Sousa Dias, AntónioGourbeix, JulienConvert, Mona2020-03-252020-03-252020-03-05http://hdl.handle.net/10451/42613Entre os rios : para um analfabetismo poético propõe-se, seguindo Ahmed Bouanani e José Bergamín, estudar uma constelação de formas analfabetas, nomeadamente poéticas e cinematográficas; tentar entender quais são as ligações intrínsecas entre poesia e analfabetismo, e como se manifestam formalmente; procurar dar a ver e a pensar as relações entre culturas populares e vernaculares, as culturas resistentes e as formas analfabetas, e por fim, reflectir, pela via da análise de sequências e de filmes, sobre o que podia ser um cinema analfabeto e quais seriam as suas problemáticas semânticas e políticas. Encontraremos neste ensaio, o estudo de poetas e cineastas como: Ahmed Bouanani, Paul Celan, Guerasim Luca, Peter Kubelka, Pier Paolo Pasolini, Jean-Luc Godard, John Cassavetes, Chris Marker, e Sergueï Paradjanov; reunidos de modo subjetivo e não-linear de forma a criar um corpus heterogéneo de formas que apelidaremos analfabetas. O que entendemos por formas analfabetas? É esta a questão central, que este ensaio coloca, usando como ponto de partida a ideia, para retomar as palavras de José Bergamín, que “O analfabetismo é a definição poética de todo o estado realmente espiritual”. Talvez se trate de falar dos analfabetismos plurais, múltiplos, que atravessam os nossos tempos e as nossas fronteiras, mais do que tentar encontrar uma definição unilateral. Assim, na primeira parte deste ensaio, estudaremos o conceito de alfabeto e analfabeto, e as diversas problemáticas que lhe são intrínsecas, nomeadamente seguindo o ponto de vista de José Bergamín (Decadência do analfabetismo, 1980) e Ahmed Bouanani (O analfabeto: história, 1967). Estes autores desenvolveram esteconceito em situações muito diferentes: um em Espanha no início dos anos 80, ancorando-se fortemente na cultura andaluz, e o segundo em Marrocos no fim dos anos 60, num país fragmentado linguisticamente depois da colonização. Veremos que, desde o seu nascimento, o conceito de analfabetismo tem problemáticas muito amplas, como: a resistência das culturas vernaculares, a defesa da pluralidade da sabedoria e das suas formas de transmissão, o dever da memória e da passagem desta memória para as gerações futuras. Se a palavra “analfabeto” é para Ahmed Bouanani e José Bergamín muito ligada com a língua oral e escrita, mesmo se a utilizam com uma conotação completamente diferente daquele presente nas definições de dicionário, tentaremos, desde logo, reflectir sobre como esta ideia e esta posição crítica contra um pensamento uniforme e centralizada, se podem deslocar, e como, para outros campos das artes, e nomeadamente o cinema. Antes de discutir sobre possíveis formas analfabéticas no cinema, tentaremos, numa segunda parte intitulada Poesia, desenvolver a nossa abordagem do analfabetismo através do estudo dos poetas. Iremos basear-nos nomeadamente no pensamento de Georges Didi-Huberman, que defende, através de José Bergamín, que “a poesia é, simplesmente, a mais impura: poesia analfabeta”, falando do bailarino de flamenco Israël Galvan. Veremos assim qual pode ser a ligação entre o analfabetismo e as culturas orais tais como: o flamenco em Espanha, ou, a poesia popular e dos contos de Marrocos, e estudaremos um dos poemas do Ahmed Bouanani, que deu luz a este ensaio, um tipo de conto poético contemporâneo, intitulado “O analfabeto: história”. Tentaremos, de seguida, abrir esta reflexão a outras formas escritas analfabetas, tais como os poemas e experimentações poéticas de Gherasim Luca e de Paul Celan, os dois possuindo uma certa estranheza da linguagem, na linguagem poética, muito ligada à matéria mesma da linguagem: através do silêncio, da desconstrução, e do uso do branco, no caso de Paul Celan, pelo uso de uma língua, que não é a sua língua materna, e pela oralidade nomeadamente no caso de Gherasim Luca, que se localiza na “no man’s langue”. Na terceira parte, Cinema, propomo-nos a pensar como o analfabetismo, que estudámos anteriormente nas suas formas escritas e orais, pode ser aplicado como ferramenta de reflexão das formas cinematográficas. Estudaremos nomeadamente Arnulf Rainer (1960), um filme do Peter Kubelka, que experimenta as questões rítmicas que igualmente marcaram o trabalho dos poetas. Através da manipulação de fotogramas pretos e brancos, veremos como o Kubelka desenvolve a ideia que “é entre os fotogramas que o cinema fala”. Para desenvolver esta analogia subjacente entre formas poéticas e formas cinematográficas, iremos basear-nos especificamente sobre o artigo de Pier Paolo Pasolini “Cinema de Poesia” (1965), defendendo um cinema da poesia e reflectindo sobre quais poderiam as características desse cinema, tal como o uso do discurso indireto livre e a presença sensível da câmara (câmara na mão, movimentos ou ritmos não habituais no cinema normativo ou cinema de prosa). Estudaremos também o filme de Pier Paolo Pasolini “La Rabbia” (1963), e o modo como utiliza a voz-off neste filme, recorrendo tanto à “voz da prosa” como à “voz da poesia”. Passaremos a seguir a “Adieu au langage” (2014), o filme de Jean-Luc Godard, para reflectir sobre o modo como utiliza a linguagem, a materialidade das imagens, a ausência de personagens, sobre as quais poderíamos desenvolver uma “projeção” no sentido psicanalítico do termo, e a presença animal, permitindo a Godard desconstruir as normas cinematográficas e dizer “adeus à linguagem” normativa. Por fim, iremos concentrar-nos sobre uma característica que consideramos estar profundamente ligada com o que podemos chamar “cinema da poesia” ou “cinema analfabeto”: o olhar-câmara. Seguindo o exemplo de Chris Marker, que declarava “Francamente, será que inventámos alguma coisa mais estúpida do que dizer às pessoas, como se ensina nas escolas de cinema, para não olhar para a câmara?” na voz-off de “Sans Soleil” (1983); reflectiremos ainda: através do estudo de “Opening Night” (John Cassavetes, 1977) sobre o ecrã de cinema enquanto fronteira poética ou simbólica; sobre a problemática da igualdade do olhar entre a pessoa que filma e a pessoa que é filmada, nomeadamente no documentário, levantando questões políticas e pós-coloniais, ainda partindo do estudo de “Sans Soleil”; através de “À bout de souffle” (Jean-Luc Godard, 1960), sobre o olhar-câmara como ferramenta de conscientização do dispositivo narrativo e técnico para o espectador; por fim, através de “Sayat Nova” (Sergueï Paradjanov, 1969) sobre a penetração na materialidade do mundo (ou imaginário material) que pode propôr o cinema da poesia, neste caso através do olhar dos atores que nos guiam no seu viagem e no seu universo. Desenvolveremos também algumas reflexões em torno da produção prática que acompanha esta pesquisa teórica, que toma forma no filme “entre os rios/bin el ouidane/entre les rivières”, uma viagem poética cruzando os territórios de Marrocos, de Portugal e da França, formando um outro território onde as fronteiras com altos muros em cimento se transformam em caminhos, cursos de água, cantos que atravessam corpos, línguas e memórias. A prática é aqui considerada fundamentalmente indissociável do estudo, do mesmo modo que a experiência é considerada fundamentalmente indissociável da teoria: os analfabetismos pensam-se desde logo a partir de uma viagem (de idas e de voltas) sensível e constante entre o que fazemos e o que já foi feito, e entre o que experimentamos e o que já foi experimentado.fraBouanani, AhmedBergamín, José, 1895-1983Didi-Huberman, Georges, 1953-Deleuze, Gilles, 1925-1995Debray, Régis, 1940-Rainer, Arnulf, 1929-Kubelka, Peter, 1934-Pasolini, Pier Paolo, 1922-1975Godard, Jean-Luc, 1930-AnalfabetismoPoesiaCinemaFronteirasEntre os Rios: pour un analphabetisme poétiquemaster thesis202453685