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Authors
Abstract(s)
As alterações climáticas e as suas implicações na superfície, na atmosfera e no oceano têm sido alvo de um número crescente de estudos que têm contribuído para a sua melhor compreensão, em particular nas alterações já mensuráveis no clima atual. Neste contexto, a comunidade científica tem vindo a concentrar-se cada vez mais no seu impacto sobre os ciclones que apresentam características tropicais, por serem classificados como sistemas meteorológicos com impactos devastadores e graves consequências a nível social e económico. A atividade ciclónica de origem tropical na região do Atlântico Norte apresenta uma grande variabilidade climática, caracterizada por grandes flutuações interanuais (por exemplo em termos do número de ciclones, apenas 9 ciclones ocorreram em 2014 enquanto em 2020 foram registados mais de 30). A formação destas tempestades está geralmente concentrada numa área, definida entre os 10 ºN e 20 ºN desde a costa oeste de Africa até à América do Norte, que é denominada de ‘Main Development Region’, a este da América do Norte e do Golfo do México. Desde o final do século XX, o nordeste do Atlântico Norte tem vindo a apresentar um aparente aumento de ciclones com características tropicais. O interesse da comunidade científica nestas tempestades deve-se à ideia de que a ocorrência de ciclones tropicais é altamente improvável nas latitudes médias, devido ao ambiente hostil caracterizado por valores relativamente baixos da temperatura da superfície do mar e elevado efeito de corte do vento (wind shear). No entanto, a formação de ciclones subtropicais (com características híbridas entre sistemas tropicais e extratropicais) torna a ocorrência dos ciclones tropicais, nestas latitudes, mais plausível, pois através de um processo denominado por transição tropical, um ciclone subtropical pode transformar-se num sistema com características tropicais. Estes sistemas híbridos formam-se através da ocorrência de instabilidade baroclínica, que compensa a falta de energia de águas quentes necessária para manter sistemas tropicais. Estudos revelam que no nordeste do Atlântico, os ciclones tropicais resultantes da transição tropical ocorrem sobre temperaturas do mar abaixo do tradicional 26.5 ºC, mas em ambientes caraterizados por estabilidade reduzida ou caraterizados pela presença de uma perturbação na alta troposfera. Esta última característica poderia então reduzir a altura da tropopausa e aumentar a taxa de variação da temperatura com a altitude (lapse rate), o que facilita o desenvolvimento de convecção profunda e a ocorrência da transição tropical. Importa então perceber as razões que poderão estar na base desta modificação fundamental do clima da região nordeste do Atlântico Norte, que tem permitido a ocorrência de sistemas híbridos de origem tropical e subtropical. Com base na literatura disponível sobre o assunto, foram identificados três fatores essenciais para a manutenção deste tipo de tempestades: 1) temperatura da superfície do mar, 2) o efeito de corte do vento, medido entre os níveis baixos e os níveis altos da troposfera (wind shear), e 3) a taxa de variação da temperatura (o gradiente adiabático ou ‘lapse rate’) entre a baixa e a média troposfera (1000-500 hPa). Neste trabalho, e numa primeira abordagem, foram analisadas as distribuições espaciais e as alterações a longo prazo destas variáveis, para a estação de tempestades tropicais do Atlântico Norte (que vai desde 1 de junho até 30 de novembro) e também para um período de tempo mais curto, definido entre 1 de setembro e 30 de novembro (período este onde se tem verificado maior incidência deste tipo de tempestades no nordeste do Atlântico). Nesta análise, a temperatura da superfície do mar, as componentes zonal e meridional do vento horizontal aos 850 e aos 200 hPa, e a temperatura do ar aos 1000 e aos 500 hPa foram obtidos da reanálise ‘European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF) reanalysis ERA5’ para o período 1979 - 2019. Esta análise é complementada com informações observacionais da base de dados HURDAT (HURicane DATabase), que consiste numa análise a posteriori de cada ciclone tropical, em cada ponto da sua trajetória, com indicação de variáveis fundamentais para a caracterização destas tempestades, como a localização, a pressão mínima, a rajada máxima, o raio de ação dos ventos ciclónicos, entre outras. Os resultados apontam para uma consistente expansão das áreas de elevadas temperaturas do mar para norte/nordeste. A área de interesse (definida entre os 10º-35 ºW e 30º-50 ºN e denominada no contexto deste trabalho por nordeste do Atlântico) é caracterizada por temperaturas entre os 15-23 ºC, claramente abaixo do limiar típico considerado para génese de ciclones tropicais (26.5 ºC). Quanto ao efeito de corte do vento (gradiente adiabático), as alterações a longo prazo apontam para um aumento (decréscimo) nesta região durante o período de estudo, sendo estas variações mais evidentes no período entre setembro e novembro. Sendo extensamente documentada na literatura a necessidade de valores elevados da temperatura do mar e valores baixos de efeito de corte do vento para a manutenção de sistemas tropicais, a abordagem anterior aponta para efeitos contraditórios destas variáveis ao longo do período de estudo. Para uma análise mais detalhada e aprofundada, foram então estudadas estas três variáveis para cinco casos de estudo, que incluem a Tempestade Vince em 2005, a Tempestade Ophelia em 2017, a Tempestade Leslie em 2018 e as Tempestades Lorenzo e Pablo em 2019. Esta análise mostra que as tempestades que não tiveram uma génese típica das latitudes baixas (tais como Vince e Pablo), formam-se num ambiente de temperaturas do mar relativamente baixas (valores entre os 20º e os 26 ºC), e com wind shear não demasiado intenso (com valores entre os 15 e 25 m/s). Os valores teoricamente insuficientes da temperatura do mar são então compensados por um gradiente adiabático favorável (i.e., com valores próximos dos 6 ºC/km), implicando elevada instabilidade e, por conseguinte, a ocorrência de convecção profunda e libertação de calor latente, necessários para o desenvolvimento e formação de tempestades com características tropicais. Alguns estudos recentes já demonstraram que metade das tempestades tropicais que se desenvolvem no Norte do Atlântico estão localizadas em regiões de forte instabilidade baroclínica, suplementando fluxos de energia entre a superfície e a atmosfera. Com a análise detalhada destes casos de estudo foi então possível definir alguns limiares empíricos para as três variáveis consideradas, permitindo identificar regiões com: i) condições mínimas de SST e máximas de efeito de corte do vento onde é possível a manutenção de ciclones tropicais, fora dos quais o sistema se dissipa ou transita para um sistema extratropical e ii) um intervalo de valores para cada variável no qual um sistema com origem não puramente tropical se pode formar e desenvolver (e eventualmente sofrer uma transição tropical). Estes limiares empíricos são definidos pela primeira vez para a região do Atlântico nordeste próxima da Península Ibérica, e apesar do seu caráter exploratório, apresentam elevado potencial operacional. Desta forma, foram observadas as alterações a longo prazo das distribuições individuais de cada variável (a partir dos seus dados diários), assim como da ocorrência conjunta para cada par de variáveis na região nordeste do Atlântico Norte. Esta abordagem permitiu identificar que no nordeste do Atlântico Norte existe um aumento de casos com coincidência de temperaturas do mar relativamente altas (embora abaixo do limiar tradicional dos 26.5 ºC) e um baixo efeito de corte do vento e/ou gradiente adiabático entre 5 e 6 ºC/km. Quando observamos a sobreposição dos limites definidos/propostos às distribuições combinadas observamos que nos regimes contidos nestes limites, o nordeste do Atlântico Norte é caraterizado por um aumento da frequência em todas as combinações favoráveis, tanto no período junho-novembro como em setembro-novembro (mas com uma maior incidência neste último). Assim, no geral, a génese de ciclones tropicais ‘puros’ continua a ser improvável no Atlântico Nordeste, visto esta região apresentar valores climatológicos ainda afastados dos requisitos mínimos. Todavia, os resultados obtidos mostram que a manutenção destes sistemas até latitudes mais elevadas antes de sofrerem um processo de extra-tropicalização (ou dissipação), assim como a formação e manutenção de sistemas híbridos (que podem vir a transitar para ciclones tropicais), parece cada vez mais plausível, como consequência das tendências de alteração climática. Assim, importa estender o estudo da evolução destas variáveis num contexto de clima futuro, em particular tendo em conta o tipo de análise proposto neste trabalho. No entanto, a relação entre os ciclones tropicais e as alterações climáticas não está totalmente entendida, devido ao facto da formação destes sistemas não ser uma teoria geral, não sendo possível calcular com significância o número de ciclones tropicais que irão ser gerados. Embora tenha havido um grande progresso no problema da formação e intensificação, a sua ligação com alterações no clima não é bem conhecida ainda. Compreender estas ligações no clima presente é então fundamental para melhorar a confiança das projeções futuras.
Tropical Cyclones are weather systems well-known for causing considerable damage to both human life and property. As global climate change continues to be an area of concern and significant scientific inquiry, there are many questions on how tropical cyclones frequencies and intensities may be affected by a warming climate. In the North Atlantic, most systems originate and remain near the Caribbean Sea, the Gulf of Mexico and even along the east coast of North America. Only a few actually reach the western and northwestern Europe. Recent research suggests that climate warming causes a poleward and eastward extension of the tropical cyclone genesis area, but it is still uncertain whether these changes, along with the increase of sea surface temperature, are large enough to allow tropical cyclones to reach Europe. Over the last two decades, some significant cases of cyclones with tropical characteristics have occurred in the northeast Atlantic which some impacted western Europe. The interest of the scientific community in these events is due to the idea that tropical cyclones could not in principle develop over these regions. However, an apparent recent increase in their occurrence, as well as in the number of subtropical systems and tropical transitions has brought this topic to discussion. These tropical cyclones that undergo a tropical transition form in environmental conditions distinct from the classical tropical cyclone environment. This work analyzes the spatial and temporal variability of tropical cyclones in the Northern Atlantic basin, with particular emphasis on systems affecting its northeastern sector, from 1979 to 2019. Besides providing a climatology of these systems, relying on reanalysis and observational data, specific parameters that influence the genesis and development of tropical cyclones were analyzed in particular detail, namely: i) the Sea Surface Temperature (SST); ii) Vertical Wind Shear (VWS); iii) and the low to mid- tropospheric Lapse Rate (Γ). The analysis is made comparing two time periods: i) June 1 to November 30 (the North Atlantic Hurricane Season); and ii) September 1 to November 30 (period in which the northeast Atlantic is more propitious to tropical cyclone activity). At the decadal scale, our results show an evident increase in SSTs and a northward expansion of warm oceanic conditions, while seasonal averages of VWS and Γ alone do not point towards a clear increase of favorable conditions for TC development and maintenance at higher latitudes. However, and after analyzing the specific surface and environmental conditions around the center of five storms affecting the area of interest, a set of empirical thresholds for each variable is proposed in order to identify the combined regimes that favors the occurrence of these storms. The analysis of joint distributions of these variables revealed that there is a non-negligible increase in the frequency of these joint events, where the analyzed variables range within the proposed thresholds simultaneously, at daily scales. This analysis supports an increase in the frequency of episodes favoring the formation and maintenance of tropical systems, as well as the occurrence of hybrid/subtropical systems, particularly during the September-November timeframe, which we have shown to be the more favorable season for TC occurrence within the study area. It is important to note that this is a first approach towards the definition of potential thresholds for tropical cyclone formation and maintenance in the northeastern Atlantic. Despite being a preliminary attempt based on five case studies, the obtained results demonstrate its potential for operational use.
Tropical Cyclones are weather systems well-known for causing considerable damage to both human life and property. As global climate change continues to be an area of concern and significant scientific inquiry, there are many questions on how tropical cyclones frequencies and intensities may be affected by a warming climate. In the North Atlantic, most systems originate and remain near the Caribbean Sea, the Gulf of Mexico and even along the east coast of North America. Only a few actually reach the western and northwestern Europe. Recent research suggests that climate warming causes a poleward and eastward extension of the tropical cyclone genesis area, but it is still uncertain whether these changes, along with the increase of sea surface temperature, are large enough to allow tropical cyclones to reach Europe. Over the last two decades, some significant cases of cyclones with tropical characteristics have occurred in the northeast Atlantic which some impacted western Europe. The interest of the scientific community in these events is due to the idea that tropical cyclones could not in principle develop over these regions. However, an apparent recent increase in their occurrence, as well as in the number of subtropical systems and tropical transitions has brought this topic to discussion. These tropical cyclones that undergo a tropical transition form in environmental conditions distinct from the classical tropical cyclone environment. This work analyzes the spatial and temporal variability of tropical cyclones in the Northern Atlantic basin, with particular emphasis on systems affecting its northeastern sector, from 1979 to 2019. Besides providing a climatology of these systems, relying on reanalysis and observational data, specific parameters that influence the genesis and development of tropical cyclones were analyzed in particular detail, namely: i) the Sea Surface Temperature (SST); ii) Vertical Wind Shear (VWS); iii) and the low to mid- tropospheric Lapse Rate (Γ). The analysis is made comparing two time periods: i) June 1 to November 30 (the North Atlantic Hurricane Season); and ii) September 1 to November 30 (period in which the northeast Atlantic is more propitious to tropical cyclone activity). At the decadal scale, our results show an evident increase in SSTs and a northward expansion of warm oceanic conditions, while seasonal averages of VWS and Γ alone do not point towards a clear increase of favorable conditions for TC development and maintenance at higher latitudes. However, and after analyzing the specific surface and environmental conditions around the center of five storms affecting the area of interest, a set of empirical thresholds for each variable is proposed in order to identify the combined regimes that favors the occurrence of these storms. The analysis of joint distributions of these variables revealed that there is a non-negligible increase in the frequency of these joint events, where the analyzed variables range within the proposed thresholds simultaneously, at daily scales. This analysis supports an increase in the frequency of episodes favoring the formation and maintenance of tropical systems, as well as the occurrence of hybrid/subtropical systems, particularly during the September-November timeframe, which we have shown to be the more favorable season for TC occurrence within the study area. It is important to note that this is a first approach towards the definition of potential thresholds for tropical cyclone formation and maintenance in the northeastern Atlantic. Despite being a preliminary attempt based on five case studies, the obtained results demonstrate its potential for operational use.
Description
Tese de mestrado em Ciências Geofísicas (Meteorologia e Oceanografia), Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências, 2021
Keywords
Ciclones tropicais Temperatura da superfície do mar Efeito de corte do vento Gradiente Adiabático Teses de mestrado - 2021
