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Autores
Resumo(s)
O arquipélago dos Açores, localizado no Oceano Atlântico Norte, é um dos poucos locais do mundo
onde os cachalotes (Physeter macrocephalus L., 1758) podem ser observados de forma fiável durante
todo o ano, maioritariamente grupos compostos por fêmeas, crias e juvenis com visitas ocasionais de
machos adultos. Esta espécie é atualmente designada a nível global como Vulnerável na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, o que torna muito importante avaliar a utilização de habitat pela
espécie e a importância dos Açores como zona de maternidade.
Após o fim da baleação, a observação de cetáceos tornou-se uma das atividades no setor do turismo
de maior importância para a região, permitindo também a recolha de dados para fins científicos a partir
destas embarcações. O principal objetivo deste estudo é avaliar a importância dos Açores como área
de maternidade de cachalotes, através da recolha de registos de nascimentos e da análise da presença
de crias nos grupos avistados. Avalia também a influência da batimetria da região na utilização do
habitat e na presença de crias no grupo, bem como a sua presença sazonal e anual. Com base numa
análise das rotas dos navios em torno do Grupo Central e Oriental dos Açores, considerando a
distribuição dos cachalotes na área, são propostas medidas de mitigação para a conservação da espécie.
Os dados de avistamentos foram obtidos de duas fontes: a base de dados da empresa Naturalist, com
dados de 2016 a 2022, correspondendo a avistamentos no Grupo Central e a plataforma MONICET,
da qual foram utilizados dados exclusivamente da empresa Terra Azul para a região de São Miguel,
de 2009 a 2022. De forma a evitar parte do enviesamento de resultados, para cada data, foi considerado
apenas um avistamento da espécie. Para avaliar o uso do habitat, considerando ambos os conjuntos de
dados, foram realizadas duas análises de Kruskal-Wallis no RStudio. A primeira análise teve como
objetivo verificar se existiam diferenças estatísticas significativas no uso de habitats entre o Grupo
Central e a Ilha de São Miguel, onde apenas o declive e a distância à costa apresentaram tais diferenças,
possivelmente associadas às próprias características do fundo marinho de cada região. O objetivo da
segunda análise foi avaliar a preferência de habitat dos grupos de cachalotes com e sem crias de acordo
com a influência das mesmas variáveis para cada região, em que apenas a profundidade para o Grupo
Central apresentou diferenças estatísticas significativas.
Os dados de registos plurianuais de cachalotes em torno das ilhas de São Miguel, Faial e Pico, revelam
que os grupos de cachalotes estão presentes durante todo o ano nos Açores. Para ambas as regiões,
Grupo Central e São Miguel, é destacada a preferência por profundidades de 800-1100m. Através do
software QGIS foi também possível analisar, de uma forma geral, a distribuição da espécie ao redor
destes grupos de ilhas considerando, numa fase inicial, todos os avistamentos disponíveis da espécie e
posteriormente apenas dos dados pertencentes às duas empresas selecionadas. Apesar de terem sido
produzidos mapas apenas com avistamentos de crias, de forma a avaliar se existiriam áreas específicas
onde estas seriam mais avistadas, não se encontraram diferenças relativamente à distribuição dos
avistamentos na sua totalidade.
Para analisar a percentagem de crias presentes nos grupos para ambas as regiões dos Açores de acordo
com a sazonalidade, foi totalizado o número de avistamentos para cada mês, ao longo dos vários anos
do conjunto de dados. O número de saídas/dias de mar para cada mês, ao longo dos vários anos do
conjunto de dados, foi também totalizado para ser utilizado como medida de esforço. No Grupo
Central, as crias estão presentes durante praticamente todo o ano. Apesar de não se terem registado
saídas entre novembro e fevereiro, possivelmente devido às más condições climatéricas, é expetável
que a espécie permaneça na região. Em relação aos avistamentos em São Miguel, as crias encontramse presentes na maioria dos meses, à exceção de fevereiro e dezembro. A presença de crias foi notória
nos grupos, em 55,2% dos avistamentos do Grupo Central e em 22,5% dos avistamentos da Ilha de
São Miguel. Registos de nascimentos de cachalotes nos Açores foram recolhidos de fontes bibliográficas e dos registos de diferentes empresas, revelando uma maior incidência no final da
primavera e nos meses de verão, sendo agosto o mês com mais registos. A maioria dos nascimentos
foi descrita de forma muito semelhante, descrevendo-se a agregação de vários indivíduos na zona, em
socialização e mostrando alguma agitação. Geralmente, é observada uma mancha de sangue na
superfície em tons vermelho-escuro, distinguindo-se um recém-nascido através do seu pequeno
tamanho em comparação aos restantes indivíduos, além de apresentar mais pregas/rugas na pele e
ausência de marcas na mesma que normalmente são mais observadas em juvenis e adultos.
Os habitats dos cachalotes sobrepõem-se por vezes a zonas de elevado tráfego marítimo,
nomeadamente as linhas de ferry que ligam o Faial, Pico e São Jorge, no caso do Grupo Central, e a
zona a sul de São Miguel, no caso do Grupo Oriental, devido à localização dos principais portos. De
modo a analisar possíveis zonas de risco para a espécie, foram analisadas as rotas de 3 tipos diferentes
de embarcações: navios-petroleiros, navios de carga e navios de passageiros. Os dados referentes às
rotas, correspondentes a 4 anos de registos, foram carregadas no QGIS de forma que fosse possível
analisar a sua sobreposição com as zonas de maiores concentrações de avistamentos de cachalotes.
Para os navios de carga, o número mais elevado de rotas por km2 por ano, em zonas de avistamentos,
foi de 177 rotas por km2 por ano entre as ilhas do Pico e São Jorge e 438 para São Miguel. No que diz
respeito aos navios-petroleiros, foram registadas 137 rotas por km2 por ano na ilha de São Miguel e 88
na ilha do Faial junto aos principais portos. Os navios de passageiros entre as ilhas do Faial e do Pico
representaram a densidade de tráfego marítimo mais elevada, com 4726 rotas por km2 por ano e 180
rotas km2 por ano para São Miguel. Estes quatro anos correspondem a 167 avistamentos de cachalotes
registados para ambas as regiões. De uma forma geral, as áreas que aparentam ser mais preocupantes
relativamente à sobreposição entre avistamentos e tráfego marítimo são, para o Grupo Central, a área
entre as ilhas do Faial, Pico e São Jorge, e para o Grupo Oriental, a área a sul de São Miguel. Apesar
de não existirem registos de colisões de embarcações com cachalotes disponíveis para a região dos
Açores, foram feitas recomendações de medidas de mitigação para os possíveis impactos desta ameaça.
São recomendadas medidas de conservação, incluindo observadores a bordo dos ferries, limites de
velocidade nas zonas de avistamento de baleias e canais de comunicação entre embarcações e vigias
em terra.
Além disso, este estudo acresce informação valiosa relativamente à distribuição e presença de crias de
cachalotes na região que poderá ser importante para estabelecer futuras áreas marinhas protegidas,
complementando a Rede de Áreas Marinhas Protegidas dos Açores, de forma a salvaguardar habitats
críticos, como áreas de maternidade e reprodução, onde os cachalotes são maioritariamente avistados
com crias. Esta abordagem centraria os esforços de conservação na proteção das populações
vulneráveis durante os períodos críticos do seu ciclo de vida. Estes resultados podem também ajudar
a delinear planos de gestão adequados e uma linha de base para estudos futuros, contabilizando a
distribuição das crias de cachalote nos Açores. É, no entanto, essencial uma investigação e
monitorização contínuas para avaliar a eficácia das medidas de conservação, além de adaptar e
melhorar estratégias conforme necessário.
Data from multi-year records of sperm whales around São Miguel, Faial and Pico islands, reveal that sperm whale groups are present year-round calving in the Azores. Data from 2009 to 2022 were collected from the Naturalist company database and the MONICET platform, focusing on Terra Azul company sightings. To evaluate habitat use we used both datasets, carrying out a Kruskal-Wallis analysis in RStudio revealing that depth is a significant factor influencing sperm whale habitat, with a preference for depths of 800-1100m. There was a notable presence of calves in the groups found in the Azores, with 55.2% of Central Group sightings and 22.5% of São Miguel Island sightings. Sperm whale births are regularly reported in the late spring and summer months, with August being the month with more births recorded. Sperm whale habitats overlap with maritime traffic areas, particularly the ferry lines connecting Faial, Pico and São Jorge, for the Central Group and the area south of São Miguel for the Eastern Group due to the location of the main harbours. Conservation measures are recommended, including onboard observers for ferries, speed limits in whale sighting areas and communication channels between vessels and onshore lookouts. Additionally, the data adds further conservation value to safeguard critical habitats, such as areas where sperm whales gather for breeding and calving. This approach would focus conservation efforts on protecting vulnerable populations during critical life cycle periods.
Data from multi-year records of sperm whales around São Miguel, Faial and Pico islands, reveal that sperm whale groups are present year-round calving in the Azores. Data from 2009 to 2022 were collected from the Naturalist company database and the MONICET platform, focusing on Terra Azul company sightings. To evaluate habitat use we used both datasets, carrying out a Kruskal-Wallis analysis in RStudio revealing that depth is a significant factor influencing sperm whale habitat, with a preference for depths of 800-1100m. There was a notable presence of calves in the groups found in the Azores, with 55.2% of Central Group sightings and 22.5% of São Miguel Island sightings. Sperm whale births are regularly reported in the late spring and summer months, with August being the month with more births recorded. Sperm whale habitats overlap with maritime traffic areas, particularly the ferry lines connecting Faial, Pico and São Jorge, for the Central Group and the area south of São Miguel for the Eastern Group due to the location of the main harbours. Conservation measures are recommended, including onboard observers for ferries, speed limits in whale sighting areas and communication channels between vessels and onshore lookouts. Additionally, the data adds further conservation value to safeguard critical habitats, such as areas where sperm whales gather for breeding and calving. This approach would focus conservation efforts on protecting vulnerable populations during critical life cycle periods.
Descrição
Tese de Mestrado, Ecologia Marinha, 2024, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências
Palavras-chave
Açores Cachalotes Crias Colisões com embarcações Conservação Teses de mestrado - 2024
