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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
Este estudo visa investigar a aquisição de sluicing em português europeu (PE)
como língua não materna por falantes cuja língua materna é chinês mandarim (CM) e
cuja língua segunda é inglês.
A aquisição de sluicing, bem como a aquisição de outros tipos de elipse, tem sido
tratada no âmbito da aquisição de uma L1. No entanto, a aquisição de sluicing numa
L2 recebeu muito pouca atenção na área da linguística. Por conseguinte, este estudo
visa explorar e examinar a aquisição de sluicing por falantes nativos de CM, cuja L2 é
inglês e L3 é PE.
Sluicing é uma estrutura elíptica em que a expressão wh- é pronunciada e o restante
material na interrogativa é omitido (Ross, 1969). Segundo Merchant (2001), Sluicing
em inglês é um resultado de movimento-wh e de elipse, entendida como apagamento
do ponto de vista fonético. Tal como em inglês, sluicing em PE também resulta das
mesmas operações (movimento-wh e elipse) (Mascarenhas & Mendes 1994, Matos
2003). No entanto, embora exista uma estrutura semelhante a sluicing em CM, a
estrutura de sluicing em PE e em inglês e a estrutura de sluicing aparente em CM não
correspondem à mesma estrutura, já que o CM é uma língua wh-in-situ, mas o PE e o
inglês são línguas que apresentam movimento-wh. Isto significa que a estrutura
semelhante a sluicing em CM não corresponde à derivação de sluicing em PE. Assim,
designamos neste estudo sluicing em CM como “Chinese sluicing-like structure
(CSLS)”, ou “uma estrutura parecida com sluicing em CM”. A CSLS pode ser
explicada adotando uma análise que designaremos como a análise “pro-form”. Esta
análise consiste em assumir que, em CSLS, existe um pronome nulo que precede a
expressão wh- e este pronome nulo retoma o antecedente na frase anterior.
Em relação à aquisição de língua não materna, Lardiere (2008) propõe que, para
adquirir uma língua não materna, um aprendente tem de se desembaraçar dos traços
associados a determinados itens lexicais e funcionais na L1 e reconfigurá-los de acordo
com a língua-alvo. Na linha de Lardiere (2008), assumimos que, para adquirir sluicing
em PE, além de adquirir os traços que definem as expressões wh-, os falantes nativos
de CM teriam também de adquirir os traços que determinam a existência de movimento
wh- , designadamente um traço [wh] forte em C. Além disso, para obter sluicing em PE,
um aprendente nativo de CM teria de adquirir os traços que explicam especificamente
sluicing, ou seja, um traço E que desencadeia a elipse no caso de sluicing. Aliás,
conforme o Modelo de Primazia Tipológica de Rothman (2011), que assume que um
aprendente de L3 escolheria uma língua previamente adquirida e a mais próxima da L3 (quer seja L1 ou L2) como a fonte de transferência durante a aquisição da L3, seria
possível considerar a possibilidade de transferência do inglês (L2) para o português
(L3). Neste caso, a transferência teria um efeito facilitador.
Portanto, neste estudo temos como objetivo (1) investigar a aquisição do
movimento wh- e sluicing em PE por falantes nativos de CM; (2) investigar a relação
entre a aquisição de movimento wh- e a aquisição de sluicing em PE por falantes nativos
de CM, de modo a verificar se os falante nativos de CM adquirem movimento-wh e
sluicing ao mesmo tempo ou separadamente, sabendo que os falantes nativos de CM
em ensino formal são explicitamente ensinados a construir interrogativas, mas não
estruturas elípticas, nomeadamente, sluicing em PE; (3) testar se os falantes nativos de
CM transferirão a estrutura de CSLS, que é superficialmente muito semelhante a uma
estrutura sluicing com uma semipseudoclivada e a que chamamos “semipseudoclivada
parcialmente elidida” em PE; (4) examinar se haverá alguma influência do inglês como
L2 durante a aquisição de sluicing em PE como L3.
Assim, o trabalho é orientado pelas seguintes perguntas de investigação:
1. A aquisição do movimento wh- em PE será condição suficiente para os falantes
de CM adquirirem sluicing em PE ou há evidência de uma aquisição posterior de
sluicing (que é associado a um traço E em C), como questão específica e independente
na aquisição de sluicing de PE?
2. Os falantes de CM transferirão a estrutura de CSLS diretamente para PE, que
superficialmente corresponde a uma estrutura que designamos de “semipseudoclivada
parcialmente elidida” em PE?
3. Serão os falantes de CM influenciados pelas outras línguas adquiridas
previamente, nomeadamente, inglês, levando a uma aceleração da aquisição de sluicing
em PE?
A fim de responder às perguntas de investigação, realizámos três testes diferentes:
uma tarefa de produção e uma tarefa de aceitabilidade em PE e uma tarefa de
aceitabilidade em inglês.
A tarefa de produção tem como objetivo testar se os falantes nativos de CM são
capazes de produzir sluicing em PE; a tarefa de aceitabilidade em PE visa avaliar se os
falantes nativos de CM aceitarão os itens que exibem movimento-wh e sluicing em PE
e examinar se eles transferirão a estrutura de CSLS para PE, nomeadamaente, se mapearão a estrutura disponível em CM com uma estrutura que corresponderia em PE
a uma estrutura que podemos analisar como uma semipseudoclivada parcialmente
elidida; a tarefa de aceitabilidade em inglês procura verificar se a aquisição de inglês
como L2 tem influência na aquisição de sluicing em PE. Os primeiros dois testes foram
aplicados a 60 falantes nativos de CM de diferentes níveis de proficiência de PE (B1:
23 falantes; B2: 20 falantes; C1:17 falantes) e a 21 falantes nativos de PE. O terceiro
teste foi aplicado somente a falantes de CM.
Os dados experimentais revelam que os falantes nativos de CM aceitam
interrogativas com movimento wh-, mas não produzem sluicing, nem sequer aceitam
sluicing em PE e em inglês. Isto significa que os resultados estão de acordo com as
predições que formulámos com base na hipótese de Lardiere (2008): os falantes nativos
de CM já adquiriram os traços que explicam movimento wh-, em particular já
adquiriram um traço [wh] forte em C em PE, mas não adquiriram o traço E que
desencadeia elipse do IP em PE, ou seja sluicing em PE. Por isso, estes falantes não
produzem nem aceitam sluicing em PE. Além disso, os dados mostram que os falantes
nativos de CM também não adquiriram sluicing em inglês, mas já adquiriram
movimento-wh em inglês. Por outras palavras, os falantes nativos de CM adquirem
movimento-wh e sluicing separadamente. Como a aquisição de sluicing quer em PE
quer em inglês está em curso, é possível afirmar que não há nenhuma influência do
inglês na aquisição de sluicing em PE. Além disso, os dados mostram que os falantes
nativos de CM não aceitam os itens de sluicing com semipseudoclivada parcialmente
elidida, o que sugere que não mapeiam superficialmente CSLS para esta estrutura em
PE. Além disso, isso será compatível com a ideia de que estes falantes não adquiriram
esta estrutura em PE, que é uma estrutura de marcação de foco em PE.
Acima de tudo, descobrimos que os falantes tenderam a fazer correções aos itens
de sluicing usando estruturas que podemos descrever como “expressões-wh- + ser” em
PE, que provavelmente são produzidas ou como uma estrutura de elipse de VP em PE
ou como uma estrutura não elíptica equivalente a CSLS.
Concluímos que os falantes de CM (1) já adquiriram o movimento-wh em PE, mas
não a estrutura de sluicing; (2) não transferiram CSLS para uma estrutura de (sluicing
com) semipseudoclivada parcialmente elidida em PE; (3) não mostraram nenhuma
influência do inglês na aquisição de sluicing em PE. De uma forma mais geral, os
resultados permitem sugerir que não só a aquisição de movimento-wh e a aquisição de
sluicing são independentes no processo de aquisição de uma L2, como, ao contrário do
que acontece com a aquisição de movimento-wh, a aquisição de sluicing pode ser mais tardia (pelo menos, no contexto de aquisição aqui considerado e que corresponde a
casos em que a aquisição conta não só com imersão, mas também com instrução formal).
This study investigates the acquisition of sluicing in European Portuguese by L1 Mandarin Chinese speakers. While other studies mainly focus on the acquisition of other types of ellipsis and the acquisition of sluicing in L1, the acquisition of sluicing in L2 has received very little attention. In this study, we investigate the relation between acquiring wh-movement and sluicing by L1 Mandarin speakers, and test whether Mandarin speakers are able to produce sluicing and accept wh-movement and sluicing at the same time. We also examine whether Mandarin speakers map the Chinese sluicing-like structure to European Portuguese, and we investigate whether English has any influence on the acquisition of sluicing in Portuguese. We developed three tasks to test 60 L1 Mandarin speakers and 21 L1 European Portuguese speakers: an elicited production task was designed to test whether Mandarin speakers are able to produce sluicing in Portuguese; a Portuguese grammaticality judgment task was used to test whether they accept wh-movement and sluicing and to verify whether they transfer the Chinese sluicing-like structure to Portuguese; finally, an English grammaticality judgment task was designed to verify whether English has an influence on the acquisition of sluicing in Portuguese. Our results show that the Mandarin speakers accepted interrogatives with wh-movement, but they neither produced nor accepted sluicing in Portuguese or English. We conclude that these speakers acquired whmovement but not sluicing. English did not have any influence on the acquisition of sluicing.
This study investigates the acquisition of sluicing in European Portuguese by L1 Mandarin Chinese speakers. While other studies mainly focus on the acquisition of other types of ellipsis and the acquisition of sluicing in L1, the acquisition of sluicing in L2 has received very little attention. In this study, we investigate the relation between acquiring wh-movement and sluicing by L1 Mandarin speakers, and test whether Mandarin speakers are able to produce sluicing and accept wh-movement and sluicing at the same time. We also examine whether Mandarin speakers map the Chinese sluicing-like structure to European Portuguese, and we investigate whether English has any influence on the acquisition of sluicing in Portuguese. We developed three tasks to test 60 L1 Mandarin speakers and 21 L1 European Portuguese speakers: an elicited production task was designed to test whether Mandarin speakers are able to produce sluicing in Portuguese; a Portuguese grammaticality judgment task was used to test whether they accept wh-movement and sluicing and to verify whether they transfer the Chinese sluicing-like structure to Portuguese; finally, an English grammaticality judgment task was designed to verify whether English has an influence on the acquisition of sluicing in Portuguese. Our results show that the Mandarin speakers accepted interrogatives with wh-movement, but they neither produced nor accepted sluicing in Portuguese or English. We conclude that these speakers acquired whmovement but not sluicing. English did not have any influence on the acquisition of sluicing.
Descrição
Palavras-chave
Língua portuguesa – Aquisição linguística Língua portuguesa - Elipse (Linguística) Língua portuguesa - Interrogação (Linguística) Língua portuguesa - Estudo e ensino - Falantes do chinês Língua inglesa - Falantes do chinês Língua chinesa - Elipse (Linguística) Língua chinesa - Interrogação (Linguística) Teses de mestrado – 2021
