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This thesis focuses on the examination of the relationship between the Realist novel and the notion of object, with the aim of understanding some metafictional mechanisms at play in the nineteenth century narrative and the resulting conceptions of representation and interpretation of the world. Thus, I will offer an analysis of four novels published during the last quarter of the nineteenth century in Europe: Daniel Deronda by George Eliot, Effi Briest by Theodor Fontane, and Los Pazos de Ulloa and Madre Naturaleza by Emilia Pardo Bazán. The underlying assumption for bringing these texts together aligns itself with the idea that a renewed understanding of the nineteenth century novel entails presenting “the object” as a key-textual-clue to the staging of the perception of a representational and interpretational crisis. Throughout the nineteenth century, both the idea of representation and experience, as well as the conception of an a priori subject and of an immutable object are transformed into ammunition in the battlefield of an aesthetic and epistemological crisis, whose echoes are repercussed in the novels of Eliot, Fontane and Pardo Bazán. If, on the one hand, the Realist novel comes to be seen as the proverbial mirror of the real, on the other hand, through the pen of the authors studied here both fiction and reality are transformed into an object of semiotic disquiet.
Esta tese centra-se em torno do questionamento da relação entre o romance Realista e a noção de objecto, com o intuito de compreender alguns mecanismos metaficcionais presentes na narrativa oitocentista e as suas implicações para o entendimento da representação e interpretação do mundo no texto literário. Para tal proponho-me analisar quatro romances publicados na Europa, no decorrer das últimas décadas do século XIX, a saber: Daniel Deronda de George Eliot, Effi Briest de Theodor Fontane, e Los Pazos de Ulloa e Madre Naturaleza de Emilia Pardo Bazán. A premissa subjacente à leitura conjunta destes textos assenta na ideia de que tomar o “objecto” como chave textual permitirá dar conta da percepção da existência de uma crise representacional e interpretativa no seio da própria literatura oitocentista. Ao longo do século XIX, tanto a ideia de representação e de experiência, como a ideia de um sujeito a priori e de um objecto imutável tornam-se no campo de batalha de uma crise estética e epistemológica, cujos ecos se fazem sentir nos romances de Eliot, Fontane e Pardo Bazán. Se por um lado o romance Realista se vê caricaturado como espelho do real, mesclando-se o entendimento deste último no mundo material e numa visão positivista, por outro lado, é possível encontrar nas obras dos autores referidos a transformação tanto da ficção como da realidade num objecto de inquietação semiótica. Em Daniel Deronda (1876) exploraram-se as implicações da estruturação do romance em torno das noções de escala e balança, condensadas na palavra inglesa scale, isto é, propõe-se um estudo em que a representação literária da relação entre percepção e mundo se pauta por ajustes linguísticos de ponderação e perspectiva. Por outras palavras, o movimento narrativo é acompanhado por modulações perspectivais de aproximação e afastamento, dando conta de uma preocupação centrada nas possibilidades de coexistência entre o global e o particular. Ao mesmo tempo, há consequências quanto às implicações que os desequilíbrios nesta relação possam acarretar para o acto interpretativo, nomeadamente, provocar uma oscilação imprevisível entre visibilidade e invisibilidade, significação e insignificância, materialidade e imaterialidade. Tendo em conta a presença de caracter metaficcional de relíquias familiares e de obras de arte ao longo de Daniel Deronda, nas quais se espelham processos retóricos da constituição do sujeito e da percepção, ensaia-se a ideia de que o romance oferece as bases para uma meditação acerca dos actos interpretativo e representativo enquanto sympatheia. Assim, George Eliot parece sugerir a inclusão do romance na matéria sensível do mundo enquanto superfície textual não meramente reflectora, mas também na qualidade de objecto incorporador e transformador. Em Effi Briest a realidade material e observável é figurada enquanto textura e substância indeterminadas. Assim, o romance de Theodor Fontane é apresentado como narrativa na qual os sentidos são acometidos por uma constante necessidade de dar forma, consistência e de nomear o mundo, para assim lhe conferir o estatuto de real. Neste âmbito, analisa-se o modo como narrador e personagens delineiam estratégias para distinguir realidade e ficção, nomeadamente, o recurso a objectos visuais (imagens), objectos escritos (livros, cartas, lápides), objectos naturais (plantas, rochas), em contraste com a evocação de figuras espectrais e vozes sem corpo. Deste modo, argumenta-se que o papel estruturante destes objectos na narrativa é colocado ao serviço de uma proposta estética de Fontane, em que o romance se apresenta como superfície instável de inscrição da realidade. Em Los Pazos de Ulloa e Madre Naturaleza a análise é norteada pelas noções de moldura e cenário, isto é, aquilo que delimita e o que está em “segundo-plano”, tendo em conta a identificação de objectos que neste díptico narrativo se constituem como figuras de trânsito entre o textual e o extratextual. Assim, apresenta-se uma faceta pouco explorada da poética de Pardo Bazán relacionada com o emprego de estratégias metaficcionais ao serviço de uma reflexão acerca do texto literário como espaço limítrofe da experiência humana da linguagem, das suas realidades e ficções.
Esta tese centra-se em torno do questionamento da relação entre o romance Realista e a noção de objecto, com o intuito de compreender alguns mecanismos metaficcionais presentes na narrativa oitocentista e as suas implicações para o entendimento da representação e interpretação do mundo no texto literário. Para tal proponho-me analisar quatro romances publicados na Europa, no decorrer das últimas décadas do século XIX, a saber: Daniel Deronda de George Eliot, Effi Briest de Theodor Fontane, e Los Pazos de Ulloa e Madre Naturaleza de Emilia Pardo Bazán. A premissa subjacente à leitura conjunta destes textos assenta na ideia de que tomar o “objecto” como chave textual permitirá dar conta da percepção da existência de uma crise representacional e interpretativa no seio da própria literatura oitocentista. Ao longo do século XIX, tanto a ideia de representação e de experiência, como a ideia de um sujeito a priori e de um objecto imutável tornam-se no campo de batalha de uma crise estética e epistemológica, cujos ecos se fazem sentir nos romances de Eliot, Fontane e Pardo Bazán. Se por um lado o romance Realista se vê caricaturado como espelho do real, mesclando-se o entendimento deste último no mundo material e numa visão positivista, por outro lado, é possível encontrar nas obras dos autores referidos a transformação tanto da ficção como da realidade num objecto de inquietação semiótica. Em Daniel Deronda (1876) exploraram-se as implicações da estruturação do romance em torno das noções de escala e balança, condensadas na palavra inglesa scale, isto é, propõe-se um estudo em que a representação literária da relação entre percepção e mundo se pauta por ajustes linguísticos de ponderação e perspectiva. Por outras palavras, o movimento narrativo é acompanhado por modulações perspectivais de aproximação e afastamento, dando conta de uma preocupação centrada nas possibilidades de coexistência entre o global e o particular. Ao mesmo tempo, há consequências quanto às implicações que os desequilíbrios nesta relação possam acarretar para o acto interpretativo, nomeadamente, provocar uma oscilação imprevisível entre visibilidade e invisibilidade, significação e insignificância, materialidade e imaterialidade. Tendo em conta a presença de caracter metaficcional de relíquias familiares e de obras de arte ao longo de Daniel Deronda, nas quais se espelham processos retóricos da constituição do sujeito e da percepção, ensaia-se a ideia de que o romance oferece as bases para uma meditação acerca dos actos interpretativo e representativo enquanto sympatheia. Assim, George Eliot parece sugerir a inclusão do romance na matéria sensível do mundo enquanto superfície textual não meramente reflectora, mas também na qualidade de objecto incorporador e transformador. Em Effi Briest a realidade material e observável é figurada enquanto textura e substância indeterminadas. Assim, o romance de Theodor Fontane é apresentado como narrativa na qual os sentidos são acometidos por uma constante necessidade de dar forma, consistência e de nomear o mundo, para assim lhe conferir o estatuto de real. Neste âmbito, analisa-se o modo como narrador e personagens delineiam estratégias para distinguir realidade e ficção, nomeadamente, o recurso a objectos visuais (imagens), objectos escritos (livros, cartas, lápides), objectos naturais (plantas, rochas), em contraste com a evocação de figuras espectrais e vozes sem corpo. Deste modo, argumenta-se que o papel estruturante destes objectos na narrativa é colocado ao serviço de uma proposta estética de Fontane, em que o romance se apresenta como superfície instável de inscrição da realidade. Em Los Pazos de Ulloa e Madre Naturaleza a análise é norteada pelas noções de moldura e cenário, isto é, aquilo que delimita e o que está em “segundo-plano”, tendo em conta a identificação de objectos que neste díptico narrativo se constituem como figuras de trânsito entre o textual e o extratextual. Assim, apresenta-se uma faceta pouco explorada da poética de Pardo Bazán relacionada com o emprego de estratégias metaficcionais ao serviço de uma reflexão acerca do texto literário como espaço limítrofe da experiência humana da linguagem, das suas realidades e ficções.
