consumo preferencial de pratos de base vegetal, nomeadamente um efeito de reciprocidade e piggybacking. A norma da reciprocidade é uma norma social onde indivíduos se sentem levados a retribuir ações que outros lhes tenham feito (Cialdini, 2009). Esta estratégia poderá ter sucesso na promoção de um comportamento social, na medida em que sinalizar que outros agentes estão a contribuir para uma causa comum poderá promover a cooperação condicional mencionada anteriormente. De igual forma, poderá também reforçar os sentimentos de perceção de eficácia para realizar o comportamento, face a um contexto em que vários outros agentes também estão a agir no mesmo sentido. Esta norma tem sido utilizada como estratégia dentro da temática da sustentabilidade, por exemplo na promoção de doações para a manutenção de um parque natural (Alpizar et al., 2008), na gestão de recursos hídricos entre agricultores (Martinez et al., 2013; Rodríguez-Dowdell, 2014) ou na promoção de comportamentos sustentáveis (Goldstein et al., 2011). No entanto, estes exemplos da utilização da reciprocidade focam-se na atribuição de bens, na medida em que a relação de reciprocidade é estimulada por dar um ganho direto e esperar que esse ganho promova um comportamento semelhante no recetor. A literatura também parece apoiar a relevância de esforços como estratégia para a promoção de cooperação, em que quando um agente mostra esforço para com uma questão, outros poderão ser estimulados a reciprocar esse esforço no mesmo sentido (Davis et al., 2017; McCain, 2007; Vilares et al., 2011). Assim, é possível que sinalizar o esforço que um agente está a fazer para promover alimentação sustentável gere um sentimento de reciprocidade, por exemplo, uma instituição comunicar os seus esforços para promover políticas sustentáveis poderá levar a que os membros dessa instituição ajam de forma mais sustentável. Relativamente a piggybacking, este pode ser visto como um efeito onde um comportamento é apresentado de forma integrada com outros comportamentos já estabelecidos e aceites, fazendo com que o novo comportamento possa ser promovido por estar associado a outros comportamentos normalizados (Priyadarshy e Nguyen-Ngo, 2013). Assim, o piggybacking pode ser um mecanismo eficaz para promover um novo comportamento ao associá-lo com outros comportamentos ou valores compatíveis (Hollingworth e Barker, 2017; Judah et al., 2013; Ostlund, 1974). Assim, a associação de um comportamento pretendido (e.g., alimentação mais sustentável) com outros comportamentos mais sustentáveis já normalizados ou desejáveis poderá fazer com que a alimentação sustentável possa, pelo menos parcialmente, ser promovida por associação, tornando o comportamento mais normalizado e expectável. Assim, desenvolvemos um estudo para testar se mensagens de apelo à reciprocidade e piggybacking são estratégias eficazes para a promoção de uma alimentação mais sustentável. Desenvolvemos este estudo no contexto de alimentação em cantinas universitárias por terem sido identificadas como contextos com potencial de intervenções comportamentais (Thorndike et al., 2012; Turnwald et al., 2017) e porque mitigam possíveis dificuldades na adesão a alimentação sustentável, como pouco acesso a informação e baixas competências para confecionar refeições sustentáveis (Graça et al., 2019). Assim, intervenções nestes contextos têm o potencial de mudar as preferências de consumidores jovens com maiores preocupações ambientais (Hickman et al., 2021) e que possivelmente ainda não têm um perfil de consumidor cristalizado, significando que poderão ter mais abertura a mudar a sua alimentação para incluir mais opções de base vegetal de forma regular. Nesta dissertação tivemos como objetivo estudar como mensagens com componentes de reciprocidade baseada no esforço e piggybacking podem contribuir para a promoção de uma alimentação mais sustentável em cantinas universitárias. Do nosso conhecimento, este é o primeiro estudo a testar se reciprocidade e piggybacking são estratégias viáveis para mudar decisões alimentares, particularmente na promoção de alimentação de base vegetal. Corremos então um estudo online com uma amostra de 303 estudantes da Universidade de Lisboa que consomem refeições com carne de forma regular ou ocasional. Os participantes foram expostos aos nossos estímulos sob a forma de mensagens de uma hipotética campanha de promoção de pratos de base vegetal nas cantinas da Universidade de Lisboa. O estudo teve um desenho de 2(reciprocidade: presente, ausente) x 2(piggybacking: presente, ausente) interparticipantes, em que cada participante foi alocado a uma condição ou de controlo, ou reciprocidade, ou piggybacking, ou reciprocidade + piggybacking. Como variáveis dependentes, medimos a disposição para consumir pratos de carne, peixe e vegetarianos nas cantinas da Universidade de Lisboa, assim como a preferência por pratos vegetarianos em vez da opção tradicional (por exemplo, escolher entre lasanha de vegetais e lasanha de carne) nos menus das cantinas universitárias. Adicionalmente, medimos a perceção de eficácia do consumidor, uma dimensão conceptualmente semelhante à autoeficácia (Sharma e Dayal, 2017), difusão de responsabilidade e perceções de normas sociais (descritivas, injuntivas e dinâmicas) referentes à alimentação sustentável na Universidade de Lisboa. Como hipóteses, esperámos que a exposição às mensagens de reciprocidade e piggybacking produzisse um efeito principal de aumentar a disposição e preferência por pratos vegetarianos e uma diminuição em pratos de carne e peixe (H1); e que a exposição às mensagens de apelo à reciprocidade e piggybacking produzissem um efeito principal de aumentar a perceção de eficácia do consumidor e de perceção de normas sociais referentes a alimentação sustentável, assim como uma diminuição de difusão de responsabilidade (H2). Em ambas estas hipóteses, esperámos também encontrar um efeito de interação, onde a conjunção da mensagem de reciprocidade e piggybacking (condição reciprocidade + piggybacking) gerasse um efeito maior comparativamente às mensagens apenas com reciprocidade ou piggybacking. Para o teste de hipóteses, corremos um conjunto de ANOVAs com dois fatores (reciprocidade e piggybacking) em relação às nossas variáveis dependentes de disposição para pratos de carne, peixe e vegetarianos e preferência de pratos a incluir no menu como variáveis (H1), e perceção de eficácia do consumidor, difusão de responsabilidade, e normas descritivas, injuntivas e dinâmicas (H2). Os resultados revelaram que as mensagens se mostraram ineficazes em promover uma alimentação mais sustentável. Em relação à H1, a mensagem de reciprocidade teve um efeito principal em diminuir a disposição para preferir pratos de peixe. No entanto, a mensagem de reciprocidade também diminuiu a disposição para consumir pratos vegetarianos, um efeito contrário ao esperado. A mensagem de Piggybacking não mostrou efeitos significativos, e o efeito de interação também não foi confirmado. Relativamente a H2, os resultados também não sustentaram as hipóteses avançadas (i.e., não se verificaram efeitos principais ou de interação na perceção de eficácia do consumidor, difusão de responsabilidade, e normas descritivas, injuntivas e dinâmicas, face à exposição às mensagens de reciprocidade ou piggybacking). Apesar das mensagens não terem funcionado como era esperado, este estudo oferece um primeiro passo para compreender como os processos de reciprocidade e piggybacking poderão ser utilizados em campanhas de sensibilização para alimentação de base vegetal. Podem ser consideradas várias possibilidades que explicam a razão porque as nossas mensagens não tiveram o efeito esperado. A reciprocidade poderá ter tido o efeito contrário ao esperado pela mensagem, ao salientar sobretudo o esforço de mudança ao nível institucional, possivelmente relegando para segundo plano a importância da ação ao nível individual. Adicionalmente, apelar à reciprocidade a nível da universidade poderá ter sido um referencial demasiado abrangente para ativar a identidade grupal do indivíduo, visto que a Universidade de Lisboa possui cerca de 50.000 estudantes distribuídos por vários locais da cidade de Lisboa, e a literatura aponta para a importância de focar um grupo saliente e relevante para o indivíduo (Brewer e Kramer, 1986; Cojuharenco et al., 2016; Turner et al., 1987). Consequentemente, é possível que apelos de reciprocidade a um nível mais situado e com um destaque nos comportamentos de pessoas semelhantes ao indivíduo, neste caso ao nível da sua instituição de ensino ao invés da universidade, poderá tornar a identidade grupal mais saliente e consequentemente uma maior pressão para reciprocar o esforço em prol de uma alimentação mais sustentável. Relativamente ao efeito de piggybacking, uma razão para o efeito esperado não ter sido encontrado poderá dever-se a comportamentos de alimentação sustentável não serem percecionados como categoricamente semelhantes a outros comportamentos sustentáveis generalizados utilizados na mensagem (redução de utilização de plástico e desperdício alimentar), possivelmente pela subestimação de conhecimento do impacto ambiental que a alimentação tem (Camilleri et al., 2019) ou por a alimentação vegetariana não ser vista como um comportamento com potencial para se generalizar a toda a população, mas sim a um grupo particular de indivíduos (Rosenfeld e Burrow, 2017). Relativamente às limitações do estudo, um maior cuidado na elaboração das mensagens, recorrendo a pré-testes, poderia ter evitado possíveis problemas oriundos dos nossos estímulos. Adicionalmente, a amostra era relativamente reduzida, o que diminuiu o poder das análises executadas e consequentemente a capacidade de detetar efeitos significativos, e os participantes tinham poucos hábitos de consumo de refeições em cantinas universitárias – havendo a possibilidade de a mensagem não ter sido pessoalmente relevante para esta amostra. Concluímos com sugestões para investigação futura em que propomos novas mensagens de reciprocidade emparelhadas com normas sociais e aplicadas a um nível mais situado, como potencial follow-up para melhor compreender a utilidade de apelos de reciprocidade e de contexto social para promover um consumo mais sustentável em cantinas universitárias.
Descrição
Dissertação de mestrado, Psicologia (Área de especialização em Cognição Social Aplicada), Universidade de Lisboa, Faculdade de Psicologia, 2021
Palavras-chave
Consumo sustentável Comportamento alimentar Proteção do ambiente Impacto ambiental Alimentação de base vegetal - Promoção Dissertações de mestrado - 2021
