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Projeto de investigação
Responsabilidade ambiental etecnológica. O contibuto da ética das virtudes.
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A medida e as coisas. Virtudes, responsabilidade e tecnologia
Publication . Carvalho, Tiago Mesquita; Jerónimo, Helena Mateus; Silva, Jorge Marques da
Esta dissertação provê um quadro conceptual tributário da ética das virtudes que permita pensar uma fundamentação consentânea do agir vis-à-vis a tecnologia. A nossa pesquisa parte não só da constatação de que a multiplicidade e o ritmo da inovação tecnológica apresentam já questões suficientes para considerações éticas, mas de que tais mudanças anunciam um desafio para o próprio exercício reflexivo da ética, próprio à corrente crise epocal de origem antrópica. A tese compõe-se de cinco partes.
Na primeira parte apresentam-se os principais conceitos da ética aristotélica. Veremos como é concebido o progresso moral individual através do concurso das virtudes e de uma concepção teleológica da natureza humana. A distinção entre as virtudes dianoéticas da theoria, da techne e da phronesis é estabelecida no seu papel para providenciar o progresso moral. Estes conceitos são por sua vez criticamente recuperados e alargados por Alasdair MacIntyre para a contemporaneidade através da compreensão apologética da superioridade da ética aristotélica. Para este autor, não obstante condicionalismos vários que toldam o agir, a agência moral conserva aí ainda uma racionalidade prática concebida como tributária das raízes biológicas da espécie humana, da sua exposição à fragilidade e fortuna e de uma teleologia secundada a um bem socialmente definido.
A segunda parte decorre da insuficiência dos conceitos apresentados anteriormente para aferir a tecnologia nos seus próprios termos. As ausências conceptuais são várias: 1) desconsideração da tecnologia na forma como a mesma altera os fins da acção na praxis; 2) estruturação da natureza humana e do progresso moral pela própria técnica e pela exterioridade mais larga da natureza. Estes elementos deverão por sua vez ser complementados ainda pela noção de que o processo histórico da Modernidade correspondeu largamente à erosão do quadro aristotélico. Em termos breves, esse processo consistiu na aliança profícua entre a theoria e a techne para prover a humanidade de utilidades e de conveniência através do progresso científico e tecnológico; na ruína da teleologia presente na natureza e no progresso moral; na elisão da capacidade da phronesis para determinar o bem derradeiro; e na equiparação das leis que regem a dinâmica da sociedade à dinâmica da natureza, no pressuposto da exequibilidade de uma optimização.
Tal como Alasdair MacIntyre critica a Modernidade por esta ter falhado na sua tentativa de fundar a moralidade, percorreremos também o significado maior da separação entre factos e valores e o pressuposto de que o conhecimento científico, através da técnica, é suficiente para o progresso moral, noção que constitui a trave-mestra de vastas utopias modernas. Entre outros autores, o papel central desta segunda parte caberá a Hans Jonas devido à forma como não só complementa as referidas ausências conceptuais acerca da natureza humana, mas sobretudo como problematiza o posicionamento essencialmente pré-moderno da ética relativamente à técnica. É através do exame da obra deste autor que poderemos aceder a uma proposta crítica que tem em conta as consequências da própria tecnologia para a reflexividade ética e de um argumentário que ecoa a diferença entre a techne e a phronesis acerca da diferença entre progresso científico e tecnológico e progresso moral.
Na sua dinâmica formal, a técnica moderna caracteriza-se pela sua magnitude, escala eirreversibilidade dos seus efeitos. Estas características levam ao estabelecimento de um hiato epistemológico entre o poder de fazer e o poder de prever relativo a esse fazer, isto é, a uma dissociação entre a agência moral e as consequências da sua acção. Esta condição, designada por tecno-opacidade, é remediada por Hans Jonas através da heurística do medo, pela qual a imaginação moral tenta estabelecer cenários futuros realistas que acautelem a imprevisibilidade da acção tecnológica.
A terceira e a quarta partes desta tese lançam-nos directamente no debate contemporâneo em filosofia da tecnologia. Serão aqui estabelecidos os limites à descrição abrangente da dinâmica formal da tecnologia como um todo autónomo a cujas leis do movimento a humanidade está necessariamente subjugada. É através da análise do conteúdo substancial da tecnologias, i.e., como tecnologias concretas se instanciam em relações com os agentes, que se pode entender como são a percepção e a acção modificadas e como é que a agência moral pode ainda cumprir-se segundo a orientação da vida boa.
No seu todo, a terceira parte respeita assim ao confronto de autores cuja herança comum remonta à obra de Heidegger. Através da estrutura de revelação-ocultação da tecnologia comum a Don Ihde, a Albert Borgmann e à teoria da mediação, revisitaremos conceitos avançados por Hans Jonas, precisando como é a agência moral condicionada pela materialidade e, ao contrário de Bruno Latour, qual é nesse âmbito a diferença fundamental entre responsabilidade moral e responsabilidade causal. Através de uma leitura aristotélica da obra de Albert Borgmann, observaremos como o seu paradigma do dispositivo e a noção de coisas e práticas focais permitem vencer o hiato epistemológico e são em certa medida uma recuperação relativa à tecnologia segundo critérios objectivos do florescimento da natureza humana.
A quarta parte dá essencialmente conta da obra de Ivan Illich. A originalidade deste autor prende-se com a sua análise de vários sectores e instituições da sociedade industrial serem contraprodutivos, isto é, minarem a prossecução dos objectivos para os quais foram desenhados. Illich interpreta a industrialização como um capítulo actual da história da religião. A eclesiologia da sociedade industrial pretere a busca do bem interno às práticas vernaculares pela distribuição ecuménica de serviços e mercadorias eivadas de escassez. A alternativa de cunho aristotélico para Illich é o cultivo de práticas ascéticas através das quais tecnologias conviviais podem participar do florescimento humano dando conta da finitude da natureza humana e do seu enraizamento social, material e natural.
Na última parte pretende-se concretizar o quadro de recursos conceptuais desenvolvidos num estudo de caso. Ao longo de dois capítulos, examinaremos a possibilidade de estabelecer práticas para uma ética alimentar no contexto de um sistema alimentar industrial em que a tecnologia está amplamente presente. O acto alimentar será aquele que, tendo em conta o hiato epistemológico que atravessa os produtos alimentares, é precedido de uma deliberação segundo a concepção de um bem que actualize a natureza humana nas suas componentes material, social e ambiental.
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Fundação para a Ciência e a Tecnologia
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Número da atribuição
PD/BD/105809/2014
