Alves, Fernanda MotaLourenço, Patrícia Alexandra Alves2022-08-162025-01-242022-01-242021-09-15http://hdl.handle.net/10451/54141Tematicamente considerado uma ficção do perpetrador, o romance Les Bienveillantes, de Jonathan Littell (2006), é simultaneamente uma ficção de memória — espaço onde um narrador autodiegético discorre, em tom revisionista, sobre a sua participação na Segunda Grande Guerra e no Holocausto, problematizando a ideia de “verdade”. Através desta reconstrução do passado, o romance alude de modo autoconsciente a sistemas de construção e organização dos processos históricos e mnemónicos, para os questionar criticamente. Esse questionamento da possibilidade de “escrever”/inscrever a história acontece através da metáfora textual do tear, apontando para o carácter composto e artificial da memória, decomposta nos padrões e narrativas a que subjazem actos e políticas de memória. A leitura que o narrador faz do passado, decalcada da história de Orestes, apresenta o Holocausto enquanto resultado de um conjunto de forças externas inevitáveis e os seus agentes como heróis trágicos, rejeitando a responsabilidade do sujeito. Em simultâneo, um modo textual oposto, assente na paródia e na ironia, contamina e desestabiliza o projecto exculpatório do narrador. Ao subverter a Oresteia (e outras obras do cânone ocidental), o romance usa e abusa dos códigos literários, cria e subverte convenções, apontando ao mesmo tempo para os paradoxos inerentes e para uma releitura crítica (da representação) do Holocausto. Além da Oresteia, uma densa malha intertextual trabalha para afastar o narrador do modelo trágico, inserindo-o numa tradição literária de narradores infames, contrariando as suas pretensões revisionistas e convidando a uma leitura crítica do discurso do perpetrador.Thematically considered a perpetrator fiction, the novel Les Bienveillantes by Jonathan Littell (2006) is simultaneously a fiction of memory – a space where an autodiegetic narrator talks in a revisionist tone about his participation in World War II and the Holocaust, problematizing the idea of “truth”. Through this reconstruction of the past, the novel self-consciously alludes to the systems of construction and organisation of historical and mnemonic processes in order to critically question them. This questioning of the possibility of “writing”/inscribing history happens through the textual metaphor of the loom, pointing to the compound and artificial character of memory, broken down into patterns and narratives underlying the acts and politics of memory. The narrator's interpretation of the past, modelled on the story of Orestes, presents the Holocaust as the result of unavoidable external forces and its agents as tragic heroes, rejecting personal responsibility. Simultaneously, an opposite textual mode, based on parody and irony, contaminates and destabilises the narrator's exculpatory project. By subverting the Oresteia (and other works of the Western canon), the novel uses and abuses literary codes, creates and subverts conventions, pointing at the same time to the inherent paradoxes and to a critical reinterpretation (of the representation) of the Holocaust. In addition to the Oresteia, a dense intertextual mesh works to distance the narrator from the tragic model, inserting him into a literary tradition of infamous narrators, contradicting their revisionist pretensions and inviting a critical reading of the perpetrator's discourse.porContar a história, tramar a memória: a ficção do perpetrador em Les Bienveillantes, de Jonathan Littelldoctoral thesis101521740