Freire, Isabel2018-05-072018-05-072013Freire, I. (2013). Relação educativa, conflito e mediação. In A. M. Eying (Org.), Direitos humanos e violências nas escolas: Desafios e questões em diálogo (pp. 59-79). Curitiba: Editora CVR.978-85-8042-786-8http://hdl.handle.net/10451/33148A educação é um fenómeno que acompanha o ser humano ao longo de toda a sua vida. Ela é crucial para a humanização do ser humano, para o desenvolvimento do seu projeto de vida e mesmo do projeto antropológico da humanidade (Carvalho, 2001; Meksenas, 2002; Morin, 1988). Através da educação explicita-se em cada ser humano, o seu potencial genético; ela é uma condição para tal. Como dizem Boavida e Amado (2010): “a educação não depende das circunstâncias favoráveis, embora as agradeça; é algo que funciona necessariamente nas relações humanas, é interativo entre gerações e constitutivo delas, acontecendo necessariamente em todos os grupos e em todas as épocas” (p. 21). Ao conceito e à prática da educação está intrinsecamente associada a ideia de transformação, de desenvolvimento, ou seja, de superação permanente dos sucessivos estádios de equilíbrio do ser humano considerado na sua individualidade e na sua coletividade. Aprender significa sempre, de alguma forma, transformar-se (Vieira, 2009). Essa capacidade de transformar e de se transformar torna “liberta” a humanidade das forças da natureza (Meksenas, idem), permitindo-lhe aceder a essa forma de solidariedade e de sociabilidade a que chamamos cultura. Se a transformação está no cerne do desenvolvimento humano e do processo educativo, a este está igualmente associada a ideia de “manutenção de uma complexidade social”, que se autoperpetua em cada cultura por meio dos imprintings e através da sucessão de gerações, reproduzindo-se em cada indivíduo (Morin, idem, 165). A educação contém em si este paradoxo de ser ao mesmo tempo transformação e manutenção. Esses processos de transformação e de reprodução ocorrem em contextos de interação humana, num quadro de relações e inter-relações múltiplas. Iniciam-se na relação dual entre a criança e a mãe, na qual “é a própria relação o terceiro-incluído do sistema relacional que constitui a díada” (Lerbet-Sereni, 1994, 9). Nesta relação fundadora, como em muitas outras relações educativas em que o humano irá tomar parte ao longo da sua vida, a relação organiza-se segundo possibilidades criadoras que ultrapassam as pessoas em relação. A relação, cada relação constitui-se assim como um espaço-entidade-terceiro, que permite uma auto-referência de cada uma das partes em interacção. São as relações humanas que contribuem para o processo de auto-regulação e de reorganização permanente do ser humano, que acontecem e proporcionam uma complexidade crescente de relações, que facultam a eventual emergência da autonomia de cada sujeito, num processo sempre único e original. A relação humana tem intrinsecamente associada uma dimensão educativa que, particularmente na relação entre adultos e crianças, tem sempre uma intencionalidade que pode ser mais ou menos explícita . A relação educativa tem, assim, uma dimensão ontológica, no sentido em que é o fulcro do desenvolvimento humano, ao proporcionar a identificação com o outro e simultaneamente a diferenciação em relação ao outro, num processo que se desenvolve entre a objetividade, a subjetividade e a intersubjetividade. Lerbet-Sereni (idem, 27), citando Pagès, define a relação educativa como uma «experiência fundamental da unidade paradoxal dos contrários», como uma fonte de diferenciação e de reconhecimento de si próprio e do outro na sua alteridade. A par da dimensão ontológica, a relação humana (a relação educativa) tem também uma dimensão teleológica na medida em que tem como horizonte a socialização, ou seja, a construção de um determinado tipo de humano/de pessoa/de cidadão associado aos valores inerentes ao enquadramento histórico-social a que pertence. A estas duas dimensões poderemos ainda acrescentar uma dimensão filosófica e utópica, uma vez que educar é também perseguir um ideal (de perfeição, de harmonia, de felicidade, de autonomia…) para cada ser humano e para a humanidade no seu conjunto, a que se associa o ideal que é em si o próprio o ato de educar (Nóvoa, 1998; Carvalho, 2001; Morin, 2002). Concebemos a relação pedagógica como uma das concretizações da relação educativa (Amado, Freire, Carvalho e André, 2009; Estrela, 2002; Postic, 2007). Esta última ocorre sempre que, «se estabelece uma relação entre pelo menos dois seres humanos, em que um deles procura, de modo mais ou menos sistemático e intencional e nas mais diversas circunstâncias, transmitir ao outro determinados conteúdos culturais (educar), desde os mais necessários à sobrevivência a outros que podem ser da ordem da fruição gratuita» (Amado, 2005, 11). Já a relação pedagógica, em sentido restrito, consiste no «contacto interpessoal» que se estabelece, num espaço e num tempo delimitados, no decurso do «ato pedagógico» (portanto, num processo de ensino e de aprendizagem), entre professor-aluno-turma (agentes bem determinados) (Estrela, idem, 36).porRelação educativaConflitoMediaçãoComplexidadeRelação educativa, conflito e mediaçãobook part