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Orientador(es)
Resumo(s)
O toirão (Mustela putorius) é um membro da Família Mustelidae da Ordem Carnivora. Esta espécie
apresenta uma distribuição que ocupa quase todo o continente europeu, desde a Península Ibérica até
Montes Urais e desde o sul da Suécia até ao Mar Mediterrâneo e Mar Negro. A União Internacional para
a Conservação da Natureza atribuiu a esta espécie o estatuto de Ameaça de Pouco Preocupante na sua
distribuição europeia, enquanto em Portugal há indícios de que existe uma tendência de declínio
populacional do toirão, tendo sido recentemente classificado como Em Perigo no Livro Vermelho dos
Mamíferos de Portugal.
Os estudos sobre a distribuição potencial das espécies e os fatores ambientais que influenciam a sua
ocorrência são cruciais para a definição de estratégias para a conservação de espécies e comunidades
ameaçadas. Apesar de haver alguma informação relativamente às necessidades ecológicas do toirão em
Portugal, estas vêm principalmente de dois estudos. Assim, e devido à existência limitada de dados
obtidos em estudos realizados no país, as necessidades ecológicas do toirão em Portugal são geralmente
desconhecidas.
O objetivo deste estudo foi investigar quais as variáveis ambientais que influenciama presença do toirão
em Portugal à escala nacional avaliando as correlações entre variáveis ambientais e a presença da
espécie. Para tal, foi utilizado um sistema de informação geográfica juntamente com o software MaxEnt,
combinando dados de ocorrência de toirão adquiridos previamente e variáveis ambientais relevantes
obtidas a partir de uma revisão da literatura científica, como a topografia, o uso do solo e a perturbação
humana. A área geográfica deste estudo foi Portugal Continental. Os dados de presença do toirão foram
reunidos a partir de três fontes distintas obtendo-se um total de 76 pontos de ocorrência em Portugal
continental entre 2012 e 2021. Foram selecionadas oito variáveis com base em dados anteriores sobre
as preferências de habitat do toirão na sua distribuição europeia e em Portugal e agrupadas em três
categorias: topografia (altitude); usos do solo (agricultura, floresta, pastagens, montados, matagais,
extensão de rio); e perturbação humana (densidade populacional humana). As variáveis foram
delimitadas numa grelha de 1 km2 utilizando o software ArcMap versão 10.8.1. A rede rodoviária e as
áreas urbanas foram intencionalmente excluídas desta análise devido ao viés nas ocorrências do toirão,
que foram adquiridas predominantemente através de atropelamentos e avistamentos oportunistas.
Para a avaliação da capacidade preditiva do modelo de toirão foram utilizados 90% dos pontos utilizados
para produção do modelo (n=69) e 10% para testá-lo (n=7). Para a avaliação das variáveis e mapeamento
do modelo utilizou-se todo o conjunto de pontos (n=76). Esses modelos foram executados usando as
definições padrão de MaxEnt. O mapa de adequação de habitat foi feito no formato Cloglog fornecido
pelo MaxEnt. Utilizando as ferramentas presentes no software MaxEnt, também foram realizados um
teste jackknife e uma contribuição percentual das variáveis ambientais para determinar a contribuição
de cada variável ambiental para o modelo de adequação do habitat. As curvas de resposta que
representaram a relação de cada variável ambiental com os dados de ocorrência de toirão foram
calculadas usando as opções presentes no software. O desempenho do modelo foi avaliado através do
Area Under the Curve (AUC). Valores de AUC acima de 0.7 foram considerados como indicando uma
boa capacidade de um modelo para prever com precisão a distribuição dos dados.
O modelo com 90% de pontos de ocorrência utilizados para fazer o modelo obteve um AUC=0.757,
enquanto o modelo que usou 10% de pontos para teste produziu um AUC=0.629. O modelo que utilizou
100% de pontos de ocorrência de toirão produziu bons resultados com um AUC=0.754. A altitude foi a variável que mais explicou a adequação do habitat do toirão em Portugal, contribuindo
com 29.7% para a explicação geral do modelo. A altitude está negativamente correlacionada com a
presença de toirão; a probabilidade de presença de toirão reduz-se com o aumento da altitude, até menos
de 10% a uma altitude de 1.000 metros. Os matagais foram a segunda variável mais importante,
contribuindo com 25,8% para a explicação do modelo. A probabilidade de presença de toirão foi de
pouco mais de um máximo de 45% a um mínimo de 41% consoante a redução da cobertura de matagal.
Assim, embora tenha ocorrido uma ligeira redução na adequação do habitat do toirão à medida que a
cobertura arbustiva aumentou, o toirão não foi em geral afetado por alterações nesta variável. A floresta
foi a terceira variável mais importante, contribuindo com 14,5% para a explicação do modelo. A
probabilidade de presença de toirão parece diminuir com a cobertura florestal, de 80% de presença de
toirão com 0% de cobertura florestal para pouco menos de 20% com 100% de cobertura florestal. No
entanto, irregularidades no gráfico impedem que haja uma conclusão clara da importância ecológica da
floresta na presença do toirão.
Os resultados do teste de jackknife mostram que também a altitude, os matagais e a floresta são as
variáveis que mais contribuem para explicar a adequação do habitat do toirão. Os matagais e em
particular a altitude são variáveis que fornecem a informação mais exclusiva ao modelo. No entanto, ao
contrário do que seria de esperar tendo em conta as percentagens de contribuição, os resultados do
jackknife indicam que as pastagens e os montados são, depois da floresta, as variáveis ambientais que
mais contribuem para explicar o habitat do toirão, apesar da sua pequena contribuição no modelo. O
mapa de adequação do habitat do toirão em Portugal continental indicou que o toirão tem maior
probabilidade de ocorrer nas regiões costeiras e na região sul do país. Estas áreas correspondem às
regiões do país que apresentam menor altitude e a região sul corresponde à região do país com mais
montado. Os resultados deste estudo demonstram a importância da altitude e de uma paisagem em
mosaico com pouca floresta na presença do toirão. A diminuição da presença do toirão a altitude elevada
pode ocorrer porque estas altitudes apresentam pouca vegetação propícia ao toirão, pois estudos
anteriores demonstraram que áreas de menor altitude providenciam habitats de melhor qualidade para
esta espécie, como os matagais. Nesses estudos as áreas que apresentam mais vegetação junto do solo
são um habitat escolhido preferencialmente pelo toirão, pois não só permitem deslocar-se no seu habitat,
como providenciam também uma fonte de alimento. Juntamente com providenciar sub-coberto vegetal,
outros estudos também indicam que existe maior presença de toirão em áreas de baixa altitude pois estas
estão associadas ao habitat preferencial da principal presa do toirão em Portugal, o coelho. Nesses
estudos o coelho está associado a áreas de pastagens a baixa altitude, algo que os resultados deste estudo
também sugerem em relação ao toirão. Áreas de floresta fechada, com uma copa densa que não permite
a entrada de luz solar, são assim áreas que parecem ser evitadas pelo toirão por não providenciarem a
vegetação rasteira que este usa para se deslocar e onde as suas presas habitam. Habitats de floresta mais
aberta, como o montado, parecem estar positivamente associados à presença de toirão. Este tipo de
habitat já foi indicado num estudo anterior realizado nas regiões sul de Portugal como um habitat
preferencialmente escolhido pelo toirão. O número reduzido de localizações de toirão e a ausência de
algumas variáveis como áreas ripícolas e densidades populacionais de presas como o coelho podem ter
limitado a qualidade destes modelos de adequabilidade de habitat. Este trabalho reforça a necessidade
da realização de mais esforços na recolha de dados sobre a presença e ecologia do toirão em Portugal
continental. Dados de maior qualidade poderiam ser usados para providenciar às entidades as
ferramentas necessárias para tomar melhores decisões de conservação para esta espécie ameaçada.
The polecat (Mustela putorius) is a carnivore from the Mustelidae Family. Although it has a conservation status of Least Concern in its Mediterranean distribution according to the IUCN, there is a very reduced amount of data regarding its presence in the Mediterranean countries. The few studies on habitat preferences revealed that polecat occurs mostly in riparian habitats, grasslands, open forests, shrubland and marshes. In Portugal, the polecat is currently Endangered, and to determine the drivers of its occurrence it’s crucial to define guidelines for future conservation actions. The main goal of this study was to determine polecat habitat suitability in the Portuguese mainland using correlations between polecat occurrence data and environmental variables. To achieve this, we used eight environmental variables on a national scale along with occurrence data using maximum entropy models run byMaxEnt. The results indicated that altitude, shrubland and forests were the main environmental factors influencing polecat occurrence likelihood in Portugal. Grassland and oak woodlands are possibly important environmental factors explaining polecat presence according to the jackknife test. In line with other studies, higher polecat presence might be related with lower altitude and grasslands which are the habitat of its main prey, the European rabbit. Closed forests seemed to be negatively correlated with polecat presence, confirming previous studies that showed a preference for more open forests such as oak woodlands.These results were unclear, however, and more studies regarding this correlation are required. This work reinforces the need for more information regarding polecat presences and more detailed information on some environmental variables in Portugal to better define conservation strategies on this endangered species and management guidelines for its preferred habitat.
The polecat (Mustela putorius) is a carnivore from the Mustelidae Family. Although it has a conservation status of Least Concern in its Mediterranean distribution according to the IUCN, there is a very reduced amount of data regarding its presence in the Mediterranean countries. The few studies on habitat preferences revealed that polecat occurs mostly in riparian habitats, grasslands, open forests, shrubland and marshes. In Portugal, the polecat is currently Endangered, and to determine the drivers of its occurrence it’s crucial to define guidelines for future conservation actions. The main goal of this study was to determine polecat habitat suitability in the Portuguese mainland using correlations between polecat occurrence data and environmental variables. To achieve this, we used eight environmental variables on a national scale along with occurrence data using maximum entropy models run byMaxEnt. The results indicated that altitude, shrubland and forests were the main environmental factors influencing polecat occurrence likelihood in Portugal. Grassland and oak woodlands are possibly important environmental factors explaining polecat presence according to the jackknife test. In line with other studies, higher polecat presence might be related with lower altitude and grasslands which are the habitat of its main prey, the European rabbit. Closed forests seemed to be negatively correlated with polecat presence, confirming previous studies that showed a preference for more open forests such as oak woodlands.These results were unclear, however, and more studies regarding this correlation are required. This work reinforces the need for more information regarding polecat presences and more detailed information on some environmental variables in Portugal to better define conservation strategies on this endangered species and management guidelines for its preferred habitat.
Descrição
Tese de Mestrado, Biologia da Conservação, 2024, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências
Palavras-chave
Toirão MaxEnt Índices de Adequabilidade de Habitat Conservação de carnívoros Portugal Teses de mestrado - 2024
