Sousa, Elisa deMontalvo, CarlosQuelal Madrid, Pablo2023-05-292023-05-292023-04-132023-01-21http://hdl.handle.net/10451/57651A presente dissertação de mestrado incide numa nova abordagem realizada ao conjunto cerâmico do sítio arqueológico La Ponga, localizado na atual província de Santa Elena, República do Equador (América do Sul), sendo aqui apresentados os respectivos métodos analíticos e resultados. O conjunto cerâmico analisado foi recuperado através de trabalhos arqueológicos realizados nos anos 1976 e 1977 pelo sacerdote Pedro Porras, que, através da sua análise, atribuiu o sítio exclusivamente à cultura Machalilla. Tradicionalmente, a cultura Machalilla (1400-800 a.C.) tem sido caraterizada como uma fase intermédia numa espécie de "linha evolutiva" entre as ocupações Valdivia e Chorrera-Engoroy, no período Formativo do Equador (3500-200 a.C.). Esta caraterização foi discutida e problematizada em estudos arqueológicos mais recentes. É com base nesta questão que se desenvolve o presente estudo, envolvendo a elaboração de uma nova proposta de seriação do material cerâmico coletado por Porras, baseada nos registos disponíveis, que se encontram depositados no Museu Arqueológico Weilbauer da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE). Além disso, o estudo também confronta o antecedente arqueológico sobre a cultura Machalilla na área próxima ao sítio La Ponga, de forma a identificar elementos de análise para a definição da cultura Machalilla, bem como colocar em consideração o hiato temporário com a fase precedente, a cultura Valdivia, definido por Ronald Lippi (1980, 1983). Nesse âmbito, foi feita uma revisão dos antecedentes arqueológicos da região, quer anteriores aos trabalhos de Porras, quer ao nível dos estudos atuais referentes ao atual povoado de Machalilla, para posteriormente gerar uma avaliação crítica desta temática, à luz do problema colocado pelo horizonte Machalilla após aproximadamente 65 anos de pesquisa. Como resultado dessa revisão, foi identificada, em primeiro lugar, a existência de uma diversidade de critérios com os quais são analisados os contextos e evidências do chamado período Formativo Médio. Por exemplo, para definir ocupações culturais Machalilla, critérios temporais são usados exclusivamente, enquanto alguns pesquisadores consideram critérios que incluem tanto o tempo como o espaço. No que se refere aos aspetos metodológicos do registro de campo executado pelos pesquisadores da região de estudo, as suas diferentes formas de trabalho também geraram impactos nos respectivos registros e interpretações, em diferentes graus. Por um lado, temos os procedimentos que aplicam a escavação de cortes segundo níveis arbitrários de 20 cm (níveis artificiais); e, por outro lado, temos as escavações que diferenciam os níveis estratigráficos naturais do subsolo, a partir de Henning Bischof (1975) e Heiko Prümers e Fernanda Ugalde (2018). Em especial, as escavações efetuadas por Betty Meggers, Clifford Evans e Emilio Estrada (1965), de acordo com o método dos níveis arbitrários/artificiais, afetam as correlações estratigráficas dos materiais recolhidos, na medida em que definem ocupações com cortes superficiais, e mesmo com coleções de superfície, como nos locais La Cabuya e G-112 (ao sul de Ayangue). O caso é evidente na definição do periodo B de Machalilla, feito exclusivamente a partir de uma coleção recolhida à superfície. Em contraste com o exposto, Bischof aplica um rigoroso registro de depósitos de contextos arqueológicos que permite refletir, de forma mais detalhada, as atividades passadas, proporcionando uma melhor perspectiva dos materiais coletados e seus contextos, independentemente do número de elementos ou cortes no território. Em virtude disso, é importante a crítica de Bischof à escavação por níveis arbitrários/artificiais, quando argumenta que as escavações deste tipo fazem com que a cultura material recolhida seja considerada necessariamente hipotética, porque este método promove, frequentemente, a mistura de materiais, incluindo diferentes volumes de solo de depósitos naturais e culturais ao mesmo nível arbitrário/artificial. Além disso, uma diversidade de critérios é evidente também na análise dos dados coletados, o que enriquece o debate científico. Mas quando surgem tentativas de fazer inovações mais ousadas, o debate e a análise ficam, de certa forma, obscurecidos. O exposto é observado na formação de tipos cerâmicos no processo de seriação de Machalilla: o tipo Ayangue Inciso (Meggers, Evans e Estrada, 1965), que conta até os dias atuais com alguma validade, é nublado pela descrição do mesmo tipo como "Ayangue Grabado" que Lippi (1983) propôs. Contudo, o estudo cerâmico realizado por este último deriva de um agrupamento visual dos bordos, sem categorias com bases tipográfico-analítico, o que cria certas dificuldades quando este agrupamento visual é o fundamento para propor um hiato temporário entre Valdivia e Machalilla. No campo cronológico, foi necessário realizar calibrações das datas fornecidas por Lippi (1983), que mostrou ocupação entre os anos de 1396 e 806 a.C., compreendendo um período de 590 anos de ocupação. Esse período excede muito aquele de 400 anos estimado para a ocupação cultural, proposto pelo autor citado (1200 - 800 a.C.), que atribuiu 50 anos para cada uma das oito fases definidas na sua cronologia relativa. Por outro lado, as datas obtidas por Prümers e Ugalde (2018) mostram, em contraste, uma ocupação entre 1385 e 940 a.C., compreendendo um intervalo de 445 anos no sítio Machalilla Cemitério (Ma-Cem), atribuível ao único estrato cultural encontrado nas escavações correspondente a Machalilla. Ou seja, suas datas são coerentes com sua observação estratigráfica, que mostra uma única ocupação cultural que pode ultrapassar os quatro séculos no site Ma-Cem. Uma vez ponderados os critérios dos antecedentes arqueológicos, procede-se a uma análise do conjunto cerâmico, que se tem sustentado no método analítico de atributos, que permite considerar cada um destes individualmente, perseguindo uma maior sensibilidade às mudanças ao longo do tempo (Shepard, 1956; Jaimes, 2012), em conjunto com uma classificação tipológica baseada no conceito de tipo como uma série de artefatos que se distinguem por uma associação recorrente de atributos. O conjunto cerâmico recuperado por Pedro Porras, que foi analisado nesta dissertação, consta de 11862 fragmentos, dos quais 9935 são fragmentos não diagnósticos, e 1927 diagnósticos. A análise efetuou-se sobre os fragmentos diagnósticos, dado que nos fornece informação sobre a forma, a decoração e a tecnologia da cerâmica do sítio La Ponga. A nossa análise diferencia-se das realizadas por Meggers, Estrada ou Porras, que aplicaram o método quantitativo (também designado como método Ford), que se enfoca na decoração de todas as formas de recipientes do conjunto, provocando que estas últimas se codifiquem repetitivamente. Neste sentido, a nossa análise aproxima-se mais da análise multivariável de Bischof, que considera as combinações de atributos morfológicos e decorativos sobre um recipiente, como os elementos de maior sensibilidade no tempo. A seleção dos atributos de nossa análise conta com uma muito boa referência no projeto de pesquisa da PUCE e do DAI (Instituto Alemão de Arqueologia), no sítio Machalilla Cemitério (Ma-Cem). Através deste antecedente foi possível definir os atributos a serem analisados para a elaboração de tipologia cerâmica e sua posterior seriação. Foram avaliados três atributos morfológicos, cinco tecnológicos e quatro decorativos. Os atributos morfológicos e, em menor medida, os atributos decorativos mostraram-se como os mais suscetíveis às flutuações na sequência cultural. Isto motivou a concentração da análise nestas duas classes de atributos, a fim de identificar alterações no estilo decorativo. A seriação cronológica dos atributos fundamentou-se no conceito de seriação referente à elaboração de uma divisão de um material cultural conforme os contextos registrados nos cortes de escavação arqueológica, associando estes dois elementos para criar um sistema sequencial. Desta forma é possível identificar associações de materiais cerâmicos segundo estratos naturais e, paralelamente, também culturais. A duração de um atributo é definida como o intervalo de tempo entre o seu primeiro e o seu último aparecimento, cuja observação se faz através da subdivisão de um registo arqueológico em segmentos arbitrários no espaço e no tempo. Assim se formará uma sucessão de eventos, cuja unidade de medida virtual é o ponto médio marcado pela primeira e última aparição de um atributo. Este é o conceito que Renato Peroni (1998) define como Duração Média Mínima, no qual nos baseamos para a seriação. A análise de atributos e sua correspondente seriação possibilitaram a identificação de uma ocupação predominante de Machalilla no sítio La Ponga. Ao mesmo tempo, as informações fornecidas por Richard Zeller (s.d.) sobre um considerável conjunto cerâmico pós-ocupação Machalilla não devem ser ignoradas, destacando Chorrera-Engoroy e Guangala, que se constituem em referência do escasso material na nossa análise correspondente a essa temporalidade. É importante ressaltar que não foram encontrados restos da frequente mencionada garrafa de alça-estribo que Estrada, e outros autores de sua mesma época (especialmente Meggers e Evans), caracterizam como exclusiva da cultura Machalilla. De facto, encontra-se apenas um colo de garrafa em todo o conjunto cerâmico de La Ponga, que se aproxima mais claramente das garrafas de Chorrera-Engoroy, em vez das garrafas de alça-estribo. Este facto é corroborado por Richard Zeller quando expõe que, na zona de Loma Alta, muito perto do sítio La Ponga, encontrou as primeiras expressões deste tipo de garrafas estilo Chorrera-Engoroy. Por outro lado, a presunção de Emilio Estrada confirma-se ao estimar a ocupação Machalilla para o primeiro milénio antes de nossa era. As contribuições para a cronologia Machalilla, fornecidas por Bischof, Prümers e Ugalde, apoiam a hipótese de Estrada. A nossa contribuição, desde uma cronologia relativa de La Ponga, reside em que a profusa decoração incisa nos corpos superiores dos recipientes abertos carenados ajuda a consolidar a definição de uma fase tardia Machalilla localizada mais especificamente na costa centro-sul do Equador. Isto aponta para que não existe uma forte diferenciação entre os locais Machalilla implantados perto da ribeira marinha e aqueles localizados no interior.El sitio arqueológico de La Ponga, en la actual provincia de Santa Elena, Ecuador, fue investigado por Pedro Porras en los años 1976 y 1977. Se localiza aproximadamente a unos 100 sobre el nivel del mar. Su cerámica brinda la posibilidad de ser nuevamente abordada desde una perspectiva diferente a la del investigador. El presente estudio realiza un análisis de atributos para la formación de tipologías, para posteriormente realizar la seriación de los tipos cerámicos formados, con el fin de buscar elementos de análisis de la enigmática cultura Machalilla, aún más cuando se trata de un sitio tierra adentro. Además, se ofrece un análisis de las investigaciones arqueológicas de la costa centro-sur del Ecuador, que brindan un apoyo para el análisis. La observación de la duración de los atributos y los tipos cerámicos permite identificar una variante localizada en la zona mencionada, que se distingue del sitio clásico Machalilla, temporalmente cercana a la transición a la cultura Chorrera-Engoroy, del período Formativo Tardío.The archaeological site of La Ponga, in the current province of Santa Elena, Ecuador, was investigated by Pedro Porras in 1976 and 1977. It is located approximately 100 above sea level. Its ceramics offer the possibility of being approached again from a different perspective than the researcher. The present study performs an analysis of attributes for the formation of typologies, to later perform the seriation of the ceramic types formed, to look for elements of analysis of the enigmatic Machalilla culture, even more so when it’s an inland site. In addition, an analysis of the archaeological investigations of the south-central coast of Ecuador is offered, which provide support for the analysis. The observation of the duration of the attributes and the ceramic types allows to identify a variant located in the mentioned zone, which is distinguished from the classic site Machalilla, temporarily close to the transition to the Chorrera-Engoroy culture, of the Late Formative period.spaVestígios arqueológicos - La Ponga (Santa Elena, Equador)Sítios arqueológicos - La Ponga (Santa Elena, Equador)Cerâmica - La Ponga (Santa Elena, Equador)Povo MachalillaTeses de mestrado - 2023La cerámica del sitio arqueológico La Ponga. Santa Elena, Ecuadormaster thesis203283651