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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
A estimativa da idade à morte é um parâmetro de grande relevância na Antropologia Biológica
e Bioarqueologia. Este parâmetro é usado para determinar a idade dos indivíduos de coleções
arqueológicas onde a idade à morte não é conhecida, auxiliando na caracterização paleodemográfica da
população estudada, contribuindo assim para um entendimento mais profundo das suas dinâmicas
sociais, econômicas e biológicas.
Os métodos utilizados para realizar a estimativa da idade à morte baseiam-se na ideia de que a
idade cronológica de um indivíduo corresponde diretamente à sua idade biológica. Essa correspondência
é inferida através dos estágios de maturação que ficam gravados nos seus remanescentes biológicos no
momento da morte. Estes estágios de maturação incluem diferentes fases de desenvolvimento
observadas tanto no esqueleto humano quanto na dentição. No esqueleto, considera-se o crescimento
linear dos ossos, o aparecimento de centros de ossificação primários e secundários, e a fusão epifisária.
Na dentição, são considerados o desenvolvimento e a erupção dos dentes. Estes últimos são amplamente
utilizados, uma vez que fornecem um vislumbre de forma relativamente precisa sobre a idade biológica
de um indivíduo.
No entanto, fatores externos aos indivíduos podem influenciar os diversos indicadores etários
utilizados. Esses fatores podem fazer com que a progressão dos estágios de maturação não seja sempre
linear, como tem sido tradicionalmente representada na literatura. É essencial considerar a variação
intra-individual, uma vez que diferentes indivíduos podem experimentar diferentes ritmos de
crescimento e desenvolvimento, influenciados por fatores externos, tais como: nutrição, estado geral da
saúde individual e coletiva, stresse fisiológico e condições socioeconômicas.
Alterações induzidas por stresse fisiológico podem servir como indicadores do estado geral de
saúde de um indivíduo. O stresse fisiológico pode retardar o crescimento linear das diáfises de ossos
longos e/ou os tempos de fusão epifisária, que são tradicionalmente usados como indicadores etários. É
importante notar que o stresse fisiológico não afeta apenas o crescimento linear do esqueleto, mas
também causa alterações nos ossos e dentes, tais como hipoplasias lineares do esmalte, hiperostose
porótica, cribra orbitalia, cribra humeralis, cribra femoralis e determinadas reações do periósteo, que
podem ser observadas em osso seco, mesmo após a decomposição do periósteo.
A etiologia destas alterações não é extensivamente documentada devido à dificuldade em
estabelecer relações causais, sendo muitas dessas ligações ainda desconhecidas. A conexão entre cribra
orbitalia e hiperostose porótica com anemia é a mais explorada, sugerindo que esta última será a causa
mais provável destas alterações. No entanto, cada caso individual deve ser avaliado como único, e o
estudo da distribuição de alterações induzidas por stress fisiológico no esqueleto é necessário para a
realização de um diagnóstico diferencial.
Ao estimar a idade à morte, é importante considerar até que ponto a variabilidade populacional
e individual pode afetar estas estimativas, já que não existem métodos universais de estimativa da idade
com altos níveis de precisão e fiabilidade. Como mencionado anteriormente, o stresse nutricional e/ou
fisiológico pode ter um grande impacto na saúde e desenvolvimento do indivíduo. Consequentemente,
isso pode afetar a idade cronológica estimada com base no estágio de desenvolvimento do indivíduo,
seja subestimando (em casos de desenvolvimento retardado) ou superestimando (em casos onde
alterações ósseas associadas a processos degenerativos são usadas para estimar a idade). Esse viés
impacta os resultados obtidos tanto na Antropologia Biológica quanto na Forense, distorcendo o perfil
demográfico, impedindo a identificação positiva de um conjunto de restos humanos ou fornecendo uma
estimativa de idade incorreta em indivíduos vivos.
Assim sendo, uma ligação direta entre os estágios de desenvolvimento de um indivíduo e a idade
cronológica pode nem sempre ser observada. A avaliação do estágio de maturidade de um indivíduo no momento da morte não deve ser interpretada como um vínculo direto com a idade cronológica, pois
pode não fornecer uma estimativa precisa em todos os casos. Em vez disso, deve ser interpretada como
uma coleção de informações sobre a história de vida do indivíduo. Estudos sobre o desenvolvimento
humano devem ser realizados não apenas com o objetivo de estimar a idade à morte, mas também para
entender o ambiente em que o indivíduo se desenvolveu até o momento da sua morte. O paradoxo
osteológico também deve ser considerado, já que indivíduos que sucumbem a uma morte prematura
(excluindo casos de assassinato, acidentes e doenças súbitas) podem não ser representativos dos padrões
de desenvolvimento da população total. Nesse sentido, a estimativa da idade à morte pode beneficiar de
uma abordagem mais holística, em que os indicadores de idade são observados juntamente com
marcadores de stresse fisiológico. Isso proporcionará uma leitura mais abrangente do desenvolvimento
do indivíduo ao longo da vida, permitindo uma estimativa mais fiável da idade à morte e favorecendo
uma abordagem biocultural ao estudo dos restos humanos.
A relevância do presente estudo está ligada à crescente necessidade de estimar a idade em
indivíduos (vivos e falecidos), acompanhada pelo aumento do número de métodos de estimativa de idade
disponíveis. Esses métodos precisam de ser testados para entender sua fiabilidade e precisão quando
aplicados a indivíduos cuja história de vida é desconhecida. A presente dissertação testou isso através
da comparação entre as estimativas de idade à morte fornecidas por métodos baseados no
desenvolvimento ósseo e dentário. Já que o desenvolvimento dentário tende a ser menos afetado por
fatores externos e apresenta menores taxas de variação entre populações, as estimativas de idade obtidas
a partir desse desenvolvimento podem ser comparadas às fornecidas pelo desenvolvimento ósseo. A
hipótese era de que essas estimativas seriam consideravelmente diferentes, indicando que a taxa de
desenvolvimento ósseo pode diferir da taxa de desenvolvimento dentário. Isso também implica que as
taxas de desenvolvimento ósseo da amostra presente são diferentes das amostras usadas para
desenvolver os métodos de estimativa de idade à morte.
Essa análise foi complementada pela comparação entre as características de cada método
(origem geográfica das amostras, cronologia, status socioeconômico e metodologias empregadas), para
verificar se há alguma tendência entre os métodos de desenvolvimento ósseo que forneceram estimativas
de idade à morte semelhantes aos métodos de desenvolvimento dentário, e a existência de alterações
induzidas por stresse. A hipótese era de que indivíduos com mais discrepâncias entre as estimativas de
desenvolvimento ósseo e dentário também apresentariam um número maior de alterações induzidas por
stresse. Nesse caso, a existência dessas alterações poderia ser usada como um indicador de stresse
fisiológico durante a vida, o que pode traduzir-se num grande impacto no desenvolvimento ósseo.
A amostra utilizada na presente dissertação era formada por 11 conjuntos de remanescentes
ósseos humanos da coleção arqueológica do Hospital Real de Todos os Santos (Lisboa, séc. XVIII). Ao
todo, foram utilizados cinquenta métodos de estimativa da idade à morte baseados no desenvolvimento
ósseo e seis baseados no desenvolvimento dentário. Os valores obtidos foram transformados num
diagrama para cada indivíduo para permitir a comparação entre os diferentes métodos aplicados e com
os dados relativos à presença de alterações induzidas por stress.
Os resultados revelaram que os métodos baseados no desenvolvimento ósseo tendencialmente
subestimavam a idade à morte dos indivíduos quando comparados com os métodos baseados no
desenvolvimento dentário. A maioria dos métodos que forneceram estimativas semelhantes aos métodos
de desenvolvimento dentário baseava-se em amostras com diferentes origens geográficas, datadas do
século XXI e com estatuto socioeconómico considerado entre baixo e médio. Isso sugere que o contexto
socioeconômico e o estado geral de saúde dos indivíduos podem ter um impacto significativo na precisão
dos métodos de estimativa da idade à morte.
Os indivíduos da presente amostra apresentavam elevadas taxas de alterações induzidas por
stresse, nomeadamente hipoplasias lineares do esmalte e reações do periósteo. Essas alterações indicam que os indivíduos sofreram níveis significativos de stresse fisiológico durante a vida, o que pode ter
influenciado o seu desenvolvimento ósseo e dentário.
Com base nesses resultados, conclui-se que a estimativa da idade à morte deve ser baseada numa
combinação de métodos de desenvolvimento ósseo e dentário, análise patológica e uma avaliação dos
níveis crónicos de stresse fisiológico. Esta abordagem combinada pode minimizar o erro associado à
estimativa da idade à morte e fornecer uma imagem mais precisa e completa das condições de vida e
saúde das populações antigas.
Em suma, a estimativa da idade à morte é uma ferramenta crucial na Antropologia Biológica e
na Bioarqueologia. No entanto, é necessário considerar a influência de fatores externos e individuais
para aumentar a precisão das estimativas. A combinação de diferentes métodos e a análise de indicadores
de stresse fisiológico poderam, assim, contribuir significativamente para compreensão mais profunda e
detalhada das populações antigas.
Age-at-death (AAD) estimation is a cornerstone in Biological Anthropology, used together with other parameters to establish a demographic and social profile of archaeological samples. Methods used to estimate AAD are based on the notion that chronological age corresponds to biological age, and that the latter can be directly inferred from maturational stages. Stress induced changes (SIC) can be used as indicators of an individual’s general state of health (such as periosteal reactions (PR) and linear enamel hypoplasias (LEH)) and as markers for several diseases and physiological stress. Physiological stress may also delay bone diaphysis growth and/or epiphyseal fusion, used as age indicators. The present dissertation had three main aims: ● to assess the reliability of different AAD estimation methods through the comparison of the estimates given by dental development (DD) and bone development (BD) methods, allowing to explore intra-individual variation. ● to explore the possibility that external factors, such as the individual’s general state of health, diet, and socioeconomic status (SES), could be influencing the results obtained. ● to assess if there was any correspondence between SIC rates and the possible age indicators (IND) discrepancies observed. The sample used in this dissertation comprises 11 immature skeletons from the Hospital Real de Todos os Santos (HRTS) archaeological collection (18th Century, Lisbon, Portugal). A total of fifty BD methods and six DD methods were used. Data obtained from these methods was compiled into individual based diagrams to allow within and between methods comparisons and additional data incorporation specific to each individual (e.g., pathological assessment via the observation of SIC). The results revealed that BD methods tended to underestimate age when compared to the DD methods. On the other hand, most BD methods that gave similar AAD estimates to DD methods used samples from different geographical origins, from the 21st Century and with low to middle socioeconomic status. The individuals from the HRTS sample also showed a high rate of SIC (especially LEH and PR). AAD assessment should combine a multiple methodological approach integrating BD and DD methods, pathological assessment, and an evaluation of chronic levels of stress in order to minimize age assessment errors.
Age-at-death (AAD) estimation is a cornerstone in Biological Anthropology, used together with other parameters to establish a demographic and social profile of archaeological samples. Methods used to estimate AAD are based on the notion that chronological age corresponds to biological age, and that the latter can be directly inferred from maturational stages. Stress induced changes (SIC) can be used as indicators of an individual’s general state of health (such as periosteal reactions (PR) and linear enamel hypoplasias (LEH)) and as markers for several diseases and physiological stress. Physiological stress may also delay bone diaphysis growth and/or epiphyseal fusion, used as age indicators. The present dissertation had three main aims: ● to assess the reliability of different AAD estimation methods through the comparison of the estimates given by dental development (DD) and bone development (BD) methods, allowing to explore intra-individual variation. ● to explore the possibility that external factors, such as the individual’s general state of health, diet, and socioeconomic status (SES), could be influencing the results obtained. ● to assess if there was any correspondence between SIC rates and the possible age indicators (IND) discrepancies observed. The sample used in this dissertation comprises 11 immature skeletons from the Hospital Real de Todos os Santos (HRTS) archaeological collection (18th Century, Lisbon, Portugal). A total of fifty BD methods and six DD methods were used. Data obtained from these methods was compiled into individual based diagrams to allow within and between methods comparisons and additional data incorporation specific to each individual (e.g., pathological assessment via the observation of SIC). The results revealed that BD methods tended to underestimate age when compared to the DD methods. On the other hand, most BD methods that gave similar AAD estimates to DD methods used samples from different geographical origins, from the 21st Century and with low to middle socioeconomic status. The individuals from the HRTS sample also showed a high rate of SIC (especially LEH and PR). AAD assessment should combine a multiple methodological approach integrating BD and DD methods, pathological assessment, and an evaluation of chronic levels of stress in order to minimize age assessment errors.
Descrição
Tese de Mestrado, Biologia Humana e Ambiente, 2024, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências
Palavras-chave
Idade à morte Desenvolvimento ósseo Desenvolvimento dentário Alterações induzidas por stress Indicadores etários Teses de mestrado - 2024
