Morais, Ana Maria, 1939-Neves, Isabel P.2020-04-032020-04-031991http://hdl.handle.net/10451/42703Tese de doutoramento em Educação (Didáctica das Ciências), apresentada à Universidade de Lisboa através da Faculdade de Ciências, 1991A tese teve como objectivo central a pesquisa de componentes sociológicas do contexto pedagógico familiar que permitissem explicar a relação da classe social, raça e sexo com o aproveitamento diferencial dos alunos. Partindo de resultados evidenciados por trabalhos no âmbito da sociologia da educação que responsabilizam a familia ou a escola pelo (in)sucesso dos alunos socialmente diferenciados, a presente investigação pretende ampliar e aprofundar o significado daqueles resultados através do estudo da influência da interacção dos contextos de socialização primária (familia) e de socialização secundária (escola) no aproveitamento em ciências. O estudo incidiu sobre uma população heterogénea (classe social, raça e sexo) de 80 alunos alunos (e respectivos pais e mães) de uma escola preparatória da periferia de Lisboa que, no decurso do 5º e 6° anos de escolaridade (1988-1989 e 1989-1990), se mantiveram distribuidos, na disciplina de Ciências da Natureza, por três práticas pedagógicas distintas, mas implementadas pela mesma professora. Da teoria de Bernstein, particularmente dos modelos de reprodução cultural e do discurso pedagógico, retirámos os conceitos operativos que possibilitaram a análise dos contextos familiar e escolar dentro de um mesmo quadro conceptual. A um nível mais geral, o conceito de código e, a um nível mais especifico, os conceitos de classificação e de enquadramento, constituíram os instrumentos teóricos que serviram de base à construção de indicadores empíricos necessários às análises relacionais pretendidas. A aplicação da teoria, quer ao nivel das interacções que consubstanciam as relações de poder e de controlo na familia e na escola, quer ao nível das representações simbólicas que definem os contextos, discursos e práticas na família e na escola, envolveu uma especificação dos seus conceitos demasiado abstractos, de forma a torná-los operacionais no âmbito de uma análise subtil da relação família-escola. A construção e aplicação de instrumentos conceptuais de análise, baseados na teoria de Bernstein, constituiu, assim, outro dos objectivos da investigação. A pesquisa integrou, no seu conjunto, várias análises, com metodologias especificas, em que se pretendeu articular dados de natureza quantitativa com outros de carácter qualitativo. O trabalho realizado mostra a importância que deve ser atribuída, na investigação educacional, aos múltiplos factores envolvidos na socialização primária e secundária da criança que podem ser responsáveis pelo aproveitamento deferencial em ciências. Os resultados obtidos dão um contributo na validação da teoria de Bernstein, sugerindo que o posicionamento diferencial adquirido pela criança na família/comunidade e que o seu acesso, na família, a ordens diferentes de significados e a formas distintas de realização desses significados (nos contextos instrucional e regulador), constituem factores que intervêm na relação entre classe social/raça/sexo e o (in)sucesso em ciências. Os resultados apoiam a hipótese que o (in)sucesso escolar pode ser explicado pela (des)continuidade nas relações de poder e de controlo que caracterizam as práticas instrucional e reguladora da família e da escola. De um modo geral, os resultados sugerem que as famílias dos grupos sociais mais baixos tendem a privilegiar práticas pedagógicas reguladas por enquadramentos fortes e que, inicialmente, uma prática pedagógica escolar com estas características tende a ser mais favorável ao aproveitamento, em ciências, das crianças pertencentes a esses grupos. Contudo, ao considerarmos o aproveitamento em ciências ao fim de dois anos de escolaridade, temos razões para crer que prática(s) pedagógica(s) escolar(es) de enquadramentos mais fracos, ainda que colocando inicialmente os alunos mais desfavorecidos em situação de desvantagem (dada a descontinuidade relativamente à prática pedagógica familiar), se revela(m), após um certo período de adaptação dos alunos, mais favorável(eis) para esbater o fosso inicialmente existente entre grupos socialmente distintos.porSociologia da educaçãoFamíliaUnidade sociológicaFamília e escolaInsucesso escolarClasses sociaisPrática pedagógicaTeses de doutoramento - 1991Práticas pedagógicas diferenciais na família e suas implicações no (in)sucesso em ciências : fontes de continuidade e de descontinuidade entre os códigos da família e da escoladoctoral thesis