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Orientador(es)
Resumo(s)
The present thesis aims at studying adaptation both as a process of
reappropriation of the past and as a marker of contemporaneity, departing from Jane
Austen's (1775-1817) Emma (1815), given the canonical status held by this novelist
in literature and in adaptation studies. Acknowledging the present time as one of
redefinition for adaptation studies, this thesis frames its discussion of adaptations of
Emma not only in relation to key publications in the field (Hutcheon 2013 [2006];
Sanders 2016 [2006]; Cartmell and Whelehan 2010) but also taking into consideration
more recent debates, particularly those broadening the scope and reach of adaptation,
both inside and outside the academic environment (Newell 2017; Leitch 2017). Thus,
recognising the broad scope of adaptation, which includes a variety of cultural
products as well as the possibility of diverse intermedia exchanges, my analysis
focuses on adaptations from diverse media, including the traditional cinematic and
television products but with a particular emphasis on digital, online, and visual
objects of the twenty-first century.
Aware of the contemporary significance of digital humanities, this thesis
intends to contribute to rethinking the place of literature and its subsidiaries in the
digital age as well as to the ongoing debates on the (re)definition of adaptation studies
as an independent and interdisciplinary field of knowledge. Furthermore, it seeks to
describe and understand the cultural and social significance of these adaptations,
pnmary objects of consumer involvement in an intended participatory culture
(Jenkins 2006), and to underscore their potential for critical engagement in an age of
globalisation and social media.
A presente tese procura estudar o fenómeno da adaptação, simultaneamente enquanto processo de reapropriação do passado e como marcador da contemporaneidade, a partir do romance Emma (1815), de Jane Austen (1775-1817), cujo estatuto canónico Ć© indisputĆ”vel tanto a nĆvel literĆ”rio, como dos estudos de adaptação. Reconhecendo o tempo presente como um momento de redefinição para os estudos de adaptação, este estudo enquadra a discussĆ£o de adaptaƧƵes de Emma, nĆ£o apenas em relação a publicaƧƵes essenciais no campo de estudos (Hutcheon 2013 [2006]; Sanders 2016 [2006]; Cartmell & Whelehan 2010) mas tomando tambĆ©m em consideração contribuiƧƵes recentes para esse mesmo debate, em particular as que dilatam o escopo dos estudos de adaptação, tanto dentro como fora da academia (Newell 2017; Leitch 2017). Assim sendo, reconhecendo o alargado espectro próprio Ć adaptação, que compreende uma variedade de produtos culturais bem como a possibilidade de diversas permutas intermediais, a presente anĆ”lise centra-se em adaptaƧƵes para diversos media, incluindo os tradicionais produtos para cinema e televisĆ£o, dando particular ĆŖnfase a objectos digitais, visuais e em plataformas online, produzidos no sĆ©culo XXI. Consciente da actual importĆ¢ncia das humanidades digitais, esta tese tenciona contribuir para um repensar do lugar da literatura e outras artes na era do digital, bem como para os debates em curso quanto Ć redefinição dos estudos de adaptação enquanto um campo de estudos independente e interdisciplinar. Concomitantemente, esta tese procura tambĆ©m descrever e compreender a importĆ¢ncia cultural e social destas adaptaƧƵes enquanto objectos promotores do envolvimento dos consumidores numa cultura que se quer participativa (Jenkins 2006), bem como sublinhar o seu potencial para avaliação crĆtica numa era de globalização e redes sociais. O principal objectivo desta tese Ć© questionar de que forma a adaptação contribui para a reinterpretação e mesmo reformulação de Austen, autora canónica mas tambĆ©m Ćcone da cultura popular, para a contemporaneidade. Nesse sentido, a adaptação Ć© aqui considerada no Ć¢mbito de uma multitude de diferentes meios e formatos e nĆ£o limitada ao habitual quadro conceptual da adaptação romance-filme, mas antes tomando em conta uma complexa rede de objectos que evidencia um profundo cruzamento de influĆŖncias e referĆŖncias. A questĆ£o fundamental Ć qual esta tese procura responder Ć© de que forma os novos tipos de produção e recepção de conteĆŗdo, potenciados pelo recente paradigma digital, estĆ£o a alterar a maneira como pensamos a adaptação, mas tambĆ©m a literatura, a cultura, a sociedade e, em Ćŗltima anĆ”lise, como nos entendemos. O presente trabalho tenciona em particular abordar a questĆ£o da precedĆŖncia em adaptação, dado que diversas adaptaƧƵes recentes de Emma partem nĆ£o exclusivamente do romance, mas tambĆ©m ( e por vezes atĆ© de forma mais significativa) de adaptaƧƵes prĆ©vias e da percepção contemporĆ¢nea de Austen enquanto constructo cultural complexo. De forma a desenvolver estas questƵes, o presente estudo encontra-se dividido em duas partes distintas: a primeira, composta de dois capĆtulos, propƵe uma reflexĆ£o alargada da concepção de Austen enquanto produto da construção cultural, por um lado, e um exemplo arquetĆpico nos estudos de adaptação, por outro. A segunda parte, composta por Ā·trĆŖs capĆtulos, constitui a dimensĆ£o mais prĆ”tica da tese, com foco na anĆ”lise comparativa de diversas adaptaƧƵes de Emma. Tendo em conta esta divisĆ£o, a presente tese uucia, nĆ£o com o habitual capĆtulo teórico dedicado a uma revisĆ£o da literatura mais relevante no campo de estudo, mas com uma reflexĆ£o sobre a relevĆ¢ncia e preponderĆ¢ncia actuais de Jane Austen, Ćcone cultural que ultrapassa em muito os limites da figura literĆ”ria canónica. Essa reflexĆ£o parte da breve anĆ”lise de trĆŖs objectos publicados em 2017 como forma de celebrar o bicentenĆ”rio da morte de Austen: The Jane Austen Project (Kathleen A. Flynn), The Times Literary Supplement: Jane Austen (Stig Abell, coord.) e Jane Austen: Writer in the World (Kathryn Sutherland, coord.). Constatada nĆ£o apenas a omnipresenƧa de Austen na contemporaneidade mas as diversas ( e frequentemente contraditórias) interpretaƧƵes da autora e da sua obra, o capĆtulo prossegue com um levantamento de estudos que procuraram a definição crĆtica deste fenómeno (Wiltshire 2001; Harman 2007; Ells 2011; Dow & Hanson 2012; Johnson 2012; Looser 2017). O primeiro capĆtulo encerra com uma breve incursĆ£o em Ć”reas nas quais o fenómeno Austen enquanto constructo cultural complexo se afirma como potenciador de novas actividades, nomeadamente o turismo e a indĆŗstria heritage. Ainda que nĆ£o directamente dependentes de ou classificĆ”veis como adaptação de obras de Austen, a relação que muitas destas actividades estabelecem com essa mesma adaptação Ć© inegĆ”vel, sendo tambĆ©m óbvia a sua contribuição para um melhor entendimento do fenómeno de Austen enquanto activo (económico) global. O segundo capĆtulo procura traƧar a evolução dos estudos de adaptação, com particular ĆŖnfase nos desafios que o campo enfrenta na actualidade. Historicamente, a adaptação sofreu de urna atitude derisória, nĆ£o apenas em termos generalistas - com variaƧƵes do comentĆ”rio "mas o livro Ć© melhor" repetindo-se em mĆŗltiplos contextos - mas tambĆ©m em ambiente acadĆ©mico, dada a sua posição de subaltemidade em relação Ć s duas Ć”reas com as quais frequentemente partilha tanto objectos de estudo como conceitos teóricos: a literatura e os estudos de cinema. Coincidentemente, o foco dos estudos de adaptação tem desde sempre sido em objectos que, partindo de textos literĆ”rios, concretizam a sua remediação para o meio audiovisual, particularmente o cinema. Desse modo, essa relação de subalternidade tem encontrado reforƧo no interior do próprio campo de estudo, apesar de inĆŗmeros apelos em contrĆ”rio (Naremore 2000). Em contraste, contribuiƧƵes recentes tĆŖm apontado novos caminhos, relevando os estudos da adaptação enquanto o espaƧo ideal para questionar assumpƧƵes teóricas, estĆ©ticas e culturais que ultrapassam a visĆ£o limitada e limitadora da avaliação de urna adaptação exclusivamente em função da sua relação com a obra original e lhe apontam mesmo um potencial de intervenção crĆtica e social (Elliott 2017). Partindo dos primórdios da teorização em adaptação (Bluestone 1957; McFarlane 1996), a parte inicial deste capĆtulo foca-se nas novas perspectivas trazidas pelos mĆŗltiplos estudos publicados jĆ” no sĆ©culo XXI, como consequĆŖncia da explosĆ£o de adaptaƧƵes cinematogrĆ”ficas e televisivas produzidas na Ćŗltima dĆ©cada do sĆ©culo anterior (Stam 2005; Hutcheon 2013 [2006]; Leitch 2007; Geraghty 2008; Cartmell & Whelehan 2010). O segundo sub-capĆtulo foca-se na discussĆ£o promovida na segunda dĆ©cada do sĆ©culo XXI, Ć medida que nos estudos de adaptação se fazia sentir a necessidade de alterar, de forma mais drĆ”stica, a forma como se discutia e teorizava a adaptação, ainda prejudicada por premissas e conceitos que, negados em teoria, subsistiam na prĆ”tica, nomeadamente o persistente argumento da fidelidade Ć obra adaptada (Leitch 2008). A revisĆ£o da literatura crĆtica foca-se nos estudos que procuraram responder a este desafio, com particular destaque para o aparecimento de diversos (e extensos) volumes de ensaios multi-autorais, tambĆ©m prova da maturidade e vitalidade do campo de estudos (Albrecht-Crane & Cutchins 2010; Cartmell 2012; Leitch 2017; Cutchins, Krebs & Voigts 2018). Como forma de sĆntese, o terceiro sub- capĆtulo propƵe urna definição de adaptação, composta a partir dos diversos contributos teóricos apresentados e tomada como base do trabalho a desenvolver subsequentemente. O quarto e Ćŗltimo sub-capĆtulo foca-se nas relaƧƵes entre adaptação, heritage film e Jane Austen, na medida em que estas contribuĆram para a construção de uma imagem fixa de Jane Austen na cultura popular e para a teorização da própria adaptação, dada a prevalĆŖncia de adaptaƧƵes de obras da autora enquanto objectos de estudo e exemplos paradigmĆ”ticos. A segunda parte desta tese concretiza entĆ£o a anĆ”lise das adaptaƧƵes escolhidas, Ć luz das consideraƧƵes teórico-crĆticas tecidas na parte inicial. O primeiro capĆtulo foca a sua atenção no romance Emma, seleccionando excertos relevantes para anĆ”lise breve e tendo como princĆpio orientador a noção de camadas ("layering"), em que o texto literĆ”rio e as construƧƵes crĆticas sobre o mesmo sĆ£o tidas como exemplos, entre outros, dessas camadas de interpretação que tanto contribuem para a concepção actual de Austen, como influenciam novas adaptaƧƵes/interpretaƧƵes das suas obras. O segundo capĆtulo explora as adaptaƧƵes para cinema e televisĆ£o, produzidas entre a dĆ©cada de 1970 e a prolifica dĆ©cada final do sĆ©culo XX, nomeadamente Emma (1972, BBC), Emma (1996, A&E/Meridian), Emma (1996, Miramax) e Clueless (1996). O terceiro capĆtulo centra-se na anĆ”lise de adaptaƧƵes produzidas no sĆ©culo XXI, do tradicional formato para televisĆ£o (Emma, 2009), a Bollywood (Aisha, 2010) e Ć adaptação para formato digital e interactivo (Emma Approved, 2013-2014). A estas juntam-se adaptaƧƵes para formato livro, de actualizaƧƵes para o tempo e espaƧo contemporĆ¢neos (Emma, 2014, The Austen Project), a comics (Jane Austen 's Emma, 2012, Marvel) e livros para crianƧas (Jane Austen 's Emma, 2013, Cozy Classics; Emma, 2015, Little Miss Austen). Finalmente, a tese defende que, apesar da impossibilidade em prever a evolução destes fenómenos dada a ainda recente transição para o paradigma digital, o historial das adaptaƧƵes de Emma revela um processo complexo, com intrincadas implicaƧƵes socioculturais, mas tambĆ©m estĆ©ticas e polĆticas que contradizem a habitual exoneração destes objectos, em particular dos que mais abertamente se inscrevem nos parĆ¢metros da cultura popular, enquanto objectos de estudo vĆ”lidos. As adaptaƧƵes de Austen em particular demonstram esta vertente e evidenciam a potencialidade, crĆtica, cultural e epistemológica dos estudos de adaptação.
A presente tese procura estudar o fenómeno da adaptação, simultaneamente enquanto processo de reapropriação do passado e como marcador da contemporaneidade, a partir do romance Emma (1815), de Jane Austen (1775-1817), cujo estatuto canónico Ć© indisputĆ”vel tanto a nĆvel literĆ”rio, como dos estudos de adaptação. Reconhecendo o tempo presente como um momento de redefinição para os estudos de adaptação, este estudo enquadra a discussĆ£o de adaptaƧƵes de Emma, nĆ£o apenas em relação a publicaƧƵes essenciais no campo de estudos (Hutcheon 2013 [2006]; Sanders 2016 [2006]; Cartmell & Whelehan 2010) mas tomando tambĆ©m em consideração contribuiƧƵes recentes para esse mesmo debate, em particular as que dilatam o escopo dos estudos de adaptação, tanto dentro como fora da academia (Newell 2017; Leitch 2017). Assim sendo, reconhecendo o alargado espectro próprio Ć adaptação, que compreende uma variedade de produtos culturais bem como a possibilidade de diversas permutas intermediais, a presente anĆ”lise centra-se em adaptaƧƵes para diversos media, incluindo os tradicionais produtos para cinema e televisĆ£o, dando particular ĆŖnfase a objectos digitais, visuais e em plataformas online, produzidos no sĆ©culo XXI. Consciente da actual importĆ¢ncia das humanidades digitais, esta tese tenciona contribuir para um repensar do lugar da literatura e outras artes na era do digital, bem como para os debates em curso quanto Ć redefinição dos estudos de adaptação enquanto um campo de estudos independente e interdisciplinar. Concomitantemente, esta tese procura tambĆ©m descrever e compreender a importĆ¢ncia cultural e social destas adaptaƧƵes enquanto objectos promotores do envolvimento dos consumidores numa cultura que se quer participativa (Jenkins 2006), bem como sublinhar o seu potencial para avaliação crĆtica numa era de globalização e redes sociais. O principal objectivo desta tese Ć© questionar de que forma a adaptação contribui para a reinterpretação e mesmo reformulação de Austen, autora canónica mas tambĆ©m Ćcone da cultura popular, para a contemporaneidade. Nesse sentido, a adaptação Ć© aqui considerada no Ć¢mbito de uma multitude de diferentes meios e formatos e nĆ£o limitada ao habitual quadro conceptual da adaptação romance-filme, mas antes tomando em conta uma complexa rede de objectos que evidencia um profundo cruzamento de influĆŖncias e referĆŖncias. A questĆ£o fundamental Ć qual esta tese procura responder Ć© de que forma os novos tipos de produção e recepção de conteĆŗdo, potenciados pelo recente paradigma digital, estĆ£o a alterar a maneira como pensamos a adaptação, mas tambĆ©m a literatura, a cultura, a sociedade e, em Ćŗltima anĆ”lise, como nos entendemos. O presente trabalho tenciona em particular abordar a questĆ£o da precedĆŖncia em adaptação, dado que diversas adaptaƧƵes recentes de Emma partem nĆ£o exclusivamente do romance, mas tambĆ©m ( e por vezes atĆ© de forma mais significativa) de adaptaƧƵes prĆ©vias e da percepção contemporĆ¢nea de Austen enquanto constructo cultural complexo. De forma a desenvolver estas questƵes, o presente estudo encontra-se dividido em duas partes distintas: a primeira, composta de dois capĆtulos, propƵe uma reflexĆ£o alargada da concepção de Austen enquanto produto da construção cultural, por um lado, e um exemplo arquetĆpico nos estudos de adaptação, por outro. A segunda parte, composta por Ā·trĆŖs capĆtulos, constitui a dimensĆ£o mais prĆ”tica da tese, com foco na anĆ”lise comparativa de diversas adaptaƧƵes de Emma. Tendo em conta esta divisĆ£o, a presente tese uucia, nĆ£o com o habitual capĆtulo teórico dedicado a uma revisĆ£o da literatura mais relevante no campo de estudo, mas com uma reflexĆ£o sobre a relevĆ¢ncia e preponderĆ¢ncia actuais de Jane Austen, Ćcone cultural que ultrapassa em muito os limites da figura literĆ”ria canónica. Essa reflexĆ£o parte da breve anĆ”lise de trĆŖs objectos publicados em 2017 como forma de celebrar o bicentenĆ”rio da morte de Austen: The Jane Austen Project (Kathleen A. Flynn), The Times Literary Supplement: Jane Austen (Stig Abell, coord.) e Jane Austen: Writer in the World (Kathryn Sutherland, coord.). Constatada nĆ£o apenas a omnipresenƧa de Austen na contemporaneidade mas as diversas ( e frequentemente contraditórias) interpretaƧƵes da autora e da sua obra, o capĆtulo prossegue com um levantamento de estudos que procuraram a definição crĆtica deste fenómeno (Wiltshire 2001; Harman 2007; Ells 2011; Dow & Hanson 2012; Johnson 2012; Looser 2017). O primeiro capĆtulo encerra com uma breve incursĆ£o em Ć”reas nas quais o fenómeno Austen enquanto constructo cultural complexo se afirma como potenciador de novas actividades, nomeadamente o turismo e a indĆŗstria heritage. Ainda que nĆ£o directamente dependentes de ou classificĆ”veis como adaptação de obras de Austen, a relação que muitas destas actividades estabelecem com essa mesma adaptação Ć© inegĆ”vel, sendo tambĆ©m óbvia a sua contribuição para um melhor entendimento do fenómeno de Austen enquanto activo (económico) global. O segundo capĆtulo procura traƧar a evolução dos estudos de adaptação, com particular ĆŖnfase nos desafios que o campo enfrenta na actualidade. Historicamente, a adaptação sofreu de urna atitude derisória, nĆ£o apenas em termos generalistas - com variaƧƵes do comentĆ”rio "mas o livro Ć© melhor" repetindo-se em mĆŗltiplos contextos - mas tambĆ©m em ambiente acadĆ©mico, dada a sua posição de subaltemidade em relação Ć s duas Ć”reas com as quais frequentemente partilha tanto objectos de estudo como conceitos teóricos: a literatura e os estudos de cinema. Coincidentemente, o foco dos estudos de adaptação tem desde sempre sido em objectos que, partindo de textos literĆ”rios, concretizam a sua remediação para o meio audiovisual, particularmente o cinema. Desse modo, essa relação de subalternidade tem encontrado reforƧo no interior do próprio campo de estudo, apesar de inĆŗmeros apelos em contrĆ”rio (Naremore 2000). Em contraste, contribuiƧƵes recentes tĆŖm apontado novos caminhos, relevando os estudos da adaptação enquanto o espaƧo ideal para questionar assumpƧƵes teóricas, estĆ©ticas e culturais que ultrapassam a visĆ£o limitada e limitadora da avaliação de urna adaptação exclusivamente em função da sua relação com a obra original e lhe apontam mesmo um potencial de intervenção crĆtica e social (Elliott 2017). Partindo dos primórdios da teorização em adaptação (Bluestone 1957; McFarlane 1996), a parte inicial deste capĆtulo foca-se nas novas perspectivas trazidas pelos mĆŗltiplos estudos publicados jĆ” no sĆ©culo XXI, como consequĆŖncia da explosĆ£o de adaptaƧƵes cinematogrĆ”ficas e televisivas produzidas na Ćŗltima dĆ©cada do sĆ©culo anterior (Stam 2005; Hutcheon 2013 [2006]; Leitch 2007; Geraghty 2008; Cartmell & Whelehan 2010). O segundo sub-capĆtulo foca-se na discussĆ£o promovida na segunda dĆ©cada do sĆ©culo XXI, Ć medida que nos estudos de adaptação se fazia sentir a necessidade de alterar, de forma mais drĆ”stica, a forma como se discutia e teorizava a adaptação, ainda prejudicada por premissas e conceitos que, negados em teoria, subsistiam na prĆ”tica, nomeadamente o persistente argumento da fidelidade Ć obra adaptada (Leitch 2008). A revisĆ£o da literatura crĆtica foca-se nos estudos que procuraram responder a este desafio, com particular destaque para o aparecimento de diversos (e extensos) volumes de ensaios multi-autorais, tambĆ©m prova da maturidade e vitalidade do campo de estudos (Albrecht-Crane & Cutchins 2010; Cartmell 2012; Leitch 2017; Cutchins, Krebs & Voigts 2018). Como forma de sĆntese, o terceiro sub- capĆtulo propƵe urna definição de adaptação, composta a partir dos diversos contributos teóricos apresentados e tomada como base do trabalho a desenvolver subsequentemente. O quarto e Ćŗltimo sub-capĆtulo foca-se nas relaƧƵes entre adaptação, heritage film e Jane Austen, na medida em que estas contribuĆram para a construção de uma imagem fixa de Jane Austen na cultura popular e para a teorização da própria adaptação, dada a prevalĆŖncia de adaptaƧƵes de obras da autora enquanto objectos de estudo e exemplos paradigmĆ”ticos. A segunda parte desta tese concretiza entĆ£o a anĆ”lise das adaptaƧƵes escolhidas, Ć luz das consideraƧƵes teórico-crĆticas tecidas na parte inicial. O primeiro capĆtulo foca a sua atenção no romance Emma, seleccionando excertos relevantes para anĆ”lise breve e tendo como princĆpio orientador a noção de camadas ("layering"), em que o texto literĆ”rio e as construƧƵes crĆticas sobre o mesmo sĆ£o tidas como exemplos, entre outros, dessas camadas de interpretação que tanto contribuem para a concepção actual de Austen, como influenciam novas adaptaƧƵes/interpretaƧƵes das suas obras. O segundo capĆtulo explora as adaptaƧƵes para cinema e televisĆ£o, produzidas entre a dĆ©cada de 1970 e a prolifica dĆ©cada final do sĆ©culo XX, nomeadamente Emma (1972, BBC), Emma (1996, A&E/Meridian), Emma (1996, Miramax) e Clueless (1996). O terceiro capĆtulo centra-se na anĆ”lise de adaptaƧƵes produzidas no sĆ©culo XXI, do tradicional formato para televisĆ£o (Emma, 2009), a Bollywood (Aisha, 2010) e Ć adaptação para formato digital e interactivo (Emma Approved, 2013-2014). A estas juntam-se adaptaƧƵes para formato livro, de actualizaƧƵes para o tempo e espaƧo contemporĆ¢neos (Emma, 2014, The Austen Project), a comics (Jane Austen 's Emma, 2012, Marvel) e livros para crianƧas (Jane Austen 's Emma, 2013, Cozy Classics; Emma, 2015, Little Miss Austen). Finalmente, a tese defende que, apesar da impossibilidade em prever a evolução destes fenómenos dada a ainda recente transição para o paradigma digital, o historial das adaptaƧƵes de Emma revela um processo complexo, com intrincadas implicaƧƵes socioculturais, mas tambĆ©m estĆ©ticas e polĆticas que contradizem a habitual exoneração destes objectos, em particular dos que mais abertamente se inscrevem nos parĆ¢metros da cultura popular, enquanto objectos de estudo vĆ”lidos. As adaptaƧƵes de Austen em particular demonstram esta vertente e evidenciam a potencialidade, crĆtica, cultural e epistemológica dos estudos de adaptação.
Descrição
Palavras-chave
Austen, Jane, 1775-1817 - AdaptaƧƵes - História e crĆtica Austen, Jane - 1775-1817. Emma, AdaptaƧƵes Romance inglĆŖs - AdaptaƧƵes - sĆ©c.18-19 - História e crĆtica Cinema e literatura TelevisĆ£o e literatura Literatura e informĆ”tica Meios de comunicação social e literatura Intermidialidade Teses de doutoramento - 2020
