| Nome: | Descrição: | Tamanho: | Formato: | |
|---|---|---|---|---|
| 13.86 MB | Adobe PDF |
Orientador(es)
Resumo(s)
In early modern Portugal, the Catholic Church played an instrumental role in shaping the nation’s book
culture. Libraries were an essential part of the vast network of monasteries and convents, serving as
centers of both spirituality and scholarly activity. Religious congregations were dedicated to acquiring,
preserving, and circulating books, amassing extensive collections that covered a wide array of
disciplines. Amongst these, was the knowledge that interprets the movements of the heavens correlating
them with events on Earth, i.e. astrology. Considering the complex relationship between the Catholic
Church and astrology, the presence of widespread astrological content in a religious context may seem
surprising. Yet, despite constraints and prohibitive attitudes surrounding the discipline, astrology books
still found their place in the libraries of religious congregations.
Through an analysis of library catalogues, inventories, and modern collections tracing their
origins to religious libraries, 687 astrological and astronomical texts were identified across 41 libraries
belonging to 16 different religious orders. These findings reveal that the interest in astrology extended
well beyond the Society of Jesus, already renowned for its engagement with astrology education.
Notably, the Franciscan, Augustinian, and Theatine institutions housed the largest number of astrology
books. Among these, the Theatine Library of the House of Nossa Senhora da Divina Providência and
the Augustinian Library of the Convent of Nossa Senhora da Graça in Lisbon stand out as having the
most extensive collections. A deeper look into religious astrological collections reveals a diverse
selection of works produced by leading figures in the fields of astrology and astronomy. Among the
most widely circulated astrological works was Antonio de Najera's weather forecasting manual, Summa
Astrologica (1632).
This dissertation explores the astrology books preserved in ecclesiastical libraries up to their
dissolution in 1834, offering new insights into the range and depth of astrological knowledge within
Portuguese religious institutions.
A Igreja Católica desempenhou um papel determinante na disseminação do conhecimento em Portugal ao longo da Idade Moderna. A bibliotecas eclesiásticas eram parte essencial da vasta rede monástica e conventual, profundamente dedicadas à aquisição, preservação e circulação de livros. As suas coleções foram o resultado de um processo de seleção contínuo e diligente, que refletiu os gostos e interesses das congregações religiosas portuguesas ao longo de séculos. Entre as diversas matérias representadas nas suas coleções, encontrava-se a Astrologia—a disciplina que interpreta os movimentos dos céus em correlação com eventos terrestres. Na Europa, desde o início da Idade Média a prática e a influência da astrologia estendiam-se a todos os níveis da sociedade. A Astrologia estava bem estabelecida nas tradições filosóficas vigentes e tinha implicações no ensino da matemática, da filosofia natural e da medicina. Até o final da Idade Moderna, a astronomia e a astrologia eram complementares e correspondiam, respetivamente, às partes teórica e prática da mesma ciência. Astrólogos de corte, médicos, cosmógrafos, matemáticos e astrónomos praticaram e teorizaram sobre astrologia. Tal como a aconteceu com outras áreas do saber, a invenção da imprensa no início do século XV amplificou a circulação do conhecimento astrológico e expandiu os seus estudos através da difusão de novas publicações e novos autores. Ao mesmo tempo, a Astrologia sofreu vários ataques e críticas que contestaram abertamente a sua legitimidade enquanto disciplina científica, especialmente a partir de finais do século XV. Embora o debate sobre a legitimidade da disciplina perdurasse há vários séculos, foi a partir do século XVI que a Igreja Católica se posicionou firmemente na regulamentação das práticas astrológicas. O conjunto destas medidas estabelecidas—primeiramente pela integração da Regra IX no Índice de Livros Proibidos, e mais tarde pela emissão da Bula Papal, Coeli et terrae—determinaram os princípios básicos para a censura de publicações astrológicas, ao mesmo tempo que proibiam especificamente quaisquer previsões que desafiassem a doutrina católica e os princípios do livre-arbítrio. Estas ações dividiram a astrologia em duas categorias: a Astrologia Natural, permitida e associada às práticas preditivas da medicina, navegação e agricultura; e a Astrologia Supersticiosa, proibida, que abrangia o julgamento de natividades, eleições e interrogações. Em Portugal, o Santo Ofício tornou-se o organismo responsável pela implementação destas políticas, garantindo ainda a sua eficácia. No que diz respeito à circulação do conhecimento astrológico através de livros, tudo isto se traduziu num controlo rígido sobre o que era publicado ou lido, que se materializou de várias formas: através da censura e expurgação de livros; a atribuição de licenças de publicação e de leitura; inspeções regulares a navios, bibliotecas e livrarias; e a imposição de punições a transgressores. Inevitavelmente, essas diretrizes geraram incertezas que resultaram num esforço árduo, porém criativo, tanto para o astrólogo quanto para o censor. Apesar do ambiente restritivo e potencialmente perigoso, sabemos que a Astrologia continuou a ser praticada e ensinada ao longo dos séculos XVI e XVII. Este período, testemunhou um ressurgimento notável de textos astrológicos antigos, o florescimento de novas obras, mas também a disseminação de conhecimento astrológico num formato mais popular. Em Portugal, a prática da astrologia permaneceu vibrante, como exemplificado pelo caso de ensino de astrologia no Colégio de Santo Antão em Lisboa, pertencente à Companhia de Jesus. Tanto quanto sabemos, este parecia ser um caso singular de ensino astrológico numa instituição científica religiosa em Portugal, e que nos levava a questionar se o interesse pela astrologia seria um interesse exclusivo desta ordem religiosa. Porém, a abundância de livros de astronomia e astrologia provenientes de bibliotecas eclesiásticas nas coleções da Biblioteca Nacional de Portugal é um indicativo claro de ecletismo científico das ordens religiosas portuguesas. A presente dissertação apresenta um estudo sobre os livros de astrologia que integraram as coleções das bibliotecas eclesiásticas em Portugal, desde a sua fundação até à dissolução das ordens religiosas em 1834. No cerne deste estudo está a análise de catálogos e inventários, bem como o cruzamento de informações de volumes encontrados em coleções modernas que remontam às antigas bibliotecas. Considerando a relação entre a Igreja Católica e a astrologia, a presença generalizada de conteúdo astrológico num contexto religioso pode parecer surpreendente. Contudo, apesar das restrições e atitudes proibitivas em torno da disciplina, os livros de astrologia encontraram um lugar nas bibliotecas das congregações portuguesas. O primeiro capítulo apresenta uma discussão sobre a relação complexa entre a Igreja Católica e a astrologia. O segundo capítulo explora as dinâmicas organizacionais das bibliotecas religiosas, examinando a forma como estas instituições adquiriam, preservavam e geriam as suas coleções. Seguidamente, são discutidas as características e limitações das fontes primárias de catálogos e inventários das bibliotecas religiosas portuguesas. Por fim, analisa-se o lugar da astrologia nestes documentos, olhando para o modo como as obras foram documentadas e avaliando a conformidade destes registos com os regulamentos e restrições associadas à disciplina neste período. No terceiro e último capítulo, apresentam-se os resultados principais da nossa investigação. É avaliada a distribuição dos livros de astrologia pelas várias bibliotecas religiosas, e caracterizada a extensão e a profundidade do conhecimento nelas preservado. As duas últimas seções deste capítulo desafiam a ideia de que essas coleções eram meramente acumulações passivas de livros, destacando uma análise comparativa das datas de publicação dos livros de astrologia, que sugere um esforço contínuo na aquisição de obras astrológicas, em alguns casos, ao longo de dois séculos. Por fim, através da inspeção de cópias pertencentes às antigas bibliotecas, é nos possível observar evidências não só do uso efetivo desses textos, mas também de um esforço deliberado para expurgar livros de astrologia, adaptando-os às regras inquisitoriais e, assim, tornando-os lícitos. Desta investigação resulta a identificação de 687 obras astrológicas e astronómicas, pertencentes a 41 bibliotecas de 16 ordens religiosas. O estudo destas obras abre caminho para uma compreensão mais aprofundada sobre o papel essencial destas instituições na preservação e transmissão do conhecimento astrológico em Portugal. Surpreendentemente, apesar de promoverem o ensino da astrologia, os catálogos estudados das bibliotecas da Companhia de Jesus descrevem um número menor de obras em comparação com as fontes das bibliotecas de outras congregações. Entre as instituições dos Franciscanos, Agostinhos e Teatinos, possuidores do maior número de livros de astrologia, destacavamse pela amplitude das suas coleções astrológicas, a Biblioteca da Casa de Nossa Senhora da Divina Providência (Teatinos) e a Biblioteca do Convento de Nossa Senhora da Graça, em Lisboa (Agostinhos). Um olhar mais aprofundado sobre estas coleções revela uma diversidade de obras produzidas por figuras ilustres da astrologia e da astronomia. Entre os mais populares encontram-se autores de “reportórios”, como André de Avelar, Jerónimo Chaves e Jerónimo Cortez; autoridades clássicas, como Ptolomeu e Firmico Materno; estudiosos árabes, como Alcabitius e Haly Abenragel; figuras medievais, como Alberto Magno e Guido Bonatti; assim como autores da Idade Moderna, como Magini, Rantzau, Argoli e Morin. Identificada em nove bibliotecas do país, Summa Astrologica (1632), o influente manual de previsão meteorológica de António de Najera, destaca-se como a obra mais difundida nas bibliotecas religiosas portuguesas. O conjunto de evidências estudadas indicam que a astrologia ocupava um lugar significativo entre os interesses científicos das ordens religiosas. A ampla circulação de obras mais acessíveis, como os almanaques, e de tratados astrológicos mais sofisticados, reflete o envolvimento das comunidades religiosas tanto com os aspetos práticos como com os mais avançados da disciplina. Mais ainda, o empenho das congregações religiosas portuguesas em preservar obras complexas de astrologia, juntamente com diversos exemplares de efemérides ao longo do tempo, sugere um possível envolvimento destas instituições na prática astrológica num contexto religioso. Espera-se com esta investigação, contribuir para uma melhor compreensão da circulação do conhecimento astrológico e das suas práticas de leitura, no contexto das instituições religiosas da sociedade Portuguesa da Idade Moderna.
A Igreja Católica desempenhou um papel determinante na disseminação do conhecimento em Portugal ao longo da Idade Moderna. A bibliotecas eclesiásticas eram parte essencial da vasta rede monástica e conventual, profundamente dedicadas à aquisição, preservação e circulação de livros. As suas coleções foram o resultado de um processo de seleção contínuo e diligente, que refletiu os gostos e interesses das congregações religiosas portuguesas ao longo de séculos. Entre as diversas matérias representadas nas suas coleções, encontrava-se a Astrologia—a disciplina que interpreta os movimentos dos céus em correlação com eventos terrestres. Na Europa, desde o início da Idade Média a prática e a influência da astrologia estendiam-se a todos os níveis da sociedade. A Astrologia estava bem estabelecida nas tradições filosóficas vigentes e tinha implicações no ensino da matemática, da filosofia natural e da medicina. Até o final da Idade Moderna, a astronomia e a astrologia eram complementares e correspondiam, respetivamente, às partes teórica e prática da mesma ciência. Astrólogos de corte, médicos, cosmógrafos, matemáticos e astrónomos praticaram e teorizaram sobre astrologia. Tal como a aconteceu com outras áreas do saber, a invenção da imprensa no início do século XV amplificou a circulação do conhecimento astrológico e expandiu os seus estudos através da difusão de novas publicações e novos autores. Ao mesmo tempo, a Astrologia sofreu vários ataques e críticas que contestaram abertamente a sua legitimidade enquanto disciplina científica, especialmente a partir de finais do século XV. Embora o debate sobre a legitimidade da disciplina perdurasse há vários séculos, foi a partir do século XVI que a Igreja Católica se posicionou firmemente na regulamentação das práticas astrológicas. O conjunto destas medidas estabelecidas—primeiramente pela integração da Regra IX no Índice de Livros Proibidos, e mais tarde pela emissão da Bula Papal, Coeli et terrae—determinaram os princípios básicos para a censura de publicações astrológicas, ao mesmo tempo que proibiam especificamente quaisquer previsões que desafiassem a doutrina católica e os princípios do livre-arbítrio. Estas ações dividiram a astrologia em duas categorias: a Astrologia Natural, permitida e associada às práticas preditivas da medicina, navegação e agricultura; e a Astrologia Supersticiosa, proibida, que abrangia o julgamento de natividades, eleições e interrogações. Em Portugal, o Santo Ofício tornou-se o organismo responsável pela implementação destas políticas, garantindo ainda a sua eficácia. No que diz respeito à circulação do conhecimento astrológico através de livros, tudo isto se traduziu num controlo rígido sobre o que era publicado ou lido, que se materializou de várias formas: através da censura e expurgação de livros; a atribuição de licenças de publicação e de leitura; inspeções regulares a navios, bibliotecas e livrarias; e a imposição de punições a transgressores. Inevitavelmente, essas diretrizes geraram incertezas que resultaram num esforço árduo, porém criativo, tanto para o astrólogo quanto para o censor. Apesar do ambiente restritivo e potencialmente perigoso, sabemos que a Astrologia continuou a ser praticada e ensinada ao longo dos séculos XVI e XVII. Este período, testemunhou um ressurgimento notável de textos astrológicos antigos, o florescimento de novas obras, mas também a disseminação de conhecimento astrológico num formato mais popular. Em Portugal, a prática da astrologia permaneceu vibrante, como exemplificado pelo caso de ensino de astrologia no Colégio de Santo Antão em Lisboa, pertencente à Companhia de Jesus. Tanto quanto sabemos, este parecia ser um caso singular de ensino astrológico numa instituição científica religiosa em Portugal, e que nos levava a questionar se o interesse pela astrologia seria um interesse exclusivo desta ordem religiosa. Porém, a abundância de livros de astronomia e astrologia provenientes de bibliotecas eclesiásticas nas coleções da Biblioteca Nacional de Portugal é um indicativo claro de ecletismo científico das ordens religiosas portuguesas. A presente dissertação apresenta um estudo sobre os livros de astrologia que integraram as coleções das bibliotecas eclesiásticas em Portugal, desde a sua fundação até à dissolução das ordens religiosas em 1834. No cerne deste estudo está a análise de catálogos e inventários, bem como o cruzamento de informações de volumes encontrados em coleções modernas que remontam às antigas bibliotecas. Considerando a relação entre a Igreja Católica e a astrologia, a presença generalizada de conteúdo astrológico num contexto religioso pode parecer surpreendente. Contudo, apesar das restrições e atitudes proibitivas em torno da disciplina, os livros de astrologia encontraram um lugar nas bibliotecas das congregações portuguesas. O primeiro capítulo apresenta uma discussão sobre a relação complexa entre a Igreja Católica e a astrologia. O segundo capítulo explora as dinâmicas organizacionais das bibliotecas religiosas, examinando a forma como estas instituições adquiriam, preservavam e geriam as suas coleções. Seguidamente, são discutidas as características e limitações das fontes primárias de catálogos e inventários das bibliotecas religiosas portuguesas. Por fim, analisa-se o lugar da astrologia nestes documentos, olhando para o modo como as obras foram documentadas e avaliando a conformidade destes registos com os regulamentos e restrições associadas à disciplina neste período. No terceiro e último capítulo, apresentam-se os resultados principais da nossa investigação. É avaliada a distribuição dos livros de astrologia pelas várias bibliotecas religiosas, e caracterizada a extensão e a profundidade do conhecimento nelas preservado. As duas últimas seções deste capítulo desafiam a ideia de que essas coleções eram meramente acumulações passivas de livros, destacando uma análise comparativa das datas de publicação dos livros de astrologia, que sugere um esforço contínuo na aquisição de obras astrológicas, em alguns casos, ao longo de dois séculos. Por fim, através da inspeção de cópias pertencentes às antigas bibliotecas, é nos possível observar evidências não só do uso efetivo desses textos, mas também de um esforço deliberado para expurgar livros de astrologia, adaptando-os às regras inquisitoriais e, assim, tornando-os lícitos. Desta investigação resulta a identificação de 687 obras astrológicas e astronómicas, pertencentes a 41 bibliotecas de 16 ordens religiosas. O estudo destas obras abre caminho para uma compreensão mais aprofundada sobre o papel essencial destas instituições na preservação e transmissão do conhecimento astrológico em Portugal. Surpreendentemente, apesar de promoverem o ensino da astrologia, os catálogos estudados das bibliotecas da Companhia de Jesus descrevem um número menor de obras em comparação com as fontes das bibliotecas de outras congregações. Entre as instituições dos Franciscanos, Agostinhos e Teatinos, possuidores do maior número de livros de astrologia, destacavamse pela amplitude das suas coleções astrológicas, a Biblioteca da Casa de Nossa Senhora da Divina Providência (Teatinos) e a Biblioteca do Convento de Nossa Senhora da Graça, em Lisboa (Agostinhos). Um olhar mais aprofundado sobre estas coleções revela uma diversidade de obras produzidas por figuras ilustres da astrologia e da astronomia. Entre os mais populares encontram-se autores de “reportórios”, como André de Avelar, Jerónimo Chaves e Jerónimo Cortez; autoridades clássicas, como Ptolomeu e Firmico Materno; estudiosos árabes, como Alcabitius e Haly Abenragel; figuras medievais, como Alberto Magno e Guido Bonatti; assim como autores da Idade Moderna, como Magini, Rantzau, Argoli e Morin. Identificada em nove bibliotecas do país, Summa Astrologica (1632), o influente manual de previsão meteorológica de António de Najera, destaca-se como a obra mais difundida nas bibliotecas religiosas portuguesas. O conjunto de evidências estudadas indicam que a astrologia ocupava um lugar significativo entre os interesses científicos das ordens religiosas. A ampla circulação de obras mais acessíveis, como os almanaques, e de tratados astrológicos mais sofisticados, reflete o envolvimento das comunidades religiosas tanto com os aspetos práticos como com os mais avançados da disciplina. Mais ainda, o empenho das congregações religiosas portuguesas em preservar obras complexas de astrologia, juntamente com diversos exemplares de efemérides ao longo do tempo, sugere um possível envolvimento destas instituições na prática astrológica num contexto religioso. Espera-se com esta investigação, contribuir para uma melhor compreensão da circulação do conhecimento astrológico e das suas práticas de leitura, no contexto das instituições religiosas da sociedade Portuguesa da Idade Moderna.
Descrição
Tese de mestrado, História e Filosofia das Ciências, 2025, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências
Palavras-chave
astrologia textos astrológicos ordens religiosas bibliotecas livros científicos Teses de mestrado - 2025
