Cid, Teresa, 1949-Holland, Norman N., 1927-Beecher Martins, Cecilia2013-03-202013-03-202012http://hdl.handle.net/10451/8015Tese de doutoramento, Estudos de Literatura e de Cultura (Estudos Americanos), Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2012Este estudo propõe questionar se o facto de visionar filmes que relatam histórias simples com finais felizes e positivos pode ajudar a reduzir, a curto prazo, os níveis de ansiedade dos espectadores. Lança também a pergunta se uma reflexão sobre estas ligações íntimas criadas entre espectador e filme pode aumentar “estratégias de coping”1, tanto em termos imediatos, como a longo prazo. Para efeitos da presente tese, histórias simples são definidas como narrativas que podem ser facilmente assimiladas pelos espectadores, mas que, associadas a reflexão, podem pôr em causa o saber convencional e potencialmente, levar a mudanças de atitude. O termo também foi estendido a textos escritos por espectadores voluntários, ao explicarem a sua ligação com este tipo de filmes. Normalmente, estes últimos seguem um formato de narrativa direta, mesmo quando tratam de questões complexas. O quadro concetual deste projeto apoia-se em teorias académicas e investigações com aplicação prática, realizadas em diferentes áreas, incluindo reflexões tiradas da crítica literária psicanalítica, tal como as apresentadas por Norman Holland em Meeting Movies (2006), e Holland e Schwartz em Know Thyself: The Delphi Seminars (2008). Por outro lado, o projecto apoia-se em investigações científicas na área da neurobiologia, como as apresentadas por António Damásio em Descartes Error (1994), The Feeling of What Happens (2000) e Looking for Spinoza (2003), e em teorias da neuro-endocrinologia defendidas por Robert Sapolsky em Why Zebras Don’t Get Ulcers (1994). Foram também tidos em consideração, estudos realizados no domínio das ciências cognitivas, especialmente os apresentados por Aaron Beck et al. em Cognitive Therapy of Depression (1979) e Richard Gerrig in Experiencing Narrative Worlds (1998). As propostas de Martin Heidegger sobre a ansiedade, apresentadas em Being and Time (1926), serviram também de base concetual. Por um lado, este trabalho de investigação científica contribuiu para a minha compreensão de como e porquê os leitores e espectadores tentam criar ligações fortes e pessoais com narrativas ficcionais, por outro lado, estudei experiências já feitas com programas literários, e métodos de análise. Por exemplo, programas como “Changing Lives Through Literature” de Robert Waxler de University of Massachusetts, Dartmouth USA e “Social Marketing” de Jay Winston de Harvard School of Public Health, e críticas cinematográficas de índole psicanalítica baseadas na associação livre “free associative film criticism”. Este lado mais prático da investigação teve como finalidade o desenvolvimento de métodos simples e práticos para trabalhar com filmes, mantendo o prazer da experiência de ver um filme, mas procurando ao mesmo tempo melhorar os efeitos potenciais do contacto entre filme e espectador. O estudo procurou desenvolver processos que podem ser repetidos, cujos resultados fossem quantificáveis, com o objectivo de produzir dados concretos sobre o impacto do um dado filme na vida do espectador. A pesquisa prática encontra-se dividida em três seções. A primeira envolveu a exibição de filmes com voluntários individuais. Foi ensinado a estes voluntários como fazer crítica cinematográfica psicanalítica com filmes que eles próprios tinham escolhido. Entre os filmes analisados nesta secção incluem-se Elizabethtown, (2005) de Cameron Crowe, Pay It Forward (2000) de Mini Leder, e Dirty Dancing (1987) de Emile Ardolino. Foram adaptados os métodos de crítica cinematográfica e literária apresentados em Meeting Movies (2006) e Know Thyself (2008), com o objetivo de determinar se estes métodos podem permitir aos espectadores adquirir uma aceitação e uma compreensão mais profunda do seu “tema único de identidade”, tal como definido por Heinz Lichtenstein em "Identity and Sexuality: A Study of their Interrelationship in Man" (1961). Nos casos analisados, este tipo de crítica cinematográfica gerou, nos voluntários, maior consciencialização e aceitação de si mesmo. Em alguns casos, este momento funcionou como reafirmação da escolha do estilo de vida, já adotado, por vezes, pelos voluntários, mas não muito usual no seu contexto social e, com tal, uma fonte de um certo nível de ansiedade. Neste caso, a análise funcionou como reafirmação e confirmação. A mesma análise permitiu a outros voluntários reconhecer padrões de hábitos destrutivos e corrigi-los. Neste contexto, posso dizer que os resultados foram notáveis. Na segunda secção abordaram-se sessões cinematográficas em grupo. Os voluntários visionaram filmes de histórias simples, entre outras Elizabethtown (2005), de Cameron Crowe e Chocolate (2000) de Lasse Hallstrom. Estas sessões foram acompanhadas pela utilização de ferramentas práticas, tais como questionários psicométricos e questionários mais longos de “resposta-aberta” e “auto-avaliação”. Os questionários psicométricos foram usados para avaliar quantitativamente se e como este tipo de filmes pode influenciar os níveis de ansiedade. Os modelos utilizados foram ‘Inventário de Estado-Traço de Ansiedade’ (STAI), porque estes questionários são proporcionados para distinguir entre “ansiedade de estado” e “ansiedade de traço”. Estes modelos têm sido utilizados para medir reacções a eventos de curta duração e para analisar mudanças nos níveis de ansiedade provocada durante a observação de eventos fictícios filmados. São também regularmente usados em ambientes educacionais. Os resultados destes testes mostraram que, em geral, os níveis de ansiedade de estado diminuíram muito significativamente com a perspectiva de assistir a um filme, e que, geralmente, o nível manteve-se durante a visualização, quando um filme como Elizabethtown ou Chocolate foi visto. Um grupo de voluntários assistiu a diferentes tipos de filmes – Elizabethtown (2005), de Cameron Crowe e Good (2008) de Vicente Amorim – com o objectivo de perceber se o tipo de filme visto influencia as alterações nos níveis de ansiedade. Neste ensaio, seguiram-se grandes diferenças relacionadas com o tipo de filme exibido, pois enquanto os níveis de “ansiedade de estado” continuaram a diminuir durante a exibição de Elizabethtown, durante a exibição de Good aumentaram. Os questionários mais longos de “auto-avaliação” e “resposta-aberta” foram utilizados para obter informações sobre eventuais alterações na maneira de ver e lidar com situações concretas. Os resultados mostraram que, em certas circunstâncias, o envolvimento com este tipo de histórias de ficção provoca alterações profundas na própria atitude perante as dificuldades. Na terceira secção, como consequência da forma como o trabalho progredia, foram utlizados todos os métodos acima mencionados para a construção de técnicas mais direcionadas. Procurou-se usar a interação entre os filmes que contam histórias simples e os espectadores, com o objetivo de ajudar os voluntários a lidar com níveis de “ansiedade de estado” e/ou “traço” e encorajá-los a construir novas “estratégias de coping”. Todos os ensaios foram acompanhados de uma explicação e discussão sobre o processamento que o corpo faz dos objetos externos, tal como apresentado por António Damásio, sobre o desenvolvimento e processamento da ansiedade como conceito presente em Being and Time (1926) de Martin Heiddeger e a noção de que qualquer um pode aspirar à felicidade, desde que tenha consciência do seu tema único da identidade, ou forma única de estar no mundo, aceite isso e o considere na tomada de decisões importantes da vida. Na terceira secção, as discussões foram mais longas e profundas. Tornou-se também evidente que ver um filme no contexto cérebro-corpo-mente é essencial para criar um quadro teórico elucidativo. Apesar da variedade das técnicas aplicadas, tornou-se evidente que a experiência de ver e interagir com um filme pode ser poderosa e positiva. Tendo em conta que o visionamento dos filmes, quer em ensaios individuais, quer em ensaios de grupo, foi sempre acompanhado da discussão dos temas acima mencionados, a experência de ver um filme nos ensaios teve como resultado a redução dos níveis de “ansiedade de traço” e de “estado”, que, por si só, ofereceu algumas vantagens aos voluntários. Este contacto encorajou também alguns a desenvolver novas “estratégias de coping” para situações particulares das suas vidas. Os voluntários recorrendo à “crítica livre associativa de filmes” alcançaram, em geral, uma maior consciência e aceitação de si mesmos, o que baixou os seus níveis de ansiedade de “estado” e de “traço”, aumentando a capacidade de produção de estratégias para enfrentar situações difíceis. Pode assim afirmar-se que os resultados globais foram tanto concretos quanto encorajadores.This study proposes to question if watching films, telling simple stories with positive outcomes can help reduce anxiety levels in the short term. It also queries if reflecting on individual connections between viewer and movie can increase coping strategies both immediately and in the longer term. For the purpose of this thesis simple stories are defined as narratives that can be easily assimilated by viewers, but that, on reflection, can confront conventional wisdom and potentially lead to changes in attitude. The term is also extended to include the texts written by volunteers as they tried to explain strong connections with movies, since these normally followed a direct narrative format even when dealing with complex issues. The conceptual framework of this project is supported by academic theory and practical research carried out in many different areas, including reflections taken from psychoanalytical literary criticism as presented by Norman Holland in Meeting Movies (2006), and Holland and Schwartz in Know Thyself: The Delphi Seminars (2008), as well as scientific research in the areas of neurobiology as presented by Antonio Damasio in Descartes Error (1994), The Feeling of What Happens (2000), and Looking for Spinoza (2003), and neuroendochronolgy as defended by Robert Sapolsky in Why Zebras Don’t Get Ulcers (1994). It also draws from studies carried out in cognitive sciences, especially those presented by Aaron Beck et al. in Cognitive Therapy of Depression (1979) and Richard Gerrig in Experiencing Narrative Worlds (1998), as well as, from Martin Heidegger's proposals on anxiety presented in Being and Time (1926). While the aforementioned contributed towards the comprehension of why and how readers and viewers connect with fictional narratives, the study also reviewed literary programs as well as analysis methods to develop practical and reproducible methods of working with movies that would maintain the enjoyment of the experience, while enhancing their potential effects on the viewer. Practical trials were devised to investigate these questions. The work itself is divided into two parts, the development of a theoretical framework and practical trials divided into three sections. The first practical section involves individual film screenings where singular volunteers performed free associative film criticism to movies they had chosen for free associatively analysis following methods adapted from Meeting Movies (2006) and Know Thyself (2008). The purpose was to determine if this method could permit viewers to acquire a deeper understanding and acceptance of their unique identity theme as defined by Heinz Lichtenstein in “Identity and Sexuality — A Study of their Interrelationship in Man” (1961). The second involves group screenings of films telling simple stories, mainly Cameron Crowe’s Elizabethtown (2005) and Lasse Hallstrom’s Chocolate (2000). Practical tools such as psychometric scales were used in these screenings to evaluate quantitatively if and how watching this type of movie influences state anxiety levels. Open-answer, self-reporting questionnaires were also employed to gain insight as to whether involvement with this type of fictional story can provide alternative ways of looking at difficult living situations. One group screening involved volunteers watching different types of movies – Cameron Crowe’s Elizabethtown (2005) and Vicente Amorim’s Good (2008) – to understand if the type of movie viewed influenced alterations in anxiety levels. In the third section as a consequence of the way the work progressed, all the methods mentioned above were employed to construct more directed techniques. The aim was to use the interaction between films telling simple stories and viewers to help volunteers deal with high state or trait anxiety levels and to encourage them to construct new coping strategies. Despite the variety of techniques employed, as the project reached its closing stages, it became increasing evident that the movie watching experience can be powerful and positive. On occasions, the specific movie viewing experience offered to volunteers on the trials resulted not only in reductions in state and trait anxiety levels; it offered some volunteers a means of dealing with these consciously. It also encouraged some to develop new coping strategies for particular situations in their lives. Volunteers using free associative film criticism generally achieved an increased awareness and acceptance of self, which in itself led to reduced anxiety levels as well as a capacity to produce new coping strategies. Examining the outcomes of the practical trials against the concept of a body-minded brain was essential to create a theoretical framework that could elucidate the results obtained. The overall answers to the research questions were both concrete and encouraging.porPsicanálise e cinemaCrítica cinematográficaAnsiedadeAjustamento (Psicologia)Identificação (Psicologia)Teses de doutoramento - 2012Simple stories:alternative paradigms offered by cinema and (literature)doctoral thesis