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Quando, há cerca de dez anos, assisti à disciplina leccionada pelo Prof. Rui Nobre Moreira, “O que é uma teoria física?”, fiquei espantado com duas coisas. Primeiro, existia uma notável semelhança entre alguns aspectos do pensamento de Alfred North Whitehead, que eu na altura conhecia apenas superficialmente, e o trabalho desenvolvido na Universidade de Lisboa pelo grupo de investigação sobre os fundamentos da mecânica quântica coordenado pelo físico José Ramalho Croca. O segundo aspecto que me surpreendeu foi que nem o Prof. Moreira nem o Prof. Croca, nem os outros membros do grupo – que desde então passei a chamar de “Escola de Lisboa” - conheciam a obra de Whitehead, senão indirectamente. Como mostrei na minha dissertação de Mestrado, há uma sensível sintonia entre a visão da natureza proposta por Whitehead e a defendida pela Escola de Lisboa, mas não há influência directa. Como explicar tal comunhão de visões? É possível que exista tanta proximidade filosófica sem uma relação de filiação? E se não, quais os factores internos ao desenvolvimento científico que permitem articular estes dois episódios da aventura das ideias?
A minha investigação foi guiada pela exigência de satisfazer aquele meu espanto seminal. A presente dissertação encerra os resultados que obtive no esforço de esclarecer esta ressonância ideal. Como qualquer outra investigação, pode-se entender quanto se apresenta a seguir como uma viagem, e, como tal, contendo uma ida e uma volta. Para enfrentar os celebérrimos problemas conceptuais inerentes aos fundamentos da física, seguiremos o percurso feito pelo próprio Whitehead. Enquadraremos o seu pensamento no seu contexto histórico, tanto científico como filosófico, visando ilustrar a sua posição em relação à crise nos fundamentos da matemática, antes, e nos fundamentos da física, a seguir. Ambas as crises colocaram em questão algum dos pressupostos filosóficos comummente aceites e apelaram para um renovado esforço conceptual. Não apenas muitas “verdades” foram rejeitadas, mas o próprio método científico teve que ser repensado. Whitehead viveu as duas crises na primeira pessoa e tentou elaborar uma síntese filosófica para lhes fazer face.
Os aspectos do pensamento de Whitehead, que se podem genericamente definir como humanistas – os seus originais contributos à filosofia da educação, da religião e da civilização – estarão quase completamente excluídos da presente analise, que se limitará às componentes científicas da sua filosofia. Nomeadamente, ocupar-nos-emos do Whitehead físico-matemático. O valor científico e filosófico da sua obra tem sido em larga medida subestimado ou esquecido. Quer a comunidade dos matemáticos e dos físicos, quer a comunidade dos filósofos parece não ter ainda reconhecido o seu valor e a sua importância, embora, tanto na sua altura como hoje, o alto gabarito dos seus contributos lhe seja reconhecido. Neste sentido, tentaremos salientar a sua fertilidade nos actuais debates filosóficos em volta das mais problemáticas facetas dos fundamentos da física.
A dissertação está dividida em três partes. Na primeira parte trataremos da situação problemática oriunda da matemática e mostraremos as lições epistemológicas que Whitehead soube extrair dela. A sua filosofia da matemática e os conceitos que orbitam em seu redor constituem um alicerce que nunca será removido por si por altura da posterior construção do seu sistema metafisico e cosmológico. A sua corrente de pensamento produziu um campo em expansão, mantendo uma intrínseca continuidade.
Na segunda parte argumentaremos que Michael Faraday foi o fundador de um programa de investigação científica e subjacente programa metafísico, alternativo ao programa newtoniano. O programa inaugurado por Faraday é ainda o programa em desenvolvimento na física contemporânea. Whitehead foi um entusiasta continuador deste programa e a sua posição a respeito da física quântica (assim como a respeito da teoria da relatividade) deve-se entender neste quadro programático.
Na terceira parte proporemos ao leitor uma experiência de pensamento: convidamo-lo a imaginar que Whitehead participou na famosa quinta conferência de Solvay, na qual os maiores físicos discutiram as novidades experimentais e teóricas mais espantosas da época. De facto, se a filosofia nasce do espanto, como foi dito por Aristóteles e repetido por Whitehead, os físicos também não puderam esquivar-se aos desafios lançados pelos fenómenos observados, recorrendo à especulação filosófica. Neste campo noético, enfrentaram-se posições divergentes quanto à interpretação da fenomenologia experimental. O maior problema conceptual que Whitehead se propôs resolver foi a separação e o sempre maior afastamento entre o conhecimento científico e o senso comum. Pois, de certa forma, já antes do surgir da mecânica quântica propriamente dita, Whitehead tinha sentido com irritação o cisma entre realistas e não realistas de que falara Karl Popper na sua obra A teoria dos quanta e o cisma na física. O objectivo da presente dissertação é, portanto, analisar a filosofia de Whitehead, assim como mostrar de que forma a mesma não pode ser colocada lado a lado com os intérpretes ortodoxos da mecânica quântica, tendo, pelo contrário, lugar entre os realistas.
Descrição
Palavras-chave
programa de investigação de Faraday realismo orgânico modelo da gotícula quântica ressonante semiótica da percepção e objectividade científica Faraday's research program organic realism resonant quantum droplet model semiotics of perception and scientific objectivity
