Pintassilgo, Joaquim, 1956-Paymal, François Jean-Marie Denis, 1964-2020-12-152020-12-152008http://hdl.handle.net/10451/45327Tese de mestrado, Educação (Formação Pessoal e Social), Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, 2008A imagem da Policia de Segurança Pública entre os cidadãos na sequência da Revolução dos cravos era francamente negativa, a força policial era vista como brutal, violenta e fonte de problemas. Liderada pelos militares da Academia Militar, a P.S.P, nessa altura, era o braço da «violência legítima» do antigo regime de Salazar que tinha perdurado mais de quarenta anos. Para melhorar esta imagem incompatível com uma democracia moderna, foi decidido autonomizar a PSP, dotando-a de uma organização própria. A criação Ex Nihilo da E.S.P (Escola Superior de Polícia) pretendeu ser uma resposta neste âmbito. Infelizmente, esta solução, apesar de uma legitimidade incontestável na dimensão histórica, pôs em causa a intervenção clássica de alguns "corpos instituídos", nomeadamente vários quadros militares, sedentos da sua carreira num pais descolonizado, pacificado e contra a guerra - vista como um grande sacrifício, após a guerra Colonial. Neste contexto, a E.S.P, na sua criação, ampliação e difusão encontrou grandes dificuldades, felizmente ultrapassadas pelo seu carismático fundador, Fernando de Almeida. Habilmente, a escola emancipou-se através de uma estratégia de edificação de identidade institucional. Assim, conseguiu adquirir prestígio em menos de vinte anos, através de influências culturais e do intercâmbio humano. Além de uma cultura militarizada temporizada pelo princípio de uma hierarquia flexível, a escola interiorizou o espírito do liceu português dos anos cinquenta - na continuidade do liceu modelo de Pedro Nunes - e também do meio universitário através de professores civis de prestigio convidados. Por outro lado, com o objectivo de impedir as oposições possíveis de outros "corps institués" prestigiados e ancorados numa tradição secular, a E.S.P consagrou o seu reconhecimento nos países estrangeiros com viagens de estudo: no Brasil, em Macau, em Itália, em Espanha, em França. Ou seja, com todos os seus colegas europeus ou lusófonos. Na última vertente desta estratégia, a escola cooperou com os países da zona P.A.L.O.P acolhendo e formando alunos africanos nas suas turmas. A Direcção, tendo percebido o efeito negativo do afastamento dos alunos da sociedade onde futuramente vão intervir, decidiu intensificar os projectos colectivos, caritativos e desportivos, no sentido de "modelar" os alunos cadetes em cidadãos exemplares, agindo entre os cidadãos. Mas esta afirmação de identidade institucional constituiria apenas uma promessa sem a presença de um projecto educativo, sólido e ambicioso, capaz de concretizar o arquétipo do oficial de polícia de excelência das democracias europeias modernas . Deste modo, a escola, enquanto empreendimento no ensino das Ciências Policiais, inspirou-se num ideal de uma formação universal, à semelhança do «Honnête Homme» da Renascença, forte de corpo e alma, humanista, cientifico, técnico e artista. O cursus pedagógico da E.S.P foi desde do início um sistema original, com uma vocação exaustiva cuja origem do sucesso é um equilibro indispensável, mas frágil. Entre os seus vários componentes, o sistema de formação integral organiza-se a volta do I.C.A.L (Instrução do Corpo de Alunos), torre de menagem do castelo, composto por eficazes e dedicados instrutores "da casa". O I.C.A.L tem como objectivo avaliar o aluno durante a sua permanência quer do ponto de vista atitudinal (o não fazer), como comportamental (fazer melhor). E isso durante toda a sua estadia de cinco anos no Instituto. Além disso, é também um curso universitário clássico, dirigido por um areópago de professores civis prestigiados, representantes humano s das cadeiras cruciais das Ciências ditas policiais. Direito Penal e Procedimento Penal, Direito Administrativo, Relações Publicas, Línguas, Português. A estas duas vertentes, junta-se a componente desportiva - Motricidade Humana, quer no aspecto teórico, quer aplicada em desportos de combate, atletismo e, ainda, na intenção de adquirir, além da performance desportiva, o sentido de equipa, coragem e perseverança. Por fim, a ultima vertente, consiste na acção no terreno, por um lado através dos estágios intercalares (anuais) e do estágio final, e, por outro, através da realização permanente de projectivos colectivos de cariz caritativo ou desportivos. Esta dupla pratica dá assim ao aluno o sentido da realização e coordenação de projectos, como também uma percepção de uma realidade múltipla do mundo policial e da sociedade portuguesa no seu conjunto. Este sistema de formação integral toma-se realmente efectivo na interacção de todos os seus factores pelo esforço permanente dos alunos cadetes. Esta formação pretende assegurar ao aluno cadete todas as qualidades necessárias para o melhor desempenho possível na profissão de oficial, sem os riscos de inadaptação ou de desfasamento na sua relação com o cidadão que ele deve proteger contra a confusão e o caos urbanos. Mas ainda, o conhecimento de uma identidade institucional forte bem como os maquinismos que compõem o seu sistema de formação integral, não chegam para a compreensão da construção identitária do aluno cadete. O que motiva a entrada no I.S.C.P.S.L? No seu consciente, tanto o gosto pelo risco e pela aventura, como o sentido do dever de perpetuar à profissão dos pais (mais de 40% do s admitido s são familiares da G.N.R. ou P.S.P.). No seu inconsciente - e foi a nossa grande surpresa! - para muitos, um desejo de "reparar" um sentimento de abandono afectivo e protector (morte, afastamento ou sacrifício dos pais). De um modo geral, o pré-adulto (entre os 19 e os 23 anos, aproximadamente) no sentido dado por Erikson, sofre uma inevitável crise identitária, por ele gerada, para afirmar a sua imagem identitária aos olhos dos outros e dele próprio. Esta fase crucial, vivida na admissão a uma escola, rica em símbolos e dimensões sacralizadas, acresce um forte sentimento de predestinação. Ao longo da estadia de cinco anos no instituto, o aluno vai viver e interiorizar três etapas principais. Primeira etapa, vive o choque da hierarquia, da obediência e da submissão ao enquadramento espácio-temporal e renuncia à sua antiga vida (épicuriana?) de adolescente do ensino secundário. Segunda etapa, age no sentido de adquirir o sentido de virtude, de ética, numa acepção modema; o aluno toma-se num "marathon man" de corpo e alma, aprendiz de uma vida comunitária permanente, comprometido na acção, na competição e no sentido de cumprir um projecto colectivo. Por último, na terceira etapa deste rally identitário, o aluno inicia-se na vida policial, intervindo no terreno através de um ano de estágios em situações variadas: o aspirante deseja a ser como um profissional aguerrido e quer manter-se o mais operacional possível. O aluno oficial, nesta tripla dimensão, organiza a sua vida prioritariamente à volta da missão de oficial e, se concebe um a vida familiar, esta fica confinada e controlada de modo a não interfir no Projecto da sua vida: a defesa dos Direitos do Homem e da tranquilidade do cidadão. O I.S.C.P.S.I. implementou um paradoxo raro: viver e controlar um microcosmo fechado e protegido, abrindo-se decididamente à sociedade. Num movimento de vai e vem, de fluxo e refluxo, os docentes civis, conferencistas, juízes e técnicos de organismo s públicos nacionais e internacionais, membros de associações: todos entram e intervêm no instituto, honrados por partilharem com os jovens recrutas os seus conhecimentos e experiências. Como refluxo, a escola envia os seus alunos transformados em agentes mandatários , comprometidos com projectos de cariz caritativo e desportivo, com afirmada abnegação que restituí à P.S.P, ela mesma, uma imagem extremamente positiva aos olhos do cidadão. O I.S.C.P.S.I., nem é caserna fortificada e trancada, nem é campus universitário onde o "green" é muito verde, muito aberto, soube conciliar os contrários: por um lado, o microcosmo do sistema da formação integral, por outro, a indispensável adaptação a uma sociedade extremamente evoluída neste início do século XXI.In this study, the training system used by the Higher Institute of Police Science and Internal Security (Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna (I.S.C.P.S.I)) is analysed. The Institute's total approach is meant to « shape » the student's identity in order for him to become an officer in the Portuguese Police: Polícia de Segurança Pública (P.S.P). The I.S.C.P.S.I was set up in 1984 to renew the P.S.P' s officer corps, which till then had consisted exclusively of officers suppled by the Military Academy. Underlying this initiative was the government's desire to civilize the Portuguese police and to do away with its repressive image dating to the Salazar era, and also to bring citizens together within the context of Portugal's budding democracy. The founders, who were restrained by other corps, reinforced a strategy of affirmation in order to establish the school's prestige in the eyes of the country's national civil community and of foreign police forces. For its new generation of officers, the school sought a kind of osmosis between itself and society; inside, the contribution of prestigious civil professors, lectiurers and instructors; outside, students carry out charitable or sporting projects as well as a number of spatially and thematically diverse traineeships. As a residential school, the I.S.C.P.S.I exhibits a mixed culture taken from the models of monasteries (ethics), the army (discipline), Portuguese secondary schools of the 1950s (culture) and finally imiversities (the thesis). This culture enlivens the whole "complete approach" training system and balance is ensured by classic imiversity courses, "training for the body of students", projects, traineeships, and by human kinetics. Paradoxically, such a system contributes not to indoctrination but to students' personal fulfilment on account of their interaction with a diversified group of teachers and of intensive action at the service of civil populations. Entrants to the I.S.C.P.S.I are mostly male and choose the school for more than just its statutory advantages. They consciously select it to satisfy their elder family members and imconsciously choose it to address ururesolved issues with authority that stem from their childhood. By choosing a status of command within an emblematic public service, students thus repair old wounds. The manner in which students perceives their five-year stay is evolving. First the shock of the discovery of hierarchy, then the sense of ethics and finally the demands of professionalism as applied to police science.L'objet de notre étude est l'analyse participante du système de formation intégrale de l' « Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna » (I.S.C.P.S.I) dont la fonction est de « modeler » l'identité de l'élève afin qu'il devienne officier de la Police portugaise : la Polícia de Segurança Pública (P.S.P). L'I.S.C.P.S.I a été créé en 1984 afin de renouveler le corps des officiers de la P.S.P jusqu'alors composé exclusivement d'officiers issus de l' « Académia Militar». Par cette création, le gouvernement souhaitait « civiliser » la police portugaise pour effacer son image répressive issue du Salazarisme, et du même coup la rapprocher des citoyens eux-mêmes dans le contexte de la démocratie naissante portugaise. Les fondateurs, freinés par d'autres corps institués, renforcèrent une stratégie d'affirmation institutionnelle afin d'asseoir le prestige de l'école aux yeux de la communauté civile nationale et de celle policière étrangère. Pour sa nouvelle génération d'officiers, l'école recherche une osmose entre elle et la société; au-dedans interviennent professeurs civils prestigieux, conférenciers, instructeurs ; au dehors, agissent les élèves, réalisant des projets caritatifs ou sportifs ainsi qu'une succession des stages, diversifiés spatialement et thématiquement. L'I.S.C.P.S.I, en régime d'internat exclusif, véhicule une culture métissée empruntant à la fois aux modèles du monastère (l'éthique), de l'armée (la discipline), du lycée portugais de 1950 (la culture générale), et enfin universitaire (la thèse). Cette culture anime tout son système de formation intégrale dont l'équilibre est assuré par le cursus universitaire classique, l'«Instrução do Corpo de Alunos », les projets, les stages, et enfin la motricité humaine. Paradoxalement, un tel système contribue non à un endoctrinement mais à une réalisation personnelle de l'élève en raison de son insertion auprès d'un public enseignant diversifié et de son action intensive vers les populations civiles. L'entrant à l'I.S.C.P.S.I, majoritairement masculin, choisit cette école, par delà les conditions statutaires avantageuses; consciemment pour répondre aux aspirations de ses ascendants familiaux: inconsciemment, pour résoudre une relation contrariée à l'autorité vécue pendant son enfance. En optant pour un statut de commandement d'une mission de service public emblématique, l'élève répare ainsi un traumatisme ancien. La manière dont l'élève perçoit son séjour quinquennal évolue: choc de la découverte de la hiérarchie, sens de l'éthique enfin exigence de professionnalisme appliqué aux sciences policières.fraConstrução da identidadeCultura escolarPolícia de Segurança PúblicaFormação pessoal e socialTeses de mestrado - 2008La construction identitaire de l’élève officier à l’Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna (I.S.C.P.S.I) : Ecole Supérieure de Police Portugaisemaster thesis