| Nome: | Descrição: | Tamanho: | Formato: | |
|---|---|---|---|---|
| 1.38 MB | Adobe PDF |
Autores
Resumo(s)
Existe uma grande disparidade na riqueza específica entre os vários grupos animais. A maioria das espécies encontra-se distribuída por um número reduzido de ordens, famílias e géneros, tendo a maior parte dos grupos taxonómicos poucas espécies extantes. A idade dos clados (ou grupos monofiléticos) é uma explicação clássica deste fenómeno, através da hipótese de que clados mais antigos terão tido mais tempo para sofrer processos de especiação e, por conseguinte, que o número de espécies nesses clados seja maior. Contudo, esta hipótese ignora ou minimiza o papel da extinção, que reduz o número de espécies, e que terá tido mais oportunidades de ocorrência em clados mais antigos. O número de espécies extantes resulta, portanto do balanço entre especiação e extinção, normalmente designada por taxa de diversificação, que naturalmente pode não ser constante no tempo. Vários trabalhos têm procurado explicar a assimetria e heterogeneidade na riqueza específica entre diferentes clados recorrendo a diversas abordagens, mas frequentemente estudando a relação entre riqueza específica e um pequeno número de variáveis. Não existe ainda um consenso claro sobre as variáveis mais importantes na determinação da riqueza específica dos clados, pois são conhecidos exemplos contraditórios para várias hipóteses, sendo o mais provável que uma multiplicidade de factores esteja envolvida em simultâneo. Neste estudo investigámos o efeito e a importância relativa de variáveis que podem afectar a taxa de diversificação e, consequentemente, o número de espécies de mamíferos em grupos taxonómicos supraespecíficos. A classe dos mamíferos é ideal para um estudo desta natureza porque a sua história evolutiva é bastante bem conhecida, existe bastante informação para espécies de mamíferos, e o número de espécies é elevado o suficiente para permitir inferir padrões globais, mas sem ser tão numeroso que torne excessivamente complexo e difícil o manuseamento dos dados. Ao contrário da maioria da literatura sobre o assunto, procurámos realizar uma análise abrangente e assim incluímos três grupos de variáveis que podem influenciar a riqueza específica de mamíferos. Obtivemos os dados a partir de várias bases de dados disponíveis online, para um total final em análise de 4154 espécies de mamíferos (pertencentes a 1096 géneros, 127 famílias e 27 ordens) filtradas de um total de 5156 espécies existentes disponíveis na base de dados de referência, PanTHERIA. Para além da idade de cada clado, incluímos:
- Variáveis biogeográficas: tamanho da área de distribuição e a sua variação, latitude e longitude;
- Características biológicas e da história de vida: número de indivíduos por ninhada, tempo de geração, e massa corporal dos adultos, assim como o coeficiente de variação de cada um;
- Variáveis ecológicas: diversidade de níveis tróficos, diversidade de dieta, diversidade de actividade, e diversidade de estratégias de forrageamento, representadas pelo índice de Shannon de cada categoria em cada nível taxonómico.
Recorremos então a um modelo linear generalizado. Utilizando uma abordagem de inferência multimodelo obtivemos as variáveis mais importantes de cada grupo, a incluir num modelo final com variáveis de todos os grupos. Por fim, calculámos da mesma forma a importância relativa de cada um dos factores incluídos no modelo final. Para verificar se o efeito de cada um destes grupos de variáveis é consistente independentemente do nível taxonómico a que é feita a análise, o processo foi realizado ao nível do género, família e ordem, utilizando sempre que necessário a média de uma dada variável por grupo taxonómico, ou o índice de diversidade de Shannon no caso das variáveis ecológicas. As variáveis biogeográficas constituem o grupo de variáveis mais importante que identificámos a qualquer um dos níveis taxonómicos. A latitude, o tamanho da área de distribuição e o seu coeficiente de variação apresentam valores altos de importância. Ao nível da ordem, apesar de apenas a latitude surgir no topo da importância, o seu índice é mais baixo e nenhuma variável é identificada como estatisticamente significativa. Isto sugere que o seu efeito será real a qualquer um dos níveis, mas que o aumento da variância associado ao nível da ordem pode tornar o sinal mais difícil de obter. O tamanho da área de distribuição está negativamente relacionado com a diversidade, o que indica que terá um efeito negativo na taxa de especiação ou positivo na taxa de extinção, apesar desta segunda hipótese nos parecer menos provável. Por sua vez, verificámos que a variabilidade do tamanho da área de distribuição está positivamente associada à diversidade. Propomos que estas observações se devam ao facto de que espécies com menores áreas de distribuição poderão permitir a persistência de um maior número de espécies numa dada área geográfica, e a uma elevada importância da especiação alopátrica. O facto de grandes áreas de distribuição poderem conferir maior resistência à extinção, pode não compensar o seu potencial impacto negativo na especiação. As características da história de vida estudadas aparentam ter uma influência muito pequena na riqueza específica. A variação da massa corporal aparenta ter um efeito, especialmente aos níveis da família e ordem. No entanto, a massa corporal está correlacionada com várias outras características intrínsecas das espécies que podem afectar a especiação e a extinção. Um resultado interessante, por ser contrário a resultados descritos em trabalhos anteriores em mamíferos, é o tempo de geração aparentemente contribuir mais para a diversidade de mamíferos do que o número de crias por ninhada. Estas características são altamente variáveis entre grupos taxonómicos e as diferentes importâncias relativas entre estudos podem ser devidas a diferenças nos taxa estudados. Será talvez devido a estas diferenças que obtivemos resultados diferentes relativamente a outros estudos. Contudo, tendo em conta a muito maior escala a que este trabalho foi efectuado, concluímos que, a nível global, o tempo de geração é a variável estudada da história de vida que mais impacto tem na diversidade de mamíferos. Dos três grupos de variáveis, o das variáveis ecológicas foi o menos importante. A única variável ecológica a apresentar alguma importância foi a diversidade do nível trófico ao nível do género. Noutros trabalhos, foi encontrada uma relação entre o nível trófico e a especiação em mamíferos, tendo-se verificado que as espécies herbívoras têm em geral uma maior taxa de especiação, e as omnívoras uma menor taxa de especiação. Sugerimos que a importância da diversidade trófica que verificámos no estudo possa ser o resultado de duas causas. Por um lado, a diversidade de nível trófico contribui para a redução de extinções causadas por grandes alterações abióticas e bióticas que afectem a disponibilidade de recursos em diferentes níveis tróficos. Por outro lado, a diversidade de nível trófico tenderá a diminuir a competição entre espécies do mesmo género, o que por sua vez deverá ter um impacto negativo nas taxas de extinção e positivo nas taxas de especiação. Os nossos resultados confirmam, tal como anteriormente concluído por vários autores, que a idade dos clados não é um factor explicativo da sua riqueza específica. A taxa de diversificação não será, portanto, constante no tempo para os diversos clados de mamíferos. Neste estudo desenvolvemos uma abordagem o mais abrangente e exaustiva possível para tentar identificar variáveis importantes na determinação da riqueza especifica de taxa a diferentes níveis hierárquicos dentro de grandes grupos taxonómicos. Identificámos uma elevada importância de variáveis biogeográficas, que se sobrepõe a todas as outras variáveis em qualquer dos níveis taxonómicos que analisámos, na riqueza específica em mamíferos. O nosso trabalho sugere que, apesar da importância de certos factores variar entre clados, a importância da biogeografia é dominante globalmente.
Extant mammalian clades have very different degrees of species richness, as some groups contain a very large number of species while others are represented by only one. The causes for this asymmetry remain undetermined. We gathered data for 14 variables classified in three groups: biogeography, ecology, and life-history. We also included clade age as an additional variable, to test the hypothesis that older clades, having had more time to diversify, contain more species. By using several online databases, we were able to include 4514 mammal species belonging to 1096 genera, 127 families, and 27 orders, making this, to our knowledge, the most comprehensive study on the drivers of mammalian species richness. Our analysis, which consisted in a generalized linear model, was conducted at three taxonomic levels: genus, family, and order. This allowed us to verify if the effect of a given variable is consistent regardless of the taxonomic hierarchical level. Our results suggest that clade age is not related to species richness regardless of the taxonomic level of analysis. We found that biogeography, namely, geographic range size and latitude were the most important variables, but with different effects. We found geographic range size to have a negative relationship with mammalian species richness, while latitude has a positive relationship. The intragroup variability of adult body mass was also important in some cases, although this might be due to the correlation of body mass with other variables. Generation length appears more important than litter size, but its weak signal makes drawing conclusions difficult. Ecological variables were the least important ones, with the sole exception of trophic level diversity at the genus level. However, it is possible that the ecological variables used did not capture well the most important ecological factors influencing clade species richness. Overall, our study points the major role of biogeography at influencing diversification rate in mammals.
Extant mammalian clades have very different degrees of species richness, as some groups contain a very large number of species while others are represented by only one. The causes for this asymmetry remain undetermined. We gathered data for 14 variables classified in three groups: biogeography, ecology, and life-history. We also included clade age as an additional variable, to test the hypothesis that older clades, having had more time to diversify, contain more species. By using several online databases, we were able to include 4514 mammal species belonging to 1096 genera, 127 families, and 27 orders, making this, to our knowledge, the most comprehensive study on the drivers of mammalian species richness. Our analysis, which consisted in a generalized linear model, was conducted at three taxonomic levels: genus, family, and order. This allowed us to verify if the effect of a given variable is consistent regardless of the taxonomic hierarchical level. Our results suggest that clade age is not related to species richness regardless of the taxonomic level of analysis. We found that biogeography, namely, geographic range size and latitude were the most important variables, but with different effects. We found geographic range size to have a negative relationship with mammalian species richness, while latitude has a positive relationship. The intragroup variability of adult body mass was also important in some cases, although this might be due to the correlation of body mass with other variables. Generation length appears more important than litter size, but its weak signal makes drawing conclusions difficult. Ecological variables were the least important ones, with the sole exception of trophic level diversity at the genus level. However, it is possible that the ecological variables used did not capture well the most important ecological factors influencing clade species richness. Overall, our study points the major role of biogeography at influencing diversification rate in mammals.
Descrição
Tese de mestrado em Biologia Evolutiva e do Desenvolvimento, apresentada à Universidade de Lisboa, através da Faculdade de Ciências, 2016
Palavras-chave
Riqueza específica Idade de clados Histórias de vida Ecologia Biogeografia Teses de mestrado - 2016
