Barros, Luísa, 1957-Pereira, Ana Isabel de Freitas, 1974-Gomes, Ana Isabel Fernandes, 1979-2018-05-042018-05-0420182017http://hdl.handle.net/10451/33144Tese de doutoramento, Psicologia (Psicologia da Saúde), Universidade de Lisboa, Faculdade de Psicologia, 2018O comportamento alimentar da criança tem sido alvo de interesse e preocupação crescente por parte da comunidade científica. A elevada ingestão de alimentos processados e calóricos, a par de um desinvestimento no consumo de vegetais e frutas, constitui uma ameaça importante para a saúde da criança, podendo também interferir negativamente no seu desenvolvimento. De entre os problemas de saúde associados a estas mudanças, o aumento da prevalência do excesso de peso infantil é o mais evidente. Os especialistas recomendam que a promoção de comportamentos alimentares saudáveis deve começar cedo na vida da criança, e que os pais sejam envolvidos no processo, por serem os principais responsáveis pelos alimentos que são disponibilizados à criança. Embora a literatura sobre os determinantes do comportamento alimentar infantil e sobre o desenvolvimento de programas de intervenção seja vasta, existem ainda lacunas e discrepâncias que importa clarificar e aprofundar. Por exemplo, não é ainda totalmente claro de que forma alguns determinantes cognitivos parentais do comportamento alimentar da criança (como a percepção parental do peso da criança ou a auto-eficácia para influenciar o comportamento alimentar da criança) mudam ao longo do tempo, ou se a sua influência é diferente em condições distintas (e.g., pais de crianças com peso saudável e excesso de peso), ou ainda se estes determinantes podem ser modificados por programas de intervenção parental. Por outro lado, a maior parte dos resultados advém de estudos transversais ou longitudinais, e menos de estudos interventivos, tornando mais difícil identificar que variáveis contribuem para a mudança dos padrões alimentares infantis, e em que extensão, e consequentemente, que agentes podem ser envolvidos nessa intervenção. O presente trabalho definiu como objectivos específicos dos estudos que o integram: 1) avaliar o grau de preocupação parental com o peso da criança pré-escolar e explorar potenciais preditores da preocupação com o peso em pais de crianças com excesso de peso e com peso saudável; 2) avaliar a efectividade do programa parental de baixa dosagem na mudança de dimensões cognitivas e comportamentais parentais associadas a padrões alimentares mais saudáveis e/ou a mudanças positivas na dieta das crianças pré-escolares, comparando com outras condições experimentais e em vários momentos de avaliação; 3) contribuir para o estudo dos comportamentos neofóbicos das crianças pré-escolares, através da análise das propriedades psicométricas de um instrumento de auto-relato para pais; e 4) identificar potenciais preditores da ingestão de alimentos saudáveis e menos saudáveis pela criança após a participação num programa parental em contexto escolar, considerando na análise variáveis parentais cognitivas e características individuais da criança. A investigação envolveu, no total, a participação de 388 pais e crianças pré-escolares entre os 2 e os 6 anos, de onde foram selecionadas subamostras específicas para cada estudo. As medidas de avaliação utilizadas incluíram vários instrumentos de auto-relato preenchidos pelos pais, uma entrevista para avaliar as preferências alimentares da criança e, também, uma avaliação antropométrica do peso e da altura da criança. A análise dos dados envolveu vários procedimentos estatísticos, e.g., estudos descritivos e correlacionais, análises de regressão logística binomial e linear hierárquica, análises factoriais exploratórias e confirmatórias, análise de invariância e de consistência interna da escala, e estudos de comparação de amostras independentes (Qui-quadrado, Teste t de Student, Teste U de Mann-Whitney, ANOVA) e repetidas (ANOVA mista de dois factores, Teste Q de Cochran) em vários momentos de avaliação. Dos estudos realizados, destacam-se os seguintes resultados: 1) os preditores da preocupação parental com o peso da criança diferiram quando se consideraram, separadamente, pais de crianças com peso saudável e com excesso de peso; 2) a participação no programa de intervenção parental conduziu ao aumento significativo da ingestão de alimentos saudáveis pelas crianças imediatamente após a intervenção e, embora esta mudança não se tenha mantido significativa nos restantes momentos de avaliação, manteve-se significativamente diferente das restantes condições experimentais (e.g., sessão única de aconselhamento nutricional e grupo controlo); adicionalmente, a auto eficácia parental diminuiu no grupo controlo mas não nas condições experimentais; 3) foram identificadas duas dimensões distintas do comportamento da criança pré escolar de aproximação e de evitamento em relação a alimentos novos e diferentes (neofilia vs. neofobia) que se correlacionam de formas diferentes com o temperamento infantil, as preferências por alimentos saudáveis e não saudáveis, o grau de aceitação de alimentos diferentes e a frequência de ingestão de alimentos saudáveis e não saudáveis; 4) os pais que apresentaram maior preocupação em relação ao peso do seu filho e índices mais elevados de auto-eficácia para promoverem uma alimentação infantil mais saudável antes de participarem no programa de intervenção parental tinham crianças com consumo mais frequente de alimentos saudáveis depois da intervenção, não tendo sido possível prever, para o consumo de alimentos não saudáveis após a intervenção, a contribuição de outros factores que não a frequência de ingestão desses alimentos antes da intervenção. Em termos gerais, os resultados encontrados permitiram concluir que as variáveis parentais, sobretudo as cognitivas, e as características individuais da criança, podem ter um papel importante no desenvolvimento dos padrões alimentares da criança, e que é possível mudar esses comportamentos alimentares infantis através de programas de intervenção parentais dirigidos a essas variáveis, mesmo quando o programa é de baixa dosagem. Não obstante, os níveis baixos de retenção e a baixa efectividade do programa em relação a algumas variáveis parentais e na mudança do consumo de alimentos doces e calóricos antecipam a necessidade de ponderar alternativas interventivas. O presente trabalho contribuiu ainda, de forma exploratória, para o desenvolvimento e estudo das qualidades psicométricas de instrumentos de avaliação da auto-eficácia parental e da neofilia/neofobia alimentar da criança para a população portuguesa.porTeses de doutoramento - 2018Estudo dos determinantes parentais e indviduais dos comportamentos alimentares da criança pré-escolardoctoral thesis101362684