Mata, AndréMoreira, Paulo Jorge Gonçalves2024-12-112024-12-112022-12-152022-10-14http://hdl.handle.net/10400.5/96215Dissertação de mestrado, Psicologia Cognitiva e Social, 2022, Universidade de Lisboa, Faculdade de PsicologiaAllport (1954) defined social psychology as the attempt to explain how behavior, thought and feelings are influenced by the presence of others, “real, imagined or implied”. The current proposal has the premise that social psychology does not end when biological functions cease: The psychological processes that are used to think about the living are the same used to think about the dead. The present thesis aims to explore two of those influences: conversational effects on memory and heuristic judgments. In our study, to test conversational effects, participants were asked to recall an episode about a dead person who they were close, retell it in an entertaining or accurate way, and then recall the original episode. The results showed that, although there were no differences in the last recall when comparing the entertaining, accuracy and exaggeration/distortion scores, the ratings of the retell and final recall reports correlated, such as the more exaggerated/distorted the episode was retold, the more exaggerated/distorted it was recalled in the end. Another task focused on the availability heuristic: Participants had to recall 5 or 10 instances of intelligent behavior from the deceased, rate the deceased’s intelligence and the ease of recall. Results showed that there were no differences between conditions in the ratings of the deceased’s intelligence. Overall, there seems to be partial evidence to support that the memory of the deceased can be changed through communication goals, but that this malleability could have some restraints, as no evidence was found for the availability heuristic effect and a death positivity bias seems to have emerged, in line with previous literature.Allport (1954) definiu a psicologia social como: “a tentativa científica de entender e explicar como os pensamentos, os sentimentos e os comportamentos dos indivíduos são influenciados pela presença real, imaginada ou implícita de outros”. A perda de pessoas é um fenómeno universal, mas após essa perda, as memórias do falecido permanecem dentro dos vivos e os relacionamentos são mantidos. Este projeto tem como premissa que a psicologia social não termina quando as funções biológicas cessam. Essa ideia está de acordo com a definição de Allport (1954), que afirmou que o comportamento das pessoas também é influenciado pela mera imaginação dos outros. Os vivos e os mortos mantêm as suas interações e continuam a influenciar-se, com base nas mesmas leis da psicologia social que se aplicam às interações dos vivos. Embora as pessoas em todas as culturas e religiões tenham visões diferentes em relação às crenças sobre a vida após a morte, há uma ideia universal compartilhada: uma visão dualista da mente e do corpo (Bloom, 2004). E enquanto alguns argumentam que esse dualismo é culturalmente aprendido e desenvolve-se cedo durante a nossa infância (por exemplo, Barlev & Shtulman, 2021; Richert et al., 2016), enquanto outros argumentam que é implícito, intuitivo e resulta de tendências cognitivas que evoluíram ( ex., Bering, 2006; Bloom, 2004, 2007), ambos levam à crença de que enquanto os traços biológicos e físicos não sobrevivem à morte, as propriedades da mente, como os traços epistémicos, sobrevivem (Bering & Bjorklund, 2004). Dessa forma, embora os mortos já não estejam fisicamente presentes, ainda é possível manter uma relação com eles, desde que o falecido possa ser reconstruído através das memórias e ações dos vivos, mantendo a sua identidade social viva (Francis et al. al., 2005). Essas relações podem ser vistas em várias culturas, tais como a tribo Africana da Costa do Ouro, onde as pessoas pensam nos mortos como protetores da sua família, fazendo- lhes vários tipos de oferendas (Addison, 1924), o Dia Memorial Chinês, na China, onde a família visita os seus túmulos ancestrais, fazendo oferendas de alimentos, incensos ou artigos de papel para pedir bênçãos ao falecido (Hu & Tian, 2018) e o Dia dos Mortos que é comemorado em diversos países e regiões, como a América do Norte e Europa, onde amigos e familiares se reúnem para recordar os que já partiram, contando histórias sobre o falecido, visitando os seus túmulos e trazendo presentes, como as comidas e bebidas favoritas do falecido (Cadafalch, 2011). Esse tipo de vínculo contínuo ultrapassa o domínio físico (e.g., visita a sepulturas), pois atualmente as redes sociais fazem parte da vida das pessoas e os vivos também as utilizam para continuar a interagir e a comunicar com os mortos. Uma nota importante é que estes rituais descritos não estão restritos à crença na vida após a morte. Por exemplo, ateus e agnósticos também usam rituais fúnebres para lidar com a morte de um ente querido (Garces-Foley, 2006), então parece que os rituais não são apenas usados para expressar religiosidade (Reimers, 1999). Embora o foco principal deste projeto não seja ligar as influências entre os vivos e os mortos com a crença na vida após a morte, estudos também mostraram que quando a mortalidade é realçada para os não crentes, há um aumento implícito na religião e crenças espirituais, apesar de essas crenças não serem consistentes com sua visão de mundo (Heflick & Goldenberg, 2012). Esses laços contínuos têm vindo a ser estudados em outros campos académicos (e.g., antropologia e filosofia), mas existe uma escassez de investigação em psicologia, pelo que este projeto procura preencher essa lacuna e oferecer novas descobertas sobre essas relações. Os poucos estudos que investigaram como é que os vivos pensam sobre os mortos, utilizaram personagens fictícias ou celebridades mundiais e sugerem que a imagem dos mortos é estática (e.g., o death positivity bias, que é um efeito onde os mortos tendem a ser vistos de forma positiva; Allison & Eylon, 2005). Contrariamente, este projeto utiliza memórias de outros significativos com os quais os participantes interagiram e com quem partilharam experiências durante a sua vida e defende que a imagem dos que partiram continua a mudar na mente dos vivos. O primeiro objetivo desta tese é testar que a forma como os vivos falam dos mortos influencia a forma estes são representados. A maioria das histórias que as pessoas contam tendem a não ser precisas, sendo propensas a diversas distorções. Essas distorções não se limitam à maneira como as pessoas contam os eventos, mas também como elas se lembram deles. Esta maleabilidade pode transformar as impressões das pessoas. Estudos sobre os efeitos conversacionais na memória mostram que a maneira como as pessoas falam sobre alguém influencia como elas se lembram mais tarde dessa pessoa (Dudukovic et al., 2004; Tversky & Marsh, 2000). O segundo objetivo é explorar como as heurísticas dos vivos influenciam as suas memórias dos mortos. O autoconceito das pessoas é influenciado por vieses e heurísticas, sendo uma delas a heurística da disponibilidade (e.g., a frequência de um evento ou a probabilidade de sua ocorrência é estimada pela facilidade com que instâncias ou associações desse evento vêm à mente). Quando as pessoas facilmente se lembram de instâncias passadas em que agiram de uma maneira específica (e.g., assertiva), podem inferir traços relevantes sobre si mesmas (e.g., “sou uma pessoa assertiva”). O uso de tais heurísticas foi investigado em relação a como as pessoas formam imagens de si mesmas (e.g., Schwarz et al., 1991). No entanto, os mesmos processos inferenciais podem aplicar-se a como as pessoas pensam sobre os outros e formam impressões sobre os mesmos. Para cumprir ambos os objetivos, realizámos um estudo com duas partes. Na primeira parte, para testar os efeitos conversacionais na memória, usámos uma adaptação do paradigma de Dudukovic et al. (2004), onde pediram aos participantes que lessem uma história e depois a recontassem várias vezes nos dias seguintes, em uma de duas condições – divertida ou precisa – e no último dia, a recordassem da forma mais fiel possível à história original. Nesse estudo, os participantes na condição de entretenimento recordaram a história de forma mais divertida, menos precisa e mais distorcida do que os participantes na condição de precisão. No presente estudo, ao invés de ler uma história fictícia, os participantes tiveram de pensar e escrever um episódio sobre alguém de que eram próximos e que tivesse falecido, de seguida recontá-lo também em uma das duas condições - divertido ou preciso - e, no final, escrever o episódio tal e qual como tinham escrito na primeira vez. Na segunda parte do estudo, para estudar a heurística de disponibilidade, utilizámos uma adaptação de Schwarz et al. (1991), em que os participantes foram solicitados a recordar 6 ou 12 instâncias de comportamentos assertivos das suas vidas e, no final, avaliaram quão assertivos se consideravam. Os participantes na condição das 6 instâncias sentiram que era mais fácil recordar esses comportamentos do que os participantes na condição das 12 instâncias e por conseguinte classificaram-se como mais assertivos. No presente estudo, os participantes foram instruídos para recordar comportamentos inteligentes do falecido (em vez de comportamentos assertivos acerca de si mesmos) e variamos ligeiramente o número de comportamentos evocados (10 em vez de 12 e 5 em vez de 6). Para a primeira parte do estudo, os resultados foram os seguintes: 1) ao comparar os resultados de precisão, entretenimento e exagero/distorção, intra-condições e entre condições, não foram encontradas evidências para apoiar o efeito das influências conversacionais na memória; mas 2) ao observar as correlações entre a recordação final e o recontar do episódio, verificámos que a recordação final foi considerada mais exagerada quanto mais exagerada foi ao recontar o episódio, dando algum suporte ao efeito das influências conversacionais. Assim, para a primeira parte, foram encontradas evidências mistas. Em relação à segunda parte do estudo, após testar e comparar as classificações de inteligência e facilidade de recordação entre as condições, não encontrámos evidências da heurística de disponibilidade e da facilidade de recordação. Assim, esta hipótese não foi confirmada. Mesmo com resultados mistos no primeiro objetivo, estes resultados são sugestivos e potencialmente consequentes, pois enquanto as interações entre os vivos ainda podem ocorrer e as distorções podem ser corrigidas, isso não é possível em relação às representações dos mortos. Na Discussão Geral, serão apresentadas explicações sobre estes resultados. Adicionalmente, esta tese está integrada num projeto que procura explorar como os vivos e os mortos interagem e se influenciam mutuamente e tem duas partes principais. A primeira parte é o foco desta tese e pretende testar como os processos e estados mentais dos vivos influenciavam a forma como se lembravam e imaginavam os mortos. A segunda parte é o oposto, ou seja, como pensar sobre os mortos pode influenciar os comportamentos e os pensamentos dos vivos, nomeadamente através da cooperação, honestidade e comportamento moral. Esses estudos não foram contemplados nesta tese devido a atrasos nas aprovações orçamentais. No entanto, na Discussão Geral há uma breve revisão da literatura sobre este tópico e os estudos futuros que estão prontos para serem lançados.engVida depois da morteMente-corpoHeurística da disponibilidadePsicologia cognitivaDissertações de mestrado - 2022The psychology of the living and the dead : interpersonal psychology in the afterlifemaster thesis203540549