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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
Ao longo dos anos e do mundo tem sido observado um decréscimo dos valores de
biodiversidade, particularmente, da vida selvagem. Estes decréscimos têm sido associados à presença
de atividades de origem humana, como a fragmentação de habitat e a desflorestação, especialmente no
continente africano. Uma das ferramentas frequentemente usadas para preservar os valores naturais
africanos é a criação de áreas protegidas. Um bom exemplo é o Parque Nacional da Gorongosa (PNG),
em Moçambique, cujo principal objetivo é proteger a fauna e a flora de quaisquer ameaças. O Projeto
de Recuperação da Gorongosa (PRG), iniciado em 2007 é um grande exemplo deste tipo de ações.
Durante a Guerra Civil Moçambicana, estima-se que cerca de 90% dos grandes carnívoros da região
foram eliminados, com os leões e os elefantes a chegarem à beira da extinção, e as de hiena-malhada e
de chita a serem extintas. O PRG visou reestabelecer, em primeiro lugar, as populações de herbívoros
para, posteriormente, reintroduzir os grandes carnívoros. Os declínios nos predadores de topo das
cadeias tróficas causaram instabilidade nas mesmas, originando uma expansão populacional dos grupos
de níveis tróficos inferiores, como os mesocarnívoros. Funcionalmente, este grupo é considerado um
grande predador de espécies mais pequenas, como roedores, contribuindo para a estabilização das
cadeias tróficas e, consequentemente, para a manutenção da biodiversidade nestas comunidades. Tendo
em conta este papel funcional e a guerra civil no PNG, estima-se que tenha ocorrido uma proliferação descontrolada de mesopredadores (mesmo não havendo dados que comprovem), de acordo com a
hipótese “mesopredator release”, em inglês, uma vez que os predadores de topo foram praticamente
eliminados. Este aumento das espécies predadoras inferiores acaba por causar instabilidade no
ecossistema, afetando a estruturação das comunidades e do habitat, criando cascatas tróficas. As
interações entre grandes predadores e mesopredadores são denominadas de interações intraguilda (uma
guilda é um conjunto de espécies que exploram os mesmos recursos ecológicos) e englobam:
competição (não letal, de forma direta) e morte (onde os grandes predadores matam os inferiores para
não haver competição direta por recursos) intraguilda. Quando se sentem ameaçados, os
mesopredadores alteram os seus padrões ecológicos e comportamentais, podendo mesmo modificar o
uso do habitat, para minimizar o risco de encontro com espécies que os possam ameaçar. Uma vez que
África é um continente onde ocorreram grandes declínios de populações de carnívoros, diversas ações
de reintrodução têm sido implementadas. Aquando destas reintroduções, os mesocarnívoros dessa área
são confrontados com uma nova ameaça para a qual podem não ter respostas antipredatórias adequadas.
Encontros com novos predadores podem ser perigosos, podendo originar uma reação imediata (resposta
reativa) que, posteriormente, se transforma em medo. Aferir qual a resposta dos mesocarnivoros à
presença de potenciais competidores/predadores é importante para avaliar o impacto dos programas de
reintrodução nas comunidades pré-existentes. Os avanços tecnológicos recentes tornaram essa avaliação
mais expedita. Recentemente foi desenvolvido um sistema, incorporado nas câmaras de armadilhagem
fotográfica comuns - o Sistema de Resposta Comportamental Automática (ABRS) - que permite emitir
um som aquando da ativação da câmara, captando as respostas reativas dos mesocarnivoros aos sons
emitidos de uma lista pré-definida, que inclui sons controlo (não predadores) e sons a testar (os grandes
carnívoros africanos, o leão, hiena, chita, leopardo e mabeco). O objetivo geral deste estudo é avaliar o
padrão de comportamentos que os mesocarnivoros evidenciam na presença de uma pista de um predador
de topo, utilizando a comunidade de carnívoros do PNG como modelo. No âmbito deste objetivo, quatro
hipóteses teóricas foram formuladas: os mesocarnívoros reagem mais rápido (1) e com mais medo (2) a
sons de carnívoros do que aos de controlo; os mesocarnívoros são ingénuos relativamente aos sons de
grandes carnívoros ausentes no PNG e não apresentam comportamentos de medo (3), e; os
comportamentos de medo serão menores em habitats estruturalmente mais fechados (4). Para testar estas
hipóteses, instalámos 30 câmaras de armadilhagem fotográfica com ABRS (simplificadamente
chamadas de Boomboxs), distanciadas entre si de 2kmaté mais de 10km. Com os 140 vídeos obtidos e,
com base nos padrões comportamentais, foi construído um etograma dos comportamentos individuais,
bem como a sua descrição. Os vídeos foram analisados com recurso a um programa especializado em
análise de vídeos de comportamento animal – Solomon Coder - que permitiu, com maior exatidão,
determinar a distribuição temporal e a duração de cada comportamento. Através da análise, foi possível
constatar que o mesmo padrão de comportamentos poderia refletir-se em sentimentos diferentes, tendo
em conta o tempo passado em cada comportamento individual. Por exemplo, um animal parado em
frente à câmara por muitos segundos geralmente demonstra medo enquanto se outro animal ficar parado
poucos segundos e aproximar-se da câmara pode indicar curiosidade. Por fim, com base nos períodos
passados em cada comportamento individual, foram determinados que padrões de comportamento iriam
corresponder às três classes comportamentais pré-definidas em análise: Medo, Curiosidade e
Indiferença. Em relação ao tempo de reação do medo, os mesocarnívoros exibem aproximadamente o
mesmo para todos os sons (controlo e predadores), sugerindo que apenas reagem ao elemento surpresa
e não ao som em questão. O padrão foi corroborado pelos resultados do GLM (Modelo Linear
Generalizado) construído para aferir a influência do tipo de som no tempo de reação do comportamento
de medo. Por outro lado, os mesocarnívoros exibiram mais medo a sons de predadores que aos de
controlo, embora tenham sido detetadas mais respostas de indiferença do que esperado. O modelo de
regressão multinominal que foi realizado para testar se os comportamentos de medo eram maiores com
sons de predadores não detetou nenhuma influência estatisticamente significativa. Os mesomamíferos do PNG também não evidenciaram nenhuma resposta diferenciada entre sons dos grandes predadores
ausentes do Parque devido à guerra (chita, hiena e leopardo), e aqueles que persistem na área (leão e
mabeco). Os modelos GLM criados para testar esta hipótese não identificaram uma influência
significativa da familiaridade com o grande predador na frequência do comportamento de medo.
Analisando apenas os resultados de medo, verificámos que nenhum mesocarnívoro demonstrou reações
de medo ao som da chita. Este facto pode indicar alguma ingenuidade dos mesocarnívoros no caso de
encontro imediato com este predador. Em contrapartida, mostram mais frequentemente medo a sons de
leopardo do que os predadores residentes, o que pode significar que este felídeo pode ainda estar
presente no Parque, apesar de haver uma ausência de informação que o comprove ou foi localmente
extinto recentemente e os mesocarnívoros ainda têm registo da sua presença. Em relação à hiena, os
mesocarnívoros evidenciam uma maior frequência de medo do que quando sujeitos a sons de mabeco,
mas menor quando o estímulo é associado ao leão. Estes resultados evidenciam que, apesar da hiena
estar ausente do parque nas últimas décadas, é um predador cujo efeito pode-se manter na comunidade
de mesocarnívoros. Não detetámos nenhuma relação entre os comportamentos e o tipo de habitat, uma
vez que nenhum dos modelos multinomiais criados produziu melhor resultados que o modelo nulo (97%
de probabilidade). Este padrão de ausência de influência do tipo de vegetação nos comportamentos
exibidos talvez esteja associado ao facto de, para os mamíferos, o sentido da visão é menos importante
durante a noite, altura em que muitas destas espécies se encontram ativas. Neste período a maior parte
dos mamíferos utiliza com maior frequência a audição e o olfato como mecanismos de obter informação
sobre o meio ambiente. No entanto, o facto da classificação vegetativa não ter sido determinada
rigorosamente pode afetar ter afetado os resultados. Assim, com estes resultados preliminares, pode-se
evidenciar a importância de compreender o efeito comportamental dos grandes carnívoros residentes
em espécies inferiores, bem como daqueles cuja extinção local ocorreu num passado próximo, e que
podem vir a ser alvo de reintroduções locais. Este conhecimento dos padrões comportamentais permite
prever os possíveis impactos indiretos das ações de reintrodução e perceber os mecanismos que
garantem a estabilidade das redes ecológicas e, portanto, a conservação das comunidades de predadores
ecologicamente funcionais.
Ecological interactions between apex and mesopredators can menace mesopredators’ survival, mostly through intraguild competition or interspecific killing. When mesopredators detect these threats, they may react with fear and ended up changing their behaviours or habitat use patterns. Since fear is known to play a role in structuring ecological communities, understanding how mesocarnivores behave in predators’ presence may be key to balancing/managing trophic chain instabilities. This is especially important in areas where apex carnivores have been absent for large periods and where mesocarnivores are facing new challenges due to community restoration projects – e.g., the apex predators return. Automatic Behavioural Response System (ABRS) was used to investigate antipredator behavioural responses of mesocarnivores to large carnivore sound stimuli. Thirty ABRS were deployed in Gorongosa National Park (Mozambique), using control (non-carnivore) and treatment (large carnivore) sounds. We analyzed 140 videos, where all behaviours, time since stimuli and duration were registered. Three emotional states were considered: fearful, inquisitive, and indifferent. We tested whether mesopredators: i) react more fearfully and quickly to apex predator cues; ii) are naïve to predators that have been locally extinct; or iii) decrease the fear reactions in closed habitats. The results show that: i) mesopredators show a similar reaction time to all sounds and a tendency to react more fearfully to predator sounds (except cheetah), although reacting more indifferently than expected; ii) mesocarnivores show naivite when facing cheetah signs (since no fear were registered with cheetah cues); and iii) habitats do not influence their reactions. Although preliminary, these results suggest that mesocarnivores evidence fearful behaviours toward larger predators but may be naïve to cheetahs. Such results highlight the importance to understand the behavioural effect of releasing locally extinct large carnivores on lower trophic level species, to guarantee that hidden effects cannot jeopardize ecological network stability, and therefore, conservation.
Ecological interactions between apex and mesopredators can menace mesopredators’ survival, mostly through intraguild competition or interspecific killing. When mesopredators detect these threats, they may react with fear and ended up changing their behaviours or habitat use patterns. Since fear is known to play a role in structuring ecological communities, understanding how mesocarnivores behave in predators’ presence may be key to balancing/managing trophic chain instabilities. This is especially important in areas where apex carnivores have been absent for large periods and where mesocarnivores are facing new challenges due to community restoration projects – e.g., the apex predators return. Automatic Behavioural Response System (ABRS) was used to investigate antipredator behavioural responses of mesocarnivores to large carnivore sound stimuli. Thirty ABRS were deployed in Gorongosa National Park (Mozambique), using control (non-carnivore) and treatment (large carnivore) sounds. We analyzed 140 videos, where all behaviours, time since stimuli and duration were registered. Three emotional states were considered: fearful, inquisitive, and indifferent. We tested whether mesopredators: i) react more fearfully and quickly to apex predator cues; ii) are naïve to predators that have been locally extinct; or iii) decrease the fear reactions in closed habitats. The results show that: i) mesopredators show a similar reaction time to all sounds and a tendency to react more fearfully to predator sounds (except cheetah), although reacting more indifferently than expected; ii) mesocarnivores show naivite when facing cheetah signs (since no fear were registered with cheetah cues); and iii) habitats do not influence their reactions. Although preliminary, these results suggest that mesocarnivores evidence fearful behaviours toward larger predators but may be naïve to cheetahs. Such results highlight the importance to understand the behavioural effect of releasing locally extinct large carnivores on lower trophic level species, to guarantee that hidden effects cannot jeopardize ecological network stability, and therefore, conservation.
Descrição
Tese de Mestrado, Biologia da Conservação , 2023, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências
Palavras-chave
Etologia Medo Interações tróficas Competição Moçambique Teses de mestrado - 2023
