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Orientador(es)
Resumo(s)
In this dissertation we will analyse the series of 13 children’s novels called A Series of
Unfortunate Events (1999-2006), signed by Lemony Snicket, pseudonym of author Daniel
Handler. In parallel, we will examine its eponymous long-form adaptation for streaming
television on the subscription streaming service Netflix (2017-2019), produced and written by
Daniel Handler. It consists of 3 seasons with a total of 25 episodes, following a structure of 2
episodes per book, except for the last one, which was adapted into a single episode.
The goal of this dissertation is to study the metafictional or self-reflexive facet of both
the original text and the audiovisual adaptation, in order to establish a comparative dialogue
between the different literary and cinematic means used to tell the story. For this purpose, we
will start by introducing the concept of Postmodernism, in order to contextualise the
aesthetics of both the book series and the concept of metafiction. The latter will be introduced
in the second section of this first chapter, where we analyse in more depth the metafictional
aspects of the book series, namely through the use of paratextuality, intertextuality and
self-referentiality. In the second chapter, divided into four sections, we will do the same for
the TV show adaptation, by introducing concepts such as metafilm and meta-adaptation and
by focusing on how the audiovisual medium calls attention to itself through cinematic
correspondences to this literary self-reflexivity, such as the fourth-wall breaking technique
and the use of filmic references. In the third and last chapter before the conclusion we
develop the role of the narrator, who, presenting himself as the author of the books whilst
also being a character in the universe of the narrative, stands between the heterodiegetic and
the homodiegetic. We conclude by making a case for him as the main origin of the
metafictional aspect of the narrative.
Nesta dissertação proponho-me a analisar a série de livros infantojuvenis A Series of Unfortunate Events (1999-2006), composta por 13 volumes e assinada por Lemony Snicket, pseudónimo do autor Daniel Handler. Os livros inserem-se mais especificamente no subgénero denominado de “Middle Grade fiction”, definição que aponta para os anos escolares do público-alvo, cuja faixa etária é de 8 a 12 anos de idade. Paralelamente a este objeto de estudo literário, estudo também a adaptação epónima feita em formato de série televisiva para o serviço de streaming Netflix, composto por 3 temporadas com um total de 25 episódios (2017-2019). O meu objetivo com esta dissertação é estabelecer um diálogo comparativo entre os diferentes meios literários e cinematográficos utilizados para contar a história, de forma a analisar a sua faceta metaficcional e autorreflexiva, tanto nos livros quanto na série. Esta análise transversal será relevante para compreender como a metaficção é um aspecto essencial da narrativa, tendo em conta que esta se insere numa estética pós-modernista. O primeiro capítulo chama-se “A Series of Metafictional Events” (tradução: Uma Série de Eventos Metaficcionais) e inicia-se com a secção “The Postmodernist Problem” (tradução: O Problema Pós-Modernista) que serve o propósito de apresentar o conceito de Pós-Modernismo, com apoio na obra de Brian McHale, Postmodernist Fiction (1987), em paralelo com a dissertação de Michele Di Palma, "A Series of Unfortunate Events, or Postmodernism for Young Readers” (2020). A definição de Pós-Modernismo servirá para contextualizar tanto a série de livros quanto o conceito de metaficção. Tendo surgido durante a segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, a estética pós-modernista é caracterizada por uma sensação de confusão, incerteza e ansiedade. McHale faz um contraste com o Modernismo, afirmando que o Pós-Modernismo não é mera posterioridade temporal mas uma consequência do último, sendo diferenciado deste por priorizar questões ontológicas, isto é, os aspectos metafísicos do conhecimento, ao invés de questões epistemológicas relativas ao conhecimento científico e aos seus métodos. A Series of Unfortunate Events caracteriza-se enquanto obra pós-modernista através de características como o seu anacronismo: ao utilizar em simultâneo tecnologias de diferentes períodos, mistura elementos contemporâneos com elementos vitorianos num ponto temporal indefinido, estabelecendo uma ambiguidade e incerteza típicas de uma narrativa pós-modernista. Isto causa uma ansiedade por respostas que caracteriza também o aspecto ontológico do pós-modernismo: numa narrativa com informação dispersa e questões nunca resolvidas, a dúvida paira no ar, dando lugar a um humor apoiado na indecidibilidade e incongruência. Em seguida, tendo como ponto de partida esta contextualização, a segunda secção deste primeiro capítulo intitula-se “The Metafictional Events” (tradução: Os Eventos Metaficcionais) e tem como objetivo investigar os elementos metaficcionais presentes nos livros. Começo por introduzir o conceito de metaficção, através das obras Metafiction: The Theory and Practice of Self-Conscious Fiction (1984) de Patricia Waugh e Narcissistic Narrative: The Metafictional Paradox (1980) de Linda Hutcheon. Apesar de ser uma prática bem mais antiga, começa a ter especial protagonismo no Pós-Modernismo, por permitir uma autorreflexividade e autoconsciência que quebram com as convenções narrativas, dando lugar a questionamentos mais abstratos. De seguida, analiso mais detalhadamente os aspectos metaficcionais da série de livros, como a intertextualidade – o que dará lugar ao conceito de crosswriting, que implica um público duplo, atravessando as fronteiras entre literatura infantil e adulta. Outro aspecto metaficcional será a autorreferencialidade da narrativa, isto é, a maneira como o texto chama a atenção para si próprio através, por exemplo, do paratexto (dedicatórias, sinopses, epígrafos) e da abordagem direta ao leitor. Ademais, será igualmente pertinente a utilização da ironia e de um humor autodepreciativo, assim como de um final ambíguo – características representativas da estética pós-modernista. Já no segundo capítulo, “The Cinematic Climax” (tradução: O Clímax Cinematográfico), dividido em quatro secções (“The Cinematic”, “The Metafilmic”, “The Meta-Adaptation" e “Adapting Metafiction”), começo por justificar a utilização do termo “cinematográfico” para referir-me a um produto audiovisual em formato de série. Para o efeito, utilizo a seguinte bibliografia referente ao conceito de “quality television” (traduzido literalmente para “televisão de qualidade”): Visible Fictions: Cinema, Television, Video (1982) de John Ellis, QUALITY TV - Contemporary American Television and Beyond (2007) de McCabe e Kim Akass e “Cinematography and Television: Differences and Similarities” (2010) de Adriano Nazareth. Após estabelecer a série televisiva enquanto produto cinematográfico, apresento os conceitos de metafilm e meta-adaptação teorizados por Casie E. Hermansson em Filming the Children's Book: Adapting Metafiction (2018) e argumento que a presente adaptação audiovisual pode ser definida com apoio em ambas as noções, já que reflete sobre si própria tanto como produto cinematográfico quanto como adaptação. De seguida, passo a analisar elementos metaficcionais, como referências fílmicas e a maneira como o meio audiovisual chama a atenção para si mesmo através de correspondências cinematográficas à referida autorreflexividade literária. Neste âmbito, analisam-se as referências ao mundo exterior à narrativa, a abordagem direta ao espectador, a utilização de elementos metafílmicos como salas de cinema, rolos de filme e projetores. Uma das técnicas mais utilizadas ao longo da série é a quebra da quarta parede, criando assim um efeito de alienação previamente teorizado por Brecht com intuitos revolucionários e que aqui é analisado em referência à obra O Espectador Emancipado (2008) de Jacques Rancière. No terceiro e último capítulo, “The Narcissistic Narrator” (tradução: O Narrador Narcisista), ao analisar o papel do narrador, proponho que este é a fonte da essência autorreflexiva da obra. Para o efeito retomarei o conceito de paratexto para analisar de que forma elementos como a autoria do narrador e a forma direta de se dirigir ao leitor problematizam a relação entre a ficção e a realidade do último. Para tal apoio-me em Gérard Genette, nomeadamente no Discurso da Narrativa - Ensaio de Método (1972), obra na qual introduziu conceitos amplamente utilizados de análise diegética como focalizações e funções do narrador. No caso de Snicket, o narrador encontra-se entre os níveis narrativos extradiegético e intradiegético, sendo possível defini-lo tanto como heterodiegético quanto como homodiegético: apresenta-se como o escritor dos livros, Lemony Snicket – pseudónimo utilizado por Daniel Handler –, mas ao longo da história percebemos que faz também, de certa forma, parte da narrativa, não sendo assim apenas um pseudónimo do autor mas também em si próprio uma personagem. Esta sua faceta é confirmada através da utilização em diversas ocasiões do recurso estilístico da analepse e do possível encontro entre narrador e protagonistas no penúltimo livro, The Penultimate Peril, que será posteriormente confirmado no episódio “The Penultimate Peril: Part One” da adaptação televisiva e que irá moldar o papel do narrador. Este capítulo inclui ainda duas secções intituladas “Narrator and Narratee” e “Narrator and Protagonists”. Tendo tudo isto em conta, confere-se que narrador e protagonistas influenciam-se mutuamente, assim como narrador e leitor/espectador se sobrepõem através de uma associação metaficcional, moldando os seus respetivos papéis através de uma reestruturação das expectativas narrativas. O eixo da minha dissertação será, portanto, analisar de que forma a metaficção molda o papel do narrador na narrativa e vice-versa, numa perspetiva comparatista e intermedial. Considerando o papel primordial do narrador para o aspeto metaficcional da narrativa, pode ser concluído que este é também uma parte essencial na transcodificação do meio literário para o meio audiovisual. O autor-narrador que se dirige diretamente ao leitor desde a primeira página torna-se personagem-narrador ao quebrar a quarta parede desde o início da série, quando aparece no ecrã a olhar para a câmara e a falar diretamente para o espectador – mantendo assim a essência metaficcional da narrativa.
Nesta dissertação proponho-me a analisar a série de livros infantojuvenis A Series of Unfortunate Events (1999-2006), composta por 13 volumes e assinada por Lemony Snicket, pseudónimo do autor Daniel Handler. Os livros inserem-se mais especificamente no subgénero denominado de “Middle Grade fiction”, definição que aponta para os anos escolares do público-alvo, cuja faixa etária é de 8 a 12 anos de idade. Paralelamente a este objeto de estudo literário, estudo também a adaptação epónima feita em formato de série televisiva para o serviço de streaming Netflix, composto por 3 temporadas com um total de 25 episódios (2017-2019). O meu objetivo com esta dissertação é estabelecer um diálogo comparativo entre os diferentes meios literários e cinematográficos utilizados para contar a história, de forma a analisar a sua faceta metaficcional e autorreflexiva, tanto nos livros quanto na série. Esta análise transversal será relevante para compreender como a metaficção é um aspecto essencial da narrativa, tendo em conta que esta se insere numa estética pós-modernista. O primeiro capítulo chama-se “A Series of Metafictional Events” (tradução: Uma Série de Eventos Metaficcionais) e inicia-se com a secção “The Postmodernist Problem” (tradução: O Problema Pós-Modernista) que serve o propósito de apresentar o conceito de Pós-Modernismo, com apoio na obra de Brian McHale, Postmodernist Fiction (1987), em paralelo com a dissertação de Michele Di Palma, "A Series of Unfortunate Events, or Postmodernism for Young Readers” (2020). A definição de Pós-Modernismo servirá para contextualizar tanto a série de livros quanto o conceito de metaficção. Tendo surgido durante a segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, a estética pós-modernista é caracterizada por uma sensação de confusão, incerteza e ansiedade. McHale faz um contraste com o Modernismo, afirmando que o Pós-Modernismo não é mera posterioridade temporal mas uma consequência do último, sendo diferenciado deste por priorizar questões ontológicas, isto é, os aspectos metafísicos do conhecimento, ao invés de questões epistemológicas relativas ao conhecimento científico e aos seus métodos. A Series of Unfortunate Events caracteriza-se enquanto obra pós-modernista através de características como o seu anacronismo: ao utilizar em simultâneo tecnologias de diferentes períodos, mistura elementos contemporâneos com elementos vitorianos num ponto temporal indefinido, estabelecendo uma ambiguidade e incerteza típicas de uma narrativa pós-modernista. Isto causa uma ansiedade por respostas que caracteriza também o aspecto ontológico do pós-modernismo: numa narrativa com informação dispersa e questões nunca resolvidas, a dúvida paira no ar, dando lugar a um humor apoiado na indecidibilidade e incongruência. Em seguida, tendo como ponto de partida esta contextualização, a segunda secção deste primeiro capítulo intitula-se “The Metafictional Events” (tradução: Os Eventos Metaficcionais) e tem como objetivo investigar os elementos metaficcionais presentes nos livros. Começo por introduzir o conceito de metaficção, através das obras Metafiction: The Theory and Practice of Self-Conscious Fiction (1984) de Patricia Waugh e Narcissistic Narrative: The Metafictional Paradox (1980) de Linda Hutcheon. Apesar de ser uma prática bem mais antiga, começa a ter especial protagonismo no Pós-Modernismo, por permitir uma autorreflexividade e autoconsciência que quebram com as convenções narrativas, dando lugar a questionamentos mais abstratos. De seguida, analiso mais detalhadamente os aspectos metaficcionais da série de livros, como a intertextualidade – o que dará lugar ao conceito de crosswriting, que implica um público duplo, atravessando as fronteiras entre literatura infantil e adulta. Outro aspecto metaficcional será a autorreferencialidade da narrativa, isto é, a maneira como o texto chama a atenção para si próprio através, por exemplo, do paratexto (dedicatórias, sinopses, epígrafos) e da abordagem direta ao leitor. Ademais, será igualmente pertinente a utilização da ironia e de um humor autodepreciativo, assim como de um final ambíguo – características representativas da estética pós-modernista. Já no segundo capítulo, “The Cinematic Climax” (tradução: O Clímax Cinematográfico), dividido em quatro secções (“The Cinematic”, “The Metafilmic”, “The Meta-Adaptation" e “Adapting Metafiction”), começo por justificar a utilização do termo “cinematográfico” para referir-me a um produto audiovisual em formato de série. Para o efeito, utilizo a seguinte bibliografia referente ao conceito de “quality television” (traduzido literalmente para “televisão de qualidade”): Visible Fictions: Cinema, Television, Video (1982) de John Ellis, QUALITY TV - Contemporary American Television and Beyond (2007) de McCabe e Kim Akass e “Cinematography and Television: Differences and Similarities” (2010) de Adriano Nazareth. Após estabelecer a série televisiva enquanto produto cinematográfico, apresento os conceitos de metafilm e meta-adaptação teorizados por Casie E. Hermansson em Filming the Children's Book: Adapting Metafiction (2018) e argumento que a presente adaptação audiovisual pode ser definida com apoio em ambas as noções, já que reflete sobre si própria tanto como produto cinematográfico quanto como adaptação. De seguida, passo a analisar elementos metaficcionais, como referências fílmicas e a maneira como o meio audiovisual chama a atenção para si mesmo através de correspondências cinematográficas à referida autorreflexividade literária. Neste âmbito, analisam-se as referências ao mundo exterior à narrativa, a abordagem direta ao espectador, a utilização de elementos metafílmicos como salas de cinema, rolos de filme e projetores. Uma das técnicas mais utilizadas ao longo da série é a quebra da quarta parede, criando assim um efeito de alienação previamente teorizado por Brecht com intuitos revolucionários e que aqui é analisado em referência à obra O Espectador Emancipado (2008) de Jacques Rancière. No terceiro e último capítulo, “The Narcissistic Narrator” (tradução: O Narrador Narcisista), ao analisar o papel do narrador, proponho que este é a fonte da essência autorreflexiva da obra. Para o efeito retomarei o conceito de paratexto para analisar de que forma elementos como a autoria do narrador e a forma direta de se dirigir ao leitor problematizam a relação entre a ficção e a realidade do último. Para tal apoio-me em Gérard Genette, nomeadamente no Discurso da Narrativa - Ensaio de Método (1972), obra na qual introduziu conceitos amplamente utilizados de análise diegética como focalizações e funções do narrador. No caso de Snicket, o narrador encontra-se entre os níveis narrativos extradiegético e intradiegético, sendo possível defini-lo tanto como heterodiegético quanto como homodiegético: apresenta-se como o escritor dos livros, Lemony Snicket – pseudónimo utilizado por Daniel Handler –, mas ao longo da história percebemos que faz também, de certa forma, parte da narrativa, não sendo assim apenas um pseudónimo do autor mas também em si próprio uma personagem. Esta sua faceta é confirmada através da utilização em diversas ocasiões do recurso estilístico da analepse e do possível encontro entre narrador e protagonistas no penúltimo livro, The Penultimate Peril, que será posteriormente confirmado no episódio “The Penultimate Peril: Part One” da adaptação televisiva e que irá moldar o papel do narrador. Este capítulo inclui ainda duas secções intituladas “Narrator and Narratee” e “Narrator and Protagonists”. Tendo tudo isto em conta, confere-se que narrador e protagonistas influenciam-se mutuamente, assim como narrador e leitor/espectador se sobrepõem através de uma associação metaficcional, moldando os seus respetivos papéis através de uma reestruturação das expectativas narrativas. O eixo da minha dissertação será, portanto, analisar de que forma a metaficção molda o papel do narrador na narrativa e vice-versa, numa perspetiva comparatista e intermedial. Considerando o papel primordial do narrador para o aspeto metaficcional da narrativa, pode ser concluído que este é também uma parte essencial na transcodificação do meio literário para o meio audiovisual. O autor-narrador que se dirige diretamente ao leitor desde a primeira página torna-se personagem-narrador ao quebrar a quarta parede desde o início da série, quando aparece no ecrã a olhar para a câmara e a falar diretamente para o espectador – mantendo assim a essência metaficcional da narrativa.
Descrição
Palavras-chave
Snicket, Lemony, pseud. - Crítica e interpretação Genette, Gérard, 1930-2018 A Series of Unfortunate Events Literatura infanto-juvenil americana - séc.20-21 - História e crítica Literatura infanto-juvenil americana - séc.20-21 - Adaptações televisivas Literatura infanto-juvenil americana - séc.20-21 - Adaptações cinematográficas Cinema e literatura Metaficção Pós-modernismo e literatura Estudos comparados Teses de mestrado - 2023
